Notas iniciais
Hello, hello! Demorar a postar agora é uma tradição, peço perdão. O cap não está muito grande, mas tem coisas grandes acontecendo nele. Digamos que a cena final foi a cena que me motivou a escrever uma nova temp. Espero que gostem. Boa leitura!

Jin se escondeu embaixo da cama acompanhado de Cazeaje. O pequeno espaço o forçou a se encolher, apertando-se no canto mais distante para que eles dois coubessem ali. No instante que se acomodou, Cazeaje olhou para ele com um sorriso felino.

— Vai ficar aqui mesmo? Escondido?

Jin abaixou o rosto até o chão. Ele conseguia sentir seu corpo desobediente, com mãos e dedos gelados que não se moviam a sua vontade.

— Isso é desperdício de potencial, entende? Você é muito forte, Kaien. Mas essa é sua escolha? Se esconder embaixo de uma cama.

Seus dentes se apertaram pelo trincar nervoso da mandíbula. As mãos geladas ficaram mais geladas, logo começaram a tremer. Nem mesmo isso Jin tinha controle mais.

— Erga-se, Jin. Você tem um mundo para salvar.

— Pode... — ele sussurrou, forçando a voz pela garganta. — Só cala a boca.

— Essa também é uma decisão sua. Faça-me parar de falar.

Jin ouviu a porta do cômodo se abrir. Dali, viu o par de pés com meias seguindo caminho para a cama.

Cazeaje riu baixo perto de seu ouvido.

— Não consegue, não é mesmo? Fraco.

Ele pressionou as mãos na cabeça. O tremor era sentido por suas bochechas. Jin enfiou o rosto no chão, o único movimento que conseguia fazer com total controle. Com os olhos fechados, sentiu Cazeaje se aproximar mais, sua risada fazer cócegas em seu ouvido. A cama sobre si tinha encolhido, o colchão pesado e duro pressionando-o pelas costas. Jin puxou ar pela boca. Um ar sujo de poeira e partículas desconhecidas. A sensação imediata de sua garganta se fechando o fez se afogar. A tosse não foi o bastante para tirar de seu pulmão o que fosse que lhe sufocava.

— Jin?

O aperto em volta de seu antebraço arrancou seu corpo desse mar. O calor da mão sobre seu braço vinha da jovem ajoelhada no chão. Ela o observava silenciosamente, como se soubesse que palavras não seriam efetivas nele.

— Jin, você não precisa se esconder aí. Venha, vamos comer algo.

— Só mais um pouco.

A jovem virou a cabeça de lado. Era um gesto muito Elesiano, inevitável de não comparar com a própria criadora do gesto. Jin queria saber onde ela estava, e se ela estava procurando por ele. Alguém deveria estar.

Alguém tinha que acha-lo.

— Vem, Jin.

Jin se deixou ser puxado para fora da cama. Ao ficar de pé, o mundo pareceu perigoso novamente. Os sons do lado de fora diminuíram com os dias, mas ainda estava barulhento aos ouvidos do ruivo.

Não tinha muito que ele pudesse fazer, além do mais. Esconder-se com a família daquela casa era o que restava para Jin, e que estava ao seu alcance. Sair para enfrentar dragões e seres poderosos estava longe do ideal de sobrevivência atual.

Jin era fraco. Já estava decidido no momento que ele foi acertado por Duel. Ele não tinha forças para lutar ou se defender. Completamente sozinho, apenas lhe restava a jovem e seu pai.

E Cazeaje.

***

Lass lutou com todas forças que tinha. No fim, ele apagou tentando não se afogar.

O calor apertava seu corpo, a umidade fazia qualquer tentativa de fuga impossível. Ele lutou por espaço, empurrou as paredes pegajosos, mas apenas se sentiu mais preso, distante de qualquer saída daquele inferno.

Então a luz veio. Quando o brilho atingiu sua visão, ele apenas se deixou levar. Seu corpo se inclinou, escorregando até sua cara atingir o chão.

Lass tossiu. Ele se viu coberto por uma camada de saliva, grudando-o ao chão polido do salão. O dragão de porte médio o observava, uma possível curiosidade, então ele se virou e voou para fora do salão pelo mesmo buraco que veio.

— Bem vindo, portador das chamas.

Uma vez, Lass viu Ronan sentado no trono e deu uma boa risada. Por mais forte e capacitado ele fosse, sua imagem simplesmente não combinava em um lugar de tanto poder. Ronan parecia mais magro, uma pequena criança amedrontada de tomar decisões sozinha.

Mas o asmodiano sentado no trono era diferente. Ele parecia pertencer ali.

Lass se apoiou no joelho, incapaz de se levantar. Sem arma, sem amigos, completamente em desvantagem para lutar contra o desconhecido; ele e o garoto que parecia uma criança no canto do salão. O mesmo flutuava com as pernas encolhidas, parecendo entediado pelo que via.

— O que...

— Nellus, só arranca logo as chamas dele — disse Veigas. — Ouvir a esse pedaço de carne não vai levar a lugar algum.

Lass olhou emburrado. Veigas devolveu o olhar com a língua de fora.

— Eu ia perguntar o que querem — mencionou Lass. — Mas já tenho minha resposta.

— Muitas pessoas devem ir atrás de você pelo mesmo objetivo, não é? — perguntou Nellus.

