Espadas, Chamas e Chifres
7 Senhor e senhora imprudência
Notas iniciais
Lass estava bêbado o suficiente para se atrapalhar nos próprios passos, mas sóbrio o bastante para evitar as quedas. Aquela era uma luta tanto contra o dragão quanto pelo seu próprio equilíbrio.
Ele tentou se aproximar da criatura e foi acertado pela cauda. Como um chicote no seu peito, o ninja foi jogado para trás.
— Lass, que droga você tá tentando? — questionou Regis. — Dar um abraço nesse bicho?!
Enquanto se levantava, ele resmungou:
— Eu tô improvisando.
— Cadê sua katana? — perguntou o caçador, dando um tiro em seguida. — Achei que você andasse com aquela coisa para todos os lugares.
— Foi confiscada! — disse, irritado. — Mas eu não preciso dela. Posso resolver isso sozinho.
— Confiscada?
O dragão avançou com a pata. Lass e Regis se separaram, passando próximos de serem acertados pelas longas garras.
— Longa história — falou o ninja.
Mais uma investida do dragão, porém impedida pelos pequenos robôs de Mari. A mais distante do campo de batalha, mas continuava presente na luta. Seus robôs eram uma distração que rendeu tempo para eles pensarem em algum plano.
— Lass, usa logo as chamas — disse Regis, ainda com a mira da espingarda sobre o dragão. — Não ache que eu e a garota vamos resolver.
— Eu não posso usar — ele sussurrou.
Regis abaixou a espingarda, confuso com a resposta do ninja.
— É só mirar no coração de—
— Eu não posso usar! — insistiu Lass. — O Conselho me proibiu.
Regis ignorou a criatura de tamanho colossal a sua frente e encarou seu filho. Lass também trocou um olhar emburrado. Não posso fazer nada. Em resposta, o Haro devolveu com um sério isso?
No fim, o dragão se soltou dos robôs de Mari e balançou as asas furiosamente. As rajadas de vento afastaram Lass e Regis, então a criatura saiu do solo.
— Não deixe ele ir! — gritou Lass, encolhido atrás dos braços para se proteger do vento. — Ronan vai ficar puto se a cidade for mais destruída!
O vento então parou, graças à barreira de energia em volta deles. Lass olhou sobre o ombro, vendo Mari mexer em seu livro. Ela passou as páginas, gerando energia ao seu lado.
Mari segurou a esfera de energia, que ganhou forma, transformando-se em uma marreta da sua altura. A arma foi girada em mão enquanto ela deixava o livro de lado.
— Posso dar um jeito nisso — disse Mari. — Mas preciso que o parem por um instante.
— Ok ok — concordou Regis.
O dragão sobrevoava o topo do prédio, o vento menos intenso. Regis deixou a barreira de energia com outra arma em mãos. Um lança-granada. Ele apontou e disparou. A explosão brilhou intensamente, um brilho tão forte que fez o dragão rugir e cair metros à frente.
Mari correu. Próxima do dragão, ela rebateu o ar com sua marreta, e por onde passou, gelo acompanhou e seguiu como uma onda cristalina. Em segundos, as asas do dragão foram congeladas, travadas para mais um voo destrutivo.
Lass viu aquilo como uma deixa para sua entrada. De mãos vazias, ele avançou. Assim as chamas surgiram em volta do seu corpo, como uma armadura e arma.
De repente, o dragão virou. Seu corpo desproporcional à rua derrubou postes e quebrou paredes dos prédios. Isso fez Lass frear, paralisado enquanto a criatura parecia fascinada pelas chamas.
— Ele parece interessado nas chamas — disse Mari. Sua voz baixa, embora distante, conseguiu ser escutada.
— Lass — Regis o chamou, em aviso.
O ninja diminuiu as chamas, mas ainda era alvo. Recuou e o dragão avançou. As asas congeladas bateram violentamente, despedaçando a camada em volta do seu corpo.
Lass se mexeu para correr, sabendo que não faria diferença. Ele era minúsculo sem uma arma para contra atacar. Então quando o ser colossal avançou, nada podia ser feito para evitar além de usar as próprias chamas.
No entanto, algo atingiu Lass pelas costas e o contornou pelo peito. Um equipamento que se apertou e exalou uma fumaça quente por trás. Sua atenção se voltou para Mari, com a mão erguida com seu livro na outra.
O dragão voou e Lass também. O equipamento puxou seu corpo para trás, afastando-o do chão em uma subida aparentemente infinita. Os pés do ninja já não alcançavam o solo e o dragão se aproximava, abrindo sua larga boca de dentes pontudos. O bafo alcançou sua respiração. O fim estava próximo.
Sem aviso, o corpo de Lass foi puxado para o lado. Uma curva de 90 graus, que fez o dragão passar direto para o centro da praça e atingir uma estátua. Lass voltou ao chão, seus pés encontrando o solo em tropeços. Mesmo parado, ele continuou a cair para os lados, sem qualquer equilíbrio básico. O efeito da bebida tinha aumentado em um pulo.
— Você parece...
A voz veio de cima. Mari pousou com seu equipamento ao lado dele, enquanto segundos depois, Regis chegou correndo. O mais velho ofegava, transpirando sua verdadeira idade.
— Parece fora do habitual — concluiu Mari. — A bebida não te fez bem.
— Não diga, Sherlock — disse Lass. — Olha, temos problemas maiores.
O dragão se levantava, balançando a cabeça. Parecia atordoado.
— Minhas balas não fazem efeito — comentou Regis. — As escamas daquele bicho são grossas demais. Eu precisaria de uma arma específica para perfurar, o que não tenho no momento. O que nos resta...
O haro jogou as mãos vazios para o lado. Ele era inútil.
— Digo o mesmo — disse Mari. — Eu demoraria criar algo pra matar ou derrubar.
— Eu entendi! — desabafou Lass. — Minhas chamas, ok. Tive uma ideia.
Ele esfregou as mãos. Faíscas das chamas escaparam dos vãos de seus dedos.
— Regis, tem mais daquelas granadas? — Lass perguntou, mas com os olhos no dragão.
— Hum, tenho... — ele vasculhou o interior do casaco. — Três. Por quê?
Lass estendeu a mão aberta. Um pedido silencioso. Regis entregou as três granadas.
— Mari, vou usar seu negócio mais uma vez.
Ela cruzou os braços.
— Pagará pelas peças.
— Claro — sussurrou.
Aquele era o plano mais idiota que Lass teve naquele período de tempo em Canaban. Tentar conversar com a Elesis ainda parecia uma ideia ridícula, mas o que tentaria agora, ultrapassava os limites de impudência que o ninja possuía.
Que Ronan o perdoasse.
Ele deu um passo adiante. Regis e Mari tomaram caminhos opostos, correndo com intuitos visíveis. Comprariam tempo para Lass.
Tiros ressoaram de uma direção. As balas de Regis eram ineficazes contra a criatura de Elyos, mas conseguia chamar sua atenção. Com isso, Lass agiu. O equipamento colado as suas costas se ativaram com seu simples pensamento, dando partida para a direção que queria. Ele voou, contornado pelas chamas azuis. O dragão se voltou para ele no mesmo instante.
Lass seguiu para o alto. Direto, o mais alto que pôde. Ele olhou para baixo, vendo a cidade se afastar de seus pés, em seguida, ser coberta pelo dragão. Lass continuou a subir até lhe faltar ar. O vento gelado contra seu rosto forçou lágrimas escorrerem de seus olhos ressecados.
Tudo ficou em completo silêncio. Inclusive o equipamento as suas costas. Uma pesada ausência do som. Então, ele ouviu a própria respiração. Era uma inspiração dessincronizada, presente do medo que Lass começava a ter ao olhar para baixo e ver que o chão se aproximava, como o dragão voando em sua direção.
Uma boca aberta, cheia de dentes pontudos.
Lass deixou as chamas o cobrirem. Os pinos das granadas foram puxados e seus olhos se fecharam.
O cheiro do hálito podre do dragão se misturou ao queimado.
***
Regis odiava as chamas azuis, mas não podia negar seu encanto por elas.
A luz azul brilhou no céu, em seguida, o som da explosão. Ele viu o corpo do dragão perder vida enquanto caía, asas mortas que se queimavam pelas chamas. No entanto, seu maior medo se deu pela proximidade do dragão do chão, dos prédios a volta.
Antes disso, vários robôs criaram um campo de energia em volta do dragão, pressionando ao ponto de cair na rua entre os prédios, sem qualquer acerto. Mari era mesmo uma caixinha de surpresas.
