Notas iniciais
Sim, é capítulo duplo compensando a falta de ontem

Caminhava pelas ruas de terra batida, sua cabeça a mil. Já se passara quatro dias desde aquele encontro, os preparativos para o noivado já estavam prontos seria no dia seguinte. Estava indo se encontrar com sua tia, ela insistia em providenciar a aliança de noivado.

– Fabray? – A voz grossa, não reconheceu.

Virou-se com um bufar frustrado, se deparou com o homem parado na frente de uma taverna, a caneca de vinho em sua mão grande e pesada.

Ele era alto e corpulento, andou até ela com passos pesados e desengonçados.

– Posso ajudar? – Arqueou as sobrancelhas claras.

– Sou Finn. – Parou na frente dela a medindo. – Finn Hudson.

– E eu deveria saber quem é você pôr…? — Fez um movimento com as mãos pedindo para que ele elabora-se mais a resposta.

– Você não sabe quem eu sou? – Deu um sorrisinho torto banhado em presunção. –Imaginei que todos na cidade já soubessem.

– Eu estive fora. – Cruzou os braços. – Olha, eu estou com pressa então se você tem algo para falar comigo vou pedir para que seja rápido.

– Então você nem sabe o nome do homem que vai tirar a sua noiva de você? – Ele suspirou tentando soar contrariado, mas o deboche brilhando em seus olhos observou a loira se aprumar tensa. – Vejo que você já sabe quem eu sou.

– Achei que o seu sobrenome fosse Smurf. – Comentou friamente, franziu as sobrancelhas. – Já nos vimos antes?

– Estudamos na mesma Academia. – Ele imitou a posição dela cruzando os braços tentando intimida-la com uma postura mais agressiva. – Mas obviamente eu não era tão bem-sucedido quanto você.

– Poucos têm essa capacidade. – Retrucou com um sorriso debochado. – Como eu disse estou atrasada para um compromisso.

– Ela me ama. – Ele ignorou a fala dela. – Ela se apaixonou por mim, Fabray. Você poderia ganhar todas na Academia, mas essa eu ganhei.

– Perdão, mas quem disse que isso é um jogo? – Se afastou dele.

*

Estava sentada encarando a mesa de madeira, se encontrava na sala reservada da tia, o Rei estava em uma reunião importante e não poderia recebê-la. Seus dedos tocavam a superfície lisa enquanto sua mente ia divagando.

– Quinn. – A porta se abriu e por ela entrou a mulher alta de aparência bondosa, cabelos loiros com cachos fofos.

– Tia. – Se levantou a abraçando com força. – Senti sua falta.

– E eu a sua. – Segurou o rosto da sobrinha lhe encarando, arqueou uma sobrancelha. – O que te incomoda?

Quinn segurou as mãos de dedos longos e as beijou calmamente, soltou a tia e se dirigiu para a janela de ferro fundido e vidros opacos.

– Eu estou pensando. – Com a ponta dos dedos acariciou o vidro gelado. – Até onde é possível ir por amor.

– Está preocupada com essa tal cobrança? – A rainha se sentou examinando as costas da sobrinha com atenção.

– Eu mentiria se dissesse que não. – Pressionou a palma contra o vidro. – Mas para ser sincera não é por isso que eu me pergunto tão incansavelmente o que se faz por amor.

– Então por que é?

– Eu já ouvi pessoas falarem que por amor tudo é válido. – Escondeu as mãos atrás das costas segurando fortemente um dos pulsos. – Pessoas dizendo que morreriam, enfrentariam os maiores perigos, sustentariam pesos incalculáveis apenas para que a pessoa amada seja feliz.

– Certo.

– Mas e se estiver errado? – Apoiou a testa contra o vidro fechando os olhos. – E se na verdade você estiver fazendo o errado quando acha que é o certo? E se você estiver prendendo alguém que não quer estar preso a você?

– Então não é amor. – A rainha respondeu de forma simples.

– É o que?

– Se você ama você não vai prender, se você ama vai aprender a ouvir o parceiro e não decidir por si só o que é o melhor para ele. – Inclinou a cabeça para o lado. – Você e a Rachel já conversaram?

– É, conversamos. – Suspirou embaçando o vidro. – Acho que o seu anjo estava enganado tia.

– Por quê?

– Ela se apaixonou por outra pessoa. – Suas sobrancelhas se franziram e o suspiro doloroso saiu pelas narinas. – Qual a possibilidade da senhora nos liberar dessa promessa?

– Promessa é promessa Quinn. – Retrucou calmamente. – E eu tenho certeza que o meu anjo não se enganou.

– Algumas almas gêmeas simplesmente não estão destinadas a se unir no amor. – Se afastou da janela. – Apenas na amizade elas se completam.

