Espírito de Revolução
21 Na Trilha de Johnson
Notas iniciais
O outono prosseguiu, e com ele se aproximava a Companhia das Índias Orientais. Os primeiros dos navios carregados com chá real estavam previstos para chegar à América no fim de Novembro, mesmo com toda a forte oposição popular à Lei do Chá, liderada em Boston pelo constante rosto de Samuel Adams. Recebemos notícias de que em Nova York, na Filadélfia e em Charlestown, os membros do protesto conseguiram convencer ou forçar os consignatários da Companhia a resignar seus cargos, ou a devolver o chá à Grã-Bretanha. Apenas restava Boston. Apesar dos esforços de Adams e da organização liberal conhecida como Boston Caucus, nada pôde convencer os consignatários bostonianos a recuar. Pelo contrário, o governador de Massachusetts Bay, Thomas Hutchinson (que por acaso também era o pai de dois dos quatro consignatários), os incentivou a permanecer dentro do contrato. Hutchinson estava determinado a deixar que a Coroa cobrasse os impostos do chá de qualquer jeito, o que não surpreendia, já que eram esses mesmos impostos que pagavam o seu salário.
E apesar de todo o descontentamento geral, fosse de comerciantes e contrabandistas que perdiam seus empregos para o novo monopólio real, ou de cidadãos que viam os impostos do chá como uma violação descarada de seus direitos, o navio de nome Dartmouth, apinhado com mais de 250 toneladas de chá da Companhia chegou a Boston no dia 27 de novembro, desembarcando no ancoradouro de Griffin, no distrito do Forte Hill. Mais três navios deveriam chegar nas próximas semanas.
No mesmo dia da chegada da Dartmouth, Samuel Adams circulou uma carta com a convocação de uma reunião em massa, a ser realizada no Faneuil Hall dois dias mais tarde. A multidão agregada naquela tarde era tão grande que o encontro teve de ser movido para o maior prédio de Boston: a igreja Old South Meeting House na rua Marlborough, três quadras a sul. Mesmo em todo o meu tempo na cidade, eu jamais vira tantas pessoas juntas no mesmo lugar. A igreja estava completamente lotada, e mais alguns milhares se amontoavam do lado de fora.
Adams discursou do topo do púlpito, com outros membros do Caucus a seu lado. Stephane e eu pudemos assistir a tudo da primeira fileira. O político discursou, expressando a sua perspectiva de como a Lei era uma violação dos direitos do povo bostoniano, tentando justificar um imposto que não era retribuído à população colona, mas sim à população do outro lado do oceano. Em seguida ele leu em voz alta diversos trechos da Lei do Chá e das normas portuárias de Boston, alternando a longa leitura com colegas como Paul Revere e William Molineux. A lei britânica, explicavam eles, exigia que a Dartmouth descarregasse todo o chá e pagasse os custos de importação (que eu sabia serem mais tarde dirigidos aos Templários Church e Johnson), tudo em um prazo de vinte dias. Caso contrário, autoridades confiscariam o produto à força. Sendo assim, Samuel Adams propôs uma resolução que ele mesmo redigira e que diretamente desafiava a Lei do Chá. De acordo com essa resolução, o capitão da Dartmouth seria prontificado a abortar o desembarque do chá e enviar o navio de volta à Grã-Bretanha, sem pagar os custos devidos.
Enquanto o comitê de Adams lia a resolução, e após o dia já ter entardecido, foi definida também uma lista de 25 cidadãos, entre eles Stephane Chapheau, que fariam um piquete à Dartmouth no ancoradouro de Griffin, para impedir que qualquer caixa de chá real fosse descarregada. Alguns dos homens dirigiram-se ao navio quase que imediatamente, lá montando guarda para que nenhum funcionário prosseguisse com o plano da Companhia, e nenhum Tory conservador ousasse romper com o boicote. A reunião prosseguiu, e, com alguns poucos reajustes, a resolução de Samuel Adams foi aprovada pelo consenso geral.
— Hutchinson não vai deixar isso barato — dizia Paul Revere, na madrugada daquele mesmo dia, no subterrâneo de uma taverna, logo antes de puxar um trago de seu cachimbo. O ferreiro de cabelo alinhado e rosto redondo se encontrava com outros membros do Caucus.
— Mas é claro que não vai — rebateu William Molineux, o taverneiro e mercador de cabelos cinzentos, também fumando — Nós sabíamos onde estávamos nos metendo quando o provocamos.
— Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come — adicionou um outro, que não reconheci — Estamos ferrados de qualquer jeito. Então não vejo por que motivo não nos arriscarmos.
A taverna era oficialmente chamada The Freemason’s Arms, mas todos ainda a chamavam por seu nome antigo: Green Dragon. Localizada na rua Union, logo à entrada do distrito de North End, aquele era o ponto de encontro de vários grupos maçônicos, que organizavam reuniões no seu piso térreo. No seu subterrâneo, no entanto, eram realizadas reuniões bem mais secretas. Estávamos, eu e Adams, descendo ao subterrâneo do estabelecimento, onde, como ele me explicara, eram realizadas diversas reuniões sigilosas. Os cavalheiros se reuniam em volta de uma mesa, enquanto candelabros nas paredes iluminavam o recinto. Se não fosse o número grande de velas, decerto que nada poderia ser visto naquele local: o tabaco dos cachimbos formava uma espessa nuvem de fumaça.
