Esperança, Há Sempre Um Motivo Para.
3 Chapter 03
Notas iniciais
Kise continuou normalmente com seus afazeres. Nada havia mudado consideravelmente... Aliás, apenas alguns detalhes que na verdade, faziam muita diferença. Kise sorria mais. Divertia-se mais nos treinos e empenhava-se ainda mais em melhorar. Aquele loiro realmente era único.
– Kaaaasamaatsu! — cantarolando, Moriyama sentou-se ao lado do Capitão da Kaijou no banco à beirada da quadra. Yukio acertava detalhes com o treinador que havia acabado de levantar e agora prestava atenção em seus jogadores.
Moriyama enxugou seu rosto com sua toalha e olhou de esguelha para o rapaz que nada havia dito até então. Sorriu escondido pela toalha e jogou sua cabeça para trás apoiando suas mãos no banco.
Suspirou longamente.
O Capitão desviou seu olhar por alguns segundos, mas logo voltou a analisar seus pupilos.
De canto de olho, Moriyama o encarou novamente. — Que inveja. — sussurrou para o ar.
Yukio encarou o rapaz, mas Yoshitaka já havia levantado e entrava mais uma vez na quadra com um sorriso no rosto.
Horas se passaram e no intervalo, Kise que estava sentado no chão, encostado à parede com a toalha sobre sua cabeça, respirava pesadamente. Certamente que os treinos na Teikou eram muito rígidos, mas a Kaijou não ficava muito atrás disso. Um sorriso torto desenhou-se em seus lábios. Adorava isso. Sentia-se livre. Não tinha como negar, mas ao mesmo tempo, sentia-se preso. Havia um peso a mais sobre suas costas agora... Não... Não era um peso... Era mais um ponto intensificador para sua determinação.
– Oi, Kise! — Moriyama sentou-se ao seu lado. — Que tal me apresentar àquela lindinha ali, hein? — apontou para a entrada do ginásio onde as fãs do loiro se aglomeravam.
O loiro o olhou de esguelha e riu. — Ê? Eu nem a conheç... — nem teve tempo de terminar. O estrondo violento da bola batendo contra a parede, entre eles, foi mais que o suficiente para sentirem-se como se estivessem na primeira e maior queda da montanha russa.
– Parem de enrolar e voltem para o treino de uma vez! — aquele berro tão familiar aos seus ouvidos, fez ambos rirem.
Os dias se passaram num piscar de olhos e assim, o Winter Cup também se ia. Não só Kise, mas muitos ficaram deveras surpresos com a derrota da Touou para a Seirin, entretanto, aquilo despertou muitas coisas no loiro. Ao mesmo tempo que algo dentro si, perdida e esquecida voltava a vida numa tênue e singela chama acanhada; aquele sentimento bélico que o instigava à treinos insanos, voltava também, ainda mais intenso.
Se sua inspiração, havia perdido... Significava que ele não podia bobear. Tinha que se firmar. Afinal, tinha certeza que encontraria a Seirin pelo caminho, e visto o Zone despertado no ruivo, o incitava mais ainda a melhorar. Ficou um pouco triste por Aomine nunca ter usado isso com ele, entretanto, realmente era impossível não admirar aquele fenomenal jogador e querer ainda mais chegar ao seu nível.
As chaves foram se apertando e os times diminuindo, deixando as áreas ocupadas pelos jogadores, cada vez menos movimentadas. Estavam nas quartas de finais e para seu espanto, lá estava aquela tão asquerosa figura, mais uma vez, à sua frente. Haizaki Shougo.
Aquilo tudo estava sendo ridículo. Tanto tempo sem se verem, tanto tempo treinando alucinadamente e ainda não conseguia vencê-lo? Kise não podia acreditar. Haizaki ainda era uma barreira para ele... Um – quase – complexo de sua época da Teikou. Havia sido escalado para entrar no lugar dele, quando ele foi obrigado a deixar o time da Teikou devido ao seu péssimo comportamento. Negava-se a perder a alguém como ele. Um asqueroso e sujo jogador. Perder para Aomine... Para Kagami, era admissível, afinal, eram excelentes atletas... Agora, Haizaki? Não mesmo. Entretanto, as coisas não iam bem para ele. Shougo e ele tinham técnicas semelhantes... A diferença? Enquanto Kise copiava e aperfeiçoava as jogadas, Haizaki as roubava.
Estavam no terceiro-quarto quando, desgastado psicologicamente, Kise é desperto pelo grito de Kuroko da arquibancada.
“Eu acredito em você!! Kise-kun!”
Seus olhos seguiram confusos e surpresos até o rapaz que o encarava firmemente.
Determinação...
Riu e levantou-se. Estava na hora de mostrar a diferença entre eles.
Perfect Copy, mode, hey!
