Espelho Quebrado
12 Fodendo com o meu coração
Enfim, Rio de Janeiro — A cidade maravilhosa. Um grupo de 30 alunos, apenas 3 professores, se tornou aquela baderna. "Perdemos" 2 alunos assim que saímos do avião e desembarcamos as bagagens. O que logo se descobriu é que os dois apenas tinham ido ao banheiro. A escola havia contratado um micro-ônibus para nos transportar por ai. Passaríamos 3 dias na capital e 4 em uma cidadezinha que não lembro bem o nome.
Como havia sido explicado ainda em Natal, a pensão em que ficaríamos tinha 15 quartos. Cada quarto para 3 pessoas, e 33 dividido por 3 dava 11. Os outros 4 quartos já estavam ocupados.
Chris e Taylor desabaram em suas camas assim que entramos no quarto. Eu que nem estava tão cansada assim fui dar uma volta no jardim. Alguns dos alunos que também não queriam perder tempo dormindo já se jogavam na piscina ou em espreguiçadeiras a beira dela.
A pensão mais parecia um hotel. Deve ter custado uma nota, mas pelo menos valeu a pena.
O jardim recém regado seguia caminho para pequeno campo de futebol e uma área coberta com mesa de sinuca e algumas redes. Em um canto afastado avisto os fios de fogo de Bea. Ela olhava o céu de fim de tarde. Distraída nem percebeu a minha presença. Aqueles olhos verdes me traziam tantas lembranças...
Quando estava indo para o olho lado ela se vira e me ver. O sorriso nasce em seus lábios no mesmo instante. E o que aquele sorriso me fazia não era nem metade do que eu podia sentir com outras pessoas. As minhas borboletas ficaram loucas dentro de mim.
Ela faz menção de levantar, mas sigo o meu caminho para longe. Os arbustos de flores vermelhas traçam o caminho, nem sei para onde.
Encontro um pequeno banco de frente a um chafariz que não funciona mais e sento-me.
–Eu posso admirar essas flores por toda a eternidade, mas elas nunca terão a beleza que você tem — Bea senta ao meu lado — Posso ver mil flores florescerem e murcharem, mas nenhuma delas me dará o encantamento que é lhe ver sorrir.
Eu não podia olhá-la. Aquelas palavras tinham um significado maior do que se podia imaginar. Foram com elas que Beatrice se declarou para mim. Na festa de aniversario do seu pai. O cenário era bem parecido com esse, mas eu quem havia lhe seguido naquela época.
–Fico me perguntando no que acreditar quando envolve você — penso alto, ainda encarando o chafariz.
–Acredite no que você quiser, só não duvide do meu amor.
–Amor... — debocho — o que faria de mim se me odiasse?
–Eu te amaria.
–Isso não faz o menor sentido — riu sem achar graça.
–O amor não faz sentido, mas temos que aceita-lo. Então aceite que mesmo te odiando, eu te amaria.
–Você é louca — digo
–Por você...
–Por você mesma, por seus jogos, sua manipulação, pelo poder... Menos por mim. Eu já vi de você coisas que ninguém nunca viu.
–Então mais do que ninguém, você devia me entender um pouco melhor — sua voz falhou e eu viro para olhar.
Estava a beira de choro novamente. Isso era demais por um dia.
– Nem você se entende, Ana.
–Muito menos você, Ana -rebate.
Levanto e saiu.
Ela estava fodendo com a minha cabeça e com o meu coração.
Eu já havia lhe dito isso, mas ela nem se importou.
FLASHBACK
A cama macia e cheirosa era um paraíso para se acordar. Ainda mais quando se tem uma garota tão linda dormindo ao seu lado. Os cabelos ruivos de Beatrice estavam bagunçados, mas isso lhe dava um ar belo e natural. O rosto branco e sereno denunciava que ela ainda estava dormindo, isso me dava uns minutos para admirá-la.
Noite passada, quando aceitei dormir em sua casa ela beijou minhas mãos e me sorriu doce. Foi ai que percebi um panapaná se instalando dentro de mim.
Antes de dormir ela chorou em meus braços. Eu não sabia o que fazer quando ela começou a falar sobre a mãe e as lágrimas acompanharam a conversa. Fiz o que me pareceu sensato: Ouvi e lhe abracei. Pareceu dar certo quando os soluços diminuíram e ela pôde dormir em paz.
Passava das 9:00 da manhã. Eu sabia que Jason só acordava depois das 11:00am nos dias de sábado. Então eu teria tempo suficiente para lhe dizer o que queria.
Aproximo o rosto do seu e beijo a ponta de seu nariz. Era um gesto bobo e até infantil, mas eu gostava. E ela também.
Sem despertar-la, aproximo nossos corpos e encaixo meu rosto em seu pescoço e inalo o máximo de ar possível, deixando o seu cheiro dentro de mim por alguns segundos.
O corpo próximo ao meu se mexe, ela está despertando.
Abre os olhos devagar, se acostumando com a claridade.
–O que faz aqui? — pergunta.
–Você me convidou — digo rindo. Aquela cara de boba era engraçada.
–Convidei?
–Hanram — aproveito que fecha os olhos por alguns segundos e lhe roubo um beijo.
Ela tinha feito isso antes, então eu também poderia.
Seus lábios tocam os meus calmamente. Eu não tinha pressa para acabar.
Beijar Bea era como deitar em uma nuvem e respirar ar puro. Eu nunca tinha feito isso, mas imaginava que fosse assim.
Seu beijo tinha gosto de calmaria, de sossego, de paz. Diferente do de Jason... O dele não tinha gosto.
Seus dedos acariciam minha cintura e barriga. Aquilo deixava as minhas borboletas ainda mais loucas, e me fazia querer sorrir.
Mas a sinto se afastar.
–Isso tudo está fodendo com a minha mente e com o meu coração. Ontem, depois que se desculpou e prometeu mudar, eu queria te beijar assim. Agora que te tenho em meus braços, não quero parar de sentir isso em nenhum instante.
Eu estava falando sem pensar. Era isso que me deixava louca e tranquila. Louca por não ter limites, e eu nasci com limites. Tranquila por saber que ela não iria me por eles.
–Paula — ela me olha seria, respira fundo — você está entendendo errado.
–Como assim?
–Você é namorada do meu irmão. E é só isso... Você sabe como irmãos são sempre mal agradecidas e querem tudo o que o outro tem.
–O que você está dizendo, Beatrice? — sento na cama, mas não tenho coragem de olhá-la. Sentia-me exposta.
–Estou dizendo que o que tivemos não significou nada para mim. Foi apenas um desejo... Não me entenda mal. Você não está pronta para mim ainda.
–Pronta pra você? — pergunto já levantando da cama — Você está louca ou o que?
–Pronta para mim. Eu não ficaria com uma garota virgem... E ainda mais ela sendo você.
Ela nem olhava para mim enquanto falava. Agradeci por isso, pois eu estava a um passo de desabar.
–Noite passada você chorou em meus braços e falou coisas que eu sei que se lembra. E hoje vem com esse papinho. Quem é você, garota? — grito.
Ela olha pra mim, mas eu preferia que não tivesse. O sorriso perverso estampava o rosto que eu acariciava há poucos minutos.
–Você nunca vai saber quem eu sou.
–Nem quero mais — respondo e saiu de seu quarto apenas de pijama.
FLACHBACK OFF.
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