Notas iniciais
Heeeeey minha primeira vez aqui nesse especial. Link da música que dá título ao capítulo: http://www.youtube.com/watch?v=ZF2A4i1Itlk Espero que gostem e... é muito tarde pra uma fic natalina?

Still I need your sway

'Cause you always pay for it

And I, and I need your soul

'Cause you're always soulful

And I, and I need your heart

'Cause you're always in the right places

Por fim, depois de um fazer uma tanto de esforço, Katie conseguiu fechar sua antiga mala marrom. Era meio estúpido insistir em viajar para o outro lado do país com um todas as suas coisas guardadas numa bagagem tão velha, bolorenta e antiquada. Ainda mais levando em consideração que a mesma fora do seu pai, o qual não hesitara em lhe largar num acampamento que supostamente era feito para “crianças especiais” como ela. E nunca ter ido lhe visitar em mais de dez anos.

No fundo, a única explicação lógica que tinha para tal ato tão nostálgico era a ideia de poder se agarrar a pelo menos alguma coisa do seu passado, visto que teria que fingir que os últimos onze anos nunca tinham acontecido. Nada de meio-sangues, deuses gregos e magia. Apenas uma menina normal que morava em Nova York e passou nos vestibulares e foi aprovada para cursar Botânica na Califórnia.

É estranho ter que fingir que uma parte da minha história nunca existiu, pensou. E ter que fingir ter tido outra vida, e ter sido outra pessoa, e ter tido outros amigos. E nunca, nunca ter mudado e salvado o mundo na tão decisiva batalha contra Cronos. Uma heroína que deixa uma boa herança mas não pode glorificar-se de seus atos.

Sentou-se na cama, de repente sentindo-se exausta e vinte anos mais velha, passando as mãos pelos cabelos acobreados e pelo cardigã fino. Aliás, estava anormalmente frio naquele dia de dezembro, levando em conta que no Acampamento Meio-Sangue, não importa que o mundo esteja acabando (ou importa) lá fora, faz sempre um sol de rachar.

Então a porta abriu e a segunda coisa que notou, depois do rapaz loiro entrando sem ao menos bater, foi a neve que caía suavemente lá fora. Claro, era inverno, mas para os humanos. Por que raios estaria nevando...?

– Katie, é Natal – disse Travis Stoll, fechando a porta e em seguida esfregando uma braço no outro, um claro sinal do frio que sentia – por que você não tá lá, junto com seus irmãos, tipo, comendo e essas coisas?

– Ahhhh claro – murmurou para si – e Travis, o Natal não é uma data comemorada pelos gregos...

– Mas é um dos melhores feriados dos cristãos. Comida pra cacete, peru, chester, rabanada e todas essas coisas que as famílias se juntam pra comer. E nós somos meio que uma família também, então Quíron recebeu fazer, sabe, uma espécie de ceia para nós.

– Ahhh

– Você vem?

Ela balançou a cabeça negativamente e em seguida baixou o olhar. Por mais que o filho de Hermes não fosse a pessoa com quem mais simpatizava, bem, ele era mais alguém que deixaria em um passado do qual não poderia se lembrar.

– Ei, tá tudo bem? E qual o motivo dessa mala? – ele perguntou, sentando-se ao seu lado e Katie, em resposta, afastou-se, erguendo um muro de autodefesa ao seu redor.

– Olha, Stoll, eu nunca gostei de você e você nunca gostou de mim. Então, eu não lhe devo satisfações e você não me deve satisfações. Agora, será que você poderia me deixar em paz, por favor?

Mas Travis nem se mexeu. Em vez disso, tentou aproximar outra vez e a garota fez o mesmo que anteriormente, dessa vez segurando o choro. Porque ela era forte o suficiente para não chorar na frente do cara que passara sua infância e adolescência inteira tentando a transformar em motivo de piada para todo o Acampamento.

– Porra Stoll, vai embora.

Silêncio.

– Vai lá contar pros seus amiguinhos e aproveitar o Natal para comemorar que a Katie do Mato Gardner vai embora.

Silêncio novamente.

Dessa vez, já repleta de impaciência, ela se levantou e abriu a porta, fazendo um gesto para que o rapaz fosse embora. Este, até caminhou em direção a saída, mas em vez de se retirar, fechou a menina contra a superfície de madeira, pressionando-a contra a mesma. Perto demais.

– Gardner, eu não posso fazer nada... – sussurrou ao pé do ouvido – se seus olhos são cor de mato.

– Arrrrgh, eu te odeio! – Katie gritou em resposta, empurrando Travis para longe de si e arrancando uma risada do mesmo.

– Mas hein, sério, por que você vai embora?

– Mas hein, sério: cai fora.

– E se nós começássemos de novo?

– Como é que é?

Ele fez um sinal para que esperasse e retirou-se do chalé. Katie estava prestes a soltar um suspiro de alívio quando o filho de Hermes entrou novamente, com um sorriso de orelha a orelha que lhe dava vontade de vomitar.

–Buongiorno, signorina*. Será que posso nobremente carregar sua bagagem até a Colina Meio-Sangue?

– Travis – ela respondeu, revirando os olhos – eu só vou amanhã de manhã. Só estou, sabe, arrumando a mala.

– Ahh claro... – disse frustrando, sentando-se no chão do chalé – quer chocolate?

Ela deu de ombros e se sentou a sua frente, dando uma mordida na barrinha que ele lhe oferecera. Provavelmente roubada de algum inocente (ou nem tanto) novato do chalé de Hermes. E provavelmente, aquele teria sido o presente de Natal da própria criança dado por Quíron, ao descobrir o que realmente era.

