Espectro da Minha Loucura
1 Capítulo Único
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Célia não sabia nada sobre a garota que costumava frequentar a cafeteria onde ela trabalhava, nunca sequer haviam iniciado uma conversa. Mesmo assim, se fosse necessário, poderia passar horas falando dela. Sobre como chegava à cafeteria em dias imprevisíveis, nos horários mais aleatórios possíveis e nunca fazia o mesmo pedido, pois queria experimentar todos os sabores de café disponíveis no cardápio. A garota parecia estar sempre de bom humor, até mesmo quando estava sentada sozinha aos sábados à noite ela emanava um sentimento bom, de estar feliz sem depender de outra pessoa. Talvez fosse isso que lhe atraísse tanto àquela estranha, mas nunca teve coragem de ir falar com ela, afinal, estava em seu horário de trabalho e não seria uma atitude ética de sua parte.
Apesar de tudo, por algum motivo desconhecido a garçonete estava obcecada. Falava sobre ela pra o seu noivo, Gregório, quando se sentavam juntos à mesa para o café da manhã e até na cama, quando conversavam e trocavam carícias.
Até que um dia Célia formulou um plano para saciar sua vontade de falar com ela. Era uma terça feira à tarde e o movimento da cafeteria nesses dias eram vagarosos, um ou dois gatos pingados. Preparou uma xícara de café e esperou a oportunidade certa para colocar sua estratégia em ação, quando a garota deu sinal que ia se levantar, Célia correu apressada e provocou um esbarrão, fingindo distração.
— Oh, minha nossa, me desculpe, moça... Estava com tanta pressa! – disse tentando soar mais convincente do que realmente deveria parecer. Suas mãos tremiam e ela estava toda coberta pelo líquido preto, mas o que mais temia era a reação da garota que havia acabado de colidir propositalmente.
— Tudo bem, acidentes acontecem – respondeu limpando o braço com um guardanapo – Nós não já nos conhecemos de algum lugar?
Célia ficou surpresa com a pergunta inesperada.
— Só se for de outra vida, moça.
— Pode me chamar de Alice – riu.
Ainda que estivesse com o avental e a sua camiseta de trabalho todos manchados, tinha valido a pena, afinal elas passaram a se cumprimentar quando se viam e isso rapidamente levou a florescer uma amizade. Alice passou a ficar cada vez mais tempo lhe fazendo companhia no trabalho e elas conversavam sobre tudo, tinham tanto em comum, como se fossem a mesma pessoa, mas ao mesmo tempo eram muito diferentes.
Alguns meses haviam se passado quando Célia começou a sentir que algumas coisas estavam estranhas. Para começar, agora ela mal falava com o seu noivo, já que ele ficava com raiva toda vez que ela começava a falar de Alice e este era o único assunto que ela queria ter. Por isso, se tornaram cada vez mais distantes. Mas ela só percebeu a gravidade da crise quando chegou em casa numa sexta-feira à noite e encontrou um bilhete posto em cima da mesa. A mensagem era clara, ele estava indo embora.
Desejou ligar pra a sua amiga. Talvez a única amiga que tivesse lhe restado, mas percebeu que nunca haviam trocado números de telefone. O silêncio daquela madrugada foi violento. Às vezes sentia como se Gregório ainda tivesse ali, sua presença era muito forte em cada metro quadrado do apartamento, as fotos, o cheiro, os presentes, as lembranças. Ela havia largado toda a sua vida por uma pessoa que mal conhecia e agora ponderava sobre suas escolhas. Gritou e chorou, rasgou todas as fotos de casal que tinham e contou sua respiração para calar seus pensamentos e se acalmar: 1001, 1002, 1003...
No dia seguinte, Alice estava esperando por ela como fazia todos os dias da semana, ela nunca parou para perguntar como a sua amiga tinha tanto tempo livre, o que fazia e onde morava. Percebeu que ela era uma completa estranha, e mesmo assim sentia uma vontade doentia de estar perto dela.