Não por menos, Haizaki foi destruído. O placar foi virado e Shougo via seus ex’s companheiros de time, integrantes do Kiseki no Sedai, ali. Juntos numa só pessoa. Nem ele podia contra todos eles. Nem ele, conseguia roubar os movimentos daqueles monstros. Entretanto, sua essência maculada não poderia deixar as coisas assim. Sabendo do pé de Kise, certeiro, Haizaki pisou sem dó nele, apenas para intensificar sua dor e obviamente, prejudicá-lo.
Mesmo sem eles saberem, Daiki estava ali assistindo a disputa. O rapaz já pressentia a merda e não pôde evitar a raiva que subiu como um raio quando a falta ignorada pelo juíz foi feita, mas sabia que Kise não deixaria isso barato. Afinal, ele fazia parte da Kiseki no Sedai. E diferente de Haizaki, era um legítimo e digno jogador.
Kise interceptou a jogada de Shougo e enterrou, literalmente, o placar. Kaijou vencia por três pontos.
No vestiário, apenas Kise estava. Sentado no banco com a toalha sobre sua cabeça, escondendo seu rosto. Kasamatsu disse que cuidaria de Kise e portanto, não precisavam se preocupar quanto à isso. Tinha ido procurar alguém e mesmo o treinador, não pôde ir contra seu Capitão. Ao menos, não dessa vez. Kise estava feliz por ter conseguido superar um de seus traumas juvenis, mas ao mesmo tempo, sentia-se estranho ao imaginar que se ele próprio, tivesse pisado num lugar errado quando novo, poderia ter caído no mesmo buraco que Shougo. O loiro sabia bem que sempre fora filho da puta no sentido de provocar, mas diferente de Haizaki, Kise amava o basquete. E perdido em pensamentos, nem se deu conta da porta que se abriu e da pessoa que se aproximou.
Seus olhos viram os tênis e alguém se agachar. Levantou minimamente seus olhos e assustou-se com a figura que tocava delicado seu pé.
– A... Aominecchi...?
O rapaz nem se deu ao trabalho de responder, apenas pegou as bolsas de gelo e fechou-as com um pano, sobre o tornozelo do loiro. — Vinte minutos, quieto. — disse e o encarou severo.
Kise franziu o cenho em estranheza. Ahn?!
Aomine cruzou os braços e suspirou. — Seu imbecil! — berrou a plenos pulmões fazendo-o recuar espantado. O silêncio perdurou alguns segundos até Ryouta se recompor e Daiki respirar profundamente. Aomine sentou-se ao lado do outro no banco fazendo um estrondoso barulho. — Mas... — virou-se no banco, ficando de costas para o loiro. — Você jogou bem...
Pasmo. O loiro demorou muito, muito mesmo para processar o que seus ouvidos haviam acabado de escutar e tudo que tinha acontecido... Aomine o estava elogiando? E cuidando dele? Tipo, ahn?! Piscou várias vezes e franziu o cenho confuso. — Er... Desculpe... — sem jeito. — Bateu a cabeça? — na moral.
Uma veia enorme saltou da testa de Aomine que se virou pegando o loiro pela cabeça. — E é isso que eu ganho por me preocupar com você seu modelo de merda! — um sorriso desenhava-se assustadoramente naqueles lábios.
Kise reclamou e batendo em seu braço conseguiu fazer com que o soltasse. — Desculpe, Aominecchi... Mas é que... É que... — tentava não se mexer muito por causa de seu tornozelo, mas assim ficava difícil. Embora realmente atordoado com aquilo... Não conseguiu não se encabular. Era Aomine Daiki quem havia dito isso! Estava sem graça e levemente vermelho... Desviando rapidamente o olhar e escondendo-se em seus fios dourados.
Aomine até poderia ter se derretido com isso (?), SE não tivesse sentado novamente, de costas pra ele... De novo.
O tempo mais uma vez passava por ali até que, Kise suspirou e encostou a testa no ombro de Aomine. — Arigato’ssu. — permitiu-se sorrir.
– … Oo. — o sorriso se alargou. Sentia-se de volta ao tempo da Teikou antes de toda aquela bagunça... Antes de toda aquela merda... Sentiu o coração apertar.
– Obrigado, Aominecchi... Pode ficar tranquilo, vou me cuidar. Já vou embora, não precisa se...
– Eu vou te levar.
Hahaha. Como é que é?
– O quê?! Claro que não, Aominecchi! Você mora longe daqui, aliás, não deveria ter ido embora? Já está tarde e eu já disse que não precisa se preocupar comigo! Olhe o meu tamanho! Você acha mesmo que eu não sei me cuidar?! Eu já...
Totalmente ignorado, Daiki deitou no banco deixando a cabeça próxima da coxa de Kise e cobriu os olhos com o braço direito. — Me acorde quando der o tempo. — dormiu.