Regis voltou para o céu. Foi a vez de ver do corpo de Lass rodeado pelas chamas. O haro se moveu, inconscientemente. Quando percebeu, seus pés o levavam ao ninja.
— Lass — ele gritou.
Regis esperou por algum movimento de Mari, mas estava ocupada com o dragão. Ao voltar para Lass, apenas teve tempo de ver o corpo do ninja atingir o chão. Foi como ver uma fruta cair da árvore.
— Lass? — chamou mais uma vez.
O ninja permaneceu deitado, rosto para baixo e o corpo torto de uma forma dolorosa. Regis se aproximou, sem ideia do que fazer diante aquela situação. Lass não aparentava respirar, o que apontava que ele estava morto. Se esse era o caso, o que ele deveria fazer?
Nesse momento, Regis percebeu o fio de preocupação que tinha sobre o rapaz jogado aos seus pés. Ele se preocupava porque uma pequena parte de si se importava. Quantos mais segundos passavam e Lass não se movia, maior esse fio de desespero se alongava ao ponto de ele se forçar a fazer algo.
— Fi—
O primeiro estalo foi alto, os seguintes nem tanto. O corpo de Lass se moveu em movimentos bruscos, rápidos e quebradiços. Regis nunca tinha visto tal coisa na vida, a regeneração de um morto de segundos atrás. Quando tudo acabou, o ninja se levantou aos tropeços, tonto.
Regis o segurou pelo braço.
— Tudo bem? — ele perguntou.
Lass passou a mão na cabeça. Estava inteiro, inclusive suas roupas.
— Parece que eu bebi mais uma caneca de cerveja — mencionou Lass com a voz arrastada.
— Talvez a regeneração aumente o efeito do álcool — sorriu o caçador.
Lass lançou um olhar exausta, nada feliz.
***
Elesis pegou uma espada de um dos guardas e correu contra a multidão. Os convidados deixavam o salão e ela avançava em direção ao buraco na parede. Do lado de fora, um dragão a aguardava para ser morto.
Isso se Ronan não a segurasse.
— Elesis — ele disse o nome dela carregado por aviso. — Esse não é o seu trabalho!
— Mas—
Ronan tirou a espada dela.
— Você pode se machucar — explicou o mesmo, mais preocupado. — Não faça isso.
A preocupação de Ronan parecia ir além do bem estar próprio da espadachim, como seu desempenho no torneio. Se ela se machucasse tentando derrubar um dragão, traria muitos problemas em uma luta depois. Elesis entendeu sua preocupação, deixando a criatura do lado de fora ser resolvida por outra pessoa.
Como Sieghart e Dio.
Elesis soube que eram eles pelas chamas roxas. Ela se aproximou do buraco na parede, vendo a dupla chegar de forma mais explosiva possível. Sieghart usou grande parte do poder das chamas roxas para derrubar a criatura de lado. Dio o acompanhou com um ataque intenso com sua foice.
Dois anos, esse foi o tempo para Elesis ter se tornado mais forte; o mesmo valeu para Sieghart e Dio. Eles estavam em um nível que a própria espadachim tinha medo de descobrir.
Elesis deixou o castelo apressadamente. Ao descer a escadaria do lado de fora, teve uma visão mais ampla dos seus amigos e o dragão caído de lado, imóvel, mas não morto. Junto a ela, alguns convidados permaneceram nos degraus para observarem.
— Você foi rápida — disse Lire, ao seu lado. — Como previu a tempo de entrar na frente do Ronan?
Elesis pressionou os lábios. Não existia uma resposta que escondesse aquela mana dentro do seu corpo quanto a satisfação da elfa.
Felizmente, o foco de ambas mudou ao verem soldados saírem do castelo, correndo às pressas.
— Prendam o asmodiano!
Os olhos da espadachim arregalaram. Aquela não foi uma ordem de Ronan, obviamente, mas do líder de Arquimidia. Ele estava no topo da escada, nariz empinado e seu olho mecânico voltado para Dio.
— O quê?! — indagou Elesis, visivelmente incomodada.
Dio se desfazia de sua foice quando os soldados o rodearam com lanças. Assustado, ergueu as mãos, tão confuso quanto Sieghart, que entrou na frente do amigo por uma atitude de ira.
— Ei, fiquem longe dele! — berrou Sieghart.
— Dio não fez nada — Elesis gritou também. — Ele estava ajudando!
O líder voltou toda sua raiva na espadachim. Elesis não recuou, encarou de volta com a mesma intensidade.
— Aquele demônio que invadiu o castelo veio do mesmo lugar que aquele outro demônio ali — apontou ele. — São a mesma coisa!
Elesis tinha motivos para odiar aquele homem. Desde que o viu pela primeira vez no julgamento de Lass, depois na viagem com ele, sempre teve certeza que aquela pessoa era tão ruim quanto Cazeaje; talvez menos. Vendo-o agira agora, fazia a espadachim ter certeza e motivação para soca-lo.
Ela subiu os degraus de punhos cerrados. Ao dar outro passo, Adel entrou na sua frente e a segurou pelos ombros. Ronan também apareceu, porém se colocando entre os degraus dela e do líder de Arquimidia.
— Está havendo um engano — disse Ronan, no tom mais calmo que ele poderia ter no momento. — Dio é um velho amigo meu! Ele não faz parte disso.
— Suas amizades não me importam, Erudon — retrucou o líder. — Se você não consegue controlar sua campeã, quem dirá seus amigos.
A lista de motivos para matar o líder de Arquimidia só aumentava. Adel teve que a segurar com mais força, sendo necessário a intromissão de Lire.
— Desculpe, senhor — falou Ronan, firme. — Você pode ter os anos de experiência que tiver, mas aqui, suas ordens não valem de nada. É meu reino! E se alguém tiver que ser preso, será sob meu comando.
Dito, ele se virou para os soldados, gritando:
— Recuar! Ninguém toque no asmodiano!
Os soldados obedeceram. Sieghart foi o primeiro a expressar alívio quando as lanças foram abaixadas.
Elesis apenas pôde sorrir. A deixava aliviada ter Ronan para controlar a situação.
— Mas e quanto ao dragão? — A pergunta de Pino ecoou entre eles. Ele estava no topo da escadaria, braços cruzados e olhos afiados para a criatura caída. — Ainda tá respirando.
— O prenderei — anunciou Ronan antes que o líder falasse algo contra. — O dragão está fraco e tenho os meios para o manter contido. Tem minha palavra que isso não será um futuro incomodo.
Ronan não apenas falava aquilo para o líder de Arquimidia, como também para os demais na entrada do castelo. Julgavam suas atitudes, suas decisões de última hora. Toda a pressão da situação pesava nos seus ombros. Por isso, Elesis acalmou os próprios nervos. Não queria trazer mais problemas para seu amigo.
— Vamos voltar para dentro — mencionou Adel. — Não será bom se você pegar um resfriado.
Elesis assentiu e o acompanhou com Lire.
***
A última coisa que Regis falou é que ele tomaria conta do dragão com Mari. Sem qualquer disposição para ir contra, Lass concordou e seguiu caminho para outro ponto da cidade. Ele chegou na escadaria do castelo em passos arrastados. Sieghart e Dio estavam presentes, inteiros e bens, além da companhia de Rey. Lass precisou olhar por um instante para confirmar a presença da asmodiana. Aparentemente, ela ajudava a prender o outro dragão com sua magia.
Mas isso não importava. Lass subiu a escadaria, tropeçou três vezes nos degraus, mas chegou no topo e entrou. O interior estava agitado, apesar dos poucos convidados que restavam. Em meio aos que restaram, Lass viu ela.
Elesis estava de costas para ele, mas se destacava pelo vestido vermelho. Ela sempre se destacava. Ele precisava saber como ela estava, se o outro dragão a feriu.
Dois passos e um soco foi desferido no seu estômago. Lass dobrou o corpo, sem ar, enquanto um braço contornava por seu pescoço e o puxava para fora do castelo.
— Você é mais idiota do que eu pensava.
Ao chegar na escada, ele foi empurrado. Sem nenhuma força ou coordenação, o ninja girou sobre os degraus pontudos e, aparentemente, infinitos durante aquela queda. Ao encontrar o chão da rua, Lass recuperou o ar do soco de antes.
— Sério, o que você faz aqui?
Lass se levantou, usando os joelhos como apoio. Ver Edel tão bem vestida o fez recuar um passo. Ela parecia mais perigosa com o cabelo bem arrumado e um vestido cheio de curvas. Parecia que a qualquer momento ela tiraria o florete de algum lugar e o atacaria.
