Notas iniciais
Eu estava com sono quando escrevi, não me levem a mal se estiver ruim. Arrumarei eventualmente.

Não faz muito tempo que a mãe de Lisa começara a agir estranhamente. Sempre sorridente, vívida e carinhosa com sua família, hoje, não se sabia o porquê, mas seu semblante estava pálido e tenebroso, sua pele muito mais esbranquiçada, e seus trejeitos, típicos de uma boa mãe e esposa, eram bem mais reservados. Ao invés de cumprimentar a filha que acabara de chegar da escola com um sorriso e um forte abraço acalorado, ficara em silêncio, no sofá, tricotando um suéter velho. Mas Lisa nada disse, pensou que talvez a mãe teria se esquecido, afinal de contas, ela não tinha obrigações de mimar a filha todos os dias. A garota subiu as escadas para o quarto apenas dizendo um “oi” que não obteve resposta.

A propriedade dos Wilbur era vasta. Localizada na região rural da cidade, não havia vizinhos, e tampouco estabelecimentos comerciais a menos de dez quilômetros. A única coisa que se podia ver no caminho para lá, era mato e animais selvagens perambulando pela floresta. A casa principal da propriedade era dividida em duas alas, a de hospedagem – localização dos quartos – e a pública, onde ficava a enorme sala de estar na qual eram servidas as refeições aos hóspedes, além de uma área de recreação e um belo hall de entrada revestido por papel de parede de veludo vermelho. Havia ainda a casa secundária, um casebre rústico que servia de moradia a família, um rancho para o as animais, a área de plantações, uma estufa e uma casinha de bonecas que nem era tão pequena quanto o nome sugere.

Já era noite e Lisa estava à mesa de jantar, esperando que sua mãe, virada de frente para a pia, terminasse de cortar os vegetais para a salada. Ela nada dissera desde que a filha havia trocado de roupa e descido do quarto. Lisa também não chegou a olhar nos olhos em nenhum momento, pois a mãe parecia sempre estar evitando-a, desviando sua visão para os lados. A cozinha, assim como os demais cantos do casebre, era tipicamente rústica. No centro, havia uma velha mesa circular de madeira, rodeada por cadeiras cujos encostos e assentos eram feitos de felpo branco e pontudo. Os azulejos do chão, marrons, meio tortuosos, mas bem lisos, foram, sem dúvidas, postos por alguém que não se importava com qualidade, já que em diversos pontos era possível ver um pouco de reboco sobressalente. As paredes esverdeadas, no entanto, eram muito bem pintadas e de higiene fenomenal por conta da dona de casa que ali vivia.

— Mãe... – murmurou Lisa, encolhida em sua cadeira.

— O que foi, garota -, grunhiu ela batendo a faca sobre a pia e derrubando alguns tomates –, não vê que estou fazendo a janta?

— Desculpe... – respondeu Lisa assustada. Sua mãe nunca pareceu estar de tão mau humor, alias nunca a vira sequer levantar a voz. Todas as broncas que ela levou na infância por travessuras foram dadas ao típico tom de voz suave, mas sem perder a destreza que lhe impunha o respeito e a soberania matriarcal.

Lisa resolveu tentar puxar assunto outra vez. A jovem de curtos cabelos chaneis que descaíam até os ombros vestia um suéter simples com listras que fora tricotado pela mãe, uma calça de moletom verde-água muito confortável e chinelos de borracha azuis. Seu rosto, bonito e rosado, tinha um formato quase circular e bochechas meio rechonchudas que provavelmente herdara de seu pai. Da genética materna, concebeu seu nariz achatado, o negro e a lisura em seus cabelos, além de seus miúdos e luzidios olhos castanho-claros. Levantando-se do assento, começou a falar.

— Hoje, na escola, tivemo prova de Física. – A voz de Lisa tinha um leve sotaque caipira, não tão grande quanto o de seu pai que às vezes falava expressões que nem mesmo a filha entendia, embora ele tenha tentado explicar tantas vezes. Já a mãe, Elizabeth Morstan, tinha origem citadina, mas também nutria um grande amor pelo campestre, tanto é que se casou com um fazendeiro. Desse modo, sua fala era uma fusão da de seu dois progenitores. – Foi complicada é dimais da conta, me matei de estuda, mas mesmo assim não consegui tirà mais que cinco e meio. A Academia Ellingham faiz por merecê o titulo de melhor da cidade.