Fizeram um longo período de silêncio, no qual só podia se ouvir o barulho dos dentes de ambos mastigando. Quando o chocolate acabou, Katie finalmente colocou para fora o que tanto guardava dentro de si:

– É só que... estou crescendo. Quer dizer, esse lugar é incrível, mas não posso ficar aqui para sempre, não é? Outras crianças vão chegar e elas vão precisar de espaço. Não é justo passar uma vida aqui e deixar que uma nova geração não tenha as experiências maravilhosas que nós tivemos, não é?

Travis escutou e digeriu o desabafo da menina pacientemente e quieto para, então, depois de pensar um pouco, rebater mais sério do que nunca naquele dia:

– Eu entendo, Katie, mesmo. Mas você fica aí, falando sobre o que é justo e não é e se esquece do quão injusto é o que você está fazendo...

– Será que você prestou atenção no que eu disse sobre não ser egoísta?

– ... deixando pessoas que gostam de você para trás sem ao menos se despedir?

E num impulso, algo que se arrependeria quase que completamente depois, Katie pressionou os lábios de Travis contra os seus e, mesmo que tenha sido simplesmente um selinho prolongado, suas bochechas enrubesceram logo em seguida. Enfiou o rosto em suas mãos, envergonhada do ato, em seguida sussurrando rápido e baixo demais para qualquer ser humano compreender minimamente:

– Olha, desculpa, eu não deveria, foi estúpido, eu não...

Então foi ele que a beijou dessa vez, um beijo de verdade, de língua, do tipo que Katie, em seus 17 anos de vida, nunca havia dado em ninguém! Travis pôs uma de suas mãos em suas bochechas quentes e, calmamente, com a outra, deitava-a no chão de madeira, enquanto ela bagunçava os seus cabelos loiros.

– Isso é uma despedida de verdade, Gardner.

– Cala a boca, Stoll.

Ela voltou a beijá-lo, rolando e invertendo as posições, dessa vez ficando em cima dele. Quando interrompeu o beijo, sem fôlego algum, deitou-se ao seu lado, ofegando e segurando sua mão. Mesmo que um não visse o rosto do outro, sabiam que ambos estavam sorrindo.

– Você estava certo – disse a menina, depois de um tempo quieta – não é justo ir embora sem se despedir.

– E acho que também estou certo – ele se virou de lado, apoiando a cabeça com uma das mãos e o cotovelo no chão – quando digo que também não é justo ir embora no dia de Natal.

– Ahhh não, Travis, não começa...

– Não é justo você ir embora na manhã de Natal, justo quando as criancinhas estão docemente abrindo os presentes que Papai Noel deixou.

– Travis – ela revirou os olhos novamente, cruzando os braços – Papai Noel não existe.

– Mas Quíron Noel existe...

– Mas... o que!? Não acredito! – ela exclamou espantada, sentando-se de imediato.

– Pois é – ele também se sentou, de frente para a menina que havia beijado – se você ficasse você veria isso.

– Travis...

– Katie, eu não sou lá muito inteligente, mas sei que universidade nenhuma funciona durante os feriados de fim de ano.

– É que... – ela estalou os próprios dedos, nervosamente – eu só queria ir embora enquanto todo mundo tivesse ocupado e feliz o suficiente para não notar minha saída. Por mais insignificante que eu seja...

– Você não é insignificante.

– ... eu não queria que as pessoas notassem minha ausência e ficassem se lamentando, tipo “oh meus deuses, talvez se eu tivesse sido mais legal com aquela menina estranha do chalé de Deméter, ela não teria ido embora na noite de Natal”. Entende?

– Não, Katie, eu não entendo. Porque pra mim você não é insignificante e, por mais que você seja só um pouquinho estranha, eu queria que você fosse meu presente de Natal.

– Mas você – ela lhe deu um empurrão brincalhão, de leve – não foi um bom menino e meninos assim não ganham presente de Natal.

– Quando eu fui um mau menino?

– Deixe-me ver: quando você colocou coelhinhos de chocolate no telhado do meu chalé, quando trocou meu xampu por tinta para cabelo azul, quando encheu meu guarda-roupa de grama, quando encolheu a maior parte das minhas roupas...

– Essa última foi a melhor. Você tem coxas muito bonitas, menina dos olhos de mato.

– Cala a boca, seu babaca

– Vem calar.

Então ela beijou-lhe os lábios novamente. Travis tinha gosto de algo muito, muito errado e, de uma maneira extremamente estranha e desconhecida, isso só a deixava mais excitada e fazia com que o puxasse mais e mais para si, até que tivesse a impressão que estavam se fundindo em um só.

– Fica comigo, Katie – ele sussurrou contra os seus cabelos, enquanto ela o abraçava com força -. Seja meu presente de Natal. Por favor.

– Até quando?

– Até o ano novo. Prometo carregar as malas de la signorina até a Colina Meio Sangue.

– Eu fico. Mas com uma condição.

– E qual seria?

– Um presente de Natal – Travis ergueu uma das sombrancelhas –: uma visita ao Quíron Noel.

– É pra já, signorina.

Travis puxou-lhe por uma das mãos e lhe tirou de dentro do chalé para o frio do lado de fora. E mesmo que tivesse a impressão que estava tendo uma hipotermia debaixo do fino cardigã e que passaria o dia 25 todo de cama, para Katie, mesmo com todas as dúvidas e medos que viriam a seguir, aquele era o melhor Natal de todos. Inesquecível, mesmo sendo algo que, em sua futura vida, deveria esquecer.

*Bom dia, senhorita.

Notas finais
Então, gostaram? Oh, tava pensando em fazer meio que uma continuação, de ano novo, dela indo embora e tal... o que acham? Digam nos comentários. É isso gente. Feliz Natal (atrasado) ^^