Notas iniciais
Lá vem eu pedindo desculpa por outro capítulo demorado... DESCULPA! E já peço mais uma desculpa pelo próximo cap (explicarei melhor notas finais). Cap com tamanho moderado. Eu podia ter escrito mais, só que eu estaria apenas enchendo linguiça e trazendo nada de interessante. Mas sem mais explicações, boa leitura.

Da janela do quarto, Elesis viu o líder do Conselho de Serdin se aproximar de Lass e dar novas notícias, nas quais a espadachim não consideravam boas; nunca eram. Seus lábios se contorceram em reprovação, tremeram de frio. Aos seus braços, o gato branco se remexeu com o mesmo incomodo. Elesis se afastou da janela.

O gato saltou de seus braços e correu pelo quarto bagunçado. Instante seguinte, a porta da frente se abriu. Jin ofegava da entrada.

— O que está acontecendo? — Ele perguntou, punhos preparados e um pijama desarrumado.

— Lupus veio conversar com o Lass e eles estão lá fora — ao dizer, Elesis apontou para a janela. — Adel chegou.

— Eh... muito informação.

— Se você não entende, imagina eu que acordei com isso.

O gato miou para Jin; mais uma pergunta explícita na feição do rapaz.

— O que o Lupus queria com o Lass? — Perguntou Jin, indo em direção à janela.

— Pelo que ouvi, era alguma coisa com as chamas.

O lutador observou a cena no jardim se desenrolar. Aos poucos, Lass partia com Adel e Lupus era levado por Edel, que o ameaçava com a ponta de seu florete.

— Achei que o Lupus não tivesse interesse pelas chamas azuis — mencionou Jin.

— Não acho que ele queira as chamas em si. Só é estranho esse interesse repentino.

Jin concordou. O olhar do mesmo se voltou para Elesis, especialmente para o pijama que ela usava. Embora parecessem usar a mesma roupa, o que chamava a atenção era o fato da espadachim estar ali, no quarto de Lass.

Jin sorriu. Elesis olhou incomodada.

— Vocês dormiram juntos?

— Antes que pense besteira, eu precisava da ajuda do Lass numa coisa — explicou-se a ruiva num tom formal. — E pare de me olhar assim.

— Uma ajuda na cama? — O sorriso se alongou.

— Não, com uma espada que estou considerando usar em você!

Jin quebrou numa risada, que fez a espadachim abre um risonho sorriso com a situação.

— De qualquer jeito — ela disse, tomando o tom da conversa anterior —, tem algum plano hoje?

— Hum, não.

Elesis sorriu.

— Ótimo, vamos treinar!

Ela correu pelo quarto à procura de roupas, pondo peças sobre o pijama atual. Jin apenas observou de sobrancelhas arqueadas.

— Não está preocupada para onde Adel possa estar levando o Lass? — Ele apontou.

Vestida, mas com um penteado desarrumado, Elesis ergueu uma espada que Jin reconhecia muito bem. Fazia anos que não via aquela lâmina enferrujada, tão pesada que fazia os próprios braços doerem apenas olhando. Nas mãos da espadachim, encaixava perfeitamente. Como se ela fosse a única no direito de empunhar tamanha espada.

***

Lupus tirou parte da neve acumulada sobre o banco e se sentou. O frio do assento subiu por seu corpo. Não existia um único lugar naquela cidade que ele pudesse se sentir confortável e quente.

Assim se sentia na presença de Edel. Ela tinha guardado o florete no cinto, continuando de pé, andando alguns passos para se aquecer.

— Algum motivo para atacar seu irmão? — Edel perguntou.

— Por acaso, eu teria algum motivo para não atacar? — Lupus retrucou, sorrindo.

— Bem, você não costuma gastar esforços nisso — ela lançou o mesmo sorriso.

Eles se entendiam bem.

— O que veio fazer aqui, Lupus? Creio que o torneio não te interesse.

— Estou a trabalho.

— E sobre o que seria?

O caçador cruzou os braços. Pareceu mais sério, o que não se tratava da sua intenção. O frio o deixava bastante desconfortável.

— Estive em Elyos e encontrei uma senhora vidente.

A pausa do haro foi proposital. Ele viu a expressão de confusão em Edel, que parecia mais uma falta de fé no que ouvia. Parecia absurdo, tinha noção disso.

— Não sabia que você dava ouvidos à senhoras videntes — ela comentou.

— Ela foi bem convincente — deu de ombros, sem saber o que mais dizer para convencê-la. — Enfim, ela veio pessoalmente a mim... já sabendo meu nome.

Foi a vez de Edel cruzar os braços.

— Você é um caçador, é claro que ela saberia seu nome.

— Essa não é a questão. Ela veio até mim e pediu para evitar o ressurgimento de Berkas.