Elizabeth continuou a ignorá-la. Olhava fixamente para as janelas a sua frente, observando as folhas e os cipós encostados sobre os vidros. O som dos grilos era alto. Agora ela descascava, uma a uma, as cebolas. Lisa resolveu se aproximar da mãe. A dona de casa estava com o cabelo preso. Lisa notara seu pescoço. Parecia que havia sido atacada por uma horda de vespas e marimbondos. Os inchaços vermelhos e enormes pareciam querer eclodir como espinhas e, a cada passo de Lisa, a mãe meneava bruscamente a cabeça para os lados, raspando as feridas com suas unhas compridas e pontudas. A filha franziu o cenho, ao mesmo tempo em que as luzes da cozinha começaram a piscar. Estendendo o braço direito, visou o ombro da mãe. Antes que Lisa pudesse alcançá-lo, no entanto, a energia caiu. Um grande estrondo, que provavelmente era um transformador faiscando, ecoou pela fazenda. Tudo enegreceu.

— Mamãe... Você esta aí... – Lisa, mesmo não enxergando, avançou sobre onde a mãe estava. De repente sentiu um aperto no braço. Uma mão fria e úmida o agarrava. Com um puxão para baixo, Lisa foi jogada ao chão.

— Fica longe! – ouviu um berro que parecia ser a mãe, mas não sabia dizer. A voz era muito mais esganiçada e aguda, parecia um urso grunhindo em busca de uma presa. A garota se levantou, trêmula e arrepiada. Apalpando a pia e os móveis, tentou chegar até o candelabro que ficava sobre a geladeira. Então, acendeu-o com um fósforo guardado numa das gavetas sob a pia. Não havia mais ninguém na cozinha além de Lisa. Caminhou lentamente em direção ao corredor para checar a sala.

— Mamãe... O que que tá havendo? Ocê tá esquisita por... – Um outro estalo a interrompeu. A luz, agora muito fraca, retornava. Virou-se de costas rapidamente para a cozinha de novo.

— Mamãe não ta aqui não. – Em sua frente, sentada sobre o chão, Elizabeth mantinha o olhar fixo e vazio sobre a menina. Agitada e ainda se coçando, a pele agora parecia se esfolar e descascar como a de uma cascavel. Com a faca de cozinha na mão avançou sobre a filha e a derrubou no chão. Grunhindo e berrando, tentou cravar a faca no peito de Lisa, que com todas as forças que tinha, resistia à força inescrupulosa de sua mãe. Direcionando a faca para o lado, conseguiu jogar a mulher, para debaixo da mesa, num chute lateral, o que acabou irritando-a. – Sua vadiazinha! Vou te cortar em pedaços...!

Num rápido giro, Lisa se arrastou a uma pequena estante. Colocou a mão embaixo dela, em busca de algum instrumento que tinha certeza de estar ali. Enfiando a mão ainda mais ao fundo, muito assustada e tensa, conseguiu o encontrar. No entanto, nesse meio tempo de alcançar o machado que ali estava escondido, Elizabeth deu um salto com a faca nas duas mãos levantadas sobre a cabeça e atingiu, em cheio, o calcanhar de Lisa. A garota gritou alto, enquanto seu sangue começara a escorrer sobre o chão. A faca havia atravessado sua perna e a dor instantânea era ainda mais insuportável, pois sua mãe a segurava com força brutal. Mesmo fraca, Lisa, também com as duas mãos, contorcendo-se sobre o chão, manejou o machado e atingiu a mão de Elizabeth, abrindo uma fenda em seu pulso. Ela soltara a faca e Lisa, agora livre, conseguiu se arrastar para o corredor.

Antes que sua mãe pudesse reagir, Lisa se escondeu no armário da sala.

— Onde é que você tá, menina?! – Saiu berrando por uma porta do outro lado da sala de estar em busca da garota. Lisa viu tudo por uma fresta.

— Mãe... – murmurou. Precisava sair e procurar ajuda o mais rápido possível. Talvez pudesse consegui-la na ala de hospedagem...

Notas finais
Tem mais depois. Até.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.