Especulações
1 One.
Notas iniciais
A solitude esmagadora se dissemina por meu busto sombria como uma neblina negra. No começo, uma acinzentada fumaça tênue como vapor. Depois, uma densa névoa escura, que puxa para baixo. Que cresce, carece, padece.
Tenho a inusitada sensação de que há um pássaro. Um pássaro fundido de tristeza e aflição. E ele flutua, com toda sua pompa por meu peito sufocado.
É selvagem.
É animalesco.
É visceral.
E dói, dói como o diabo.
Fragmentos de uma Eu que costumava fazer sentido, espalhados pelo assoalho em forma de papéis picotados. Pedaços de cartas rasgadas, não endereçadas e sequer enviadas. Palavras que quis, mas nunca te disse. Desprezadas — assim como eu.
E cada rasgo no papel, é um rasgo em minha tenra alma, escavando profundas cicatrizes onde um dia houve um coração.
E eu só sei que dói. Dói como o diabo.
Inspiro. Sinto o cheiro da morte. Ouço seu som.
Ela cheira a cinzas, ao pútrido de um necrotério, ao cheiro metálico do sangue — bem, talvez esse último cheiro fique por minha conta.
Sua voz gasta, áspera e embargada sussurra em meus ouvidos e torna tudo mais convidativo do que deveras é.
Segredo a ela minhas últimas palavras e ela acolhe-as como uma fiel confidente.
Então, permito-me descansar.
"Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro", assim como eu mesma.
E não dói como o diabo, não mais.
A dor se dissipa por meu peito. A densa penumbra escura se vai, me deixa só. E pela primeira vez, consigo apreciar e até gostar da solidão. Da sensação de vazio que a dor causa quando se vai. E ela se foi. Assim como você, que no fundo foi a motivadora de toda essa merda. Você sabe disso.
No alvorecer, encontrarão meu cadáver.
Já posso ouvir os rumores.
A velha do 404 acha que foram as drogas.
A mal-comida do 101 tem certeza de que foi o cigarro.
Bebidas, suicídio, leite com manga. Cada uma me mata de um jeito.
Você riria disso, não fossem duas pequenas coisas. Primeira: isso é trágico demais até para você sorrir aquele seu sorriso frouxo e cafajeste, — principalmente para uma garotinha meiga feito você — segunda: você não está mais aqui.
Mas bem, deixem-nas com as especulações e nós com as certezas.
Porque diferente do que elas pensam, as facas, os revólveres, as cordas em volta do pescoço, os narcóticos, as bebidas, os comprimidos sem receita e afins são inteiramente dispensáveis.
A verdade, meu amor, é que eu morri de você.
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