Enfim Edel começava a acreditar do que ele dizia. Talvez o medo presente em sua face fizesse parecer mais verdadeiro.

— Berkas — soou a capitã. — Não é aquele dragão preso nos confins de Hades?

— Que está para ser libertado em Ernas. É, ele mesmo.

— E como é possível uma criatura desse tipo ser solta aqui em Ernas? — A pergunta pareceu cética, como os gestos que a mesma fazia com a mão. — Alguém está por trás disso?

— É o que eu estava querendo saber com as chamas! Mas — Lupus jogou os braços para o alto em nervosismo — meu irmão não quis colaborar.

Edel se juntou ao rapaz no banco. Tirou a neve e se sentou com as pernas cruzadas, rosto virado para ele.

— Sabe, se algo desse nível estivesse acontecendo, o Conselho saberia — ela mencionou.

— O Conselho deve saber...

Lupus a olhou com a mesma intensidade.

— Mas não está fazendo nada sobre.

— E o que você sugere com isso?

— Sugiro olhar os documentos no Conselho. — Ele sorriu, intencionado. — Mas eu precisaria de uma certa autorização para isso, entende?

Edel riu. A risada graciosa que a fez mover a cabeça para trás.

Lupus levantou do banco.

— Vamos? — Ele perguntou, o que mais pareceu um pedido de confirmação.

Edel não deixou seu lugar. O sorriso que marcava sua expressão permaneceu, mesmo quando ela decidiu levantar e acompanhar o caçador numa jornada duvidosa.

***

Lass torceu o nariz com o cheiro dos peixes mortos. Grande parte do aroma lembrava o mar, mas também a morte. Apesar disso, não era incomodo caminhar pelo porto do continente, e sim a razão de Adel ter o trazido para ali. A conversa entre eles tinha começado bem, casual como sempre, o que se desenvolveu num caminho que o ninja não questionou no primeiro instante. Agora ele não conseguia mais ficar calado.

— Adel — Lass o chamou num tom baixo, como se o nome do líder do conselho fosse proibido em um lugar tão imaculado como aquele.

Adel parou de andar, virando-se com seu sorriso presente de sempre.

— Que droga é essa? — O ninja gesticulou para tudo a volta. Para os peixes, para o mar, para o fedor.

— Te incomoda um cheiro de peixe?

— Não... Quero saber o que estamos fazendo aqui.

— Bem... — Adel continuou a andar, Lass a acompanha-lo. — Antes disso, eu gostaria de falar algo com você.

— É sobre as chamas? — A perguntou se arrastou, cansada.

Adel deu um sorriso de lamentação. Lass não o impediu de fazer a pergunta.

— Você terminou todas as missões com os outros Conselhos, te dou parabéns por isso.

— Valeu — murmurou, sem ânimo.

— Mas, dias depois disso, eu recebo uma notícia que você chegou em Canaban montando um dragão e usando suas chamas.

Lass parou de andar. Não sabia se foi porque Adel parou e ele parou em seguida ou se ele parou e por isso o líder fez o mesmo; de qualquer dois, ambos se olhavam, parados enquanto homens passavam com pedaços de peixe sobre o ombro.

Lass se sentiu preso em um gancho, pronto para ser puxado para fora do mar que era sua liberdade temporária.

— Olha — o ninja ergueu as mãos, defensivo —, não é como você pensa.

— Lass, eu estou do seu lado, mas não posso te defender o todo o tempo.

— Primeiro, não era um dragão.

— Isso não muda o fato de você ter usado as chamas. Em público!

Lass se sentiu pequeno diante Adel. Eram amigos, mas aquele a sua frente era o líder do Conselho de Serdin, dando um sermão que Ronan tinha o trabalho de dar igualmente.

Lass entendia a frustração do mesmo.

— Ninguém se feriu — continuou o ninja. — Eu tenho controle das chamas.

Os ombros de Adel descansaram como a expressão. Ele assentiu.

— Eu sei, mas sua liberdade não foi decidida ainda, Lass — ele disse, tentando não trazer desconforto com aquelas palavras.

Mas não foi o que Lass sentiu. Esse mesmo desconforto sempre esteve presente em sua vida, um costume que se tornou imperceptível com o tempo.

— Vou tentar... — ele procurou por palavras, incerto do que queria dizer de verdade. — Vou tentar não chamar atenção de novo.

Esperou, o frio do porto fazendo os pelos de sua nuca subirem. Somente com o sorriso de Adel, Lass pôde sorrir junto; não exatamente um sorriso, pois parecia mais uma distorção facial.

— É só isso que você veio falar? — Lass perguntou, um pouco tenso ainda.

— Ah, não.

A tensão voltou por completo. Antes que pudesse perguntar sobre o real motivo, Adel voltou a andar.

— Então sobre o que é? — Lass veio atrás.