— Ronan foi claro com você — ela dizia, furiosa. — Não venha ao baile!
— Eu... — Lass procurava as palavras. No seu estado atual, sua mente divagava para muitos lugares. — Eu queria saber se ela estava bem.
Edel o observou. Não de uma forma geral, mas detalhada. Olhou seu desequilíbrio enquanto parado, suas pálpebras caídas e olhos vermelhos.
— Você bebeu? — ela não parecia acreditar.
— Só um pouco.
— Uau, Isolet. Quando acho que você não pode me surpreender.
Sem nenhum aviso, Edel o pegou pelo pulso e o guiou para longe do castelo. Lass olhou para trás, mas foi puxado como um cão na coleira.
— Você não pode ficar aqui, muito menos assim — ela dizia. — Vou te levar pro colégio, vamos.
— Eu sei o caminho de volta — disse, ofendido.
— Mas não quer dizer que você vai voltar — ela o encarou. — Se algum dos líderes te ver, vão ficar incomodados. E se te verem assim...
Edel não precisou completar. Não era preciso, Lass sabia o que uma pessoa com um dos maiores poderes em mãos estando bêbada representava para os líderes.
Durante o caminho, Edel o soltou. Eles andaram lado a lado, calados.
— Eu só queria saber se a Elesis estava bem — sussurrou o ninja.
— Ela está perfeitamente bem! Aliás, foi ela quem segurou o dragão quando invadiu o salão.
— Ela segurou? — olhou espantado.
Edel cruzou os braços. Era um sinal de seriedade e frio da noite invernal.
— Elesis é forte, Lass. Não precisa ser a babá dela — ela falou da forma mais direta possível. — Falando nisso, você invocou as chamas, não é?
Lass tirou o próprio casaco.
— Eu não tive opção — ele disse enquanto colocava o próprio casaco nos ombros da jovem. — O outro dragão morreu, então não precisa se preocupar.
Edel se encolheu sob o casaco o ninja. Diferente dela, o frio não o incomodava; talvez por causa das chamas ou pelo efeito da bebida.
— Não tem medo do Ronan? — ela perguntou. — Tenho certeza que ele viu seu show.
— Ronan vai ficar puto, só isso. É culpa dele também.
Se não fosse pelas chamas, Regis e Mari não teriam parado o dragão. Se alguém era culpado nisso tudo, não era ele.
— Olha, não precisa me levar até o colégio — persistiu Lass.
— Eu não confio em você, Isolet. No momento que eu desviar o olhar, você vai voltar correndo pra Elesis.
Ele suspirou. Era verdade.
— É que...
Interrompeu-se. Edel o olhou, a espera da continuação.
— Eu tô preocupado pela Elesis depois que ela me falou do torneio — continuou o ninja. — Depois que eu voltei, eu sinto que tem algo de errado nela.
— Claro... E por isso você não quer ela no torneio?
— É sério—
Lass tropeça sozinho, mas recupera o passo.
— Não é uma questão... machista. — Edel não mudou o olhar sobre ele. — Sabe quando você olha para alguém que você conhece muito bem e apenas com o silêncio, você sabe que tem algo de errado?
Ela pensou, então assentiu de forma vaga.
— É tipo isso, mas—
— Quão brega você falando isso, Isolet.
— Não é nesse sentido e—pode parar de me chamar pelo sobrenome? É desconfortável.
Ele esperou por outro sinal de concordância. Edel bufou com um revirar de olhos. Ela lembrava muito Elesis.
— Continue, Lass — ela enfatizou seu nome.
— Elesis e eu temos essa conexão, entende? Mas não é essa conexão que você tá pensando, é uma coisa mais... — Lass pôs as mãos na cabeça. Uma forte onda de tontura passou por ele e desapareceu. Ele continuou. — As chamas azuis nos conecta.
Eles se aproximavam do colégio. Edel diminuiu os passos.
— Isso... é estranho — ela disse.
— Eu sei. Por isso eu sei quando tem alguma coisa de errado com ela, maaaaaas — ele deu alguns passos para o lado, então parou, equilibrado — ela não quer me contar. As chamas também não.
— As chamas sabem de alguma coisa? — Essa foi uma pergunta genuinamente curiosa da jovem.
— Mais do que parece. Na verdade, eu acho que a Elesis conversou com as chamas recentemente.
Lass perdeu o equilíbrio outra vez, mas Edel o segurou. Estavam na entrada do colégio, metros do interior quentinho do prédio. Parecia tentador, porém Lass se manteve ali, parado enquanto neve começava a cair e a se misturar aos seu cabelo.
Ao de Edel também.
— Você bebeu demais, Isolet — foi honesta.
— Lass.
— Tá — resmungou. — Olha, você tá entregue.
Lass olhou para o colégio, mas sua atenção estava na pessoa que vinha atrás. Tempo perfeito para sua entrada. Lupus se aproximou deles com seu jeito casual, mãos nos bolsos do casaco e um olhar questionador. Levou pouco tempo para ele entender o estado do ninja, principalmente a presença de Edel com ele.
— Irmãozinho, você não parece bem — disse o haro, sorrindo.
Lass fez uma carranca, entregando seu dedo do meio a ele.
— O que tá acontecendo? — Lupus perguntou.
— Está tendo um baile com os líderes dos Conselhos e seu irmão quis entrar nele — Edel não poupou detalhe. — E sim, ele não está sóbrio.
— Eu estou sóbrio o bastante para entender o que vocês falam — interferiu Lass. — Parem de me tratar como um completo bêbado.
Lupus segurou uma risada. A raridade de ver Lass distante da sobriedade era improvável. Porém, ali estava o ninja lutando contra a visão embaçada.
— Ok, eu preciso perguntar — disse Lupus. — Você usou as chamas enquanto estava assim?
— Sim, fui eu! — exclamou o ninja. — Vai querer me prender também por isso?
— Se você sabe que não pode usar as chamas, por que usou?
— Porque tinha um dragão querendo me engolir! — gritou contra a face do haro. — E onde você estava? Você adora dragões, adora matar uns!
Lupus ainda segurava a risada.
— Eu vi os dragões, mas tinha coisas mais importantes para fazer.
O que era mais importante que matar o dragão que estava destruindo a cidade? Lass não se deu o trabalho de pensar.
— Vai ficar aqui fora? — Lupus perguntou a Edel. — Ou vai voltar para sua festa chata?
— Não quero voltar pra lá, disso tenho certeza — disse Edel.
O caçador fez um gesto para o interior do colégio e ela assentiu. Seguiram caminho, deixando Lass para trás. Totalmente esquecido.
— Eu vi o Regis hoje — ele falou alto.
Lupus andou para trás até se olharem. Existia um pouco de seriedade em seus olhos.
— Está falando sério ou é imaginação sua?
— Ele estava comigo quando o dragão apareceu. — Silêncio. — Não estou tão bêbado!
— Eu chamei ele, mas não achava que fosse aparecer — reclamou o caçador.
Lass não sabia se a raiva de seu meio-irmão era por causa dele ou por Regis ter mesmo aparecido. Mas tinha que concordar, o aparecimento de seu pai causava esse estranhamento no ar. Não sabiam como reagir, raiva sendo a emoção mais sensata naquele momento.
— Ele disse que vai ficar pela cidade, para ver o torneio — contou Lass. — Então, se quiser descontar sua raiva que seja nele... não em mim.
— Espero que ele tenha te ajudado com as chamas, pelo menos.
Essa foi a despedida de Lupus. Jogou as palavras no ar e seguiu caminho para dentro do colégio.
— É, ajudou um pouco — disse Lass, ciente de que ninguém ouvia.
Mas Edel ainda estava ali. Ela tirou o casaco dos ombros e devolveu ao ninja.
— Obrigada — ela disse, então se juntou a Lupus.
Agora ele estava completamente sozinho.
***
Elesis arrastava a saia do vestido pela neve.
— Elesis, você vai estragar o vestido assim — disse Lire.
Aproximavam-se do colégio e a espadachim não estava com paciência de segurar seu vestido enquanto andava. O frio apenas tornava tudo pior.
— Por que a Arme não veio com a gente? — Elesis perguntou.
— Porque ela tem um quarto para ficar no castelo — Lire respondeu com um sorriso de lado. — Me pergunto por que ela insisti em morar no colégio em vez de lá.
Elesis bufou alto.
— A humildade da Arme me irrita — disse Elesis.
Na entrada do colégio, a espadachim parou de andar. Lire passou por ela, falando algo que pouco ouviu. Sua atenção estava em algo mais distante. Uma atração incomum que a fez dar passos inconscientes.
