Espelho
7 Capítulo O7: BATENDO PORTAS
ESPELHO
Escrita por Coffee
CAPÍTULO O7: BATENDO PORTAS
— Você foi vê-la?
— Sakura?
— É.
— Não.
— Mas faz três dias...
— Hn.
— Eu que não iria aparecer lá depois de tudo que ela fez...
O loiro tentando – inutilmente – convencê-lo (e convencer a si próprio também) que não se importava com Sakura.
— Apesar que Hinata está em uma missão... E se você não apareceu, nem eu ela deve estar sozinha...
— Está bem Naruto, tentarei passar lá mais tarde.
♦ ♦ ♦
Tossiu duas vezes e praguejou mentalmente por ainda não ter comprado uma cortina mais grossa. Já fazia três dias que havia voltado para casa, e não recebera visita nenhuma. Quem quer que estivesse batido na sua porta há dias atrás e ela não atendera, não voltou.
Acabou por gostar de ficar sozinha no primeiro dia, tinha tempo para pensar em que rumo levar sua vida; mas passou, ficar sozinha nos outros dois dias foram uma tortura, ficou apenas pensado em coisas ruins, como em Naruto não lhe perdoar e ela viver sem sua amizade.
Hinata também não viera, ou estava em missão, ou não queria visita-la, ela preferia acreditar na primeira opção.
Levantou com dificuldade da cama jogando as cobertas grossas para o lado. Andou até o banheiro escorando-se nas paredes do corredor, seu corpo estava dolorido e parecia incrivelmente pesado. Tudo estava ruim.
Cuspiu a saliva amarga que estava em sua boca na pia e pôs-se a escovar os dentes, olhou no espelho, as olheiras não haviam sumido e sua cor ainda estava começando a voltar para o normal, estava horrível.
Alguém bateu na porta, duas batidas, leves e ritmadas. Cuspiu a pasta na pia, e enxaguou a boca duas vezes com água. E andou apressada – o máximo possível — mesmo andando apressadamente uma lesma ganharia dela. Foi até a porta, estava tão sozinha que até se fosse o carteiro e ela pudesse lhe dar um ‘oi’ ela ficaria feliz.
Talvez fosse Hinata, se alegrou. Abriu a porta e lá estava, com roupas civis, de calça jeans de lavagem escura e uma camiseta branca, o cabelo negro bagunçado, a cara indiferente e os olhos negros, misteriosos, sedutores.
Agradeceu mentalmente por sua casa estar um pouco mais apresentável do que a ultima vez em que ele estivera ali, Tsunade havia mandado limpar e arrumá-la e ela estava mantendo limpa na medida do possível.
– Hãã, oi.
Droga será que tinha gaguejado? Ele acenou positivamente com a cabeça, e olhou para algo atrás dela, provavelmente para o nada. Ficou olhando para ele, e olhou para sua roupa, estava com uma calça de moletom e uma blusa, estava ridícula.
Deu espaço para que ele entrasse. Ele não esperou que ela dissesse algo, apenas sentou em seu sofá cor creme e continuou olhando para o nada. Fechou a porta.
— Hum... Vou fazer um chá para tomarmos, sim?
Ele não respondeu, apenas olhou para ela e desviou o olhar novamente. Andou até a cozinha constrangida, estava sendo ignorada.
♦ ♦ ♦
Observou quando ela voltava da cozinha com duas xícaras de porcelana na mão. Estava ainda mais magra, observou, as olheiras continuavam e ela estava andando mais lenta do que o normal.
Ela lhe entregou uma xícara e ele viu que suas bochechas se avermelharam, depois de muitos dias, havia alguma cor no rosto pálido de Sakura. Agradeceu com um aceno pelo chá e observou o liquido, saia fumaça e um cheiro bom.
A rosada se sentou na poltrona, parecia constrangida, pensou em falar algo, mas não tinha assunto com ela.
— Como... Está Naruto? — Ela perguntou e encolheu os ombros.
Pensou em como responder a pergunta, seria melhor que ficasse quieto, evitaria confusões, mas não achou certo.
— Bem.
— Ele... Ainda está com muita raiva de mim?
Não respondeu, viu que ela acenou tristemente com a cabeça como se entendesse que seu silêncio era uma afirmação. Viu que ela deu um sorriso triste e melancólico. Algo dentro dele se espremeu, só esperava que ela não começasse a chorar.
— Na verdade... Ele me pediu para que eu viesse vê-la.
O rosto dela parecia um misto de esperança e de tristeza, não entendeu o motivo. Ela sorriu e depois mais um sorriso triste alcançou sua face pálida. E então ele a ouviu sussurrar, mais para si mesmo do que para ele.
— Então... Foi por isso que você veio.
Não respondeu.
♦ ♦ ♦
Quando ela o viu na porta, elegante, e bonito (como sempre) pensara em mil possibilidades sobre a razão em que tinha o levado até sua casa. Porém quando ele a disse que Naruto o havia pedido para ir vê-la, sentiu um misto de alegria, por saber que seu amigo loiro ainda preocupava-se com ela, e um misto de decepção, por saber que Sasuke só havia ido vê-la porque Naruto havia pedido.
Era claro, ela foi visivelmente tola em pensar que ele havia ido visita-la por algum motivo a mais. Sasuke havia lhe dito que Hinata estava em missão, e por isso não tinha ido visitá-la ainda. Porém isso foi tudo, Sasuke não trocou mais do que uma mínima porção de palavras com ela, antes de agradecer pelo chá e ir embora.
