Espelho
1 Capítulo O1: CAIXA AMARELA
ESPELHO
Escrita por Coffee
CAPÍTULO O1: CAIXA AMARELA
O espelho do banheiro estava embasado pelo tempo em que ficou exposto a água quente de seu banho demorado. Passou as mãos pequenas na superfície do espelho e logo pode ver sua imagem refletida ali, suas olheiras claras demonstravam cansaço e preocupação. Pegou o pente azul em cima da pia e pôs-se a pentear os longos cabelos róseos.
Como sempre estava sozinha, há meses não via nenhum de seus amigos. Ela não suportava vê-los, ver a felicidade que seus rostos exibiam enquanto ela sofria por um amor doentio e sem sentido, não aguentava vê-los saindo com seus namorados enquanto ela não tinha ninguém para lhe fazer companhia. Ela havia se afastado para que eles não vissem seu sofrimento e não o tomassem para si, para que não a vissem chorar como uma garota assustada, para que não vissem sua dor.
Saiu do banheiro levando consigo o pente e o colocando em sua mochila. Certificou-se que tinha mantimentos o suficiente para os dias em que estaria viajando, voltando para sua terra natal, Konoha.
Havia passado cerca de oito, nove meses – ela já não se lembrava mais – em uma missão humanitária em uma vila distante da qual precisava de ajuda. Fora mandada por Tsunade para a missão de apenas dois meses cuja qual prestaria serviços à vila como médica e ninja e depois voltaria a Konoha. Mas não voltou.
Durante esse tempo havia recebido poucas noticias sobre sua terra natal, sabia de algo quando Tsunade lhe mandava uma carta, ou quando ouvia algum ninja comentando algo. Ela recebera uma carta de Naruto também, com citações de seus outros amigos, carta essa que ela não respondera.
Em uma das cartas de Tsunade recebeu uma noticia que a abalara completamente. Uchiha Sasuke havia voltado, o moreno por quem ela correra atrás boa parte de sua infância estava de volta, com uma pena de três meses preso e cinco com uma quantidade mínima de chakra, até que provasse que não estava ali para cometer algum atentado contra Konoha e nem como espião.
Talvez tenha sido por isso que ela não voltara. Sua vontade de vê-lo era imensa, mas não tinha coragem, não sabia qual seria sua reação e nem qual seria a dele – provavelmente ele a ignoraria como sempre – mas ela não, mesmo depois de anos seu coração continuava batendo fortemente somente ao ouvir o nome dele. Então para fugir da sua própria impotência tomou como desculpa que a vila ainda precisava de ajuda e que ela deveria ficar mais algumas semanas. Semanas que se tornaram meses e mais meses.
Quantos anos ela passara implorando para que ele voltasse? Quantas noites ela havia ido dormir na esperança de que quando acordasse ele estivesse de volta? Mas agora ela não tinha mais essas vontades, ela estava machucada, magoada e não sabia se aguentaria vê-lo na sua frente. Não sabia se choraria, se gritaria se correria em sua direção para ser ignorada por ele ou se não conseguiria ao menos se mexer. E essas dúvidas estavam acabando consigo.
Estava voltando justamente por ter ficado muito tempo fora da vila, sabia que se não voltasse seria dada como uma ninja renegada e estaria oficialmente fora de Konoha, e ela não queria isso acontecesse. Ela havia sido criada naquela vila, crescera nela e era lá onde seus pais estavam enterrados.
Seus pais... Até eles haviam ido embora, até eles haviam a abandonado. Agora morava solitária, em um apartamento pequeno e simples se sentido mais sozinha do que nunca. Não tinha mais os abraços aconchegantes de seu pai e nem os conselhos de sua mãe, agora era ela, somente ela para tomar suas decisões, para guiar sua vida.
Colocou a mochila bege nas costas e correu os olhos pelo pequeno quarto que havia sido seu lar nos últimos tempos. Apagou a luz e fechou a porta, se despediu da senhora de idade que tomava conta da simples pousada que ela pagara em troca de seus serviços para a vila. As ruas estavam silenciosas e pacatas, ainda era madrugada, cerca de duas da manhã e ela preferia viajar a noite para que pudesse descansar de dia.
Chegou à saída e não olhou para trás nem ao menos uma vez, seguiu seu caminho pulando de galho em galho nas árvores úmidas pela chuva recente. Sentia falta de casa, de seus amigos e principalmente de Naruto.
Viajou durante o resto da noite e uma parte da manhã, só parou as dez para comer comida instantânea que havia trazido. Encostou-se a uma árvore após a refeição e se pôs a pensar. Será que seus amigos a perdoariam? Será que seria a mesma coisa de antes?
Antes de ir para essa missão sua vida se resumia ao hospital. Não saia mais, afinal suas amigas saiam com os seus namorados, em pares e ela não queria atrapalhar, não queria ser uma intrusa. Não queria que eles fossem contagiados pelo seu mau-humor constante, por isso ia do hospital para casa e vice-versa, se sobrecarregava de trabalho para tentar esquecer a ida dele, a morte de seus pais e a falta de seus amigos.
Muitas vezes nesse seu sobrepeso de trabalho esquecia-se de comer, talvez fosse por isso que ela ficara tão magra, muitas vezes tinha vertigens fortes pela falta de nutrientes no corpo, mas agora ela não tinha seus pais para a mandarem comer, não tinha sua mãe para lhe preparar comidas gostosas e pensar nisso doía. Vivia de alimentos instantâneos, sabia cozinhar, mas não tinha tempo para isso, lanches, comidas instantâneas e outras porcarias da qual comia na praça de alimentação do hospital eram mais práticos para ela.