Adel não deu uma resposta, seguindo em passos descontraídos pelo porto movimentado. O que se passava na cabeça do líder? Lass queria saber, ter uma resposta que o incomodava tanto naquele curto período de silêncio entre eles.

Mas Adel parou. E esticou os braços, teatral.

— Vejo que você não percebeu a chegada dos outros continentes aqui — disse o líder. — Dê uma boa olhada em volta.

O barco estacionado atrás de Adel foi o primeiro alvo de sua atenção. Não era um tipo de barco comum, de pesca ou cargueiro, era maior, mais forte, mais chamativo. Ver pessoas vestidas como um membro do conselho fez a ficha de Lass cair. Seu corpo entrou em um estado de negação, o que era longe de ser medo, porém próximo de um estado de defesa.

Ele se sentia ameaçado.

— O torneio começará em breve — continuou Adel. — Esse será o momento do seu verdadeiro teste.

— Como assim? As missões que eu fiz foram por nada?

— Não foram em vão. O que estou dizendo é que todos os líderes estarão em um único lugar, te olhando a todo instante. Então...

Fazer uma missão separada para um líder era fácil. Dificilmente Lass conseguia agradar os gostos de um líder, mas, no fim, ele conseguia. Agora, agradar a vários gostos de vários líderes?

Lass esfregou a nuca. Doía só de pensar.

— Não vou precisar te explicar, acho que já está óbvio meu conselho. Tome cuidado, senão...

O som do cutelo partindo a cabeça de um peixe serviu de exemplo.

***

A espada pesava nas mãos de Elesis. Sua respiração exalou como uma fumaça quente, de uma máquina recém sobreaquecida. Os ombros dela abaixaram, mais relaxados, deixando assim a espada repousar no chão coberto de neve. Nesse momento, ela lembrou de se acalmar por completo.

As mãos em volta do cabo da espada se abriram, apenas o suficiente para ver as palmas vermelhas de sangue.

— É, já deu pra mim — a voz de Jin acabou com todo o clima sério.

Com uma expressão pesada de cansaço, Elesis assentiu. Do outro lado do pátio da escola, Jin suspirou com alívio. O fim do duelo enfim terminou. O lutador decidiu se aproximar da espadachim, que usava uma mesa do local como apoio da grande espada.

— Eu não acho que essa espada seja para você — comentou Jin.

Ele subiu na mesa e se sentou com as pernas encolhidas.

— Eu só preciso treinar — disse Elesis, encarando a lâmina. — Se Gerard conseguia, eu também posso.

— Você é melhor com os sabres.

Ela deixou a espada de lado, podendo assim ver as mãos feridas por segurar tanto peso. O impacto que os ataques de Jin causavam só pioraram seu estado.

— Aliás, é uma espada velha. Se vai usar uma desse tamanho, que seja nova.

— E foi com essa mesma espada que Gerard ganhou de mim — corrigiu Elesis. Porém se corrigiu novamente. — Quase ganhou. Não importa. Eu quero poder usar essa espada.

Existia uma razão para isso. Jin conseguia notar, olhando as sobrancelhas da espadachim se flexionarem até ganharem um tom bravo.

— Você tá bem, Elesis? — Ele sussurrou.

Ela o olhou, sem entender a pergunta.

— Sim, estou.

— Você parece muito diferente. De um jeito... não sei como explicar, só estou preocupado.

Elesis esfregou as mãos, baforando sua respiração quente sobre elas.

— Eu sinto que estou ficando fraca — admitiu a espadachim. — E já faz um tempo que estou achando isso.

— Mas você não é fraca.

— Mas também não sou a mais forte!

Elesis fechou os punhos. As chamas vermelhas contornaram sua mão por um instante, apagando-se logo em seguida.

— Eu só tenho as chamas vermelhas — continuou a espadachim. — Eu perdi todas as outras só para derrotar Cazeaje. Nem por isso sou reconhecida.

— Reconhecida? — Jin abriu um sorriso torto, como um risonho nervosismo. — Elesis, você derrotou Cazeaje!

— Não, eu não derrotei! De acordo com os Conselhos e todo o mundo, quem derrotou Cazeaje foi o Lass.

Agitada, Elesis apontou para o lado, acusando a figura imaginativa do ninja que ela viu para jogar sua raiva. Então ela inspirou fundo e andou em volta da mesa de Jin, chutando a neve.

— Lass ganhou todos os créditos, Lass ganhou parabéns, Lass isso e Lass aquilo—eu não aguento isso! — Parou de andar, batendo o pé no chão. — Eu... Eu...

Jin não sabia se o que via no olhar baixo da espadachim era raiva ou tristeza; ou talvez os dois. Ela se desmanchava nas tentativas de tirar do peito o que tanto incomodava.