— O meu noivo me largou – confessou – Ele foi embora e deixou apenas um bilhete, disse que foi por sua causa.
— Ele também disse que você não era real.
— Que balela, é claro que eu sou real – tocou seu rosto com as duas mãos – A partir de agora estamos juntas. Na alegria e na tristeza.
Acreditou e ignorou qualquer sinal de perigo que a sua mente alertasse.
Se distraiu dos últimos acontecimentos de sua vida caótica enquanto trabalhava naquela tarde. Célia servia mesas, anotava pedidos, fazia cafés bem elaborados e depois limpava tudo, trabalhava naquele estabelecimento há dois anos e tudo ali lhe era familiar.
Estava pronta para ir embora quando o seu chefe lhe chamou para conversar no escritório, uma salinha apertada que recentemente havia passado por uma reforma mas que ainda conservava o cheiro velho de toalha molhada.
Naquela sala, estava a última pessoa no mundo que ela esperava encontrar, sua irmã Tatiana, que não via há tantos anos e estava vestida de roxo da cabeça aos pés. Ao lado dela, haviam dois homens desconhecidos, apesar de parecerem extremamente familiares, e um policial armado.
Não houve nenhum abraço da sua irmã ou olhar afetuoso.
E foi com o mesmo olhar grosseiro e de indiferença que sua irmã deixou que os dois homens a algemassem à força e a levassem para o lugar ruim. Um lugar onde ela era obrigada a tomar muitos remédios e a praticar terapia em grupo, algo que repudiava.
Foram necessários cinco anos para que ela fosse julgada apta para reintegrar à sociedade. Para todos os efeitos, estava curada de sua doença incurável – nada que mais remédios não resolvessem – eles disseram.
Entrou no seu apartamento. Ninguém estivera ali nos últimos anos, ela percebeu isso quando abriu a porta e um jato de ar quente invadiu suas narinas junto de um forte cheiro pútrido de mofo e naftalina, as janelas enevoadas com a poeira depositada pelo tempo, fora isso, tudo estava no mesmo lugar que deixara. As fotos de casal rasgadas no chão, o avental da cafeteria com a familiar mancha de café que nunca saíra. Sobre a mesa, vários frascos de soníferos vazios, o quebra-cabeça e o bilhete.
Segundo as pessoas do lugar onde ela estava, Alice nunca existiu, foi uma criação da sua mente e um refúgio. Célia costumava criar personagens em sua cabeça que eram tudo aquilo que ela sempre sonhara em ser. Alice era um deles, e acabou demonstrando ser uma personalidade violenta, chegando a deixar o noivo à beira da morte por puro capricho. Quando a culpa chegou para rasga-la por dentro, materializou outra personalidade que escreveu um bilhete, fazendo-a acreditar que havia sido abandonada. Célia e Alice eram inseparáveis, eram uma só, mas nos últimos cinco anos essa ligação fora rompida. E este era o único motivo dela estar livre.
Tomou um banho e tentou colocar seus pensamentos no lugar. A partir de agora ela era uma pessoa completamente nova, única e independente. Estava pronta para começar a viver de verdade, renascida.
Ouviu um barulho vindo do lado de fora.
Tremeu.
Com um canivete em mãos saiu do chuveiro para procurar a origem do ruído.
Não encontrou nada. Nada além de um envelope ainda lacrado sobre sofá. Apesar de receosa, não hesitou em abri-lo e revelar seu conteúdo. A última coisa que ela queria nesse mundo era que o seu passado voltasse para assombra-la.
Dentro do envelope estava apenas uma única foto, apesar da péssima resolução, ali estava ela, mas não podia ser verdade. Alice nunca existiu. Alice nunca existiu. Alice nunca existiu. Repetiu para si mesma.
No verso da foto, apenas uma única frase, “Não há nada de errado com a sua mente”.
Mais um barulho.
Se virou rapidamente com o canivete ainda em punho.
A porta estava entreaberta. Podia jurar que havia trancado.
— Alice? – chamou para a penumbra.
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