E lá estava ela de novo, mergulhada na solidão.
Voltou para o sofá após fechar a porta para Sasuke, jogou-se no móvel, olhou para o porta retrato na estante, a garotinha de olhos verdes sorria animada ao lado do grande homem ao seu lado e da mulher de estatura média e cabelos claros, sentia falta deles, sua mãe e seu pai... A como sentia falta da casa que vivia barulhenta pelos gritos de sua mãe, pelas risadas contagiosas de seu pai, sorriu tristemente, a dor tornando-se grande.
Andou até o guarda roupa com uma lenteza absurda, abriu a porta de madeira, e visualizou a caixa amarela, fez uma careta, aquilo lhe traria ainda mais dor... Jogou a caixa amarela para o lado e pegou uma caixa azul marinho que jazia empoeirada no fundo do guarda roupa. Apressou-se a deixando escapar da sua mão e cair com um tintilar suave no chão.
Praguejou. Vários potinhos brancos foram ao chão, e um vidro com algum tipo de antibiótico (que ela já não lembrava mais para o que servia) quebrou-se em vários pedaços derramando o liquido rosa no chão. Pegou os potinhos rapidamente do chão, tentando ler o que diziam, para que cada um servia.
Estava chorando, e não sabia o motivo. Vários flashes passaram em sua mente, vários rostos, várias lembranças.
Os garotos da academia lhe importunando por sua testa grande... Ino e a faixa vermelha jazida em suas mãos pequenas, o momento em que descobrira que ela e Ino não podiam mais continuar com sua amizade... Suas conversas monossílabas com Sasuke ainda pequeno, Naruto... A floresta da morte, Orochimaru, Lee e de como ela fora incapaz de proteger quem amava... Lembrou-se de Kakashi de sua luta com Ino, e dê Sasuke... Seu Sasuke indo embora, deixando-a sozinha em um banco gelado. Naruto e sua promessa, Sai sendo o novo membro do time 7, o reencontro com Sasuke, a morte dos seus pais, de como se afastou dos amigos, e de como se fechou para a vida. Lembrou-se de quando foi capturada e...
— PARE! SAKURA ONDE ESTÁ COM A CABEÇA?
Parou assustada na ação de levar os remédios de antigamente até a boca. Por sorte havia guardado alguns, e na limpeza de Tsunade não haviam os encontrados. Os comprimidos foram arrancados de sua mão.
Apoiou as mãos no chão deixando as lágrimas caírem, olhou para o lado, totalmente envergonhada, Hinata olhava-a com uma expressão de decepção e com os compridos na mão, mas não disse nada.
Viu a morena sair até o cômodo da frente – o banheiro – e voltar sem os comprimidos na mão. Hinata a pôs de pé e em seguida sentou-a na cama bagunçada.
— Preciso deles Hinata — Soluçou três vezes seguidas, estava sendo ridícula na frente da morena.
— Não, não precisa, — Se assustou com o tom decidido de Hinata. – Não deve continuar fazendo isso com si mesma Sakura, isso só lhe faz mal.
— Eu... Não consigo Hinata, não consigo — Sua voz saiu rouca, embargada.
— Você é jovem Sakura, bonita, tem uma vida toda pela frente, não pode destruí-la desse jeito, você é inteligente, pode arrumar um bom homem, alguém legal... Se casar... Ter filhos... Está na hora de recomeçar Sakura, talvez sair com alguém, ter encontros, toda mulher quer ter uma família Sakura.
— Eu não posso... Não posso me casar.
— Do que está falando Sakura?
Assustou-se com o jeito com que Sakura havia tido isso, algo parecia enroscado na garganta da médica, ela parecia querer dizer algo, mas não saber como. Havia acabado de chegar de uma missão e havia decidido ir vê-la e depois de chamar e bater na porta e ela não ir lhe atender percebeu que a porta estava aberta, quando entrou e viu a rosada naquele estado, com vários potes em volta de si e quatro comprimidos na mão ficou desesperada, tinha certeza que ela havia parado de tomar aquelas drogas e ficou realmente decepcionada por ver que ela não havia conseguido parar.
— Não posso me casar Hinata, nenhum homem jamais irá querer casar comigo, não posso me casar, não posso... Não sou pura Hinata, não mais...
Arregalou os olhos perolados, pureza não era um ponto exssencial hoje em dia (ela mesmo não era mais, admitiu envergonha). Mas Sakura não parecia falar de perder a virgindade com alguém em especial.
— O que quer dizer com isso Sakura?
— Alguns meses antes de eu sair para a missão que me deixou longe daqui por vários meses... — A kunoichi não parecia prestar atenção no que dizia, mas seu choro se intensificou, — Eu voltava do hospital, havia feito tantas cirurgias que estava sem chakra, estava cansada e distraída, era muito tarde e... Não percebi quando se aproximaram, aplicaram algo em mim e me levaram para uma caverna... Não me lembro direito... E então...
— Sakura calma, Sakura...
— Eu fui estuprada Hinata, — A médica soluçou várias vezes seguidas e se jogou nos braços finos de Hinata — Eu não queria Hinata... Não queria...
Ao meio do drama, a atenção de ambas foi desviada, quando a porta de entrada da casa – que Hinata havia apenas encostado – foi batida com força e vários passos apressados foram ouvidos.
Gelou. Alguém (além de Tsunade e Hinata) havia descoberto seu maior e pior segredo, estava envergonhada e mais uma vez... Humilhada.
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