Espelho
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Essa fic foi escrita especialmente para o concurso de fanfics do p!atdbr.
Olhei para o espelho uma vez. Duas vezes. Três vezes. Cocei os olhos mais algumas vezes para acreditar que estava acontecendo. Acontecer não era problema, o problema era acontecer comigo. Isso sim era um grande problema. Olhava para o vidro como se ele fosse capaz de me dar um culpado. De apontar o que poderia ter mudado tanto em minha vida para aquilo acontecer justamente comigo. Dei um suspiro longo, resignado, irritado e comecei a bater minha cabeça contra o espelho, fraquinho, em sinal de irritação.
- Por que eu? – Indaguei, parando com as batidas porque elas já fizeram minha testa doer. Não é que eu não tinha notado essa anomalia em mim antes, mas já estava irreversível. Me afastei do espelho devagar, me despindo peça a peça: a camisa branca, a gravata preta, a calça skinny jeans escura. Voltei o olhar pro espelho – Brendon Boyd Urie, o que você tem de especial pra isso te escolher?
Suspirei outra vez e andei em passos pequenos, desanimados rumo ao box do banheiro. Coloquei as mãos na minha cintura e dentro de meus pensamentos tentava achar uma solução, embora eu já soubesse qual seria a solução perfeita para aquele problema. Eu não aceitaria aquilo, eu sou um cara magro, relativamente alto, com olhos grandes, com um sorriso cativante e lábios extremamente fartos e, devido minha fama, com um monte de garotas bonitas loucas por mim. Com certeza, isso ia me atrapalhar a viver minha vida.
Girei meus olhos pelo banheiro e tudo pareceu extremamente confortável. Era só trazer meu notebook pra cá e tudo estraria completo. O vaso sanitário se faria uma excelente poltrona, tinha água, sabonete e as toalhas dariam perfeitos cobertores, então não precisava de mais nada, sendo assim, eu nunca mais sairia daquele banheiro. Além de ter tudo o que eu precisava pra uma sobrevida, eu ainda estava em um lugar que eu poderia considerar bonito. Estava decidido, nunca mais em sã consciência sairia daquele lugar lindo e confortável. Dizem que todo mundo tem que fincar raízes em algum lugar, achei meu banheiro, e agora o chamaria de lar.
Porém havia um pequeno problema naquilo, em algum momento da minha doce vida cheia de novos sonhos de fincar raízes num banheiro bonito e cheio de azuleijos brancos com flores delicadas, viria um mal roadie e um amigo chato querendo me tirar daqui para fazer algum show. Okay, eu teria um show em alguns minutos e sequer tinha pensado em que roupa usaria, embora isso já não fosse mais importante, porque eu já não ia me importar com esses infortúnios. Eu não saíria dali nem mesmo puxado por um guindaste, nem mesmo com a demolição do prédio. Acho que vou falar que fiz uma promessa para o São Brendon e dizer que se ele não tirar isso de mim, nunca mais ia air do banheiro, talvez assim, eu conseguiria ser feliz com meu novo lar.
Liguei o chuveiro vagarosamente e o esperei ficar numa temperatura ideal e entrei. Comecei a tacar água para todos os cantos que eu consegui enquanto pulava embaixo da mesma. Aquilo estava maravilhoso e depois de tomar meu costumeiro banho demorado, ainda fiquei debaixo daquela água maravilhosa por horas, devendo ter causado infiltração no hotel porque ouvi algumas vassouradas. Ter vizinho idiota que não compartilha a dor alheia é o cúmulo do absurdo. O mundo não queria me deixar ser feliz isoladamente, com isso, meu parceiro fiel.
Desliguei o chuveiro e fiquei sentado no chão frio por um longo tempo. Ouvi vassouradas, batidas na porta, mas não respondi nadinha. Eu poderia fingir que morri, porque aí ninguém mais teria que me ver. Ou quem sabe eu poderia trocar de identidade e sumir eternamente com o tal Brendon Boyd Urie. Ah, uma ova... Eu gosto demais do meu nome para chutar minha carteira de motorista desse jeito.
Ergui meus olhos para o espelho e reparei que eu estava parecendo uma múmia de milhares de anos antes de Cristo. Era só o que me faltava, eu estava verdadeiramente horroroso, mais um motivo gigantesco pra nunca mais sair dali. Então, notei um problema maior, não tinha trazido nenhuma roupa para me vestir, então, já que eu estava parecendo uma múmia, me enrolei em uma toalha bem felpuda. Aí eu fiquei realmente parecendo uma múmia vaidosa. Me irritou, mas era melhor que vencer e sair do banheiro.