O modelo desacreditava na facilidade que aquele ser tinha para dormir. Ou ele estava muito cansado SEMPRE ou tinha algum problema. Sério. E como daquela vez permitiu-se sorrir olhando aquela figura. Realmente não sabia qual o seu problema, mas imaginava que com o tempo, ele poderia ser esquecido... Que com o tempo, seu coração não mais palpitasse aceleradamente toda vez que estivesse em sua companhia. Que em algum momento, não mais sentisse vontade de tocar aqueles lábios e senti-lo... Vinte minutos se passaram e ele nem notou. Só soube disso pelo alarme que tocou em seu celular. Ainda bem que tinha colocado aquilo, senão, sua perna ia gangrenar e ele nem se tocaria. Tirou tudo aquilo e movimentou um pouco o pé anestesiado. Cobriu tudo direitinho e... E não teve coragem de acordá-lo. Deitou-se com cuidado ao seu lado e fitava o perfil de Daiki. Suspirou minimamente. Seus olhos corriam por cada milímetro daquele rapaz. Queria realmente poder tocá-lo, mas sua sanidade ainda estava sadia... E com isso, pra variar, acabou sendo contagiado pelo momento e dormindo também, estava cansado. Física e psicologicamente cansado, depois daquele jogo...
Mais uma vez o tempo corria e devido às chacoalhadas, despertou. Olhou estranhando o lugar e principalmente, aquele rosto ao lado do seu. Pelo choque o afastou pelo ombro o fazendo se desequilibrar, mas não cair por consequência.
– OI! — berrou o outro. Aomine carregava Kise nas costas e... — Até pra acordar você é barulhento?! — irritado. Se seus reflexos não fossem rápidos, estariam os dois no chão agora.
Kise parou por um instante e começou a se remexer olhando de um lado para o outro até reconhecer o lugar... Na verdade, até receber outro grito. — KISE! — se encolheu por reflexo e assim permaneceu por não saber o que fazer. Nem havia entendido direito ainda tudo que havia acontecido...
Ele estava nas costas de Aomine, num quarteirão próximo de sua casa... Até onde se lembrava, ele estava no ginásio, no vestiário ainda... Olhou de canto sem se mexer e de fato, estava próximo a sua residência. Ok. O que está acontecendo? Aomine tinha o carregado nas costas até ali?! Tudo bem que ele era forte, mas porra! Kise tinha 1,89m! Isso não é “algo pequeno” para se carregar por aí. A vermelhidão subiu rapidamente às suas bochechas. Mas antes mesmo de qualquer outro pensamento passar por sua mente, foi solto sem o menor cuidado. Bom para ele ser atleta e saber cair, também, protegendo sua perna levemente lesionada.
Aomine virou-se para ele e franziu o cenho. — Você já acordou. Não preciso mais te carregar. — disse e rapidamente virou-se para frente fazendo movimentos circulares com os braços e ombros. — Você pesa demais... — comentou.
Kise via as costas largas se afastarem e por um instante, sentiu seu mundo ruir. Aquilo pelo qual vinha lutando tanto tempo contra, parecia se tornar ridículo. Seria impossível tirar aquele homem de dentro de si. Não importava o tempo que se passava... Aomine Daiki... Era Aomine Daiki. Aquele que o surpreendia... Aquele quem amava... Até hoje... Seus olhos se baixaram tristes e caminhou lento atrás do rapaz. Esse era um dos motivos de detestar aquele ali... Sempre tão ogro e brutamontes, mas que em certas peculiaridades, roubava seu coração ternamente. Não queria que aquele sentimento voltasse... Não queria mesmo...
Não era certo dizer que estava apaixonado por Kasamatsu. Tinha uma relação gostosa com ele e o mais velho realmente o completava de uma forma diferente. Gostava disso... Mas ainda não podia dizer que estava apaixonado... Queria e estava se esforçando muito para isso... Mas as coisas não eram tão simples assim. Não namoravam, por mais estranho que possa parecer, mas... Mas...
Chegaram ao portão de sua casa e a abriu sem pressa alguma agradecendo a gentileza, avistando um objeto de grande estima ali perto. Agachou-se e virando para Daiki... — Nee... Aominecchi...? — chamou-o baixo. Não iria colocar as coisas a perder... Não novamente... — One on one? — indagou divertido com a bola nas mãos.
Daiki o fitou com um sorriso de lado e meneou a cabeça em negação. — Depois ainda dizem que EU sou o maniaco por Basquete. — aproximou-se dele e deu-lhe um peteleco na testa. — Vá descansar. Outro dia a gente faz isso. — apenas disse e afastou-se. — Guarde suas energias para o próximo jogo. — já se afastando, acenava para ele de costas.
Será que ele não mudaria nunca? Kise o acompanhou com o olhar até ele sumir de seu campo de visão. Fitou a bola e a girou em seu dedo. Apesar dos pesares... Ele continuava a mesma coisa. Por mais tranqueira que ele parecesse, não deixava de ser Aomine Daiki. A mesma pessoa gentil, que conhecera anos atrás.
Estava feliz por ele ter deixado o breu qual se negava a sair e voltado para a luz.
“Outro dia a gente faz isso”...
Sorriu, verdadeiramente.
Ele estava de volta.
28.02.2013
Fale com o autor