— Elesis. — A ruiva se virou para Lire. — Não vai entrar?
— Ah... vai na frente. Já vou.
A elfa deu de ombros.
— Não fique aqui fora por muito tempo — falava a mesma entrando. — Vai pegar um resfriado.
Elesis tomou outro caminho. Contornou o prédio do colégio, seguindo direção ao pátio. A neve estava grossa, uma camada que fazia seus pés afundarem. Alguns passos e Elesis conseguia sentir seus sapatos ficarem úmidos.
Então ela encontrou a fonte que a chamava. Deitado de braços abertos no chão, como se tivesse em sua cama, Lass observava o céu escondido pelas nuvens. Elesis parou na frente dele.
O ninja apenas moveu os olhos em sua direção.
— Lass, tá frio e você tá deitado na neve — disse o óbvio, com um tom óbvio.
— Queria esfriar a cabeça — ele respondeu. — Você está muito bonita.
— Você já disse isso. Foi você que usou as chamas antes?
Simples assim, uma pergunta direta. Elesis não conseguiu esquecer o brilho das chamas no céu após o ataque do dragão. Ela também tinha certeza que não foi a única a ter visto.
— O dragão...
— Teve outro dragão? — ela olhou surpresa.
— É, eu, Regis e Mari matamos esse — continuou o ninja, sem se mover. — Você peitou o outro dragão?
Elesis se encolheu. A forma como disse parecia ser algo ruim.
— Se eu não tivesse, Ronan teria sido esmagado!
— Depois eu que sou o imprudente.
— Você não deveria ter usado as chamas, mesmo assim!
Aquela discussão não levaria a muito lugar, Elesis notou ao ver a forma como Lass falava. Palavras arrastadas, olhos caídos. Ela precisou se aproximar do mesmo para ter certeza do que desconfiava.
Ajoelhou-se ao lado dele. O hálito denunciou de longe.
— Você andou bebendo? — Elesis não acreditava.
— Eu não estou bêbado — ele disse com muito esforço, como um suspiro. — Já é a terceira vez que falo isso hoje... ou seria a quarta?
— Bebeu por minha causa?
— Não...
Ele tinha. Podia ser a melhor mentira do mundo, mas Elesis sabia que ele tinha bebido por ela.
— Lass...
— Você não tem um baile pra ir? Vai, eu tô bem aqui.
Elesis se sentou na neve. Não sabia se era Lass ou a bebida falando aquilo; de qualquer jeito, ela temia ser o lado honesto do ninja agindo.
— Desculpa, eu... — Elesis não sabia pelo que se desculpar. Culpa pesava seu corpo, mas pouco sabia a razão. — Eu preciso participar desse torneio.
Lass voltou a encarar o céu.
— Não me importo mais, faça o que quiser — ele disse.
— Você está zangado por isso?
— Estando ou não, você vai fazer do mesmo jeito.
Era por ele, Elesis quis dizer, mas não pôde. A dolorosa mentira era suportável, o que não poderia dizer o mesmo da verdade.
Elesis se levantou, colocando-se sobre Lass. A saia do vestido o cobria como um cobertor, grande para a espadachim usar como um casaco se quisesse. Apesar disso, o ninja continuou a ignorar. Ela se inclinou, usando os joelhos como apoio.
— Pode, pelo menos, não agir como um idiota? — ela pediu.
— Não estou agindo como um idiota — ele murmurou.
— Então para de me ignorar... por favor.
Demorou até os olhos azuis do rapaz se voltarem para ela.
— Você também poderia não me ignorar quando fossemos conversar sobre—
— Ah.
Elesis se sentou sobrou o torso do ninja.
— Por que você não quer conversar sobre isso? — Lass indagou, cansado da negação da espadachim no assunto.
— Porque você vai falar que estava de cabeça quente e vai se desculpar e eu vou ter que aceitar suas desculpas — ela recupera a respiração, suspirando com um cansaço visível. — Não vai ser exatamente uma conversa.
Lass tirou parte da saia do vestido de cima para enxerga-la. Por mais que faltasse alguma sobriedade em sua feição, ele fez o máximo para suas palavras serem levadas a sério.
— Me desculpe.
Elesis balançou cabeça, negativa.
— Eu não quis—
Ela tampou a boca de Lass com a mão. Negou mais uma vez.
— Você quis — disse Elesis. — Tudo bem. Você estava mesmo estressado depois de tudo aquilo, eu só queria ajudar e... acabei sendo um fardo.
Lass tentou discutir, mas a mão foi pressionada contra sua boca.
— Não precisa se desculpar — ela insistiu.
Então afastou sua mão dele.
— Você não é um fardo — falou Lass.
Elesis não discordou, nem mesmo concordou. Seu olhar mostrava passividade diante o assunto, completamente ausente de toda a ira que a espadachim era conhecida de ter. Pela primeira vez, ela tomava uma postura diferente. Aquela era uma nova Elesis.
— Agora você pode sair desse torneio idiota? — pediu Lass.
Elesis sorriu, negando.
— Você quer mesmo que eu não participe, né?
— Estou implorando.
A espadachim deitou sobre o corpo sobre Lass, próxima de seu rosto. Ela sorria, sentindo a respiração quente do ninja.
— Tente de novo — ela sussurrou.
Lass também sorriu.
— Eu implo—
Elesis o beijou. Por um momento, ela esqueceu onde estava e como o frio da noite a incomodava. O vento gelado batia contra sua pele e queimava, ardia intensamente. Mas estando próxima de Lass a fazia se esquecer desses incômodos externos, protegidos pelo calor do ninja.
— Você tem gosto de cerveja — disse Elesis.
Ela deslizou o corpo para o lado, deitando-se na neve perto de Lass.
— Foi ideia do Sieghart, caso isso te incomode — falou o mesmo.
— Então tudo que o Sieghart falar agora, você faz? — ela olhou com um sorriso de lado.
— Bem... ele é um cara muito sábio.
Elesis riu. Não conseguia levar as palavras do ninja a sério, aparentemente, nem mesmo ele ao rir junto.
— É, você está fora de si — mencionou Elesis.
— Não estou bêbado. Por que todo mundo insiste nisso?
— Você fala como um, então...
Ela jogou os braços de lado, um gesto que completava o que dizia.
Eles se olham. Elesis sorriu, Lass também. Neve não caía mais, como se o tempo tivesse parado para eles se olharem e apreciarem os detalhes faciais de cada um. Lass tinha cílios longos, Elesis pequenas cicatrizes pela bochecha. Detalhes que só enxergavam quando pertos, que se tornavam exclusivos somente a eles.
— Eu te amo — disse Lass.
Elesis apreciou as palavras.
— Eu te amo — respondeu a espadachim.
Lass puxou a mesma para perto, afundando seu rosto entre os cabelos ondulados dela.
— Se não fosse pelas chamas — sussurrava o ninja —, eu transava com você aqui e agora.
O rosto de Elesis ganhou um tom rubro. Ela olhou Lass e ele não parecia ter feito uma piada.
— É, Lass Isolet está completamente bêbado — debochou Elesis.
***
Ronan estava considerando cortar o cabelo. Tempo era uma coisa que ele não tinha mais, e tempo parar cortar o cabelo era inexistente. Um dia tinha 24 horas e ele tinha que fazer valer por 30. Ronan era uma pessoa com uma agenda lotada, e por essa razão, ele se apressava pelo caminho coberto de neve em volta da escola. Uma manhã gelada como todas as outras.
— Ali está ele — apontou Adel.
Os passos de Ronan diminuíram ao perceber os dois corpos adormecidos sobre a neve do pátio. Foi preciso mais três passos para parar diante deles.
Adel riu.
Elesis e Lass dormiam no chão, seus corpos colados do frio que os incomodava. Esse foi o pingo d’água para Ronan.
— Acordem! — ele berrou.
Elesis acordou no susto, Lass apenas abriu os olhos e Adel estremeceu pelo grito. A espadachim se remexeu sobre a neve, agitada ao perceber o que queimava tanto sua pele exposta do vestido.
— Vocês... dormiram aqui fora? — Ronan olhava incrédulo.
O espirro de Elesis o respondeu. Ronan estava sem palavras.
— Já é de manhã? — perguntou a espadachim, sentando-se.
Lass voltou a fechar os olhos, levando sua mão a cabeça. A luz do dia machucava seus olhos e o pouco som da conversa era como o bater do sino dentro do seu crânio.
— Eu falei para ficar de olho nela — mencionou Adel.
— Eu não achei que ela fosse tão idiota de passar a noite deitada na neve — defendeu-se Ronan, um nervosismo crescente no seu tom. — Elesis, perdeu a cabeça?! Você vai pegar um resfriado assim!