— Ouça, Connor. — Adams me alertara. — Os meus colegas podem não ficar à vontade com a presença de um novato por aqui, ainda mais um da sua raça. Eu lhes direi da sua ligação com Achilles, e deverão se mostrar mais amigáveis. Por precaução, tente não falar muito.
Ao que assenti, um dos Whigs o chamou:
— Chefe! Até que enfim! Guardamos o seu lugar.
Adams respondeu com um sorriso e caminhando até a ponta da mesa, ele anunciou a todos:
— Cavalheiros, este aqui é Connor. — Ele apontou seu braço em minha direção. Eu vestia uma camisa de botões, um casaco leve, e acabara de tirar meu tricorne. — O... patrono dele é Achilles Davenport, um aliado no Cabo Ann que apoia nossa causa e já foi de grande ajuda em nos financiar no passado. Connor presenciará a reunião em nome dele. E, se os rumores estiverem corretos, ele ainda é exímio com seus punhos — completou, com um sorriso.
— Connor conseguiu expulsar todos os criminosos da minha rua no Dia do Papa — falou alto Molineux — Então creio que os rumores estão corretos.
Enquanto ele ria, os homens balançaram a cabeça, aceitando minha presença.
— Seja bem-vindo — saudou um dos Whigs — Um guarda-costas seria bem útil para o nosso piquete no ancoradouro.
— Conheço um dos homens que estão lá. — Eu respondi. — Creio que eles poderão se virar. E meu patrono tem suas próprias intenções em apoiar sua causa.
— Toda ajuda é bem-vinda.
— Meus amigos... — interrompeu Adams, atraindo a atenção de todos em volta da mesa — Sem dúvida a nossa justa empreitada irá causar burburinho nas próximas semanas. Devemos nos preparar para a retaliação da Coroa. Alguma informação sobre Hutchinson? Ele está a par de nossa resolução?
— As notícias correm, Adams — disse um senhor de colarinho alto e nariz pontudo —Embora eu creia que isso em breve será conhecimento público, meus contatos me informaram que o governador permanece resiliente. Ele não acatará a qualquer medida que não esteja prevista na Lei.
— Ele continua exigindo o descarregamento do chá, Sr. Avery?
— O navio pode até não descarregar a mercadoria. Mas se for o caso, Hutchinson quer porque quer que a Companhia o indenize, pagando as taxas de importação de qualquer jeito.
— Ele precisará de sorte se quiser passar pelo piquete — comentou um dos Whigs.
— Isso é loucura. — Paul Revere exclamou. — Nós tentamos pressionar o homem, mas ele é impossível de pressionar.
— Continue otimista, Sr. Revere. Fizemos história hoje. Não consigo imaginar uma reunião pública lotar um prédio mais rápido do que hoje.
— Não fale tão cedo, Sr. Edes — proclamou Adams — Hoje foi apenas o primeiro dia da nossa campanha. A Dartmouth é apenas a primeira de quatro embarcações. Haverão outras reuniões.
— Nós precisamos tomar providências com as nossas próprias mãos, compadres! — exclamou Molineux, levantando-se e pondo as mãos sobre a mesa — O governador não recuará, muito menos a Companhia ou o Rei.
— E o que o senhor propõe?
— Já criamos um piquete, podemos ir além. A Dartmouth não partirá sem que deixemos. Façamos-na afundar!
— Afundar o navio em um porto?
— Não precisamos afundar — interferiu Revere, interessado na ideia — Um simples incêndio bastará. Todo o chá será destruído!
— E pessoas podem se ferir! — repreendeu Samuel — Colegas, quanto menos violência melhor. Queremos falar pelo povo de Boston, e perderemos todo o nosso crédito se tomarmos qualquer medida considerada drástica demais. Devemos encontrar a medida certa e criar nossa oportunidade.
Uma ideia brilhante pareceu relampejar pelo rosto de John Avery.
— Nós invadimos os navios. — Ele disse. — Não basta apenas deixar que o chá não saia do navio. Precisamos entrar lá e remover as caixas de chá pessoalmente. As naves e a tripulação continuarão ilesas. É apenas o chá que irá afundar.
— O plano da Companhia irá, literalmente, por água abaixo.
— Aí está! — bradou Adams, apontando para Avery — Senhores, temos a nossa oportunidade.
— Ótimo! Façamos isso agora.
— Não tão rápido, Molineux. É cedo demais. Tentaremos o pacifismo antes da força bruta.
— Pacifismo? Você acha que isso adiantará, Samuel?
— Sanções e demonstrações não serão o suficiente! — adicionou Paul Revere — Nós precisamos agir. Precisamos de mais do que uma carta cheia de palavras furiosas.