— Virou um costume, o que me leva a falar: vocês são muito idiotas se acham que vão tirar as chamas de mim.

Tamanha arrogância que fizeram as chamas rirem. Lass as ignorou, sabendo que elas não fariam muito para defende-lo. Seu corpo estava fraco demais para ficar de pé, principalmente para usar as chamas.

Pensa, pensa, pensa era a única coisa que se repetia em sua mente.

Nellus ficou de pé, Lass sentiu seu coração bater mais rápido. Ele não tinha nenhum plano pra fugir, mas se forçou a manter a calma enquanto o asmodiano se aproximava.

— Eu sou Nellus. Nunca deve ter ouvido falar de mim.

— Eu deveria?

Nellus parou a metros de distância. Era um espaço que Lass conseguia relaxar um pouco os músculos.

— Cazeaje nunca se deu o trabalho de me mencionar?

Lass arqueou as sobrancelhas, então paralisou. Era incrível como um único nome poderia trazer tantas inseguranças à tona. A calma que tanto lutava pra manter começava a escapar de suas geladas mãos.

Nellus olhou com certa surpresa a surpresa de Lass.

— Eu sou um antigo amigo dela.

— Não sabia que aquela louca tinha amigos.

— É porque os amigos dela também são loucos — disse Veigas.

Lass concordou. Apenas alguém louco o suficiente para atacar Canaban e invocar um dragão colossal poderia ser amigo de Cazeaje. Eles tinham gostos em comum: o genocídio.

— E o que eu tenho a ver com isso? — Lass fechou os punhos, com medo da resposta.

— Digamos que ela tenha feito um acordo comigo que envolva você.

Lass engoliu seco.

— Não eu, mas as chamas, né?

— Isso.

Nem mesmo morta, Cazeaje o deixava em paz. Lass apoiou uma mão no chão enquanto a outra se fechou em um punho.

— Complicado ouvir isso — dizia o ninja. — Você não me dá outra escolha então.

— Que é?

Toda a força foi gasta para se levantar com o punho contornado pelas chamas. Lass socou o ar. O disparo passou reto sobre o ombro de Nellus, que permaneceu imóvel enquanto o ninja voltava ao chão. Ele caiu de lado e permaneceu deitado, sem mais forças para se mover novamente.

Veigas soltou uma risadinha.

— Sério? Foi preciso do Duel pra pegar esse cara? Que patético, Nellus.

Nellus soltou um suspiro; uma provável decepção de Lass ou de si próprio. Então, voltou para seu lugar no trono.

— Veigas, quero que você vá cuidar do tal Sieghart.

Lass tentou se erguer, mas não conseguiu mover sequer a mão.

— Por que o Sieghart? — Veigas indagou.

— Se tem um Sieghart na cidade, ele é um perigo para nós. Resolva isso imediatamente.

— E quanto ao Dio e a Rey? Eles também são—

— Dio não tem mais poder e Rey só foge, então minha prioridade é o Sieghart.

Com um abafado “ok”, Lass sentiu a presença de Veigas sumir, dando lugar a outra. É como se essa pessoa já estivesse ali, mas somente agora foi notada. Lass arrastou o rosto pelo chão até encontrar uma silhueta de braços cruzados.

Pino deu um sorriso com aceno.

— Como vai?

— Filho da puta — Lass rosnou, salivando como um cão raivoso.

Pino deixou seu lugar para ficar ao lado de Nellus.

— O que pretende fazer com ele?

O asmodiano cruzou as pernas. Lass tentou mais uma vez ficar de pé, levando a um resultado já esperado. Ele estava exausto, cansado de uma luta que não teve. Tudo que lembrava era de Duel, nada além disso. O que as chamas tivessem feito com seu corpo emprestado, tinham esgotado sua energia completamente.

Lass continuou a lutar. Ele podia não conseguir levantar, podia não invocar as chamas, mas ele continuava acordado, olhos vidrados nos inimigos. Nellus não demonstrava um interesse imediato de pegar suas chamas, oposto a Pino, que arregaçava as mangas da camisa. Pronto, ele tirou o sabre da cintura e deixou encostado no trono.

Lass não tirou os olhos do sabre. Tão familiar e único. A lâmina preta e vermelha, os arranhões no metal de desgaste de anos.

Lass parou de lutar.

— Por que você tá com o sabre da Elesis?

Pino terminou de arregaçar a manga.

— Eu gosto de colecionar coisas.

Nem um único piscar de olhos, Lass desviou a atenção do sabre para Pino. Ele se aproximava, desembainhando outra espada do cinto. Maior, nenhum pouco familiar para o ninja.

Pino parou diante Lass. A espada possuía uma simplicidade, a lâmina prateada e reluzente, porém com escrituras ao decorrer dela. Lass tentou entender, na expectativa de sua parte mestiça reconhecer as escrituras.

Pino apoiou a lâmina no ombro e se agachou perto de Lass.

— Se você vai arrancar as chamas de mim, faça logo.

— Não acho que você colaboraria assim, tão facilmente.

Um sorriso se rachou em Lass.

— É, boa sorte.

Pino retribuiu o sorriso, levantando-se.

— É como eu disse, Lass.

