Capitulo 2

(Nos aposentos da misteriosa dama adormecida, Victoria permanecia apática a olhar para aquela figura de face idêntica a sua. Ela perguntava-se como poderia existir no mundo uma mulher que fosse a sua imagem e semelhança. No quarto, havia criadas e cavaleiros, que esperavam atentos pelas ordens do rei. Victoria aproxima-me mas logo recua sem lhe tocar).

Victoria (abraça-se ao rei) – Meu homem, meu senhor, pelo que mais amas, livra-te dela. Olha, vê! Tem a face igual a minha. Isto não há de ser bom, meu marido. Deve ser criatura de fábula; uma criatura maligna que está a tramar contra nós e nosso reino.

Frederico (abraça-a forte) – Não temas, minha rica mulher, que esta pobre criatura não há de fazer mal. Além disso, tens dois guardas aqui apostos para impedir que alguém entre ou saia deste quarto sem segurança. (Beija-lhe as mãos) Não podemos desampará-la, meu amor.

Victoria (olha para ela com desdém) — Trouxeste-a porquê achas bonita?

Frederico – Ela é realmente um encanto de beleza… mas só o é porque se parece contigo. Eu apenas agi como qualquer ser humano honrado e temente a Deus deve agir. Querida, talvez seja pedir demasiado, mas eu preciso que cuides dela. Ajude-a a curar-se.

Victoria (admirada) – Eu? Ora, e porquê deveria dar auxilio a esta mulher que nem conheço?

Frederico – Porque só precisei ver-te uma única vez para saber que a tua vida era mais importante que qualquer coisa. A vida dela está como estava a tua naquele dia… ajude-a!

Victoria (solta-se dele) – Perdão, meu senhor, mas recusar-me-ei indiscutivelmente.

Frederico – Fá-lo por mim… quanto mais depressa ela estiver curada, mais rápido poderá partir. (Abraça-a por trás) Eu preciso que ajudes, por favor!

Victoria (não resiste àquele pedido meigo) – Está certo… eu farei, mas conste que apenas estarei a supervisionar os cuidados que as criadas lhe terão.

Frederico (sorri) — Ótimo, querida. Agora, lamento em dizer que volto a partir pela manhã.

Victoria (entristece-se) – Mas, ainda agora chegaste… não me deixes sozinha com ela.

Frederico – Não deixarei. Ficam os criados e os guardas… alguns deles. Esta noite solicito que visites os meus aposentos… um dia já me foram saudades absurdas destes lábios e deste abraço. Até mais tarde, meu doce amor. (Beija-a e sai acompanhado dos criados).

Victoria (olha a mulher como se lhe tivesse nojo. Chama as criadas) — Augustina, Evangelina, lavem-na. Deve estar imunda da floresta… não quero que as pestes aqui entrem. (Retira-se).

(Assim, dada a ordem, as criadas levam a milady para um banho. Mas notam algo revelador no corpo daquele ser quase defunto. Augustina vai imediatamente buscar a rainha. Entra nos aposentos sem prévia apresentação. Curva-se em cumprimento e diz aflita).

Augustina – Madame, há uma coisa que tenho a dizer sobre a mulher adormecida.

Victoria (preocupada) — Ora, o que foi? O quê se passa com a donzela, Augustina?

Augustina – O problema, madame, é justamente que… ela não é mais donzela, altesa.

Victoria – Não? Bem… até era de se esperar visto que parece ter a minha idade. Mas então, se não é mais donzela deve ser casada ou mulher da vida. Talvez seja mesmo uma concubina.

Augustina – Perdão, milady, mas não me parece. Vede, uma prostituta ou uma plebeia não poderia usar estes mantos de fino trato. (Entrega-lhe o vestido da senhora).

Victoria (perplexa e encantada com o manto) — Mas… mas estas costuras são… são…

Augustina – Ouro maciço, majestade. E não é tudo… trazia com ela elegantes joias indianas. Esta mulher, minha senhora, usa vestes de… bem, dignas de….

Victoria (pasma-se) – Dignas de uma rainha! É… sim… sim deve ser uma rainha, mas como uma rainha estaria tão perto do nosso reino? Não compreendo, Augustina.

Augustina – Madame, meu primo, Leonardo, trabalha em Versailles e disse que lá uma rainha deve ser sempre loira… é moda. Por isso, julgo que a mulher que tem nos aposentos do seu castelo é ninguém mais que a rainha da França.

Victoria (entrega-lhe o vestido e sai a correr. Vai ao quarto do rei) – Meu senhor, perdoa-me tão desapropriada entrada, mas há algo sobre a mulher que trouxeste que é vital saberes. (Estende-lhe um fio de ouro reluzente) Ela é uma delfim.