— Eu... — a espadachim tentou debater, porém sua fraqueza a ganhou. Ela estava fraca e com frio. Espirrou mais uma vez.
Ronan levou as mãos à cabeça. As longas mechas de cabelo se enrolaram nos seus dedos. Isso o incomodava, mas ver Elesis e Lass deitados na neve era um incomodo maior; mais como uma provocação de mau gosto.
— Venha, Elesis — Adel estendeu a mão para ela, gentil. — Vou te levar para dentro.
Ela não discutiu, segurou a mão do líder e levantou com ajuda do mesmo. Enquanto se afastava, Lass voltava a se remexer. A ressaca o atingia como um tijolo na cabeça.
— Vocês são perfeitos um para o outro — comentou Ronan, a voz baixa e grave.
Lass tomou seu tempo para se sentar e superar a dor de cabeça e a tontura temporária. Ao erguer seus olhos para Ronan, viu a expressão séria do amigo.
— Elesis não tem limites, e mesmo quando reconhece um, ela decide ignorar mesmo assim — dizia Ronan. — Eu grito “Elesis, não” e ela grita “Elesis, sim!”.
Lass entendia para onde aquela conversa pararia. Preparado, encolheu-se no chão. Memórias da noite anterior machucavam mais que sua enxaqueca.
— Você deve ter aprendido com ela isso.
— Ronan, eu—
— Cala a boca! — ele berrou.
Lass se encolheu mais.
— Eu falei para você não usar a droga das chamas! Mas tempo depois, olho pro céu e vejo as chamas explodirem um dragão! — Ronan se interrompe como um freio abrupto. Ele tenta conter a raiva, ainda visível no seu tom. — Que porra, Lass!
— Eu não tive escolha! — o ninja disparou a resposta. — Você tirou a katana de mim! O que eu podia fazer?!
— Não lutar! Não fazer parte da confusão... Como eu pedi!
Lass não teve escolha, até porque, a confusão o escolheu. Provavelmente se ele tivesse visto o dragão à distância, nada disso teria acontecido. No entanto, como foi atacado, a única coisa que o restou foi se defender, contra atacar.
Mas ainda se culpava. Existia outros meios, porém foi tomado pelo medo de um desastre maior.
— Desculpa — pediu Lass.
— Desculpa não vai apagar o que você fez. Mas você tem sorte.
Lass olhou sem entender.
— Os outros Conselhos viram as chamas, mas como estava distante, não souberam o que era — explicou Ronan, mais calmo. — Eu disse que era uma das magias da Mari. Como ela estava presente, consegui convencê-los.
Lass se preparou para suspirar, tirar o peso da culpa. Mas Ronan continuou.
— Temporariamente. Tem alguns líderes que não se convenceram tanto e eles vão pegar no seu pé se der qualquer deslize. Então...
Ele assentiu, mais nervoso que antes.
— Não ache que limpei sua barra por causa de você — seguiu Ronan, voltando a seriedade de antes. — Então já sabe o que vai acontecer da próxima vez.
Isso deixou Lass irritado. Ronan começava a soar como os outros líderes, desdenhando da sua existência torta. Ele não tinha culpa. Não foi uma decisão dele.
— Você me deixou sem arma — rosnou Lass.
— E mesmo assim você decidiu lutar.
— O que eu deveria ter feito então?!
— Fugir é uma opção, Lass! — gritou com grande nervosismo. — Que saco, como você consegue ser tão irresponsável depois de tudo que aconteceu. Você... você...
Lass o desafiou com um simples olhar.
— Eu o quê?
— Você é tão imprudente que está afetando as pessoas a sua volta — ele falou baixo. — E você nem consegue enxergar isso.
O ninja ameaçou se levantar e foi acertado no nariz pelo cabo da espada. Ele caiu para trás com a mão no local atingido enquanto Ronan devolvia a arma ao cinto. O calor inundou suas narinas e vazou por entre seus dedos.
Pingos vermelhos mancharam a neve aos seus pés.
— Fique longe da Elesis — disse Ronan.
Lass o olhou sem entender.
— Do que você tá falando?
— A partir de agora, Elesis é minha campeã e eu preciso dela no melhor estado possível.
— E o que eu tenho a ver com isso?
— Você não está fazendo bem a ela, Lass — foi direto. — Você está a prejudicando!
Lass afastou as mãos do nariz. Mais sangue escorreu sobre seus lábios e pingaram do seu queixo. Ele estava perdido. O que tinha acontecido para Ronan ter chegado a essa conclusão?
— Eu não fiz nada a ela.
— Não minta.
— Eu não—
— Pare de—
Lass agitou as mãos no ar, indignado.
— Você acha que eu a machucaria?!
Por instinto, Lass recuou e se protegeu com o braço. A milímetros do seu antebraço, permanecia a lâmina da espada. Por trás da arma, o nível de ameaça começou a diminuir. Lass soltou a respiração.
Ronan piscou, dando lugar a sua tremedeira. Ele afastou a espada de Lass, abaixando-a até a ponta encostar na neve. O ninja o olhava sem entender, mais assustado do que com raiva. Por um instante, ele quase se deixou levar por aquela raiva incontrolável.
— Eu vi as marcas no corpo da Elesis — falou Ronan.
Os olhos amedrontados de Lass se voltaram para baixo.
— Não foi porque eu quis — ele sussurrou. — As chamas, elas...
Não tinha o que dizer. Ronan já tinha se convencido do que ele fez.
— Tente achar alguma coisa pra fazer durante o torneio, Lass — falava Ronan, guardando a espada. — Ache um hobby que não envolva as chamas, certo?
Lass balança as mãos negativamente.
— Não tente se explicar — disse Ronan. — Eu tenho muita coisa pra fazer, parte envolvendo você. Então com licença.
Nenhuma palavra saiu de Lass. Sangue escorria de seu nariz, pingando na neve em gotas grossas. Aquela era uma visão triste do portador das chamas azuis.
Ronan fechou os punhos e se afastou. A cada passo distante de Lass, menos controle ele tinha do próprio corpo. As mãos tremiam, sua respiração perdia sincronização. Ronan parou de andar. Suas mãos apertavam a cabeça, querendo tirar aquela maldita sensação do seu corpo.
— Ronan?
Ronan abaixou as mãos da cabeça. Lentamente se virou.
Jin segurava uma sacola de compras, acenando com um longo sorriso.
— Bom dia — disse animadamente. — Uau, você parece acabado. Muita coisa aconteceu ontem, né?
Ronan escondeu as mãos nos bolsos do casaco.
— Para mim, as coisas ainda estão acontecendo — ele riu. — Já estou acostumado.
— Tente não se esforçar muito. Parece que você vai entrar em enlouquecer a qualquer momento.
Ele riu outra vez, encarando o aviso do lutador como uma piada. Jin também riu, assim seguindo seu caminho para dentro do colégio. Ele estava certo.
Ronan sentia que entraria em enlouqueceria a qualquer momento. O problema é que ele nunca enlouquecia, o que fazia esse suspense mais doloroso.
***
Elesis desceu o zíper do vestido. Quando se preparou para tirar a vestimenta, Ronan entrou no quarto.
— Um pouco de privacidade, ao menos — disse a espadachim, cansada demais parar sentir vergonha.
— Elesis, não me faça perder a paciência com você também — pediu o rapaz, praticamente implorando. — Pegou um resfriado, não pegou?
Ela não pretendia responder, mas seu nariz a forçou a responder. Isso fez Ronan esfregar o rosto exausto.
— Eu até discutiria sobre isso com você, mas sem tempo — dizia ele. — Preste bem atenção. Amanhã será decidido quem lutará com quem, e preciso que você chegue cedo na arena.
— Cedo... — ela olhou com desconfio. — Que horas?
— Sete horas.
Elesis olhou pela janela. Sete horas era mais cedo do que estava habituada a acordar, seria impossível existir alguma motivação para participar do torneio nessa parte da manhã.
Ronan estalou os dedos, chamando a atenção dela.
— Sete horas, Elesis!
— Tá, eu ouvi!
Ronan pôs as mãos na cintura.
— Esteja na arena às sete. Sem atraso, preparada e disposta para qualquer combate — exigiu o líder.
Ronan abriu a porta, mas não se foi. Ele aguardava pela resposta. Elesis bufou.
— Ronan, eu não vou te decepcionar.
Ele não pareceu acreditar, por isso a deixou sem uma despedida. Elesis já tinha causado muito trabalho para o amigo, compreendia sua reação.
