Espelho

4 Capítulo O4: FEITO PAPEL


ESPELHO

Escrita por Coffee

CAPÍTULO O4: FEITO PAPEL

Após assinar seu nome na ficha da recepção, andou ao longo do corredor até uma área mais afastada dando duas leves batidas na porta branca e a abrindo em seguida. O quarto era basicamente composto por uma escrivaninha, uma poltrona que parecia extremamente desconfortável, um sofá cor creme onde Naruto roncava uma porta para um possível banheiro e uma cama onde Sakura descansava provavelmente pelo efeito de sedativos.

O peito da médica (dessa vez paciente) subia e descia conforme sua respiração lenta. Ele nunca havia a visto daquela maneira, deitada em uma cama tão frágil e desprotegida. Estava branca feito papel, a cor de sua pele chegava a ser assustadora, provavelmente pela falta de nutrientes em seu corpo pequeno.

A mão direita igualmente pequena descansava sobre seu colo enquanto a outra permanecia ereta ao lado de seu corpo onde o soro intravenoso entrava em suas veias. As olheiras haviam se intensificado ficando levemente arroxeadas. Seus cabelos róseos estavam presos em um coque mal feito provavelmente por alguma enfermeira e seu corpo estava ainda mais esquio e magro do que se lembrava desde a última vez em que a vira. O que havia acontecido com a garota determinada e corajosa que ele encontrara algumas vezes depois de sua partida?

Sentou na poltrona do lado oposto onde Naruto dormia ainda não notando a presença dele. Havia flores na mesa de cabeceira ao lado de Sakura, porém ele não sabia quem trouxera.

Voltou o olhar para a garota. Conforme Tsunade dissera o impacto dos remédios em um excesso absurdo foram fortes demais e o pequeno e frágil corpo da garota – mulher – de cabelos róseos não aguentou, e agora quem sempre havia cuidado dele e de Naruto com tanto carinho era quem precisava de cuidados. A kunoichi sorridente e alegre estava agora deitada em uma maca desacordada há três dias.

Como todos, ele se perguntava por que a rosada dependia tanto assim dos comprimidos. O que estava acontecendo afinal? A loira embriagada havia falado pouco a respeito, como se a própria não soubesse o que se passava, embora ele duvidasse disto.

— Ela ainda não acordou... — A voz de Naruto se fez presente demonstrando que ele havia acordado.

— Hum — Não olhou para o loiro, continuou a olhar para a cama.

— Hinata veio até aqui, elas não são tão amigas, mas ela veio e trouxe flores.

Não respondeu, não se sentia interessado em quem vinha ou deixava de vir visitar Sakura. Viu Naruto dar os ombros e sair sem lhe dizer nada. Sua face demonstrava preocupação e raiva, ele ainda não havia esquecido o que quer que tenha sido que Sakura fizera para ele.

Passaram-se três horas e o loiro não voltou, provavelmente havia ido para sua casa tomar um banho ou comer algo já que ele estava lá para fazer companhia à bela adormecida.

Virou seu olhar rapidamente para a garota de cabelos róseos, um gemido praticamente inaudível escapou dos lábios finos e pálidos, ele apostava que se não tivesse uma audição tão boa e não fosse um ninja não teria escutado. As mãos se mexeram primeiro, e depois outro som escapou de seus lábios preguiçosos.

Ele franziu o cenho, o que deveria fazer? Chamar a enfermeira? Chamar Tsunade? Avisar Naruto? Não sabia o que fazer, por isso optou por esperar. Ao contrário do que havia pensado ela não acordou imediatamente, nem nos segundos ou minutos seguintes, nem naquela tarde.

♦ ♦ ♦

Voltou ao hospital no outro dia a tarde. Nem ele nem Naruto haviam passado a noite no hospital, já que a enfermeira dissera que ela não acordaria. Ele nem fazia ideia do porque estava voltando lá, ele não tinha nada haver com o que se passava com a rosada, mas sentiu que tinha obrigação de ir pelos velhos tempos, em que muitas vezes ela passara com ele e com Naruto no hospital.

Não gostava de hospitais, fora exatamente em um quarto pacato de hospital em que havia recebido a noticia que devastara – e acabara – com a sua vida. Fora em um hospital que ele havia acordado e ficara sabendo da tragédia, da morte de sua família. Hospital lhe trazia uma lembrança ruim e nostálgica, um amargo na boca.

Como costume bateu na porta duas vezes e abriu, Naruto estava olhando para Sakura que havia acordado e estava quieta olhando para o lençol fino que cobria seu corpo. Ela olhou para ele no momento em que abriu a porta. Desviou o olhar envergonhado e depois o olhou de novo. Abriu a boca duas vezes e fechou-a sem dizer nada, os olhos esverdeados caíram sobre Naruto e voltaram para ele.

Não teve tempo de fazer nada, Naruto o puxou porta a fora sem despedir-se da kunoichi. Olhou para o relógio enquanto o loiro lhe arrastava pelo corredor até uma parte mais afastada. Era uma hora e quarenta e sete minutos. Seu olhar caiu sobre o loiro quando pararam de andar.