– Bem. –Se levantou indo até a lareira lateral, abriu uma caixinha puxando de dentro dela um saquinho de veludo azul. – Essa aliança é da Rachel e apenas da Rachel, mas ninguém deve ganha-la.

Quinn segurou o saquinho sentido às duas alianças ali dentro, puxou a corda afrouxando o aperto na boca do pequeno embrulho. Para a palma de sua mão deslizaram as duas alianças de prata com um fio de ouro rosa bem no centro e um pequeno diamante encravado. E se a maior prova de amor fosse libertar?

*

As fogueiras que crepitavam em torno daquele círculo por pedras que Russel havia mandado construir assim como os caminhos que levavam pelas sebes vivas criando um pequeno labirinto florido. A noite limpa e estrelada de verão deixava uma brisa agradável correr por entre os convidados, as taças de vinho e as mesas abarrotadas de comida espalhadas junto com os criados que iam servindo.

Quinn estava parada mais a margem olhando o riacho que brilhava sobre a luz da lua cheia, as montanhas distantes recortadas contra negrume da noite, o barulho da água correndo era tão calmante e sincero. Sentiu Santana parar ao seu lado com duas taças de vinho cheias, estendeu uma para a loira.

– Qualquer que seja a decisão que você tomar hoje… — A latina tomou um gole de sua taça. – Eu vou te apoiar.

– Eu ainda não sei que decisão tomar. – Olhou para o liquido escuro, seu nariz captou o cheiro do álcool e antes de pensar em qualquer coisa virou o conteúdo da taça.

– Ficar bêbada é uma ótima ideia. – Santana acenou com a cabeça.

Quinn fitou a taça de prata em sua mão. Prata é um metal nobre, que é quase totalmente pura. Algumas pessoas se confundem com a prata achando que possui uma peça pura quando na verdade ela só está misturada com outros metais. Se você receber um choque de alguma peça de prata provavelmente irá morrer, pois a descarga é extremamente forte e paralisante.

A prata é tóxica, mas as pessoas não se interessam por isso, o brilho que ela irradia supera qualquer risco a sua saúde que ela possa trazer.

É estranho. Podemos dizer que o amor é um sentimento nobre que é quase totalmente puro. Algumas pessoas confundem achando que tem o amor quando na verdade é só um misto de sentimentos muito parecidos. Se você roçar sua mão na pele da pessoa que você ama provavelmente irá ficar paralisado, pois a descarga elétrica é extremamente forte. O amor é tóxico, mas as pessoas não se interessam por isso, a pessoa que ama irradia um brilho que disfarça qualquer imperfeição que exista.

Estranho não? Afinal falamos de prata ou de amor? Prata tem um preço. E o amor? Tem algum preço? A prata pode ser medida e pesada. E o amor? Não tem como fazer, não tem como medir e não tem como pesar.

Se você ama então você ama. Se você tem prata então você tem prata.

*

Rachel se aproximou da loira que parecia perdida em pensamentos, nem tinha percebido que Santana havia lhe deixado sozinha.

– Quinn. – Murmurou, sabia que sua mãe lhe mirava igual um falcão.

Virou-se para a Berry, seu olhar ainda estava na taça.

– Por favor, me libere desse juramento. – Rachel sussurrou suplicante. – Não me peça em casamento.

As palavras bateram em seus ouvidos, mas seu corpo já esperava aquilo. Não diria que não doeu ouvir aquele pedido, mas ele já era esperado então foi como se tivesse sido amortecido.

– Meninas. – A senhora Fabray se aproximou sorrindo com lágrimas nos olhos. – Está na hora do pedido.

Paradas uma de frente para a outra no meio daquele círculo onde todos esperavam o pedido oficial. Quinn segurava a aliança encarando os olhos castanhos que lhe suplicavam para não fazê-lo.

– Há anos atrás minha tia, a rainha, viu algo entre nós. – Sua voz macia tocando as pessoas. – Amor puro, escrito nas estrelas era o que ela dizia quando a perguntavam o que era. Por esse motivo fomos prometidas uma a outra. – Seus olhos escorregaram para a aliança. – Ela me deu essa aliança e me disse que ela só poderia ser entregue a você. Então cumprindo a vontade de minha tia eu a entrego a você. – Segurou a mão de Rachel pousando o aro fino e frio na palma da mão quente. – E irei cumprir a sua vontade ao te liberar deste compromisso. – Os murmúrios correram pelo local, seus olhos verdes encontraram os castanhos dela sem esconder sua dor. – Espero que você encontre o que está procurando.

Acarinhou o rosto moreno antes de se afastar sem olhar para trás. Ela tinha a prata, mas não tinha o amor.

Notas finais
@just_someone13 e ask.fm/PSomeone