Espelho
29 Capítulo 29: SABOR CHOCOLATE
Notas iniciais
ESPELHO
Escrita por Coffee
CAPÍTULO 29: SABOR CHOCOLATE
— Como se sente?
Foi à primeira coisa que ele lhe perguntou dentro de dois dias que ele havia vindo lhe visitar e três dias que ele passara fora em uma missão.
Fazia cinco dias que tinha sido operada, (contra sua vontade, e as pressas) e estava se recuperando bem – na medida do possível.
Era nove de agosto, uma sexta-feira, o exato dia do casamento de Naruto e Hinata. O loiro havia se recuperado, claro, pelo poder de cura contido dentro de si e da ajuda de algumas enfermeiras e com sorte, pode ir ao casamento.
Olhou para o relógio, eram nove e meia da noite, o que significava que Sasuke não passara muito tempo na festa. Tirou o olhar do relógio, e colocou-o sobre ele, encostado na parede, com as mãos nos bolsos da calça social preta.
Ele usava uma camisa branca, e o terno também negro, fazendo par perfeito com seus cabelos e com seus olhos como a noite. Apenas a gravata, roxa, em um tom também escuro se destacava.
— Estou... Bem. Como foi o casamento?
— Foi... Normal.
Antes que tivesse algum controle sobre si, suas sobrancelhas rosas se elevaram. Ele a olhou, e desviou o olhar rapidamente.
— Naruto... Parecia... Feliz.
Ele parecia incerto sobre o que falar não que ela esperasse algo diferente dele, claro que Sasuke jamais sentaria ao seu lado e lhe contaria todos os detalhes mínimos do casamento, não, nunca, não Sasuke.
— Sei que sim.
Ficaram algum tempo em silêncio, não soube dizer quanto.
— Suas pernas... – Ele não continuou a frase.
— Está voltando, lentamente, minhas mãos estão bem melhores, Tsunade-sama, disse que se tudo ocorrer bem, logo estarei curada.
Ele acenou positivamente com a cabeça e andou lentamente até o sofá, afastado de onde ela residia. Ele tirou o terno preto, ficando apenas com a camisa branca e a gravata, e se sentou no sofá, deixando o pano preto ao lado.
Não entendia o motivo de ele ter deixado uma festa, cheia de conhecidos, amigos, ninjas, comida e bebida tão cedo, para sentar-se ali, no sofá azul, claramente desconfortável, olhando uma paciente moribunda.
Como será que ele se sentia? Depois de tudo, tudo que havia acontecido, depois de todas as brigas, lutas, vingança, ele... Sentia-se... Bem?
A vontade de perguntar coçou em sua língua.
— Como... Você se sente?
Não acreditou quando ouviu sua própria voz dizendo aquilo. Amaldiçoou-se várias vezes seguidas quando ele a olhou como se não entendesse a pergunta.
— Depois de... Tudo.
— Depois da vingança?
A menção da palavra dita pela boca dele, a fez tremer.
— Não só... Disso. Como... Se sente agora?
— Sério que você não quer saber sobre a vingança?
Se ele não fosse Sasuke, teria dito que ele havia rido suavemente pelo nariz.
— Por quê?
— Você foi a única pessoa, que... Não me encheu de perguntas sobre isso, digo, sobre a vingança...
— Não me importa.
— Hum?
— Não me importa os motivos, o que aconteceu, ou o que você teve que fazer para consegui-la. Fico feliz em saber que você está aqui, de volta.
Ele a olhou e desviou o olhar, imperceptivelmente pensou ter visto o canto dos lábios dele se elevarem alguns milímetros, antes de voltar ao normal.
Algo em seu peito se aqueceu. Céus como sentia falta dele! Como doía olha-lo todos os dias, toda hora, e não poder toca-lo, e não poder abraça-lo, sabendo que ele nunca, jamais, seria seu.
Ela nunca se casaria com ele, eles nunca teriam uma casa grande, ampla com crianças de cabelos e olhos tão negros quanto à noite correndo para lá e para cá.
A sua dor física não era nada nesse momento, comparada à dor que ia e vinha no seu peito. A dor de saber que antes mesmo de terem alguma coisa, estava tudo acabado.
O beijo em sua casa a deixara confusa. Pensou por um tempo que talvez, só talvez, ele sentisse algo por ela. Mas chegou a conclusão que não acontecera nada, foi um erro, um engano, provavelmente provocado pelos hormônios.
Ele não lhe quisera antes, quando era bonita, não que se achasse bonita, mas era bem melhor do que agora, onde pesava dez quilos a menos que o normal, tinha uma cor fantasmagórica, e um corte horroroso no abdômen.