Frederico (levanta-se pasmado) — Uma delfim, no nosso palácio? Então eu preciso ir à França para dizer ao rei que nós encontramos a rainha dele. Juntarei a guarda e…

Victoria – Não, Frederico! Nós nem sabemos como ela veio cá parar. Ouve, meu senhor, vai enviar uma carta ao rei anunciando que encontraste a delfim. Mada o Gran Duque que ele há de resolver. O rei pode achar que nós a sequestramos e que isto é uma armadilha.

Frederico – Tens razão… sim, sim! Mandarei o Gran Duque com seis guardas e uma carta convidando-o a vir buscar a rainha ou solicitando auxílio médico francês para levá-la em segurança. (Volta-se para ela) Mas, há algo que não compreendo. Como uma francesa apareceria nas terras alemãs assim? Caída, desfalecida… algo aqui não está a bater certo.

Victoria – Eu sei… é um mistério. Por isso que eu insisto na ideia de que ela talvez seja um…

Frederico (interrompe) — Não pode ser feiticeira se é rainha da França. Deus do céu… com esta mulher aqui eu não poderei viajar em paz. Ficarei aqui para proteger-nos.

Victoria (abraça-o) – Ao menos uma coisa de bem trouxe esta mulher… não me vais deixar só.

Frederico – Irei falar agora mesmo com o Gran Duque. (Retira-se com pressa)

(D. Frederico fala com o Gran Duque que acata as ordens imediatamente, partindo com seis guardas e dois criados. Se a situação não fosse devidamente resolvida, uma guerra estaria em vista. Enquanto isso, o povo murmurava o escândalo da presença de uma rainha francesa nas terras alemãs. – Pobre da nossa rainha. – Talvez seja mesmo amante do rei. – Acho que ela não é mais que uma bruxa das montanhas perdidas. – Talvez já os tenha enfeitiçado também. – Soube que ela roubou o rosto de D. Maria Victoria para seduzir o rei. – É uma mulher má, de certeza. – Não a queremos nas nossas terras… ela que volte para a França. – Aposto que os franceses estão a tramar algo. – Eu soube que ela e o rei já dormem no mesmo quarto. – Disseram-me que D. Maria Victoria está trancada num calabouço enquanto a malvada rouba-lhe o rei. – Talvez seja só uma mulher perdida. Muitas especulações eram feitas sobre aquela figura desconhecida. O povo era ignorante e o desconhecido assustava-os fazendo-os zangarem-se e agir irracionalmente. Enquanto o povo mexericava, a delfim seguia repousada nos aposentos escuros e frios. Era um quarto com paredes decoradas em madeira escura; os tetos eram de abóbadas concavas; o piso de mármore possuía um fantástico tapete austríaco; no meio do quarto, junto a parede, estava a pomposa cama, digna de uma rainha. Era alta e possuía colunas com cortinados, cobertores de pele de leão e almofadas de plumas, a cama era um perfeito espaço para uma rainha. As janelas estavam sempre fechadas e as cortinas nunca se abriam, fazendo o quarto ser hostil e triste. Não se poderia esperar menos de um cemitério. A criadagem entrava e saia do quarto para tratar da jovem mulher, mas Victoria nunca lá pisava. Só a ideia de tê-la debaixo do seu teto, já soava-lhe como ameaça. O rei ia visitar a dama uma vez por dia… passava horas a fio, só a olhar-lhe os traços sem descuidar-se da sua rainha. O Gran Duque chega a França. Versailles estava elegante e arrogante como sempre. Aquele palácio parecia estar sempre de nariz em pé, a esfregar a sua riqueza e divindade na face dos que o viam. Havia criados por todos os lados; finas senhoras de pomposos vestidos rococós, de cores tão suaves e claras como o dia na França. Leques exageradamente decorados abanavam-lhe os brancos rostos. Todas usavam perucas enormes e soberbas. A maioria de fios brancos, pois só a rainha podia ser de facto loura. O Gran Duque, maravilhado com aquele requinte despojado, aproxima-se do portão de entrada. A medida que vai-se achegando avista dois guardas vestidos de azul celeste em veludo).

Gran Duque – Saudações, cavalheiros! Eu sou o Gran Duque de Alemanha. Venho trazer uma notícia muito importante e por isso desejo falar com o vosso delfim.

Guarda 1 – Lamento, mas isto será impossível. Vá embora, por favor.

Gran Duque (indignado) – O quê? Não, não, meus senhores. Ora, eu venho de muito longe trazer esta mensagem e é vital que seja entregue à vossa majestade.

Guarda 2 (aponta-lhe a lança) – Não ouviu, alemão? Vá embora antes que eu o expulse.

Gran Duque (intrigado) – Ora, como ousa ameaçar um nobre, seu criado inútil? Deixem-me entrar ou sofrerão as consequências. Venho em nome de D. Frederico e não vou embora sem cumprir a minha missão. Abram alas para que eu passe, eu ordeno.