Os olhos do ninja hiperativo estavam marejados e ele não conseguia saber se ele estava com o olhar arrependido ou raivoso. Talvez os dois. Esperou até que ele falasse algo, realmente não sabia o que ele pensava nem o que falar. O loiro respirou fundo e abriu a boca, fechou, suspirou e abriu-a novamente.

— Ela acordou...

Não respondeu, mas percebeu o pesar na voz de Naruto. Não por ela ter acordado, e sim por algo a mais. Esperou mais um pouco.

— Ela... Ela... Ela falou... Comigo.

— Tch.

— Ela... Pediu desculpas... E queria conversar comigo...

— Então porque essa angústia Naruto?

— Eu não falei com ela. Não a respondi... E depois eu vi como ela se decepcionou como ela ficou triste...

— Então porque não falou com ela?

— Não posso, não consigo perdoá-la pelo o que ela fez Sasuke, acho que nunca mais será como antes, não sei se posso perdoá-la pelo o que ela fez antes, e nem pelo o que fez agora...

Não perguntou o que ela fizera, nem antes, nem agora. Achou melhor não se intrometer, assuntos pessoais, eram assuntos pessoais. Aquilo era entre Sakura e Naruto, ele não tinha nada haver.

— Bem... Eu volto amanhã cedo Sasuke. Não precisa ficar a noite, provavelmente ela dormirá.

Acenou com a cabeça em sinal de consentimento. Deixou Naruto para trás e foi afastando-se até chegar diante da porta branca novamente. Mais uma vez bateu duas vezes e entrou.

Ela estava do mesmo modo, olhando para o lençol, com o olhar triste. Uma mão continuava esticada onde o soro intravenoso passava e a outra estava repousada ao lado de seu corpo. Ainda estava pálida e com olheiras e seus cabelos estavam bagunçados.

Ela olhou para ele e desviou o olhar pelo menos duas vezes. Sentou-se na poltrona desconfortável e olhou para a janela. A rosada não se pronunciou, nem ele. A porta abriu-se e uma enfermeira já de idade passou segurando um saco de soro. Ela sorriu para Sakura e trocou o soro olhando para ele em seguida.

— Por favor, não deixe o soro acabar, sim? Quando estiver acabando chame uma enfermeira para trocarmos por gentileza.

Ele acenou em forma afirmativa e a enfermeira saiu fechando a porta. Continuou olhando para a janela, o céu estava cinza, iria chover, e pelo jeito, muito.

— Você... Realmente voltou.

A voz da rosada era um sussurro, afinal não era para menos, no estado em que ela estava já era um bom avanço ela estar conseguindo falar. Olhou para ela rapidamente, e depois olhou para uma viga trincada na parede. Não respondeu nem se pronunciou. Ela não ousou falar novamente.

Trovoou pela primeira vez naquela tarde. Observou a chuva fina que caia lavando a vila oculta da folha. Sua mãe adorava chuva – pensou.

— Você... Acha que ele vai me perdoar?

A rosada interrompeu seus pensamentos novamente. Ele não precisava perguntar para saber que ela falava de Naruto. Não a olhou.

Sua intenção não era ignorar Sakura, embora ele não fosse bom com palavras ou em conversar. Ele havia crescido sozinho, no silêncio, ele nunca havia tido ninguém para conversar com ele, ninguém para lhe confortar quando precisava, por isso não era bom em conversas nem sabia confortar uma pessoa.

A única experiência que tivera com confortos fora quando a própria Sakura confortava-lhe. Depois que a conheceu a garota irritante sempre esteve ao lado dele para dar-lhe conforto. Mas aquilo não mudara nada, ele ainda não sabia como confortar alguém.

Ela pareceu desistir e começou a olhar para a janela onde a chuva que havia aumentado caia. Observou que havia novas flores no vaso, desta vez eram flores brancas e delicadas.

— Ele vai.

Ela mirou-o no mesmo instante, os olhos verdes estavam arregalados. Ele... Ele havia respondido sua pergunta. A pergunta que ela fizera sem esperanças de receber uma resposta.

— Naruto não falou comigo hoje.

Ele acenou positivamente, sabia disto. Ela ficou em silêncio e ele também. A chuva lá fora aumentou ainda mais, depois diminuiu e aumentou novamente. Olhou para ela, estava sonolenta. Devido à falta de comida e nutrientes era obvio que ela não conseguiria ficar acordada por muito tempo.

Percebeu que ela resistiu para ficar acordada, olhou para ele, piscou duas vezes, e depois caiu no sono repentinamente, como se estivesse desmaiado. A medicação a risca que estavam passando-lhe no hospital deviam ser fortes.

Olhou-a em seu sono sossegado por alguns minutos e depois se levantou quando a chuva diminuiu passando a ser uma garoa. Fechou a porta com cuidado embora duvidasse que ela acordasse com algum barulho, ou que acordasse até amanhã.

Notas finais
Peço desculpas pela demora, e agradeço muito pelos reviews, eles me inspiram, embora eu não tenha tido tempo para responder li todos e agradeço por eles. Devo postar outro capítulo lá para terça ou quarta. Obrigada por ler!