A espada girou na mão de Pino, que então apontou para Lass. As escrituras da lâmina começaram a brilhar.

— Eu sou um colecionador.

***

O soltar da respiração de Lire se deu junto ao disparo da flecha. Foi como uma estrela cadente subindo o céu e colidindo em um dragão a distância. O rugido distante foi o sinal para ela abaixar o arco, mais segura que a criatura se afastava da escola.

Lire desceu algumas telhas. Lá embaixo, atravessando o portão do colégio, uma mancha vermelha se movia. Ela reconheceu Elesis no instante que viu uma espada na mão dela.

— Elesis!

Lire correu e pulou do telhado. Pousou diante dela, abrindo os braços e abraçando-a com força. Elesis não teve reação, os braços permaneceram abaixados, sem soltar seu único sabre. O abraço se desfez, mas Lire não a soltou.

— Você... você tá viva!

Viva não era bem o que Elesis aparentava no momento. Coberta de sangue, o cabelo preto grudado à face e com peças de roupas que começavam a desmanchar. Isso fez Lire se preocupar novamente, vendo que sua querida amiga parecia tão diferente de horas atrás, antes de entrar na arena.

— Seu cabelo tá preto.

— Eu recuperei as chamas roxas — em um tom monótono, respondeu Elesis. — Longa história, sem tempo pra explicar.

Elesis seguiu para dentro do colégio. Lire tomou seu tempo para absorver e correr atrás dela.

— Como você voltou a vida? E por que você tá com as chamas roxas de volta?

Elesis continuou a andar pelo corredor, desviando das pessoas que corriam de um lado para o outro por seu caminho. Era a primeira vez que entrava no lugar completamente suja e machucada, mas ninguém a questionava sobre. Todos estavam na mesma situação.

— Elesis, me responda!

Elesis entrou no seu quarto, largando o sabre de lado e tirando a roupa. Lire ficou parada na entrada, sem desfazer a preocupação pela amiga.

— Elesis!

— Lire, a cidade está sendo atacada, o Lass foi sequestrado por uma criança e tem um portal no céu, ligado diretamente a Elyos. — Elesis vestiu uma camisa limpa e se virou para a elfa. — Tenho preocupações maiores agora.

Lire não conseguiu fechar a boca de perplexidade. Elesis continuou a se arrumar, pondo outro cinto para o sabre.

— Não é só você que tem preocupações. A Lothos e o Grandiel estão fora, eu e as garotas estamos tendo que proteger o colégio — dizia Lire. — A Arme foi pro Conselho e não voltou até agora e eu tô começando a ficar preocupada por isso também. Mas então você chega assim e nem ajudar vai?

Elesis tirou os sapatos e meias totalmente escuras de sangue e sujeira. Ela colocou um par novo, mais confortável.

— Não estou ignorando o que tá acontecendo aqui ou com a Arme — ela rebateu. Enfim, emoção surgindo em sua voz. — Salvar o Lass é mais importante agora. Ele tem as chamas azuis e se a gente perder...

Elesis parou de falar ao perceber o desinteresse na feição de Lire. O nome de Lass não agradava a mesma, não precisava ser uma gênia para descobrir isso. Por isso Elesis terminou de se vestir e tirou debaixo da sua cama a pesada espada de Gerard. Ela pôs outro cinto no torso, colocando a espada nas costas.

Elesis deixou o quarto, Lire veio atrás. Elas foram para o refeitório. Mari ocupava o salão com suas bugigangas e cabos que passava por todos os cantos e saídas. Elesis tropeçou em alguns fios a caminho da jovem no centro com seu notebook.

— Mari, alguma ideia pra fechar aquele portal?

Mari continuou a olhar a tela e teclar rapidamente ao responder.

— No momento, nenhuma ideia. Está longe do meu alcance.

Lire tinha esperança de alguma ideia sair de Mari, a mais inteligente dentre todos da cidade.

— Ok — disse Elesis, sem parecer afetada pela resposta. — Quanto ao dragão gigante?

— Essa é uma coisa que você pergunta ao Lupus, não a mim.

Elesis suspirou. Antes que pudesse prosseguir com as perguntas, a voz aguda a interrompeu. Vinha de Amy entrando no refeitório.

— Elesis, você viu o Jin?!

Amy costumava ter uma energia agitada, porém, o que ela tinha agora cheirava apenas a desespero. Pela forma como ignorava o estado sujo de sangue da espadachim já dizia muito.

— Não. Aconteceu alguma coisa?

Pela reação cabisbaixa, essa era uma resposta que ela não queria ouvir.

— Jin saiu de manhã com o Lass — respondeu Lire. — Ele não voltou ainda.

— Bem, ele deve tá ocupado chutando algumas bundas por aí. Não vejo motivo pra preocupação.

Amy olhou ofendida.

— Jin não está bem para lutar, Elesis! Ele tá... mal. Muito mal da cabeça.

Elesis se sentiu mal por ter esquecido do estado do ruivo. O pouco tempo no colégio dificultou sua percepção do novo Jin, mas nos poucos sinais de insegurança que ele demonstrava, ela sabia que algo estava errado. Não era o mesmo Jin.

— Eu não posso fazer nada agora — respondeu Elesis.

Ela deixou o refeitório. O som de duas pessoas a seguindo despertou um incomodo.