— Eu sacrifiquei minhas chamas por isso — enfim conseguiu falar. — Minhas memórias. Quase minha vida. E tudo que recebo é um “obrigado” dos outros Conselhos.

— Mas você sabe por que o Lass teve que ficar com os créditos — Jin sussurrou, tentando não despertar mais nervosismo na amiga. — Ele precisava disso, Elesis.

— Eu entendo isso, só que... — os punhos se cerraram. — Todos me veem como um fardo agora. Ronan não me aceita no torneio dele. E o Lass...

Ela se calou. A raiva aqueceu seu corpo, mas a mana desconhecida que rondava por suas veias esquentou mais, quase um ser com vida própria. Elesis teve que parar por ali.

— Eu quero ficar mais forte. Eu quero ser o que Gerard era.

Jin se encolheu diante as palavras de Elesis. Ela ainda parecia a mesma Elesis de sempre, orgulhosa e cabeça dura, mas tinha algo de diferente, uma energia que exalava um perigo. Naquele instante, Jin se sentiu como uma lebre perto de um lobo. Um lobo faminto, pronto para atacar o que tivesse na frente.

— É por isso que você e o Lass brigaram antes? — Ele tentou mudar o clima da conversa. — Eu ainda quero saber o que aconteceu.

Elesis pretendia responder, mas se interrompeu ao notar algo. Seus olhos de desdém se focaram em Lass, que aproximava deles. Ele parecia um pouco atordoado, somente sorrindo ao olha-la.

— É melhor você perguntar isso a ele — disse Elesis para Jin.

— O que vocês estão fazendo aqui fora? — Lass pergunto ao chegar perto. — Tá frio demais.

Ele esperou por uma resposta de Elesis, porém ela apenas entregou o olhar mais frio que tinha. Lass tentou se aproximar dela. A espadachim recuou e partiu em passos pesados. Sem entender o que fez, o ninja olhou para Jin, que ria silenciosamente.

Lass correu atrás de Elesis.

— O que agora?! — ele gritou.

A espadachim parou e se virou. Enfim compreensível, Lass pensou. Então, ela voltou para onde Jin estava, pegando a grande espada consigo e voltando para o caminho anterior. Lass a perseguiu mais uma vez.

— Elesis!

Lass correu e parou diante dela. Elesis continuou a andar, forçando o ninja a recuar no mesmo ritmo.

— Sério, não quer nem saber o que o Lupus queria comigo?

— Não me importo.

— Nem o Adel?!

Elesis parou e, pela primeira vez, pareceu mais alta que Lass. Uma seriedade que o fez se sentir pequeno.

— Do que adiante eu saber se você não vai me incluir? — Ela perguntou.

— Não é isso—

— Eu sou um fardo para você!

O tempo ficou mais frio.

— Eu nunca quis dizer isso — rebateu Lass.

— Mas disse.

Elesis foi embora, arrastando a espada pela neve. Lass não ousou a seguir.

De onde Jin via, não tinha mais risada. Era uma briga séria, honesta. Antes disso, todos os encontros dos dois eram voltadas para uma briga infantil que parecia se resolver com o tempo, como todas as outras. Mas essa... Jin sentiu a intensidade de longe.

***

Elesis continuou a andar pelo corredor do colégio, a respiração acelerada pelo nervosismo. Tentava se acalmar, mas seus esforços não valiam muito quando sentia o pesar no peito de Lass, embora distantes. Se pudesse, ela mesmo arrancaria o próprio coração para cortar essa conexão entre eles.

Entre bufadas nervosas, Elesis notou alguém andar por aquele mesmo corredor. Não era difícil identificar Lupus com suas roupas vermelhas. Felizmente, ele não tinha a notado, distraído com papeis que carregava em mãos. Parecia importante, o que fez Elesis o seguir.

Quando o haro entrou em seu quarto, ela parou. A pesada espada foi deixada de lado, como alguém que larga o guarda-chuva de lado, sabendo que ninguém vai roubar. De mãos livres, Elesis abriu a porta do quarto e entrou.

— Você não é uma boa stalker, cunhadinha ­— disse Lupus, de costas para ela.

O arrependimento foi rápido. Não deveria ter entrado, mas como estava ali, não sairia com mãos vazias.

— Então, o que você quer?

— Só quero saber o que você está planejando — contou Elesis, sem saber exatamente o que falar.

Lupus pegou um dos papeis que segurava e prendeu na parede, que continha mais papeis com informações. Elesis não conseguiu resistir a tentação de ver o que era.

— Fazendo meu trabalho. Diferente de você e meu querido irmão, é claro.

Elesis se sentiu ofendida, mas não esboçou. Sua raiva estava muito focada em uma pessoa, e não era Lupus.

— O que você queria com ele hoje de manhã?