Elesis voltou a olhar pela janela. Do lado de fora, viu a neve se mover. Ela se aproximou, coçando os olhos. De longe, os cabelos de Lass pareciam um pedaço de neve. Ele se arrastava para fora do pátio, a cabeça baixa, olhos desviados da espadachim.
O que Ronan tinha dito para ele?
***
Lass enfiou pedaços de papéis nas narinas. Torcia assim para o sangramento parar. Seu corpo era uma máquina de reconstrução, mas a ressaca o tornava lento, lento até demais. Caiu sentado na cadeira do refeitório e sentiu todo o peso que estava carregando de si.
Do outro lado da mesa, Sieghart deu um sorriso solidário. Parecia tão acabado quanto ele.
— Parece que você se encontrou com o Ronan — mencionou Sieghart.
— Eu já esperava por isso — suspirou Lass. — Você parece um pouco quebrado também. Cadê o Dio?
Jin chegou no meio da pergunta. Lass aceitou a caneca de café que o ruivo trouxe.
— Dio tá cuidando do outro dragão... com a Rey — a voz do rapaz diminuiu, desaparecendo com um peculiar olhar para o lado.
Lass e Jin observaram Sieghart e sua atitude nova. O conheciam o bastante para saberem todas suas expressões, com exceção daquela. Aquela era uma expressão nova.
— Você parece incomodado com isso — mencionou Jin.
A mesma feição desapareceu de Sieghart com o levantar de suas sobrancelhas.
— Incomodado? — ele riu. — Não, só estou com saudade daquele chifrudo.
Levar a sério algum assunto de Sieghart era muito difícil. Lass tomou um gole do seu café, tentando afastar toda a sensação morta que pesava seu corpo.
— Vocês não mataram o dragão? — questionou o ninja.
— O líder do Conselho de Arquimidia queria — disse Jin. — Mas Ronan achou melhor prenderem no subsolo.
— Talvez o Dio descubra o motivo para esse dragão tá aqui — completou Sieghart. — Pelo que soube, esses dragões vieram direto pra cá. Como se—
— Tivessem um alvo — falou Lass. — É, eu era um. Quer dizer... as chamas azuis.
Mas sua maior dúvida se prendia ao motivo do dragão querer as chamas. Por ser uma criatura irracional, não fazia sentido ela querer tal poder, que poderia a matar com o simples encostar. Enquanto ao outro dragão, procurava por outra coisa que não eram as chamas.
O quê então?
— Deveriam ter matado — comentou Mari.
Sentada ao lado de Lass, ela se ocupava no notebook, escrevendo algo com seus dedos rápidos. A parte da mesa de Mari era uma pequena bagunça com várias pastas abertas e papeis de projetos caindo no chão. Lass tentou ignorar, mas era impossível.
— Se aquele dragão fugir, vai atrás do que procura de novo — continuou a jovem. — E destruirá mais parte da cidade.
— Ele tá bem preso — disse Sieghart. — Não vai acontecer de novo.
E se acontecesse, Lass teria certeza que não participaria de mais uma briga. Encostou as pontas dos dedos em seu nariz, como lembrete do que poderia acontecer se fizesse. Todo o interior do seu nariz estava dolorido e inchado, sem qualquer abertura para respirar.
— Não é melhor botar um gelo nisso? — sugeriu Jin.
Lass negou. Tentando se distanciar de qualquer meio da realidade atual, ele se prendeu a um papel dos projetos de Mari. Puxou para perto, melhor vendo o que era.
Era o desenho de um revólver, peças separadas com informações que ele pouco entendia. Entretanto, o formato do revólver o chamava a atenção.
— Mari, o que você tá fazendo? — Lass perguntou sem tirar os olhos do papel.
— Armazenando alguns projetos meus na rede. Papel ocupa muito espaço.
— E que projeto é esse?
Lass mostrou o papel para ela. Mais algumas teclas apertadas e a atenção se voltou para ele. Mari arrumou os óculos.
— Ah, esse foi um projeto que fiz para o Astaroth.
Jin e Sieghart estavam distantes da conversa, mas o nome do antigo professor chamou a atenção deles.
— Eu lembro de ler os registros da morte do Astaroth e ter um revólver desse parecido — contava Lass. — Esse é o mesmo?
— Sim.
O ninja quase caiu para trás com a resposta. Jin o segurou pelas costas, tão surpreso quanto ele.
— Quando você fez isso? — Sieghart apontou.
— Astaroth pediu para eu fazer e entregar algumas semanas depois — explicava sem interesse. — No mesmo dia que o entreguei, ele morreu.
Aquela era uma informação que ninguém tinha dito a Lass. Sendo honesto, ninguém além de Mari deveria saber disso; até agora.
— Por que o Astaroth te pediria isso? — Lass tentava entender.
— Ele não mencionou, apenas pediu para fazer uma arma com essas especificações.
Quais eram as especificações que ele procurava para a própria morte? Mari não tinha mais respostas que o fizesse concluir o pensamento, necessitaria de outras pessoas para conseguir isso.
— Posso ficar com isso? — ele se referiu ao projeto do revólver.
— Eu ia jogar no lixo, pode ficar — respondeu Mari.
Lass nunca entendeu a morte de Astaroth. Quando aconteceu, ele estava fora, então não chegou a presenciar pessoalmente. Após ter voltado e recebido a notícia, nada fez sentido. Tudo parecia um sonho febril.
A hora de descobrir a verdade enfim chegou.
***
Elesis sentia frio enquanto seu corpo pegava fogo. Nesses momentos, ela procurava por Lire ou Arme. No entanto, ambas estavam ausentes, por algum motivo que ela não lembrava. A responsabilidade da sua própria saúde não a pertencia, tecnicamente, sempre encontrava alguém pra se preocupar no seu lugar.
Agora, Elesis vagava sozinha pelo corredor do colégio. À noite, poucos alunos eram vistos andando pelo prédio. Nem mesmo seus amigos estavam por perto. Ela teria que resolver aquilo sozinha.
Entrou na enfermaria. Nem mesmo a enfermeira estava presente. Mas Lass estava.
— O que você tá fazendo aqui? — perguntou a espadachim.
Lass estava sentado sobre a mesa com pedaços de curativos e uma tesoura na mão. Seu nariz ganhou um tom roxo no centro, o que parecia aumentar.
— Tentando colocar uma fita analgésica — disse Lass. — Meu nariz tá me matando.
Elesis segurou o rosto de Lass, vendo melhor o hematoma.
— Achei que as chamas te curassem disso — disse a ruiva.
— Não preciso gastar energia com isso. — Ele pôs a mão sobre a dela. — Você está quente. Febre?
— Tô procurando por algum remédio.
— Deve ter alguma coisa no armário.
Lass desceu da mesa, indo vasculhar o armário de remédio. Elesis se sentou no lugar dele, um pouco cansada para quem não fez nada o dia inteiro. Dormir na neve não parecia uma ação tão inofensiva quanto agora. Ela tinha enfrentado coisas maiores, pessoas mais perigosas que uma simples neve. Mas bastou um resfriado para derruba-la.
— Sua ressaca já passou? — Elesis perguntou. — Ontem, você parecia bem fora de si.
Vasculhando o armário, Lass olhou constrangido.
— Desculpa se eu disse alguma coisa estranha — ele falou.
Elesis riu, mas não complementou sobre o assunto.
— Se bem que — continuou Lass, pensativo —, eu lembro de você falando que deixaria o torneio.
— Eu não estava bêbada, Lass. Mesmo se eu tivesse, eu não teria dito isso.
Lass voltou com um frasco de remédio. Elesis pegou, abrindo sem ler as informações.
— Você ainda tem chance de sair disso — mencionou o ninja, esperançoso.
Ela tomou dois comprimidos do remédio. Sem água, apenas jogou na boca e engoliu no seco.
— Na verdade, não — respondeu a mesma. — Amanhã já tenho a primeira prova pra fazer. Não vou deixar o Ronan na mão.
— E você vai mesmo assim? — referiu-se ao resfriado.
Elesis assentiu, sorrindo. Lass se preparou para falar, mas no último instante, ele se conteve. Isso fez um peso no peito da espadachim.
— Vai me contar quem fez isso no seu nariz? — ela se focou em outro assunto.
— Eu... — Lass coçou a ponta do nariz. — Caí no chão. Tropecei sem querer.
— E esse chão se chama Ronan?
Lass a olhou. Culpado. Ela sorriu, tentando amenizar o clima pesado.
— Eu vi as chamas no céu, Lass. Entendo por que do Ronan ter feito isso.