Seu coração se contraiu, cada batida, cada tum, tum, tum, era doloroso, como se uma kunai estivesse cravada ali e por mais que tentasse, por mais que quisesse não conseguia tira-la dali, ela continuava ali, cravada, firme, dolorosa.
Pensou nos remédios, sua fuga, sua salvação, como os queria. Por um instante, pensou o porquê de Tsunade não tê-la deixado morrer. Seria melhor para ela, seria melhor para todos.
Não teriam que cuidar do fardo que ela se tornara, não teriam que se revezar para ajuda-la com tarefas simples, como se alimentar ou mudar de posição. Ela não teria quase atrapalhado o casamento de Naruto...
Seria tudo mais simples, não existiria mais dor, não existiria mais nada.
— Você está bem?
A voz lhe fez tremer, tirando-a de seus pensamentos.
— Hum?
— Seu estômago... Está roncando.
Sentiu ardência nas suas bochechas.
— Estou com fome.
— Não lhe deram nada?
— Apesar de já fazer cinco dias, não posso comer coisas pesadas. Estou em um tipo de... Dieta especial. Na maioria das vezes me dão sucos, ou coisas liquidas. Tomei uma sopa que mais parecia água, cinco horas da tarde.
— Não pode comer mais nada?
— Se eu pedir vão me trazer um chá.
— E o que você queria?
— Huuum... Sorvete de chocolate.
Riu levemente com a ideia. Sorvete de chocolate em um hospital. Sasuke olhou-a com as sobrancelhas erguidas, não sabia se era por ela querer sorvete de chocolate ou por ela ter rido sem nenhum motivo aparente.
Ele não respondeu, continuou na mesma posição, em silêncio por intermináveis minutos. Depois se levantou, pegando o casaco negro e segurando-os nas mãos.
— Tenho que ir, já está tarde, nem queriam me deixar entrar por causa do horário.
— Entendo.
Tentou no máximo possível, esconder a decepção na sua voz, por ter que ficar sozinha. Por mais que doesse a presença dele, gostava da sensação de tê-lo por perto.
Ele saiu, fechando a porta sutilmente, deixando-a sozinha com o sentimento de solidão. Quis chorar, quis chamar as enfermeiras e pedir que lhe dessem um sedativo. Quis levantar dali e sumir.
Não fez nenhuma, continuou ali. Apenas alguns minutos depois, as lágrimas vieram, não conseguiu erguer suas mãos para limpar o rosto.
Não soube quanto tempo havia se passado, desde que suas poucas lágrimas viraram soluços e mais soluços.
Bateram na porta uma vez. Era uma enfermeira, Maya. Ela carregava um objeto branco nas mãos, e sorria. Ela era baixa, de meia-idade, talvez um pouco velha demais para trabalhar tanto.
— Olá querida, está com dor?
— N-n-não.
— Oh querida! Não chore! Logo poderá sair daqui.
“Não sei o que é pior, ficar aqui, ou em casa sozinha”, pensou, mas não disse em voz alta, apenas deu um sorriso fraco para a enfermeira.
— Fiquei sabendo que estava com fome.
“Oh, a sopa-água de novo não!”, quis matar Sasuke por ele contar para a enfermeira que estava com fome. Ou seria chá ou a sopa. Seu estômago se contorceu em disgosto.
— Falamos com um médico que está de plantão e ele disse que tudo bem, desde que não tome muito.
— Não quero sopa.
— Que sopa? Estou falando do sorvete de chocolate que o menino alto de cabelo preto deixou aqui.
— Sorvete de... Chocolate?
— É ele pediu para que entregasse a você, caso você pudesse tomar e saiu.
Foi como um calmante. Nada mais existia, nem a enfermeira com o sorvete na mão, nem os fios ligados a si, nada.
— Querida, por que está chorando? Não gosta de sorvete? Está com dor?
— N-n-não! Quero o sorvete!
— Consegue mover suas mãos?
Balançou a cabeça negativamente.
— Certo, vou lhe ajudar.
A senhora sentou-se na beirada da cama, abrindo o copo e pegando o sorvete com a colher vermelha de plástico.
Abriu a boca feito uma criança, sorvendo o gosto de chocolate, o gelado percorreu sua boca, causando um arrepio gostoso por todo o corpo. Sorriu em satisfação. Embora não soubesse a causa, o porquê de ele ter deixado aquilo, algo se aqueceu em seu peito, apesar do gelado provocado pelo sorvete.
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