— Hum — Lupus sorriu para ela —, não é da sua conta. Nem do Lass.

— Mas a chama é minha, então eu tenho o direito de saber.

Lupus colou mais um papel ao mural na parede e se voltou para a espadachim. Ela tinha um ponto válido. Ele cruzou os braços e se encostou na parede.

— Eu queria saber se as chamas sabem de alguma arma que possa matar o Berkas.

— Berkas?

Esse era um nome que despertava algo em Elesis. Nada positivo nem negativo, mas ela sabia como deveria reagir com o cenho franzido de Lupus.

— É tipo um dragão do submundo, certo? — Chutou a mesma.

— É, resumindo. Forte, perigo suficiente para acabar com parte de Ernas.

— Acabar com Ernas? Espera, o quê?

A conversa tomou um outro tom de repente. Elesis tentou encarar como uma piada do caçador, que mesmo tendo o humor para isso, não parecia ter no momento.

Em resposta, Lupus pegou outro papel e mostrou para Elesis.

— Estou precisando dessa espada — ele apontou para a figura da arma no papel. — É antiga, por isso acho que as chamas devem saber de alguma coisa.

— Logo as chamas?

— Estou ficando sem opção — disse frustrado. — E o tempo está passando. Não tem muito o que eu possa fazer.

Elesis ainda tinha dúvidas em relação ao trabalho do caçador. De certa forma, acreditava no perigo que ele destacava. Lupus não era o tipo de pessoa que ficaria alerta por nada; muito menos se daria ao trabalho de falar com as chamas azuis pessoalmente. Ninguém em sã consciência ousaria falar com elas.

— Posso perguntar às chamas por você — Elesis esticou a mão, a pedido do papel com a espada.

— Por que tanta bondade sua tão de repente?

— Só não quero ver você tentando matar o Lass de novo para falar com as chamas.

Lupus deu um sorriso. Aquele que ela odiava e ele sabia. Elesis balançou a mão, apressada.

— Fofo da sua parte, cunhadinha — ele admitiu, entregando o papel.

— Não, estou fazendo isso porque qualquer dor que o Lass sentir, eu também sinto, então...

Isso despertou uma curiosidade infantil no rapaz.

— Sério?

— Sério. Longa história.

— Então se eu te der um tiro...?

— Nem ouse!

***

— Eu nunca quis ofender a Elesis — insistiu Lass.

Jin acenou com a cabeça. Não era uma afirmação que demonstrava concordância, e sim um lado mais neutro. Lass soltou um suspiro.

— Você sabe que a Elesis se ofende por qualquer coisa — falou Jin. — E ainda a chama de fardo!

Lass iria repetir novamente sua desculpa, mas se conteve ao perceber pessoas no corredor por onde passavam. Teve que engolir a raiva.

— Não foi de propósito — ele murmurou. — Foi no calor do momento.

Eles pararam de andar diante uma porta. Jin bateu nela.

— E você já se desculpou com ela?

— Me desculpar? — Lass olhou ofendido. — Eu tô tentando conversar com ela sobre isso desde que cheguei e ela fica fugindo!

Jin não conseguiu discordar disso. Até...

— Vocês não conseguem tempo para conversar, mas têm tempo pra tacar fogo no colchão?

Lass o encarou e Jin lançou o olhar mais sincero que tinha. Antes que houvesse alguma resposta ou comentário, a porta se abriu.

Mari pareceu um pouco surpresa ao reparar em Lass.

— Ah, você — ela apontou. — Eh... Lam?

O ninja deu um sorriso solidário, assentindo.

— Isso mesmo.

Não valeria o esforço de corrigir seu verdadeiro nome. Por outro lado, Mari assentiu junto; ela não se importava de errar os nomes das pessoas mesmo.

— Então — Jin chamou a atenção, esfregando as mãos —, consertou meu celular?

— Sim, fiz alguns reparos novos e...

A voz de Mari se distanciou junto com ela enquanto entrava no breu do quarto. Jin suspirou e a acompanhou.

Lass permaneceu no corredor. Não tinha vontade de ouvir uma longa conversa que pouco entenderia, por isso, tomou rumo para seu quarto. Sua consciência pesava com as palavras de Elesis e piorava com a conversa com Adel.

Este não era um bom dia.

Lass abriu a porta do seu quarto. Era tarde, cochilar para passar o dia não parecia uma má ideia. Estava disposto a deitar sob as cobertas pesadas, que ainda cheiravam a queimado, porém seu plano foi cancelado com a presença do inesperado.

Sentado na beira da cama, Grandiel sorriu para Lass. Isso fez o ninja paralisar por completo. Tanto tempo sem se verem que agora não sabiam o que falar primeiramente.

— Lothos me contou sobre sua volta — mencionou Grandiel. — Desculpa não estar quando chegou.

— Ah sem problema.

