Espelho, Espelho...
1 Primeiro Dia
Notas iniciais
Chega uma hora em que o tedio domina e é necessário mudar algo. Para Christian Hanci, pelo menos, sempre era assim. Naquele instante, o que ele estava prestes a mudar era sua casa. Finalmente poderia a arrumar decentemente, já que sua pequena Mia estava crescendo e saindo da fase de querer pegar (e consequentemente quebrar) tudo que encostava. Ela merecia um presente por isso e era isso que ele compraria.
Considerando que Christian trabalhava numa creche (o que o fazia ser basicamente baba de doze miniaturas de gente, incluindo sua filha), não era surpresa que ele não tivesse muito dinheiro sobrando para gastar em frescuras como a decoração de sua casa. Mas para isso que existia os antiquários. Era em um que o homem de vinte e nove anos estava naquela manhã de seu dia de folga.
Desde muito jovem ele gostava de lugares como aquele. Era como se muitas histórias se encontrassem na essência de cada um daqueles objetos, dos maiores aos menores. Era como se Christian pudesse sentir a vida deles, de quem antes os tinha. Era isso que ele pensava enquanto mexia naquele amontoado de decorações empoeiradas. Quais eram os motivos para aquelas coisas terem sido levadas para um antiquário?
Estava tentando fazer uma antiga caixinha de música, que certamente combinaria com o quarto feminino e delicado de sua bonequinha, funcionar quando algo chamou sua atenção. Era narcisista ter se apaixonado justo por um espelho no meio de todas as coisas que havia ali? Talvez, mas não era por seu reflexo que Christian havia gostado do objeto.
Não havia muita explicação. Seria estúpido dizer que algo o atraia nele, mas... era a verdade. Só que o homem gostava de manter seu cérebro funcionando por baixo dos cabelos negros levemente cumpridos. Era alguém racional e logo usou uma desculpa racional para comprar o espelho. Sua filha gostava muito do conto da Branca de Neve. Ponto. Era só por isso que ele saiu da loja carregando aquele objeto grande e antigo, emoldurado com algo que parecia bronze, mas possivelmente só era latão. Que presente seria melhor? Ela poderia passar horas perguntando “espelho, espelho meu...” e qualquer coisa parecida.
Foi só para sua filha brincar que ele comprou o espelho. Só por isso. Não era por causa do magnetismo natural que parecia juntar os dois, não era por causa de como o objeto quase sussurrava seu nome, não era pela forma diferente (e mais bela) que ele se via nele. Não era por nada irracional e subentendido que basicamente o impedia de afastar a mão da moldura. Era algo totalmente... racional.
X–X–X
– Pronto! – comentou orgulhoso como se tivesse feito algo grandioso quando conseguiu pendurar o espelho na parede cor de rosa do quarto de sua princesa. Não era como se colocar um prego na parede fosse algo incrivelmente difícil, mas... era incrivelmente difícil. Para toda a falta de jeito do homem de olhos acinzentados e traços indígenas, era quase impossível.
Até pouco mais de dois anos antes desse dia, era seu companheiro quem estaria fazendo aquele tipo de tarefa e qualquer outra coisa que envolvesse ferramentas que poderiam quebrar ossos e objetos próximos. A falta de jeito de Chris era patética, ele era o desastre em pessoa. Mas agora... agora era só ele e Mia. Christian tinha que crescer e deixar de ser um moleque para realmente virar um homem de verdade, um pai de família. Já devia ter feito isso há muito tempo.
Mas a jovem Mia não tinha noção de que o que seu pai fazia não era nada demais, então ela achava que era uma missão quase impossível. Na visão dela, Christian era o mais encantado dos príncipes. Pulou e bateu palmas ao ver seu novo espelho. Ele era tão lindo... Não demorou a pedir colo para seu pai e ficar observando reflexo dos dois ali, sorrindo.
Chris e Mia não tinham nenhuma semelhança física. A criança era adotada e tinha sangue nipônico, já Chis era o que surgia da mistura de um inglês com uma indígena do norte do Brasil, mas... Eles eram um belo retrato de uma família feliz, do tipo de causar inveja em qualquer um.
– Espelho, espelho meu... Quem tem um papai melhor que o meu? – ela perguntou fofa e boba como de costume. Christian adorava o jeitinho meigo de sua pequena. Ela era uma bonequinha viva, mimada como uma princesa.
– Espelho, espelho meu, quem tem uma filha mais perfeita do que eu? – Chris perguntou, entrando na brincadeira. Deu um beijinho no rosto da filha e correu com ela para a sala. Tinham o dia inteiro para brincar de qualquer coisa que ela quisesse.