“Brendon!” Escutei a voz de Spencer Smith vindo de fora. Escutei mais umas cassetadas na porta e girei os olhos dentro de órbita. “Você está muito atrasado, pirralho!”
“Eu não vou a lugar nenhum!” Gritei do banheiro, mostrando língua pra porta. “Nunca mais saio daqui! Diga aos fãs que eu morri, ou que eu fui morar na Brenny Bear Land onde eu fico tocando Sublime o resto da vida trancado num peso de papel! Ou diz pra eles que eu fiz uma promessa pra São Brendon que enquanto ele não desfizer a porcaria que fez em mim eu não saio desse banheiro nem que o Obama venha me expulsar.”
“Brendon desde quando você é católico pra fazer promessas aos santos que nem existem?” Spencer deu um suspiro longo seguido de um rosnado logo após sua pergunta. Ouvi um pac-pac-pac de seu sapato em frente a porta do banheiro. “Brenny, você está sendo infantil, caramba! Todo mundo passa por isso. Saia já desse banheiro!”
“Nem sob toda a tortura do mundo!” Repeti o gesto dele de bater o pé no chão. Foi quando voltei os olhos para o espelho e notei que eu já tinha desenrugdo e estava mais apresentável, porém aquilo continuava em mim ainda. “Aliás, nem chame torturadores, eles vão precisar entrar e eu não posso receber ninguém nesse estado caótico.”
Grunhi uma palavra de calão baixo e me mantive batendo os pés incessantemente enquanto Spencer andava de um lado para o outro. Não sei porque raios o Spencer continuava a andar de um lado pra outro na frente do meu lar, então gritei de lá de dentro:
“Vai furar meu tapete de boas vindas, Spenny.” Essa foi proposital e então, ri baixinho.
“Pára de ser bobo e saia já daí.”
“De forma alguma.” Rosnei. “Eu estou horrível.”
“Se eu disser que te levo pra ver o Ryan, depois do show, você sai daí?” Perguntou, dando um chute na porta.
“E eu vou usar o quê?” Abri a porta com toda a força. Meu ponto fraco maior, Ryan. Sempre ele. Era simplesmente o amor da minha vida, o homem por quem eu faria tudo.
Fiz minha maior cara brava e cruzei os braços, porque Spencer começou a soltar uma risada pelo nariz quando me viu. Ok, confesso que ele não sabia se ria ou se gargalhava até que ele soltou a frase que me deu uma vontade sobrenatural de socá-lo:
“Quando eu vou poder lustrar e deixar tudo brilhando pro Ryan apreciar?” Foi então que Smith soltou a gargalhada que estava presa ali. Eu juro que tentei levar aquilo na esportiva, mas comecei a bater o pé no chão com força. “Okay, Brendon, eu tô brincando. Veja o lado positivo, o Ryan é uma garotinha e garotinhas adoram espelhos.”
“E o qu isso tem a ver comigo, Spencer James Smith?” Rosnei.
“É dos carecas que as garotinhas gostam mais, oras.” Spencer falou como se fosse óbvio. “Agora pára de choramingar e aproveita a vida com o seu lado bola de boliche cheio de charme.”
“Você tá é me zuando, certo?” Dei uma risada traído por minha própria capacidade de ver as coisas. “Bola de boliche é a senhora sua mãe.”
“Pára de besteira, Brendon” Cruzou os braços. “Seus problemas não são o fim do mundo. Pra isso, você pode usar um véu...”
“Tá me achando com cara de noiva ou muçulmano?” Franzi o cenho.
“Certo, você não menstrua.” Levou o dedo indicador ao queixo. “Uma peruca loira ficaria bem em você.”
“Loira?”
“Ora, o Ryan adora loiras.” Spencer encolheu os ombros. “Viva o lado bola de boliche da vida, Brendon!
Fixei meus olhos no espelho novamente e decidi olhar meu novo visual. Já não tinha mais cabelos em minha cabeça, mas eu ainda estava bem bonito e pela primeira vez na minha vida eu ia poder colocar umas madeixas loiras, assim, o Ryan Ross jamais reclamaria que eu não era um loiro alto, bonito, sensual e todo feito pra ele. Talvez fosse só uma questão de perspectiva.
O Ryan sempre me faz – ainda que distante – olhar o copo pelo lado que está meio cheio. O Ryan Ross eleva minha vida a um outro nível.
FIM.
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