Lass fechou a porta. Ele ainda não sabia o que fazer. Não era nervosismo, apenas uma surpresa que o deixa paralisado, mas inquieto por dentro.

— Vai mesmo ficar parado aí? — Grandiel notou.

— Eu só... tô muito feliz por te ver.

Grandiel levantou e Lass o abraçou. Estar nos braços do diretor o fazia sentir toda segurança que faltava nesses dias. Ele parecia ser o único capaz de protege-lo do perigo que os outros Conselhos representavam.

A mão de Grandiel pesou sobre a cabeça do ninja.

— Como foram esses dois anos? — Ele perguntou.

Lass respondeu contra o ombro do loiro.

— Uma merda.

Então se obrigou a se soltar de Grandiel. Ele não tinha envelhecido, mas a falta do longo cabelo despertou um incomodo no ninja. Isso o tornava uma pessoa de aparência mais vulnerável; diferente de Astaroth, que aparentava um perigo com seu corte curto.

— Bem, você já passou por coisas piores nas mãos de Cazeaje — disse Grandiel. — Não pode ter sido tão ruim assim.

— É...

Lass concordou, então abaixou o olhar. Seu corpo pesava, uma dor que despertava no centro do peito e o fazia se contorcer diante a preocupação de Grandiel. O que era essa sensação que Lass sentia?

— Ei — Grandiel pôs a mão no ombro dele. — O que foi?

A voz do ninja saiu trêmula:

— Nada...

E antes que conseguisse perceber, lágrimas escorriam por sua bochecha pálida. Grandiel o segurou pelos braços, assustado de ver tal reação do rapaz sério que Lass era.

— Por que você tá chorando? — Ele exigiu saber.

Lass afastou as lágrimas com a palma da mão. Sob o olhar de tristeza, um sorriso honesto se formou.

— Eu só tô feliz por te ver. Só isso.

Era verdade, em partes. Os dois anos distantes de Grandiel fizeram Lass temer por sua própria segurança. A cada missão que fazia para um Conselho, um medo surgia de falhar e perder a cabeça por isso.

Suas lágrimas eram de saudade de todas coisas boas que Grandiel representava, mas também do alívio de estar de volta. O homem a sua frente era o que ele considerava como lar; e tinha noção que podia perde-lo a qualquer momento.

***

Elesis piscou e lágrimas transbordaram de seus olhos. Um soluço escapou dos lábios, despertando uma dor em seu peito. Ela pôs a mão sobre o local, perdida na emoção repentina.

Ela queria apenas chorar e chorar, tirar toda a angústia do peito. O problema era que nem a dor ou as lágrimas pertenciam a ela.

Elesis parou de andar sob a neve. Desejava voltar, entrar no colégio e ver Lass. Por que ele chorava? O que fazia o rapaz como ele derramar lágrimas? Ela precisava saber. Precisava se desculpar pelas pesadas palavras de mais cedo.

Mas ela parou. O celular tocava e parecia importante. Ronan nunca a ligava, principalmente por estar tão ocupado trabalhando.

— Oi, Elesis — disse ele do outro lado da linha. — Está ocupada?

A espadachim secou as lágrimas. De certa forma, tinha um compromisso agora.

— Não exatamente. Precisa de algo?

— Preciso sim. Pode vir à noite na minha casa?

Elesis não viu problema, porém não confirmou, confusa com o detalhe.

— Na sua casa?

— No castelo, que é minha casa — explicou Ronan, seu nervosismo palpável dali. — Não no Conselho.

— E tem algum motivo? — Estranhou a espadachim.

— É um assunto pessoal. Então venha sozinha, por favor.

Elesis achou mais estranho.

— Não traga o Lass, nem fale sobre isso para ele, ok? — Continuou Ronan, agora parecendo desesperado.

— Hum... tá. Claro, eu vou aí.

— Obrigado. Nos vemos à noite.

Ele se despediu, desligando quase que imediatamente a chamado após isso. Mais um motivo para Elesis ficar em alerta. As dúvidas superaram as dúvidas atuais sobre Lass. O que fosse, ele já tinha parado de chorar e a dor desparecia do peito da espadachim.

***

Elesis entendia por que Ronan não gostava de chamar o castelo de sua casa. Era grande demais, chamativo demais, um lugar com tanto luxo que seria um pecado alguém morar nele. A escadaria da entrada já dava um vislumbre de toda essa beleza.

Elesis entrou no castelo, sem a necessidade de se identificar. No entanto, ao pisar no salão inicial, ela quase correu atrás dos guardas para pedir por um mapa. O interior era um labirinto gigante. Felizmente, um mordomo logo a avistou e a acompanhou até o cômodo que Ronan se encontrava.

A espadachim foi deixada na entrada da sala de jantar. A longa mesa no centro estava vazia, exceto por duas pessoas sentadas na ponta mais distante.