Ele esquivou o olhar. Não era apenas as chamas, tinha tantos outros motivos que ele preferiu manter o silêncio. Antes que Elesis pudesse desconfiar, tomou as rédeas da conversa.
— Isso não vai se repetir — ele dizia. — Tenho um assunto pra resolver, então não vão me ver por aí, tacando as chamas para o alto.
— Que tipo de assunto?
— Só uma paranoia minha.
Ele se recostou na mesa, cruzando os braços. Era uma boa forma de chamar seu desentendimento sobre a morte de Astartoh. Uma paranoia. Talvez isso não levasse a lugar nenhum, mas ao menos tiraria algum peso da consciência.
Lass voltou a Elesis, preocupada, de certa forma.
— Ah, não é sobre as chamas — continuou. — É outra coisa.
— Achei que você tivesse ainda procurando por uma forma da gente... você sabe.
O rosto de Elesis tinha ganhado um tom avermelhado. Podia ser vergonha, ou apenas a febre aumentando.
— Eu ainda tô procurando sobre isso — disse Lass.
— Vi que você está conversando muito com o Sieghart ultimamente.
— Não vou dizer que ele foi o melhor conselheiro, mas me fez pensar em algumas coisas.
Elesis segurou a risada.
— Eu também falei com o Regis sobre isso — continuou Lass.
— Regis? O seu pai? — ela olhou surpresa.
A palavra pai continuava a ser um incomodo, mas ele assentiu. Querendo ou não, Lass tinha sangue de Regis correndo por suas veias. Não tinha mais razão parar agir infantilmente em relação a isso.
— É, ele tinha as chamas quando encontrou a mãe do Lupus. Pelo que ele disse, os selos no corpo dele impediam as chamas, o que não é o meu caso.
— Mesmo se você colocasse os selos também?
— Não faz mais diferença os selos, as chamas já fazem parte de mim. — Ele suspirou, jogando a cabeça para trás. — Só me resta saber usar as chamas.
— Não precisa se culpar — ela disse, sutil.
— Estou tentando.
Ele tentava, de verdade. Se não fosse por ele, Elesis teria um namorado decente, com uma vida decente. Ela não teria que se preocupar com queimaduras intensas toda vez que fosse demonstrar sua paixão por ele. Era quase ridículo a situação que estavam causada pelas chamas.
Elesis merecia mais do que isso.
— Mas conversando com o Sieg, eu descobri outro jeito disso dar certo — mencionou Lass, mais positivo. — A gente poderia fazer... sem mim.
Pesado silêncio. Elesis virou a cabeça, mais confusa que o habitual pelo lento processamento que a febre causava.
— E como seria isso? — ela perguntou.
— Olha, eu sou o problema. — Elesis tentou rebater, mas ele seguiu com o argumento. — As chamas só despertam por minha causa! Mas e se eu não... participasse... eu não despertaria as chamas.
O que Lass estivesse propondo, era mais complicado que um cálculo de matemática.
— Lass, você tá querendo que eu durma com outros caras? — perguntou Elesis, honesta.
— Não, não é isso!
Lass desencostou da mesa, agitado em como explicaria. Sempre que estava com Elesis em um momento íntimo, não sentia tanta vergonha quanto as conversas sobre o assunto. Ele era bom na prática, não na teoria.
— Eu poderia te satisfazer, mas eu não me envolveria.
— E... — Elesis olhava de forma cética — como seria isso?
— Eu poderia usar minha mão.
Lass se sentiu mais constrangidos após explicar. Nem mesmo podia contorcer a expressão que isso atiçava a dor no nariz. Ele não estava no melhor estado há dias, a cerveja da noite anterior só piorou tudo isso. Estava precisando de algumas férias de si.
— Mas não teria você — disse Elesis. — É estranho.
— É só uma opção — ele sugeriu. — Tudo bem se não quiser.
Elesis olhou para baixo, pensativa. Ela levava a sério.
— Ok, vamos fazer isso! — ela exclamou.
— Tipo... agora?
— Amanhã começa o torneio e vou estar ocupada o tempo todo — dizia, sabendo que Ronan a obrigaria fazer parte de todo o torneio. — Então prefiro agora.
Elesis aguardou pela resposta dele. Aquela não era uma decisão unicamente dela. Lass se aproximou, uma postura clara da resposta.
— E sua febre? — ele perguntou.
— Estou bem.
Não houve mais discussão do assunto. Elesis permaneceu sentada na mesa, Lass a sua frente com um nervosismo contido.
Desde o momento que Lass se encontrou com Elesis pela primeira vez, ele aprendeu a valorizar a vida. Ele se sentia vivo perto dela. Contudo, grande parte das pessoas a sua volta negavam seu desejo de querer ficar perto dela. Elesis era perigosa, Elesis era uma Cavaleira Vermelha, Elesis era dona das chamas azuis e Elesis era isso. Ela era a razão em si para ele ficar afastado dela. Todos obrigavam a Lass ficar longe dela.
Fique longe da Elesis foi o que Ronan disse nessa manhã após ter fraturado o nariz de Lass com um simples golpe. Ele falou sério, como uma ordem. Mas ali estava Lass com a mão dentro da calça de Elesis. Ela estava abraçada ao seu corpo, rosto escondido em seu ombro. A cada movimentação, a espadachim se mexia e segurava com mais força sua camisa.
— Estou te machucando? — Lass perguntou.
Ela apenas balançou a cabeça em negação. Aquela era a versão mais passiva que encontraria de Elesis. Nenhuma palavra, completamente submissa. Lass poderia manter este controle, senão fosse pela reação da espadachim. Ela o abraçava mais, passava as mãos por suas costas e as levava a sua nuca. Um toque simples que o atiçava mesmo assim.
— Elesis — chamou Lass. — Você não está me ajudando.
Ela ergueu o rosto até apoiar o queixo em seu ombro.
— Isso é uma tortura — sussurrou a espadachim.
— Por quê?
— Porque eu quero... — ela se interrompeu com um gemido baixo. — Eu quero você comigo.
Lass apenas pôde rir em resposta.
— Foi mal, não quero te queimar de novo — ele disse. — Esse é o máximo que posso oferecer.
Então Elesis o segurou pelo rosto, puxando para um beijo surpresa. Aquilo ajudava menos ainda.
— Tudo bem — dizia Elesis. — Eu aguento dessa vez.
— Elesis, não é... — Ela o calava com beijos, puxando-o para mais perto. — Não é assim que funciona.
Toda passividade da espadachim era trocada por sua vontade. Aquela era a Elesis que Lass via segundos antes de perder o controle das chamas. Em meio a esse combate próprio, ele se deixou levar por um instante. Apenas um pouco para poder voltar e conter as chamas a tempo.
Elesis pressionou as unhas contra suas costas ao morder seu ombro. Uma mordida forte que se amenizou. Com isso, Lass voltou a atenção para sua volta. Quando percebeu, já era tarde demais.
Ele não teve reação para o surgimento de Lothos. A comandante estava paralisada na entrada da sala, olhos que não piscavam do que viam.
— O que vocês... — ela começou a pergunta, mas não conseguiu terminar.
Foi a vez de Elesis percebe-la. O tempo foi congelado junto com seus pensamentos. Era como estar deitado nos trilhos de um trem, que vinha em alta velocidade, imparável.
Era isso que Lothos era: uma força imparável. Sua mão pousou no cabo do florete, despertando Lass instantaneamente. Ele se afastou de Elesis, jogando o corpo para o lado. Sentiu a ponta do florete arrancar fios de cabelo.
Lass tentou esquivar outra vez, mas o chute de Lothos o arremessou contra a parede. Todo ar dos seus pulmões foi arrancado. Sem tempo para se recuperar, a comandante avançou com um revólver. A arma foi enfiada na boca do ninja, impedindo que qualquer desculpa fosse dita.
De onde Lothos tirou aquele revólver, era o que incomodava Lass.
Elesis entrou na confusão, segurando o braço da comandante.
— Lothos, acalme-se! — pediu a espadachim. — Você vai machucar o Lass assim.
— Essa é a intenção! — disse a comandante. — Eu vi o que vocês estavam fazendo... Eu vi o que ele estava fazendo!
O cano da arma foi pressionado contra a boca de Lass.
— Pare de tratar a gente como crianças e me escute!
Lothos a olhou.
— Por favor — disse Elesis, gentil. — Não precisa descontar sua raiva no Lass.
Lothos não disse nem se moveu. O olhar de Elesis implorou por um dos dois. Então a comandante cedeu, tirou a arma da boca de Lass, que teve como primeira reação tossir com as mãos na garganta.