♦ ♦ ♦
Foram três dias até avistar os grandes portões de Konoha. Passou pelos guardas assim que confirmaram sua identidade. A vila não lhe parecia tão diferente, talvez uma construção nova aqui e ali, mas nada realmente significativo. Andou até o prédio da Hokage, estava tarde, mas conhecendo sua mestra como conhecia tinha certeza que ela estaria lá enfunada em pilhas e pilhas de papéis.
O prédio estava vazio, apenas dois ninjas para a segurança da Hokage. Imaginou que Shizune devia ter ido dormir visto que ela dificilmente abandonava a loira. Sorriu quando abriu a porta após ouvir um ‘entre’ sonolento. Viu que a loira não mudara nada, seu rosto estava marcado, prova de que estava dormindo sobre os papéis que empesteavam toda a sala.
— Sakura, — Se levantou abraçando a pupila — Você está ainda mais magra.
Acrescentou com tristeza na voz.
— Não estou. Impressão sua Tsunade-sama — Mentiu descaradamente.
— Você não me engana Sakura. — Pensou que ela fosse continuar com o sermão, mas a loira mudou de assunto — Como foi à viagem?
— Bem... Estou cansada.
— Imaginei vá para sua casa, pedi para que a arrumassem e a limpassem quando recebi sua mensagem dizendo que voltaria, descanse e volte mais tarde quando se sentir melhor, eu quero saber sobre a missão.
— Está bem, obrigado Tsunade-sama.
Arrumou a mochila novamente sobre o ombro, ela precisava de um banho e de dormir em sua cama, precisava do conforto de seu apartamento e de um descanso urgente. Abriu a porta do escritório pronta para sair.
— Sakura?
— Sim shishou?
— Estou feliz que tenha voltado.
Sorriu fechando a porta e caminhando rumo ao seu apartamento, as ruas estavam desertas exceto por casais de namorados e poucos ninjas que assim como ela chegavam de suas missões.
Subiu as escadas do apartamento silencioso, não havia porteiro, nem recepcionista, o prédio era simples, cinco andares e escadas para eles, o prédio era povoado tanto por civis como por ninjas – por esse motivo não havia necessidade de haver alguém para passar dia e noite ali.
Procurou a chave apressadamente dentro da mochila, não queria entrar pela janela ela estava fechada e não queria estragar a janela que trocara antes de ir viajar, janela que ela mesma havia quebrado entrando após perder a chave em algum lugar que até hoje não encontrara.
Finalmente achou a chave simples com um chaveiro de estrela que ganhara de Ino há muito tempo atrás. Abriu a porta e acendeu a luz, o apartamento pequeno estava como ela o deixara, conservado e limpo como Tsunade dissera.
Andou até o quarto jogando os pertences que trazia em um canto qualquer. Pôs a banheira a encher enquanto se despia – precisava desesperadamente de um banho. A água quente parecia queimar sua pele, mas logo se acostumou. Demorou mais do que esperava no banho.
A geladeira e o armário haviam sido reabastecidos, mas ela não tinha fome, muito menos vontade de comer. Andou até a sacada abrindo a porta para a mínima varanda, o vento fez seus cabelos e a sua camisola cor-de-rosa balançarem. Observou à vila iluminada e colorida, o vento gélido, o barulho dos grilos, os pássaros dormindo nas copas das árvores... Como ela tivera coragem de ficar fora tanto tempo?
Abriu o guarda-roupa pegando a caixa amarela que ela jurara nunca mais abrir. Abriu. O porta retrato estava exatamente como deixara, virado, mas ao invés de estar sobre a cômoda como antigamente, ele estava na caixa junto com outras fotos velhas. Pegou-o nas mãos pequenas e brancas o virando delicadamente. A dor veio assim que o virou. Lá estava o antigo time sete... Ela gostaria tanto de poder voltar a aquele tempo, viver aquela felicidade novamente, viver aqueles momentos do qual se recordava tão bem.
Queria seus velhos companheiros de time novamente, Naruto com seu jeito bobo e sorridente, Kakashi com aquele sorriso costumeiro e não com um olhar de decepção por ver seu time destruído, separado.
Sasuke... Ah como ela queria aquele velho Sasuke de volta, o garoto inocente e prestativo. Aquele que mesmo sendo frio e distante era possível ver em seus olhos algo como ‘eu me importo com vocês’ aquele garoto com raros mais lindos sorrisos e não aquele em quem se transformara que a única coisa que dava era sorrisos sarcásticos...
Ela queria até a velha Sakura de volta, a sorridente, a preocupada e a que fazia de tudo para ficar perto dos amigos ao invés de se distanciar deles, mas não conseguia ser novamente a mesmo de antes, ela estava machucada, magoada demais para fingir que nada acontecera.
Segurou as lágrimas que se formavam nos olhos verdes, há muito tempo não chorava e não queria chorar agora. Cada vez que olhava o porta retrato seu coração doía, as lembranças invadiam sua mente e seu coração parecia ser arrancado, tamanha sua dor. O desespero começou a tomar conta de si, jogou o objeto na caixa e saiu pela casa escura em busca de remédios. Pegou dois comprimidos e os tomou com água.
Sua dor foi esvaindo-se, foi ficando mais calma. Fechou a porta estreita da sacada e a cobriu com a cortina de seda branca, deitou na cama, a caixa estava em seus pés ia tirá-la de lá, mas seu corpo foi ficando pesado, seus olhos foram fechando-se e em questões de segundos estava dormindo sob o efeito dos remédios.
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