— Elesis — sentado na ponta, Ronan acenou para ela. — Junte-se a nós.

Elesis foi até a outra ponta da mesa, em passos lentos. A presença de Adel à mesa a trouxe mais questionamentos.

— Senhorita Elesis! — Exclamou Adel, que se levantou com a mão estendida. — Prazer te rever.

Com um olhar de dúvida, ela apertou a mão do líder de Serdin.

— Oi, Adel — cumprimentou Elesis. — Vocês estão tendo alguma reunião ou... ?

Ronan vestia uma roupa casual como Adel. Não pareciam estar a trabalho.

— Não, estamos apenas conversando sobre o evento — explicou Ronan. Ele puxou uma cadeira ao seu lado. — Sente-se. Está com fome?

Elesis se sentou, sem deixar o semblante confuso.

— Um pouco — ela disse. — É para isso que você me chamou? Uma janta?

Um prato de sopa foi colocado na frente de Elesis. Ela agradeceu a empregada e, mesmo questionando, pegou a colher para comer.

— Não exatamente — Adel respondeu. — Ronan e eu estávamos conversando sobre o torneio.

— Adel chegou com algumas novas informações — acrescentou Ronan.

Elesis olhou bem o amigo, como esfregava a nuca. Sua aparência apontava cansaço e estresse, mas agora parecia além disso. Alguma coisa o incomodava.

— Posso saber sobre o que é? — Elesis perguntou, inocente.

— Bem, os outros Conselhos já votaram a favor disso, então não tem muita coisa que eu e o Adel possa fazer agora — suspirou Ronan, mais nervoso. — Eles decidiram qual será o prêmio do torneio.

— E o que é?

Ronan encarou o próprio prato, indeciso de como contar para ela. Esperando por uma resposta, Elesis olhou Adel, que parecia ter a mente mais em ordem.

— O continente que ganhar, isso é, o Conselho que ganhar, terá a posse do Lass — contou Adel, sem pausa. Direto.

A fome da espadachim desapareceu. Ela largou a colher o prato e segurou a respiração enquanto encarava o líder de Serdin. Ele tinha sido honesto, e isso que doía tanto.

— Como assim terá a posse do Lass? — Perguntou Elesis com uma voz arrastada. — O que quer dizer com “posse”?

— Elesis — Ronan ergueu a mão.

— Como assim?! — Ela berrou.

Culpa exalava de Ronan, que se sentia incapaz diante a indignação da espadachim. Diante a isso, Adel manteve uma neutralidade. Ele tinha controle da situação.

— Sim, os outros Conselhos estão vendo o Lass como um prêmio — concordou o líder. — E não podemos mudar esse acordo. É tarde demais.

— Não, vocês não podem! — Elesis levantou. — Ele não é uma coisa pra ser duelada! Ele... Ele é uma pessoa!

— Não diante os olhos dos Conselhos — murmurou Ronan.

As emoções arderam dentro dela. Não culpava seu amigo, mas a enlouquecia a passividade que ele tomava naquela situação. Ele deveria fazer mais, mesmo sabendo que não levaria a lugar algum.

— O Conselho que ganhar, terá o direito de decidir o futuro do Lass — continuou Adel, mais relaxado após a explicação. — E como não sabemos o que eles acharam das missões do Lass durante esses dois anos, devemos nos preocupar com esse torneio.

— O que vocês pretendem fazer? — De raiva, o desespero tomou conta da voz da espadachim. — O que tiverem em mente, tô dentro!

Após ter dito isso, Adel e Ronan se olharam. A confirmação que esperavam tinha chegado e Elesis não entendia muito bem o que aqueles olhares significavam.

— Eu não estarei participando do torneio — disse Adel. — Edel estará me representando em alguns eventos, mas ela estará fora do torneio. Sei que ela não é forte o suficiente para vencer os outros competidores.

— E como você espera resolver o problema do Lass com isso? — Elesis olhou confusa.

Adel não respondeu, deixou Ronan falar com toda firmeza que tinha no momento.

— Eu vou estar participando e quero que você seja minha campeã, Elesis.

Elesis nunca teve muita esperança de ouvir isso de Ronan. Mas agora que ouviu, sentiu uma sensação oposta do que esperava. A responsabilidade que ele depositava nela era esmagadora, tanto que a fez se sentar.

— Não, eu... — ela balançou a cabeça, negativa. — Eu não posso.

— Elesis — Ronan destacou seu nome com urgência. — Você pode.

— Não, tem alguém mais forte que eu em Canaban!

— A questão não é a força — interferiu Adel. Seu sorriso demonstrava uma segunda intenção totalmente ausente em Ronan. — E sim a motivação.

— Motivação?! Que motivação?!