— Você precisa ir atrás dele, Elesis!

— Eu não posso! Por que você não vai?

Amy apertou as mãos, parando de andar. Elesis fez o mesmo.

— Eu queria, mas estou cuidando da segurança do colégio.

— Eu... — Os olhos de Amy brilhavam a esperança. Os olhos de Elesis se escondiam numa sombra de angustia. — Desculpa, eu preciso achar o Lass.

A decepção veio de Lire. Elesis não suportou ver a reação de ambas as amigas, deixando o colégio. Amy não insistiu, mas Lire a parou no portão com um puxão de seu braço.

— Você não tá fazendo isso pelo Lass — disse a elfa. — Acorda, Elesis! Ele não precisa da sua ajuda, ele sabe cuidar de si sozinho.

— O Lass foi sequestrado! Ele tá muito fraco, não tem como—

— Tem, tem sim! Se ele não vai se salvar, alguém vai.

Elesis tentava entender, encontrar uma razão pela atitude de Lire. Não era novidade a elfa ter uma certa raiva do ninja, mas essa reação ultrapassava o habitual.

— Só eu posso salvar o Lass — disse com toda honestidade.

Lire soltou um começo de risada de mal gosto, logo se afastou. Elesis tinha o caminho enfim livre para partir, mas ela se voltou para a elfa.

— O quê? Qual é o problema, Lire?!

Lire se virou para ela.

— Desde que o Gerard morreu, você tem agido assim, Elesis!

Um disparo certeiro em seu peito. Elesis não deixou ser abalada, apesar disso.

— Você sempre foi assim — continuou Lire. — Desde o dia que te conheci, você tinha essa energia de ódio, querendo joga-lo em alguém.

— Onde você quer chegar com isso?

— Depois da morte do Gerard, você não tem mais um alvo, você não tem mais um objetivo grande na vida. Tudo que você faz agora é tentar se validar através da força.

Lire tinha preparado esse discurso por muito tempo, percebeu Elesis pelo estado ofegante da mesma. Tanto tempo agindo com gentileza e carinho, no fundo ela se corroía vendo o que fazia, o que tentava provar através dos machucados e dores.

Elesis recusou tudo isso. A acusação. A preocupação da amiga. A verdade.

— Eu estou indo salvar o Lass...

— E isso só prova o que eu tô falando. Participando de um torneio continental, indo em uma missão de anos que você não deveria se intrometer e — Lire ergueu o arco para o céu e disparou com tanta raiva quando sua voz — salvar o portador das chamas azuis.

Elesis ouviu um rugido distante, mas não tirou os olhos da elfa.

— Você sempre que ser a melhor, a mais forte!

— Eu fiz tudo isso pelo Lass!

— Não, Elesis. Você faz isso por você.

Elesis avançou, parando a centímetros de Lire. Nunca foi de notar muito, mas Arme sempre foi a mais baixa delas enquanto a elfa conseguia ser maior por pouco. Elesis notava isso agora, obrigada a erguer um pouco do olhar para encara-la.

Lire não recuou. Sua convicção era inabalável. A espadachim sentia a língua coçar para usar palavras sujas, porém se segurou no último segundo. Engoliu toda a raiva e deixou o colégio sem olhar para trás.

Como uma criança teimosa.

***

— Então você perdeu o Lass pra uma criança? — Edel questionou, desacreditada.

— Não é uma criança! — respondeu Sieghart. — Parece, mas não é.

A reação de Edel não mudou. Sieghart apenas riu, sem saber o motivo, então se sentou no banco ao lado de Dio e Holy, deitada no chão. Eles três estavam acabados, brilhantes de suor e ofegantes.

Diante tudo isso, Edel abaixou a cabeça. Ela também estava cansada, apesar de parecer um pouco mais em ordem do que o trio. Sieghart, Dio e Holy estavam correndo pelas ruas quando encontraram Edel na entrada do bar/restaurante de ramen. Aparentemente, ela e Lupus tem estado escondidos ali.

— E quanto a Elesis? — perguntou Edel.

— Ela deixou a gente depois que o Lass foi levado. Não sabemos onde ela está, o mesmo pro Lass.

— Porque vocês deixaram o Lass ser levado por uma criança!

Dio soltou um ar exasperado, sonoro o bastante para chamar a atenção para si.

— Veigas não é uma criança — ele arrastou a voz para falar. — Ele é mais velho que eu. Mais forte também. Acho.

Era uma estranha surpresa ver o asmodiano admitir sua fraqueza com tanta naturalidade. Ele continuava pálido, os olhos quase se fechando. Sieghart não sabia o que fazer por ele. Qualquer demonstração de preocupação despertaria um nervosismo defensivo de Dio. Ele queria parecer bem, mas nem mesmo ele acreditava na própria mentiria de que está tudo bem.

Lupus voltou ao salão, entregando a Dio um copo com líquido amarelo. Ótimo timing. O asmodiano se preparou para negar, porém bebeu a poção calado.

— E pensar que vocês dois era um dos melhores alunos da escola — comentou Lupus. — Mas que seja, temos vários problemas e parece que os outros Conselhos deram as costas para gente.

— Adel se juntou ao Grandiel para tirar os líderes daqui — explicou Sieghart. — Sei lá, acho que eles tão preocupados com os próprios continentes.

