A vida às vezes pode ser cruel como o mais frio dos carrascos...

Quando se sonha com algo que chamamos de futuro, não imaginamos que ele pode mudar em questão de poucos segundos... Transformando sonhos tão belos em uma grande tragédia... Um grande palco cuja cortina é tingida de vermelha, tecido pelo sangue derramado de uma pessoa inocente.

E esta é uma história de sonhos roubados por uma triste facada do destino...

Tudo começou no dia vinte e três de junho do ano de dois mil e onze. Um feriado como outro qualquer, em que eu apenas estava aproveitando para descansar da cansativa rotina de uma universitária na reta final da faculdade.

Na tarde daquele dia, fui para a casa de minhas amigas, para fazermos uma sessão pipoca. O que, para alguém como eu, literalmente viciada em filmes, seria ótimo, além de me distrair, estaria na companhia preciosa de minhas amigas queridas.

À tarde fora simplesmente maravilhosa, cinco amigas, me incluindo no meio, assistindo filmes de comédia romântica, falando besteiras e dando bastantes risadas e, combinando um domingo qualquer parar irmos ao cinema assistir a algum filme. Aquela tarde passou tão depressa que mal percebi o tempo passar, e só me dei conta de que já passava de cinco horas da tarde quando recebi uma ligação do meu irmão, avisando que já estava na porta da casa de minha amiga para me dar uma carona de carro até minha casa.

Saímos as cinco para a rua, e então eu vi o carro do meu irmão do outro lado da rua, e acenei para ele, que estava na porta do carro falando ao celular, dizendo com gestos que iria logo. Só que, eu e minhas amigas estávamos tão entretidas conversando que mal notamos o que se veio a seguir...

Ódio... Violência... Falta de Deus...

Tudo aconteceu rápido demais... Aquela pessoa surgiu em nossa frente com uma arma na mão... E o que veio a seguir mudou minha vida para sempre...

Três tiros...

Tudo que senti foi dor, como nunca antes havia sentido em minha vida, nada pode se comparar aquela dor, e antes que pudesse cair no chão senti braços me segurando, mas já não sabia de quem eram, tudo estava começando a escurecer... Ouvia gritos por todos os lados... Vozes que eu julgava conhecer e outras desconhecidas cada vez mais distantes... E, em um último esforço vi o rosto do meu irmão, que me olhava de forma desesperada, e então tudo escureceu para mim...



*****



Quando abri meus olhos novamente, encontrava-me em um lugar de paredes brancas... Olhei para os lados e reconheci toda a aparelhagem... Hospital... Minha cabeça estava uma bagunça... E então eu tentei me recordar do que havia acontecido...

Dor... Tiros... Dor...

E então tudo veio a minha mente... Mas havia algo diferente... E não demorou muito para que eu percebesse o que era... Não sentia nada da cintura para baixo... Em meus olhos, o choque do desespero... Meu rosto, pálido pelo que eu estava começando a perceber... Em meu coração, o desejo desesperado de que o que eu acabava de me dar conta não fosse real...

Comecei a gritar de forma desesperada, e não demorou para que minha mãe e meus irmãos surgissem... Não queria saber de nada... Nada mais importava... Não tinha mais minhas pernas... Não conseguia senti-las... E mais lágrimas desciam sem parar por minha face desesperada...

Gritava.

Gritava.

E gritava.

“Quero morrer” eram as únicas palavras que saiam de minha boca. Para mim, não havia mais vida... Não havia mais futuro... Não havia mais sol...

Sofri demais, tanto que palavras não seriam capazes de expressar, e sei que não sofri sozinha, pois, junto com as minhas lágrimas, também havia lágrimas de pessoas que eu amo e que nunca me abandonaram... Lágrimas de minha família...

Mas em meu momento de desespero, eu não me importava... Não conseguia enxergar... Só via escuridão... E não conseguia ver que o sol seria capaz de voltar a brilhar para mim...

Só queria morrer...

Só queria acabar com meu sofrimento...

Só queria desistir de tudo...

Pois eu havia perdido meus sonhos, meu futuro... E não era mais capaz de enxergar coisa alguma pra mim... Nada mais me importava, a não ser o fato de que eu estava condenada para o resto de minha vida...

Foram dias... Semanas... E eu não me conformava... As lágrimas... Os gritos... O desejo crescente de dar um fim a minha vida... Não havia absolutamente nada que tirasse toda dor e tristeza que se abateu sobre mim... Pois ninguém sabe o tamanho de uma cruz, a não ser que passe a carrega-la.

Só via um mundo sem luz, um mundo onde as trevas me carregavam para cada vez mais fundo... Um mundo onde não havia um sol para brilhar para mim...

Mas as tragédias também trazem as coisas boas, e conforme fui me conformando, começaram a aparecer braços para me consolar... Familiares... Amigos... E até desconhecidos... Que, pouco a pouco, me fizeram ver que o sol pode ser capaz de brilhar para qualquer pessoa, até para mim, que julgava ter perdido tudo...