X–X–X
Foi uma tarde comum. Assistiram ao filme da Branca de Neve mais uma vez (era a décima terceira só naquele mês), brincaram de casinha e boneca e outras coisas que a maioria das meninas pequenas gostava e que Chris achava realmente tedioso. Mas algumas horas depois do anoitecer ouve um pequeno acidente para atrapalhar a doce utopia do dia de folga.
Christian não sabe bem como aquilo aconteceu. Talvez ele estivesse distraído demais, confiando que sua pequena Mia, aos quatro anos, já era grande o suficiente para evitar que coisas como aquelas acontecessem, afinal ela não colocava mais tudo que via na boca. Mas não, em alguns segundos de falta de atenção sua filha estava sufocando.
Mia estava quase roxa. A boquinha aberta em busca de ar, como um grito sem som, causaria pesadelos em Christian por muito tempo. Se o moreno não tivesse agido rápido o suficiente, o que com a graça dos céus ele conseguiu fazer, certamente ele teria que assistir um pequeno caixão branco ser enterrado em breve. Mesmo depois de o sapatinho de brinquedo ser cuspido pela pequena, eles ainda precisaram de um bom tempo para se acalmar e sentir que o mundo não iria acabar em segundos.
E para piorar, ainda havia a maldita gargalhada infantil que enchia o ar. Enquanto a sua garotinha sofria, havia uma outra menina se divertindo horrores nas redondezas. A casa de Christian era perto de um parquinho, então gritos e risos eram muitos comuns. Mas se o homem não tivesse tão preocupado com a filha teria notado que não era lá muito costumeiro ter crianças na rua as oito da noite naquela vizinhança.
X–X–X
Uma hora depois Christian estava começando a ler uma história de boa noite para sua pequena (“Branca de Neve”, só para variar) calmamente. Na verdade, não lendo, afinal ele já conhecia cada palavra daquele livrinho de cor e salteado. Ele as recitava enquanto observava o quarto cor de rosa de Mia.
Aparentemente, colocar um prego na parede era sim algo muito difícil, ou Chris era alguém muito burro. Ele só podia ter feito alguma errada. Uma pequena e fina rachadura saia de trás do espelho, subindo cerca de meio palpo pela parede. Como ele tinha conseguido fazer aquilo? Sequer sabia que era algo possível! Mas não parecia ser algo muito grande, então poderia esperar mais um pouco, até ter mais dinheiro, e chamar alguém que realmente sabia o que estava fazendo para arrumar a parede.
Seguiu sem muita demora para seu quarto. Estava um pouco frio naquela noite, então o melhor a se fazer era ficar quieto em sua cama lendo um pouco. Geralmente evitava ficar só no seu quarto, ainda sentia uma dor no peito ao fazê-lo. Odiava a solidão, ela era fria e apertava seu peito até o deixar com desejo de morrer. O lembrava da depressão que sentiu depois da perda de Rafa.
Aquela noite foi incrivelmente difícil. Christian nunca teve problemas para dormir, mas... havia algo errado. Toda vez que ele fechava os olhos era como se não fosse mais conseguir abri-los. O silêncio do quarto parecia surreal, uma máscara para esconder os barulhos do mundo. Era como assistir televisão sem som, Christian sabia que tinha algo acontecendo ali, ele só não conseguia ouvir nada.
Não pegou no sono. Não fechou os olhos por mais de cinco minutos seguidos. Seu corpo tremeu durante a maior parte da noite. Ele sentia-se sufocando, como se estivesse embaixo d’água. Em alguns instantes ele não conseguiria mais respirar e teria duas opções: emergir ou morrer. Quando o sol nasceu, ele conseguiu se livrar daquela horrível sensação. Foi exatamente como voltar a respirar, ele até mesmo ficou ofegante.
Assumiu que o problema da noite anterior havia sido causado por seus pensamentos. Ele tinha lembrado, durante todo o dia, de tristes eventos do passado. Possivelmente a sensação de morte eminente vinha do resto de depressão que ainda havia em seu corpo desde aquela época. Talvez ele devesse voltar a tomar os remédios antidepressivos....
Ainda estava pensando nesse assunto quando se levantou e foi buscar Mia para que pudesse apronta-la para irem para a creche. Estava muito focado no que tinha que fazer e muito cansado pela noite sem sono. Esse foco não o permitiu ouvir mais uma vez a risada de uma garotinha, dessa vez acompanhada do som de passinhos batendo na madeira antiga da casa onde os dois moravam. Também não o permitiu se perguntar de quem era a sombra refletida no novo espelho que decorava o quarto de sua filha.
Fale com o autor