Era como se estivesse caindo há anos.

Voe, sussurrou uma voz na escuridão, mas Aaron não sabia voar e, portanto, só lhe restava cair no abismo.

O chão estava longe, imperceptível diante de tanta escuridão, mas ele sentia o ar esvaecer diante de si, se aninhando perto dele como se também temesse as trevas.

Fagulhas de velocidade se projetavam ao seu redor, ele estava caindo mais rápido. Sabia que iria acordar antes de atingir o chão, não se pode morrer em um sonho.

Não se pode, sussurrou a mesma voz se perdendo ante ao som da queda, Mas isso não é um sonho.

– É claro que é — retrucou Aaron, estranhamente calmo — Já estou acostumado a ter sonhos estranhos assim.

Voe minha criança.

Aaron estava atônito. Não sabia o que ele quis dizer com ''minha criança'' — seus pais haviam morrido — tampouco sabia voar.

Você já tentou?, perguntou a voz.

– Não posso voar — disse o menino — não tenho asas.

Faça suas asas com os ventos que o cercam.

Ele não havia percebido, mas agora o ar a seu redor estava mais denso. Tentou fazer o que a voz pediu. É só um sonho, pensou, Não tenho nada a perder.

Se concentrou no vento a sua volta. Com um movimento de mão fez ele se inibir — nunca fez aquilo antes mas tudo parecia fluir tão naturalmente que Aaron não hesitou — E por meio de outro movimento o ar escorreu de suas mãos e se agrupou em suas costas.

Aaron saltou para fora do abismo e viu aquela vastidão de azul, depois viu suas asas, límpidas como o céu que agora o cercava. Nunca se sentira tão vivo.

Muito bem, disse a voz.

– Quem é você — respondeu Aaron, ainda com o deleite gravado em seu sorriso.

Olhou em volta, via cadeias de montanhas cobertas por neve. No horizonte avistou o sol, com toda sua plenitude, se tornando parcial ao se esconder nos montes. Depois viu um homem envolto pela névoa, não conseguia distinguir seu rosto.

– Eu sou...

A imagem mudou. No lugar das montanhas, paredes cinzentas. No lugar do sol, janelas com grades e, onde deveria estar o homem, havia uma senhora com um olhar de aflição.

– Acorde! — gritou a mulher com uma rispidez que o fez perceber que havia despertado — O ônibus da escola chega em alguns minutos.

Era a sua tia. Antes Aaron vivia com sua mãe e, a princípio com seus pais, mas agora dormia sob o mesmo teto que Bennie e Amélie Collins em um complexo de apartamentos em Chelsea, NY.

Eles tinham um filho — Bob — na faculdade mas faziam pouca menção dele. "Acabo de me livrar de um fardo e outro me aparece'', dizia seu tio Bennie sempre que tinha a oportunidade.

– Já vou — respondeu Aaron.

Amélie usava o mesmo sobrenome que o seu tio, mas os dois tinham naturezas muito diferentes. Sua tia era neurótica e seu tio... Bem, era aquele tipo de pessoa que só se preocupava se tinha cerveja gelada na cozinha.

Aaron preferia usar o sobrenome de sua mãe, Rangel.

Depois de se vestir para escola com suas peças de roupas favoritas que constituía em um moletom azul e um jeans, pegou sua mochila e desceu. Ele nem se preocupou em cumprimentar Bennie, ele estava muito ocupado assistindo o canal de esportes.

O bairro era fresco e calmo, mesmo com inúmeros carros parados no encostamento da rua -repousando sob as sombras móveis projetadas pelas folhas das árvores — Apesar da calmaria Aaron estava inquieto, não porque tinha TDAH, mas aquele sonho o afligia. O homem, pensou, ele não disse quem era.

Além dele, no ponto de ônibus havia uma menina. Nome; Nádia, sobrenome; ele não fazia ideia. Nunca se atrevera a perguntar, na verdade, só sabia seu nome por causa da mãe dela que uma vez o gritou da varanda. "Nádia, esqueceu seu almoço".

Ela era uma das poucas crianças da vizinhança e, uma das muitas que o intimidava.