Guarda 2 (aproxima-se dele com uma postura ríspida) – Nós avisamos, alemão agora vamos…

Cesar (interrompe) – Parem com isso, guardas. Deixem o pobre homem em paz.

(Os guardas recuam com a chegada desse homem misterioso. Usava um grande chapéu de plumas brancas e azuis, com o brasão real estampado. Vestia roupas finas, vermelhas e pomposas com várias medalhas no casaco. Via-se que era importante).

Gran Duque (curioso) – Sois vós o rei? Eu sou o Gran Duque de Alemanha e trago uma mensagem muito importante, meu bom homem. Devo-me curvar?

Cesar (rir-se e curva-se) – Caro, Duque, os meus cumprimentos. Eu sou Cesar de Alcântara, o mensageiro real. Acompanhai-me em silêncio, por quem sois. (E assim, Cesar leva-o para a biblioteca do grande palácio) Vós aceitais algo de tomar?

Gran Duque – Se não for muito incômodo um cálice com água, seria muita bondade de vós.

(A criada serve o cálice enquanto Cesar convida-o a sentar-se).

Cesar – Pois muito bem, meu senhor. Que notícias trazei a nosso rei, que são tão urgentes?

Gran Duque – Bem, acredito que eu deveria comunicar-me com ele pessoalmente. Sem querer ser ingrato à vossa gentiliza, mas é um caso de estrema importância e sigilo.

Cesar – Julgo que comunicar isso ao rei será de facto impossível, meu senhor.

Gran Duque (admirado) – Mas, porquê, D. Cesar? Já é a segunda pessoa que diz isso.

Cesar (levanta-se e vai ao piano de calda branco que situava-se no meio da sala) — Porque o rei está morto. Fora encontrado na floresta. Acredita-se que lobos o atacaram. É claro que eu duvido. E a nossa pobre delfim, que estava com ele, desapareceu simplesmente.

Gran Duque (assustado) – Oh, meu Deus, que tragédia. (Levanta-se com um sorriso) Mas nem tudo é desgraça, pois o meu rei, numa viagem, encontrou a vossa rainha na floresta.

Cesar (levanta-se e vai até ele) – A rainha está viva? Graças aos céus… estamos salvos.

Gran Duque – Infelizmente não é tão simples, meu senhor. A rainha vive, é verdade, mas… mas está como morta. O rei encontrara-a desfalecida por entre a estrada. Ela dorme profundamente… não sabemos o porque, mas acredita-se que está enfeitiçada.

Cesar – Enfeitiçada? Adormecida? Oh, não… é o mesmo que nada. Precisamos dela bem viva para retomar o reino… ou então… (vai em direção ao retrato de um homem ao lado de uma mulher de cabelos vermelhos) Vede! Este é o Conde de Gouvarinho e esta é Matilde II, a nova condessa. Com o desaparecimento do rei e da rainha, eles tomaram posse. O conde é um homem egoísta e hipócrita que tira do povo para dar a sua messalina, a condessa. Esta mulher é um demónio que profanou este reino com a sua libertinagem. Ela seduziu o rei e transformou-se na sua amante. A pobre rainha fora abandonada pelo marido como uma reles cadela. O rei deixou envolver-se nas teias desta tarântula e aos poucos também ia abandonando o reino nas mãos do conde pois acreditava ter “coisa melhor que fazer” debaixo daquelas saias de bruxa. Era tudo um ardiloso plano dela com o conde para matar o rei e a rainha e assim, assumir o trono como únicos sucessores. Ele matou o rei, eu sei disso.

Gran Duque – Que terrível historia, mensageiro. Um golpe muito grande foi o que eles armaram. Mas, o rei e a rainha não tiveram filhos? Não há ninguém acima do conde?

Cesar (vai até o retrato de um jovem rapaz) – Tiveram um único filho… Sebastião. Mas o conde alega que o príncipe não deve subir ao trono sem uma esposa. (Vai até o Gran Duque e segura-lhe os ombros) Ouve, se o conde souber que a rainha vive, ele irá matá-la. Precisam protege-la em segurança e segredo.

Gran Duque (apreensivo) – Não posso voltar a Alemanha com uma notícia destas. Eles estão muito aterrados, porque a vossa rainha é incrivelmente parecida com a nossa. O povo acredita que ela seja uma bruxa ou um demónio. Podem queimá-la ainda a dormir. O rei não vai acreditar nas minhas palavras e muito menos a rainha, que é quem mais teme.

Cesar (preocupado) – Então só há uma solução, meu caro… eu irei convosco, representando o reino da França, para explicar ao rei a real situação.

Gran Duque – Perfeita ideia, D. Cesar. Mas, ainda há algo que me inquieta. Se foi mesmo o conde quem matou o delfim, então porquê não mataram a rainha? Porquê só enfeitiçaram?

Cesar (põe-se a pensar) – É mesmo aterrador… mas havemos de descobrir este mistério.

FIM (CAPITULO 2)