— Você viu o Adel? — Edel transpareceu toda preocupação pelo irmão. — Eu não consegui ligar pra ele. Todos os telefones tão com problemas.

— Vi. Ele tá bem.

Edel segurou a reação, aos poucos assentindo para si, mais calma. Ela estava lutando por muito tempo para manter a aparência durona, mas como todos naquela sala, ela estava acabada.

O que não podia ser dito o mesmo de Regis atrás do balcão, servindo-se um copo de bebida. Ele tomou e ergueu o copo com uma baforada refrescante.

— Então, Alteza — dizia Regis —, algum plano em mente para derrubar o tal do Nellus? Imagino que usar a força não seja uma opção muito viável no momento.

Dio tomou o último gole da poção. Não aparentava melhora, mas seu tom de voz voltava a ter vida.

— Nellus tem meu braço mais por uma questão simbólica do que poder.

— Por quê? — perguntou Sieghart.

— É uma forma de mostra pro povo de Elyos que alguém da realeza caiu. Vai convencer algumas pessoas a irem pro lado dele. Mas... — Dio arrumou a postura, movendo o único braço que tinha. — Meu problema não é esse. É a Rey. Ela vai ser a próxima, e não vai ser um braço que levarão dela.

Até onde Dio sabia, Rey era mais valiosa que ele, tinha um nome e família de grande importância. No mínimo, levariam a cabeça dela como prova.

— Certo então — disse Regis. — A garota asmodiana precisa ser protegida. Alguém está de olho nela?

Dio coçou o olho, voltando ao estado cansado. Sieghart respondeu por ele.

— Ela tá no Conselho, mas iremos para lá.

— Ok. Segunda prioridade: o Lass. Já que vocês não conseguiram cumprir uma simples tarefa, alguém precisa resgatar ele. — Regis tomou mais um copo da bebida. —Acho que a Elesis já tá resolvendo isso.

Se tinha uma pessoa naquela cidade que poderia resgatar Lass, mesmo em péssimas condições, era a Elesis. A fúria que Sieghart viu em seus olhos antes de partir o fazia ter certeza que ela poderia cumprir essa missão.

— Terceira prioridade: Berkas.

Lupus olhou para Regis. Houve uma breve comunicação entre eles ali.

— Lupus e eu vamos encontrar uma forma de derruba-lo.

— Não tem problema de ele atacar enquanto isso? — Edel olhou insegura.

— Não, minha querida. Aquele primeiro ataque vai ser o único. Nellus apenas trouxe Berkas pra aterrorizar, nada além disso.

Sieghart concordou. Após o ataque grande, Berkas tinha ficado quieto, apenas soltando rugidos. Era uma boa estratégia, a intimidação sendo mais que efetiva apenas com a imagem da criatura.

Sieghart apoiou a mão sobre a perna que não parava de balançar ansiosamente. Quanto mais descobria sobre o inimigo, menos certeza tinha de vencê-lo. Para alguém tão cheio de si, a dúvida era um péssimo sinal.

— Isso me traz a última prioridade: o portal. Eu não tenho ideia de como fechar. Alguma sugestão?

Todos se olharam, calados, mas esperançosos de alguém se pronunciar. Dio era o único do salão a ter uma possível ideia, mesmo assim, continuou em silêncio.

Sieghart encarava o chão. Sua perna balançava com mais intensidade enquanto o suor escorria por sua têmpora. De repente, seu corpo estava quente, sentindo o pulsar das veias do rosto.

Ele apertou a perna e engoliu seco.

— Podemos resolver isso depois — disse Edel. — Nosso foco agora é proteger a Rey e achar mais pessoas fortes.

— Os guerreiros mais fortes fugiram do continente — resmungou Lupus de braços cruzados. — Duvido que a gente encontre mais pessoas de fora.

E no instante que ele terminou de falar, o teto se partiu com a queda de algo. Nada grande o bastante para o ter feito descruzar os braços, mas que conseguiu chamar sua atenção pela aleatoriedade.

Lin permaneceu deitada no chão do salão em meio a pedaços de madeira e telhas. Não demorou para notar a todos presentes, com olhares perdidos sobre si.

— Lin? — Edel foi a única a se aproximar. — Tudo bem?!

Ela se levantou com apoio de Edel. Quando de pé, suas asas se esticaram, desfazendo em pedaços de energia.

— O que vocês estão fazendo aqui?

— Nos refugiando — respondeu Edel. — Você estava lutando sozinha, lá fora?

— É, eu estava ajudando algumas pessoas a saírem de casa.

Lin olhou para cada um deles. Todos de aparências desgastadas, o que despertava uma certa preocupação diante toda a situação. Ela também não estava tão diferente, embora se segurasse bem enquanto de pé.

— Estão precisando de alguma ajuda? Vocês parecem bem acabados.

— Estamos bem — disse Lupus. — Deveria perguntar isso ao seu líder.

Sem esconder, Lin olhou emburrada para o caçador.

— O que disse?

— Ah é! — Lupus pôs a mão na testa, dramático. — Seu líder não tá aqui, ele fugiu junto com os outros covardes.

O campo de guerra de repente estava dentro do salão. Tiros eram disparados dos olhos de Lupus e Lin, mas graças ao intrometimento de Edel, que foi um sutil soco na barriga do haro, a paz foi restaurada.