— Você ama o Lass, essa é a sua motivação! — Adel gritou de volta.

Elesis voltou a se sentar, sem ter percebido que estava de pé novamente. Era uma boa resposta que recebeu. Perfeita, para ser honesta.

A vida de Lass dependia exclusivamente a ela; não a Adel ou Ronan. Nessa situação, existia apenas uma resposta: vencer. Perder nem mesmo era uma opção.

— Eu vi o que você fez com Cazeaje — dizia Adel. — Vi o que uma motivação te obrigou a fazer. É isso que queremos.

Um ser imparável. Elesis concordou com as palavras do líder.

O pesar em seus ombros cresceu. Ela inspirou profundamente, afastando a sensação ansiosa que fazia suas mãos tremerem.

— Certo — ela sussurrou, então falou num tom alto. — Posso ser sua campeã.

Ronan demonstrou um sorriso de alívio. A responsabilidade era dividida, não era totalmente dele.

— Não conte para ninguém — ele pediu, sério. — Ninguém mesmo. Nem mesmo o Lass.

Ela assentiu. Talvez a parte mais difícil não fosse ganhar o torneio, mas manter esse segredo do ninja.

***

Elesis não disse uma única palavra desde que chegou no colégio. O refeitório estava parcialmente cheio àquela hora da noite, alguns alunos jantando e jogando conversa fora. A espadachim tinha se sentado com Lire e Arma numa mesa, porém sua falta de assunto não chamou a atenção das amigas risonhas.

— Não vai comer nada, Elesis? — Perguntou Arme.

— Eu já comi fora — disse a espadachim com um sorriso forçado.

A atenção de Elesis se voltou para outra mesa. Os rapazes conversavam de forma mais barulhenta, o que não era o caso de Lass. Ele parecia feliz, alguém que não tinha chorado mais cedo. Ela ainda se perguntava o motivo.

Mas o objetivo com ele era outro. Esforçou-se a esquecer o torneio e a vida de Lass, no lugar, focou-se no pedido de Lupus. Precisava resolver logo, antes que o caçador a cobrasse com uma das suas scarlets.

Foi sua deixa quando o ninja saiu da mesa. Elesis o seguiu para fora do salão.

— Lass.

No corredor vazio da noite, a baixa voz da espadachim o chamou a atenção.

— Você está bem? — Ela perguntou.

— Estou — ele olhou confuso. — Eu não deveria?

Ele escondia o choro. Não ficou surpresa, era bem esperado do ninja.

— Só checando.

— Então, sobre mais cedo...

Elesis levantou as mãos, pedindo para não tocar no assunto. Um pouco frustrado, ele respeitou isso. Não conversar sobre o assunto era como uma coceira, crescendo a cada negação da espadachim.

Como uma forma de alívio, ela segurou a mão dele.

— Podemos ir para o seu quarto? — Perguntou Elesis.

Isso pegou Lass desprevenido.

— Hã, não sei, tenho que falar com o Jin ainda—

Elesis o puxou pela mão ao tomar o caminho. Lass se deixou levar, embora apreensivo sobre o que poderia ser. A falta de resposta da mesma durante todo o caminho o deixou mais nervoso quando chegou no quarto.

— Elesis, eu não quero queimar outro colchão — disse Lass ao fechar a porta.

Sozinhos no quarto. Ela ainda o segurava pela mão.

— Vai ser rápido — disse Elesis.

Ela o beijou antes que o ninja debatesse. Um beijo rápido e confuso. Elesis o olhou com uma estranha seriedade e perguntou baixo:

— Está sentindo cheiro de churrasco?

— Cheiro de quê?

Ela se manteve calada. Em seguida, Lass caiu no chão. Simplesmente assim. Em um momento estava acordado, no outro, desmaiado no chão.

A espadachim tirou o casaco pesado e deixou sobre a cama. Olhou em volta à procura de algo afiado. A katana de Lass era o bastante. Ela pegou pela bainha e permaneceu de pé diante o corpo do seu amado no chão.

Elesis inspirou fundo quando o corpo começou a se mexer. Levantando como uma marionete, uma risada rouca escapava dele. Seu rosto parou próximo de Elesis.

Ele sorria, ela estava séria. Os olhos vermelhos de Lass piscaram.

Não era mais o Lass, Elesis tinha esquecido por um breve segundo.

— Ora, parece que alguém não esqueceu de mim — disse as chamas. — Senti tanto sua falta, Elesis.

Ela segurou com mais firmeza a bainha da katana.

— Precisamos conversar.

Notas finais
Review? * Vou deixar logo o aviso que o próximo cap só chega em dezembro. Motivos? Faculdade kkkkk No começo de dezembro já deve ter cap novo e vou ter trazer um grande. Peço desculpas por isso. * As coisas estão ficando mais intensas agora. Então... se preparem.