Notas iniciais
É a primeira vez em muito tempo que posto uma história aqui, além de ser a primeira vez que escrevo em terceira pessoa. Espero que gostem.

13 de Janeiro de 2367, datação terrestre.

Uma nave carita da Aliança de Povos navega suavemente pelo espaço próximo da fronteira do sistema caritano, cuja estrela amarela de classe G, muito semelhante ao sol, possui nove planetas em órbita. Kataris, um pequeno passageiro, de um ponto de vista humano, observa como o astro aumenta de tamanho ao passo que a nave desliza em direção ao quarto planeta, lar dos caritas. Ele tem 5 anos em seu planeta, o que equivale a 16,2 anos terrestres, é quase um adulto para seu povo, cuja maioridade é atingida aos 5 anos e meio, e quando poderá se juntar a tripulação da Sokuno. O destino da nave é justamente a Estação Orbital Carita II, onde poderá abastecer-se para uma viagem de 5 anos terrestres em espaço profundo.

O povo carita sempre foram exploradores natos, prontos para descobrir novos mundos e novas espécies, e era justamente dessa forma que se aproximavam dos humanos. Sua curiosidade, sua vontade insaciável pelo desconhecido, levou seu povo para o patamar em que estão hoje. Kataris queria fazer jus a isso, provar a seus pais que era um filho digno de Caritas, seu planeta natal. Juntar-se à nave científica Sokuno era uma forma de contribuir com seu povo em novas descobertas. O astro de águas azuis, levemente esverdeadas, está agora a alguns milhões de quilômetros de distância.

O entusiasmo e admiração do garoto é subitamente interrompido por um estrondo que chacoalha a nave e lança todos que estavam no observatório ao chão. As luzes alaranjadas da nave apagam-se e acendem-se sem ritmo e pode se sentir a inércia de uma parada não programada. Kataris não sente medo, a sua espécie não é capaz de sentir medo como os seres humanos, mas pode sentir a angústia da destruição iminente, e é isso que ele sente, a terrível sensação de fim.

— Abandonem a nave, abandonem a nave! — grita o oficial carita pelos alto-falantes da nave — Dirijam-se todos para os módulos de escape individual!

Todos na sala começam uma corrida em direção à fuga, Kataris não faz diferente. Numa nave carita os módulos estão sempre nos dormitórios, isso significa que ele precisa descer dois andares para chegar a um. Sua pele levemente azulada está molhada de suor. Em geral, sua espécie é mais frágil que as demais e seu coração faz jus a isso, batendo fortemente e cansado. Mas ele corre, acelera o passo pelo corredor pouco iluminado, junto com vários outros. Ainda que corra não lhe deixa de passar pela cabeça que tipo de ameaça possa ter obrigado uma nave tão grande quanto a Sokuno ser evacuada. Não houve tiros, não se viu naves inimigas do observatório. Suas indagações logo seriam respondidas.

Ele e o grupo de pessoas que corriam consigo chegaram a uma parte externa do corredor, onde uma grande janela de aproximadamente 10 metros corta o corredor de uma ponta a outra. O grupo então para para olhar, admirados. Kataris agora vê o que não via antes, uma nave enorme, tão escura como um buraco negro, devia ser umas cinco ou seis vezes maior que a Sokuno. Sua construção era diferente de tudo que havia visto, não era humano, sacadiano, muito menos carita. Partes da nave se desprendiam e flutuavam ao redor dela, como se fossem destroços, mas não o eram. Eles permaneceram ali, hipnotizados observando aquela criatura tecnológica desconhecida, nem sequer se olhavam, também não se ouvia mais nada, era como se o tempo tivesse parado. O silêncio então foi quebrado por um ruído agudo que fazia doer os ouvidos. Kataris lançou-se ao chão e levou a mão às suas duas pequenas orelhas. Ficaram todos ali, estirados como mortos com o fim do ruído, como se tudo tivesse acabado. Mas não. Não havia acabado e nem estava perto de acabar, estava tudo só começando.

Kataris apoiou suas mãos em um desnível na parede, fez força e levantou-se. Cambaleou para direita. Pôs a mão na cabeça, apoiou-se na parede até sentir-se seguro. Cambaleou para a esquerda e caiu. O ruído havia mesmo atordoado-lhe. Os outros no recinto faziam igual: arrastavam-se pela parede ou andavam como ébrios, não sabiam o que estava acontecendo. Ouviu-se um novo estrondo e a nave a estremecer. Foi quando ouviu o primeiro grito. As espécies humanoides tendem a gritar quando estão em apuros, é uma constante universal. O jovem retomou parcialmente seu juízo e levantou-se, mais rápido dessa vez. Tentou ajudar alguns mais a se levantarem, mas assustou-se quando percebeu que os gritos eram interrompidos subitamente. Começou então a avançar pelo corredor, enquanto outras pessoas corriam na direção contrária. De repente, um clarão verde. Rápido. Deu mais três passos e um novo clarão. E outro. Mais um. Bastou mais um clarão para ele associar que os gritos cessavam ao mesmo tempo que o clarão aparecia. Era um arma. As pessoas estavam morrendo.

Parou com o choque de imaginar que poderia ser o próximo a morrer, pareceu-lhe egoísmo, então pensou nas mortes de todos aqueles de sua espécie. Deu passou para trás, assustado. Os outros continuavam a correr, fugindo. Alcançar os módulos de escape não era mais sua principal motivação. Parou de ouvir os gritos, só via fugitivos. Então sentiu a presença de algo maior, podia ouvir seus passos pesados, mas também sentia energia igualmente pesada. A estática aumentou no ar. Na outra ponta do corredor viu materializar-se uma entidade, vestida com o que parecia um casco preto. Estava em brasas. Não era fogo, eram brasas verdes, como rachaduras. E viu o que era o clarão, lançado pela criatura, atingiu uma mulher que fugia, de imediato ela se transformou em brasas, como uma estátua em brasas verdes, na qual a feição de desespero ficou marcada. Não era o fim. Kataris podia ver que a moça estava viva, queimando por dentro. Sua morte só chegou com um golpe final. A sensação de que seu fim chegaria ficou mais próxima. Quanto mais a entidade se aproximava, mais eletrizado ficava o ambiente. Ela olhava-o de uma maneira ameaçadora. E quando chegou perto o suficiente, não lhe tocou, nem lhe feriu. Passou reto e deixou-o no corredor. Kataris havia sobrevivido, havia sido poupado. O único. Ele era um mensageiro.

Notas finais
O primeiro capítulo já está escrito e pretendo postá-lo amanhã :D