— Ignore-o, ele tá aprendendo a ser educado ainda. E sim, estamos precisando de uma ajudinha.

Edel se aproximou de Dio. Olhos quase fechando, ele se esforçou para focar nela.

— Consegue aguentar mais um pouco?

***

Dio era mais pesado do que Sieghart imaginou. Um ser humano da sua estatura tinha metade do peso. Apesar de faltar um braço, carrega-lo nas costas enquanto corria pelas ruas da cidade não deixou de ser uma tarefa complicada. Holy vinha atrás com seu martelo em mãos, com um ritmo mais lento do habitual.

No céu, Lin o acompanhava como um gavião. Alguma criatura ameaçava se aproximar da localização deles e ela rebatia com uma rajada de vento.

Assim foi o caminho até o Conselho. Sem o reforço de Lin, eles não conseguiriam chegar inteiros, levando em consideração o estado atual de cada um.

Dio estava semiconsciente quando foi colocado numa cama em uma das salas do Conselho. Ao se afastar, para dar espaço para Holy e Lin cuidar dele, Sieghart não deixou de sentir o peso do asmodiano nas costas. Parte do sangue do braço decepado manchou sua roupa e mãos.

— Dio, você precisa ficar acordado — disse Holy.

A paladina se sentou sobre o corpo do asmodiano e pressionou as duas mãos. O brilho das palmas dava cor à pele de Dio, mas não o fazia se mover, nem diminuir o sangramento. Lin viu isso e correu para um canto da sala, arrancou parte da cortina e usou para amarrar o que sobrou do braço dele.

Na mesma intensidade do clima da sala, a porta se abriu e Rey entrou correndo. Pela feição, ela já sabia o que estava acontecendo.

— Dio?! Ele vai ficar bem?!

Lin passou as costas da mão na testa suada.

— A Arme está vindo? Ela saberá cuidar melhor dele.

— Mas vocês estão curando ele — apontou Rey. — Ele vai ficar bem, não vai?

— Cura... não é... o bastante — esforçou-se Holy para falar. Continuou a curar. — Ele precisa de bastante repouso.

Rey não tinha mais o que falar, como Sieghart no canto da sala. Nada podia fazer, suas mãos sujas por sangue de asmodiano não foram feitas para salvar vidas; foram feitas para tirar. Afastando o pensamento, ele esfregou as palmas.

Quando o clima esfriou, Arme entrou na sala acompanhada de uma jovem.

— Desculpe a demora! Como ele está indo?

Lin deu espaço para Arme se aproximar.

— É o braço dele, pode ser infecção. Mas ele não tá com febre, e sim muito gelado — respondeu a sacerdotisa.

— Nossa febre é assim.

A resposta de Rey saiu baixa. Arme se assustou ao percebê-la na sala, já que a mesma sempre possuía uma presença chamativa.

— Certo, eu vou cuidar dele — disse a maga. — Holy, pode parar com a cura.

O brilho da palma da paladina se apagou ao mesmo tempo que seus olhos se fecharam e seu corpo caiu para fora da cama. Lin a pegou, carregando a jovem inconsciente para fora da sala. Sieghart veio atrás.

— Eu levo ela — ele estendeu os braços. — Pode ficar aqui, de olho na Rey?

Antes de deixar o bar, Edel explicou brevemente as prioridades atuais e como a vida da asmodiana estava em jogo. Lin assentiu e deixou Holy nos braços dele.

Sieghart se questionava como continuava de pé enquanto todo mundo caía. Talvez ele tivesse algo em comum com Elesis: dois teimosos e inconsequentes com os próprios corpos, tudo pelo bem estar de seus amados amigos. Não haveria descanso para eles como não haveria para seus inimigos.

***

O chão arrancava de Lass o que lhe restava de calor. Ele sentiu que, se movesse muito, perderia parte das chamas para o piso gelado. Por isso permaneceu deitado. Quando a noite caiu, ele não conseguiu evitar e se encolheu com o frio ardente em sua pele exposta. Continuava de cueca, porém coberto por uma camada de sujeira e cinzas que valia como uma vestimenta.

Lass nunca foi de sentir muito frio. Ele tinha mais problema com o calor.

Sem perceber, algo caiu sobre si. Somente notou com o estranho sentimento de conforto que aquela coberta o dava. Lass se mexeu abrupto, assustado ao ver Nellus se sentando no chão, perto dele.

— Você parecia com frio — a voz amena do mesmo respondeu. — Melhor agora?

Lass não desviou a incredulidade do rapaz.

— Qual é o seu plano?

— Seja mais específico.

— O que quer comigo? Manda tirar minhas chamas, agora vem me cobrir como uma mãe preocupada. — Lass aguardou pela resposta que não veio. — Por que você tá fazendo tudo isso?

A pergunta acertou Nellus. Ele levou a cabeça para trás com os olhos fechados, então se voltou para Lass.

— Igualdade.

— Igualdade?! Matando pessoas inocentes?! Destruindo uma cidade?! Isso não é igualdade, meu bom.

— Por anos, humanos descriminaram minha raça. Nos veem apenas como demônios sem sentimentos, buscam sempre por uma razão para nos atacar. O que estou fazendo com vocês agora é o que vocês fazem conosco. — Ele abriu as duas mãos, como uma balança. — Igualdade.