Para cada lágrima derramada, palavras amigas... Para cada grito de dor e desespero, um abraço consolador...

E assim, pouco a pouco, o sol recomeçou a surgir...

É fácil fazer o sol voltar a surgir? É fácil recobrar as esperanças quando tudo parece conspirar contra você? Não... Não é...

Por muito tempo, vivi cercada pelas trevas, e não conseguia ver luz nenhuma... O mundo era uma total escuridão... E em meu coração crescia cada vez mais o desejo incontrolável de morrer...

Morrer para não ter mais que continuar a sofrer...

Pois nada no mundo parecia que valia a pena...

O que eu sentia...?

Como se eu tivesse perdido tudo... E realmente perdi... Perdi a vontade de viver... Perdi a vontade de sonhar... Perdi minhas esperanças... E perdi a vontade de lutar por um novo amanhã...

Lutar para que...? Se até aquelas pessoas que se diziam minhas amigas estavam me virando às costas, alegando que não podem ser amigas de uma pessoa aleijada...

Naquela época, tomada por minha própria escuridão... Eu não era capaz de enxergar... Via-me sozinha... Em um caminho cercado de espinhos no qual eu me sentia incapaz de trilhar...

E exatamente nesta época, eu começava a dar razão a estas pessoas que me abandonavam e me faziam chorar, afinal, nem eu mesma me aceitava...

Mas Deus tem seus próprios planos... E só Ele é capaz de mostrar que existe uma nova esperança a cada novo amanhecer...

E, para cada um falso amigo que me abandonava com palavras cruéis, surgiam dois com um sorriso no rosto pronto para me consolar...

E aos poucos, aquela pessoa que julgava ter perdido tudo ao perder o movimento das pernas, foi percebendo que nem tudo é o fim...

Quando eu achava que não havia mais esperanças... Deus me deu novas esperanças... Conforto...

E como o tempo é o melhor remédio, aquele que cura todas as feridas, ele também foi o responsável por me fazer aceitar... Aceitar que perder os movimentos das pernas não é o fim do mundo...

E, passado um desafio... Vem um segundo... Um terceiro...

O tempo passa, e com ele, complicações...

Depois que já conseguia me aceitar, tudo o que eu queria era a liberdade... Sair de uma prisão sem grades chamada hospital... Mas as complicações não deixavam... E eu era obrigada a ver o tempo passar através de uma janela de CTI... Ver o mundo só de uma janela... O sol, mesmo brilhando, parecia não existir para mim... E a cada dia, só aumentava meu desejo dessa liberdade, de encontrar o sol e o vento novamente... De voltar a viver...

E novamente a escuridão voltava a meu coração...

Cada vez que ela voltava, era mais forte que a anterior... E via novamente meu mundo ruir...

“Por que comigo?”

“O que fiz para merecer isso?”

As respostas para estas perguntas, nem o tempo foi capaz de me dar...

Mas o tempo me deu outra coisa... Me deu o consolo... Me deu a paciência necessária para saber esperar... E através de todas as pessoas que eu amo me deu forças para continuar a lutar...

Eu havia perdido tudo...

Eu não era capaz de encontrar uma saída para mais nada em minha vida...

Eu não tinha mais sonhos...

Eu não tinha mais esperanças...

E achava que não me restava mais nada...

Mas a pequena chama da esperança... Aquela pequenina chama de poder ver um novo amanhecer me fez continuar acreditando...

E todos os dias, olhando o mundo lá fora através de uma janela de CTI, a vontade de voltar a viver lá fora, em um mundo lindo só crescia... As trevas queriam roubar estas esperanças de mim... Pessoas ainda se afastavam, e outras surgiam...

Mas a chama da esperança sempre esteve lá... De início, pequena, quase se apagando... Mas que com a força de Deus foi crescendo...

E a cada dia vendo o mundo de uma janela, mais eu sabia que queria que ter a minha esperança de um novo amanhecer...

E, exatamente um ano, sete meses e vinte e seis dias depois que fui baleada, a recompensa por tanta luta, tantas lágrimas derramadas e tanto sofrimento...

Pois no dia dezoito do mês de fevereiro do ano de dois mil e doze, eu posso dizer que renasci para uma nova vida... Pois foi o dia em que saí do hospital...

Este dia, foi o dia em que eu vi o sol novamente... E que minhas esperanças de um novo amanhecer finalmente se concretizaram...

E uma coisa que eu aprendi e que sei que guardarei para a minha vida inteira é que, por maior que seja o sofrimento, ele um dia terá fim... E por mais longa que seja à noite... Por mais escura e sombria que ela seja... Sempre haverá o sol e um novo amanhecer...

E as minhas esperanças realmente se transformaram em um novo amanhecer.


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