— Então me responda, o que vocês estavam fazendo? — questionou Lothos.
Elesis não tinha bem uma explicação, nem desculpa.
***
Existiam duas coisas que Jin sabia que não era bom. A primeira, o torneio. Só em pensar em ter Elesis como seu adversário o fazia estremecer. A segunda era contar coisas. Matemática nunca foi seu forte.
E a terceira era discutir com Azin.
— Já parou pra pensar que a Amy pode ser mais forte que você? — perguntou Azin.
Jin se virou, apontando no meio da face sorridente dele.
— Se você abrir a boca pra falar disso mais uma vez...
Aquela não era a primeira, muito menos a segunda vez que Jin ameaçava Azin com essas mesmas palavras. Como dito, ele não era muito bom em matemática.
— Por que você recusou o chamado do Conselho de Terra de Prata? — questionou Azin.
— Não é da sua conta.
Jin continuou seu caminho pelo pátio da escola. A neve derretida fazia seus passos nervosos escorregarem e o deixarem mais nervoso.
— Ei.
Jin revirou os olhos.
— O que agora?
— Aquele não é o Lass pulando da janela?
Levou certo tempo para Jin entender o que Azin falava. No segundo andar do prédio, uma figura saltava da janela. Um desespero visível mesmo distante.
— É mesmo o Lass? — Jin forçou a vista.
Outra figura pulou da janela, com intenções mais intensas. Pelo florete, sabiam que era Lothos.
— Ah é o Lass sim — confirmou Jin.
Lass correu em direção a eles. Jin tentou perguntar o que acontecia, mas o ninja se jogou para trás dele e o usou como um escudo. Em questão de segundos, o florete de Lothos passava perto de seu rosto.
— E-Ei! — gritou Jin.
Lass não o soltava e Lothos o rodeava como uma predadora.
— O que está acontecendo? — perguntou Azin, despreocupado.
— Lothos!
O chamado distante veio de Grandiel, acompanhado de Elesis. Ao se aproximar, ele arrancou o florete da comandante.
— Concordamos que não usaríamos força pra isso — disse Grandiel. — Muito menos armas.
Lothos apontou agressivamente para Lass.
— Então mantenha seu garoto longe—
— Eu não fiz nada de errado! — rebateu Lass, ainda usando Jin de escudo.
Lothos tentou avançar, porém segurada por Grandiel.
— Vamos resolver isso lá dentro — sugeriu Grandiel. — Venha, Lothos.
Ela foi puxada, sendo guiada por Grandiel que tentava manter a situação controlada.
A comandante foi levada, mas o ar continuou pesado.
Elesis soltou um suspiro ao se agachar no chão. Lass teve a mesma reação, segurando Jin quase desabando de alívio.
— O que vocês fizeram para a Lothos ficar zangada assim? — perguntou Azin.
— É a Lothos, ela sempre tem um motivo para querer matar o Lass — desabafou Elesis.
Jin olhou com desconfio para Lass. Lothos sempre tinha motivo, mas todos os motivos eram voltados ao relacionamento deles.
— Vocês tavam—
Azin tampou a boca de Jin.
— Elesis, amanhã você vai participar do torneio, não é? Mal posso esperar — disse a raposa com seu longo sorriso.
— Ah, você vai ser um dos meus adversários — lembrou a espadachim. — Nos vemos amanhã.
— Que vença o melhor.
Azin se despediu com um sutil aceno de mão enquanto a outra puxava Jin pelo rosto. O ruivo andou aos tropeços, tentando falar contra a palma, que pouco adiantou.
Elesis não tirou os olhos de Azin. Não sentia ameaça do amigo, nem sentiria o mesmo de Amy, e isso a incomodava muito. No momento que pisasse na arena com um deles, teria que vê-los assim. Inimigos. Obstáculos para liberdade de Lass.
***
Último dia de neve em Ernas. O que restava de gelo já derretia, embora o frio permanecesse pela cidade. Pessoas ainda vestiam agasalhos pesados e demoravam para levantar da cama.
Esse era um dos casos de Elesis. O frio excruciante a impedia de sair da cama, porém o calor de Lass era o que a prendia. Entre beijos e carícias, Elesis tinha perdido a noção do tempo. Não existia um. Ela apenas tinha se agarrado em Lass e deixado os segundos passarem.
Até ela lembrar do torneio.
Elesis empurrou Lass e se levantou com um grito.
— O torneio — ela repetia, freneticamente.
— O que tem? — o ninja olhou com preguiça.
Elesis pegou seu celular e soltou outro grito.
— Sete e quinze! São sete e...
Ela pôs a mão na testa, paralisada. Isso não trouxe respostas à confusão de Lass.
— Eu tenho que ir — disse a espadachim, uma determinação repentina. — Depois a gente se fala.
— Ei ei ei! Pra onde você vai?
Elesis não deu uma resposta, ela simplesmente saltou da janela.
Lass a observou partir. Ainda estava frio, porém Elesis esqueceu disso ao pular da janela usando seu pijama. Ele até se importaria, se não tivesse seus próprios problemas para resolver.
***
Ronan estava à beira de ter um colapso na frente dos outros líderes.
No centro da arena, todos estavam presentes. Todos os líderes, todos seus campeões. Exceto Elesis. Azin e Amy olhavam em volta, preocupados pela falta da amiga. Eles conseguiam ver a raiva de Ronan pela falta da espadachim.
— Oi! — o grito veio da entrada.
Ronan não se virou, deixou Elesis surgir em seu campo de visão. Mas a surpresa não pôde ser contida.
Elesis se juntou aos campeões enfileirados. Parada ao lado dos seus adversários, o problema ficou visível. Ronan apenas pôs a mão no rosto, um sinal de vergonha e decepção que o matava internamente.
— Campeã de Canaban — chamou a juíza. — Você vai participar assim?
Todos a olhavam. Elesis também se olhou. Agora fazia sentido porque sentia tanto frio. Seu uniforme se resumia numa camiseta gasta e uma samba canção, que estava mais que óbvio que não era dela.
Elesis cruzou os braços.
— Com licença — disse Ronan, a mão erguida. — Eu poderia conversar com a minha campeã por cinco minutos?
A juíza olhou o relógio.
— Cinco minutos — ela disse.
Ronan pegou Elesis pelo braço e se afastou. Ele sabia que o líder de Arquimidia o olhava com desdém, e com todo motivo.
— Elesis — sussurrou, a voz contida.
— Eu sei, eu sei. Estou atrasada, mas vou compensar por isso, ok?
Ele juntou as mãos perto do rosto. Ela ainda não tinha entendido o problema.
— Por que você está de pijama?
Elesis esfregou o braço. A pressa tinha feito isso com ela.
— E descalça? — Ronan apontou.
Os dedos dos pés se mexeram, enfim sentindo incomodo do piso gelado. Como se não bastasse, uma fraqueza a dominou. Ronan encostou a mão na sua testa.
— Você tá com febre? — ele indagou.
— Eu acordei me sentindo melhor, não acho que isso seja febre.
Talvez Lass tenha a anestesiado do resfriado e só agora os sintomas voltavam. E com força. A garganta doía, uma fraqueza estremecia suas pernas. Aquele não era um bom dia para lutar.
— Elesis, como você vai participar da prova assim? — a pergunta de Ronan exalava preocupação.
— É só um resfriado, eu consigo participar.
Elesis forçou um olhar determinado. Com um suspiro, Ronan tirou a própria capa e deu para ela vestir. Ela pôs as mangas e se encolheu sob o longo tecido.
— Não se esforce muito — ele disse. — Não é uma eliminatória.
Assentiu. Ronan a levou de volta para o centro da arena. Elesis ficou em seu lugar junto com os outros campeões.
A juíza encarou a espadachim antes de começar a falar.
— Certo, vou explicar a primeira prova! — ela exclamou. — Ao todo, vocês são sete participantes. Pelo número ímpar, uma pessoa ficará fora da primeira rodada do torneio, somente participando da segunda. Isso é uma vantagem, sim. Por isso, está prova acontecerá.
Elesis esfregou as mãos.
— A prova é bem simples: há uma bandeira no topo do castelo real. Quem chegar primeiro, ganha. Isso o garantirá imunidade da primeira rodada. — Pausou. — Alguma dúvida?
Ninguém questionou. Enquanto isso, os líderes se acomodavam na arquibancada da arena. Elesis olhou Ronan uma última vez antes de se voltar completamente para prova.
Ela inspirou fundo. A febre tinha aumentado. Garantir sua imunidade na primeira rodada a traria muitos benefícios, principalmente por não estar em condições de lutar desse jeito.
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