Lass buscou por palavras, mas se viu em silêncio, encarando seu reflexo no chão.

— Vocês têm o direito de sentirem ódio, de se defenderem, de lutarem por suas vidas. Eu entendo. Perfeitamente.

— Isso não é justo — murmurou Lass. — Mesmo com justificativa, é injusto.

— A vida é injusta. Lute, vença quem vencer. Não estou aqui para procurar por justiça, estou aqui para lutar por mim e por aqueles que eu acho merecedores de uma vida.

Lass se moveu no chão, mas Nellus ficou de pé. Mesmo que quisesse, ainda existia uma grande desvantagem entre eles.

— Eu digo o mesmo. — Um pouco de esforço e ele conseguiu erguer a cabeça para encara-lo. — Vocês estão nos atacando e nós iremos revidar sem piedade.

— Não estamos atacando. Estamos revidando.

— Não pela minha perspectiva.

A mão apoiada no chão, Lass se preparou para se erguer. Ao empurrar o piso, ele paralisou. Não tinha palavras, mas tinha um sentimento estranho que revirava sua barriga.

O sorriso de Nellus era infantil. Baixo, uma risada escapou dele, logo desaparecendo no ar junto com sua inusitada feição.

— Você e eu, somos mais parecidos do que imagina.

— Hã?

— É bom saber que existe alguém como eu nesse mundo.

Nellus o deixou sozinho após a declaração. E Lass... ele puxou o cobertor e se encolheu, evitando que o calor das chamas desaparecesse em meio ao frio da noite.

***

O grito de Elesis desceu do céu.

Ela atingiu o telhado de uma casa e caiu junto com os pedaços de telha. Tentou se segurar na beirada, porém seus dedos suados deslizaram antes mesmo de agarrar. A queda terminou no meio da rua, arrancando um grito de Elesis através do impacto sobre uma costela.

Ela se virou pro lado, de bruços no chão, a tempo de ver a espada de Gerard cair diante seu rosto e fincar no chão. O motor dentro da lâmina ainda tremia, cuspindo fumaça.

Elesis se pôs de pé. Antes de levantar totalmente, o dragão caiu metros a frente. A criatura se debatia no chão, cauda e asas grandes demais para a pequena rua. As casas atingidas tinham seus escombros arremessados pelos ares, alguns passando perto da espadachim.

Era hora de pôr um fim naquilo. Elesis estava coberta de sangue, o rosto completamente vermelho e com pequenas manchas roxas das chamas. Ela tirou a espada do chão, quase deixando escorregar das suas mãos pelo peso que não aguentava mais segurar. Mas empunhou a lâmina. As palmas arderam de dor, uma entre tantas que ela era obrigada a ignorar. Seu único combustível no momento era a raiva, as palavras de Lire que se repetiam em mente. A negação do assunto era a ignição de todas emoções inflamáveis.

Elesis partiu para cima da criatura. O primeiro corte acertou a pata, porém o segundo não aconteceu. O dragão se virou rapidamente, revidando com sua outra pata. Elesis recuou, mas foi acertada.

A espada voou de sua mão e ela foi jogada para trás. Caída no chão, Elesis sentiu a intensa dor no braço direito. Uma dor dilacerante, em um sentido literal. Enquanto se colocava de pé, viu o intenso fluxo de sangue pingar de sua mão. Três cortes profundos traçados pela região do membro. Todos profundos.

Elesis se engasgou com a própria respiração. Em segundos, ela deixou de sentir o braço completamente. Fechou alguns dedos, percebendo o grande esforço que precisava fazer. Sem seu braço dominante, a espada de Gerard era inviável.

Ela desembainhou o sabre, segurou com as duas mãos, por mais escorregadias estivessem pelo sangue. O dragão continuava atordoado pelo envenenamento das chamas. Aparentemente, tinha grande efeito nele.

Também nela.

Elesis havia esquecido o quão perigosas eram as chamas para o próprio usuário. Muito tempo sem usa-las, ela tinha perdido a prática e agora estava manchada dos pés à cabeça como um dálmata.

Assim se deu a queda de Elesis. Sua pressão caiu drasticamente. Ela piscou e estava de joelhos no chão, segurando-se ao sabre para não desabar de vez. Era uma imagem ridícula da espadachim que se nomeava a mais forte de Canaban. Ela tinha enfim atingido o limite, após passar uma noite inteira acordada, matando o que se colocasse na sua frente.

Talvez Lire estivesse certa. Elesis não fazia isso por Lass, não matava os dragões que sobrevoavam sua cabeça por ele. Era por ela. Alvos para sua raiva injustificável. Aquele a sua frente era mais um.

Elesis fechou os olhos. As poucas lágrimas que escorreram vinham de uma natureza desconhecia. Era por raiva? Tristeza? Dor? Ela não procurou entender a verdadeira razão. Nenhum pensamento poderia ser formado enquanto observava o dragão carregar uma bola de energia mirada para ela.

As pernas não ousaram se mover. Elesis segurou com força o cabo do sabre e se manteve firme.

O calor da energia se aproximou, mas nunca a alcançou. Bateu em uma parede invisível e se dissipou no ar.

