Espelho

1 Capítulo Único


Tudo estava ali, bem na minha frente, mas não tinha nada ao mesmo tempo.

- Respire – disse a imagem loira em minha frente, estava fazendo a mesma coisa que eu, apertando sua própria garganta com força, então, quem era ela para dizer para eu respirar? – Respire – a imagem repetiu.

Tirei as mãos de minha garganta, dando conta de que não poderia me matar asfixiando-me daquele jeito. Meus punhos cerraram-se e a imagem olhou-me mais relaxada agora, embora respirasse com a mesma dificuldade.

Levantei meu punho até perto de meu rosto, ameaçando um soco. A imagem fez o mesmo, só que disse calma:

- Não irei investir contra você se você não investir contra mim...

- Pare de falar coisas sem sentido! – abaixei-me, ficando em uma forma parecida com uma bola, colocando uma mão em cada ouvido, tentando ignorar os sons, a voz que ainda me perturbava.

Mas a voz continuou, ainda mais alta dessa vez.

- Se quer tanto se livrar de mim, por que não pega uma faca? – perguntou a voz, dessa vez mais áspera, menos simpática.

- Se eu descer... Você me jogará da escada – acusei-a, ainda com as mãos nos ouvidos, enquanto ouvia seu risinho de escárnio.

- Por que não destranca a porta?

- Você poderia abrir a porta e me acertar – reclamei, sem saber porque estava dando explicações àquela voz.

- Então corte seus pulsos com seus próprios dentes! Arranhe-o! Sinta sua morte, seu sangue se estancar! – a voz dizia com total loucura. Encolhi-me ainda mais e soltei berros repetidos, porque somente aquilo fazia a voz parar. A voz sumiu, parei de gritar.

Levantei-me. As lágrimas de terror já começavam a cair pelo canto dos meus olhos, formando uma teia em minha face clara.

- Medo – sussurrou a voz novamente, me fazendo virar rapidamente, procurar de onde vinha. Mas parecia que ela saia de todas as paredes – Você tem medo de morrer! – ridicularizou.

- Não! Não tenho! – berrei, brigando com algo que eu nem mesmo sabia o que era. Olhei novamente e vi a figura imitando-me. Imitando, ridicularizando os gestos que eu fazia com medo. Fechei minhas mãos, preparando um soco e batendo na criatura. Mas era duro. Aquilo quebrou-se em pedaços, minha mão pôs-se a sangrar e ela desapareceu, rindo.

- Idiota – continuou a rir.

Aproximei-me, pegando um dos cacos resultantes de meu murro. Arranhei meu pulso várias vezes, sentindo a dor me invadir, sentindo o sangue escorrer por meu braço.

A voz continuava a rir de minha estupidez. Pude vê-lo no caco, olhando para mim e sorrindo sádico.

- Cortou-se mesmo?

- Maldito – cerrei meus dentes, encostando-me à parede, fraco, já sem sangue, jogando o caco longe, mas a voz continuou...

- Por que tens tanto medo, se sabe que sou apenas uma parte de você?

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