Elesis não conseguiu entender. Seus olhos arregalados piscaram, e piscaram mais vezes. A realidade continuava a mesma, imutável, nenhuma ilusão que ela procurava encontrar. Não era um engano, algo tinha a protegido.

Então, esse algo falou.

— Ruivinha, essa não é uma atitude sua.

O dragão se preparava para mais um disparo. Prestes a atacar, uma espada de energia o acertou no olho. A criatura se debateu para trás, rugindo de dor.

A presença se aproximou e passou ao lado dela. Como um estalar, tudo ficou em silêncio. Sem berros do dragão, sem a respiração da espadachim ou qualquer som do ambiente. A absoluta quietude.

Os fios vermelhos balançaram ao vento. O longo sorriso escondido na barba ruiva foi direcionado a ela. A própria encarnação de força.

— Levante, Elesis. O chão não combina com você — disse Gerard.

O Gerard. O Gerard que matou seu pai. O Gerard que acabou com sua guilda. O Gerard que havia morrido na sua frente.

Ele parecia mais velho, gasto. O cabelo grande era preso por um curto rabo de cavalo enquanto tinha uma barba para fazer. Gerard acenou e seguiu para sua espada caída no chão. Nas suas mãos, com a grande lâmina apoiada no ombro, a espada se encaixava perfeitamente a sua imagem.

— Você parece um pouco surpresa.

A voz veio de trás e parou próxima a ela. Precisou de muito esforço para Elesis desviar a atenção de Gerard e notar a pessoa agachada ao seu lado.

Tão desgastado quanto, o cabelo mais longo e preso por uma trança, mais uma barba com diversas falhas. Elesis espremeu os olhos, aos poucos reconhecendo o homem de sorriso malicioso.

— Astaroth? — ela murmurou.

Ele sorriu para ela.

— Seu cabelo tá diferente — mencionou o mesmo. — Não é a cor... tá mais curto. Andou cortando?

Elesis não tinha uma reação apropriada. Seu coração palpitava violentamente enquanto sentia seu torso exprimi-lo junto com todos os órgãos. Lágrimas voltaram a escorrer e ela continuava sem saber a razão. A única certeza era de não se mover, presa naquele momento que parecia um sonho.

Gerard girou sua espada na mão, como se voltasse a se acostumar à velha arma. Foi em questão de segundos para sua postura ficar ofensiva. O tradicional Gerard. Ele avançou contra a investida do dragão com uma imprudência que fez Elesis segurar a respiração.

Um movimento suave. Gerard desviou da garra e fez o corte no pescoço do dragão. Sangue escuro jorrou da criatura que caiu para o lado, levando junto postes da rua.

— Aposto que você não sentiu falta desse exibido — comentou Astaroth.

Elesis não pensava. Ela tentava formar algum pensamento, qualquer coisa que pudesse explicar o que acontecia, mas era imediatamente apagado da consciência. Portanto, fez de suas ações, suas palavras.

Gerard voltou. Sorria, arrastando a espada de lado.

— Eu senti falta dessa belezinha. Ela tá um pouco diferente, mas ainda tem aquele toque clássico, entende?

Elesis fincou a ponta do sabre no chão e se levantou. Os braços tremeram ao usarem a lâmina de apoio, como todo o corpo. Erguida, ela olhou Gerard.

E Gerard a olhou de volta.

— Não precisa falar, eu sei. A gente tem muito sobre o que conversar — ele disse.

— Você...

Eles ficaram surpresos ao ouvirem pela primeira vez a voz da espadachim. Um murmúrio baixo, quase rouco.

— Você... — a voz elevou mais um pouco.

Elesis fechou os punhos. Apenas agiu no lugar de pensar.

Seu berro foi emendado com o soco na barriga de Gerard. Um golpe que o acertou desprevenidamente. Ele desabou para trás, Elesis caiu sobre seu corpo e acertou um soco em seu rosto, então outro antes de ser puxada.

— Ok, tá bom! — disse Astaroth.

Ela foi arremessada e atingiu o solo com um grito arranhado. As dores por todo seu corpo foram os sinais de “pare”. Elesis parou, segurando o braço completamente vermelho e reluzente pelo sangue que ainda escorria.

Ela conseguiu se colocar de joelhos para olha-los.

— Você quer descontar sua raiva, a gente entende — continuou Astaroth. — Mas, por favor, não seja emotiva agora. Pode ser?

Gerard levantava, segurando o rosto vermelho pelos socos e pelo sangue da espadachim.

— Elesis, eu entendo o que está sentindo agora.

— Eu te odeio.

Essas eram lágrimas de tristeza. Por reconhecer isso, a reação da mesma foi o descontrolado ódio. Ela balançou o rosto, afastando as lágrimas, então se pôs de pé num pulo.

— Eu te odeio!

Ao alcançar o limite de sua altura, Elesis perdeu a consciência e caiu de cara no chão.

Gerard observou parado. Quando percebeu que a ruiva tinha mesmo desmaiado, ele correu até ela. Ele havia perdido o costume de ver sua querida Elesis agir tão imprudentemente.

Em geral, ele havia esquecido de como era problemático ter a Elesis contra ele.

Notas finais
Review: * GERAAAAAARD E ASTAROTH! Senti falta deles.