— Podem confiar, eu compartilho de todas as suas frustrações, cavalheiros — discursou Adams em resposta — Mas certamente vocês devem entender a minha relutância em cutucar o vespeiro.
— As vespas daqueles Tories irão nos ferroar de um jeito ou de outro! Façamos com que ao menos valha a pena.
— Concordo com Revere — adicionou o jornalista Benjamin Edes — Se usarmos de pacifismo, nossos inimigos não farão o mesmo. O ancoradouro de Griffin fica a um minuto do Forte Hill, mais cedo ou mais tarde eles enviarão soldados para tirar os nossos homens à força. Se algum deles morrer, isso seria uma fatalidade.
Samuel rebateu:
— Exatamente, amigo. Uma fatalidade seria algo triste. Mas não há como negar que mais um "Massacre da Rua King" apenas faria mal à imagem da Coroa. A maré estaria ao nosso lado de um jeito ou de outro. — Os homens permaneceram em silêncio frente à sugestão mórbida de seu líder. — Claro que casualidades devem ser evitadas, por isso propus o pacifismo como prioridade. Apenas não podemos negar que devemos trabalhar com o que temos.
— E se o pacifismo falhar, Samuel?
— A Dartmouth tem 18 dias. Até o dia 17 de dezembro para descarregar o chá. Se até lá Hutchinson não recuar, agimos no dia 16. Convoco uma nova reunião, e no calor da turba...
— Invadimos o ancoradouro.
— Precisamente!
— Porém, precisaremos coordenar tudo com cuidado minucioso — ponderou Avery — Qualquer peça fora do lugar pode pôr tudo a perder e colocar a todos nós na prisão.
Nesse momento, o alçapão que dava entrada ao porão foi aberto. O dono da taverna entrou. Ele começou a descer e parou na escada.
— Mestre Adams, tem um sujeito aqui em cima dizendo que quer falar com o senhor.
— Por Deus, Sr. Douglass! Esta é uma reunião secreta, você confirmou minha presença aqui?
— Eu tentei negar, senhor, mas ele me ameaçou e disse que não adiantava mentir. Disse que o patrono dele é poderoso e poderia fechar minha taverna. Me perdoe, Mestre Adams.
Samuel suspirou.
— Ah, tudo bem. Deixe-o entrar, desde que sem armas.
Douglass retornou ao térreo, e em seguida um homem misterioso entrou em seu lugar. Ele usava sobretudo e um chapéu plano. Era difícil discernir muitos traços nele, mas distingui o que pude com a luz que vinha do térreo. Seu rosto mostrava uma certa idade, mas se mantinha conservado. Sua pele era negra, o que em uma colônia escravista seria o suficiente para supor que ele era um servo ou um cidadão simplório. Porém, um detalhe em sua vestimenta denunciava que ele estava longe de ser um pobretão: seu par de óculos, um item caro demais para uma parte significativa da população sem formação.
— Uau. — Ele disse, rindo, tirando a fumaça do rosto. — Vocês realmente estão aproveitando a noite, cavalheiros.
Samuel Adams caminhou até o negro misterioso. Os olhos dele estavam ocultos pelas grandes lentes escuras. Com o sentido aquilino, senti algo peculiar em seu semblante. Eu desconfiava de suas intenções.
— Boa noite, senhor — disse Adams — O que deseja?
— Samuel Adams, certo? E estes devem ser o famigerado Boston Caucus.
— Sim, curioso, como sabia que estávamos aqui? — perguntou, ríspido.
O homem levantou as mãos para o alto.
— Meu patrão é um homem bem-informado. Ele é um homem poderoso que vê uma grande oportunidade para o povo de Boston na Lei do Chá. E digamos que ele tem uma proposta que pode interessar-lhes.
— E quem exatamente é o seu patrono? — bradou John Avery, sentado na mesa, não muito longe da parede onde eu me encostava — Senhor...?
— Ah, sim, eu sequer me apresentei, cavalheiros. — O negro estendeu sua mão direita para Avery. Ao fazê-lo, algo imediatamente me chamou a atenção nele. Seu dedo anelar trazia um detalhe inconfundível: um anel de prata. Gravado neste anel estava uma cruz vermelha de quatro braços iguais: a Cruz Templária. — Sou Weeks. Jack Weeks. — Ele se apresentou, balançando a mão de John.
Um Cavaleiro Templário. Por meses eu procurara por qualquer sinal de meu Alvo, William Johnson. E agora, até que enfim, eu tinha uma pista que podia seguir: um membro da Ordem em pessoa.
— E qual seria sua proposta, Sr. Weeks? — questionou Samuel, de cara amarrada, também estendendo a mão para ele.
— Como eu dizia, meu patrono tem uma oportunidade com a chegada do chá real. Desse modo, ele realmente pretende evitar que qualquer coisa dê errado no plano.
— Ele é um dos consignatários da Companhia, preto? — interrogou Molineux.
— Vocês podem pensar nele desse modo. Mas, em suma, eis a proposta: os senhores irão ordenar a seus homens para que abandonem o piquete. Desistam da resolução, e deixem que a Dartmouth desembarque sua mercadoria. — Ao ver que um dos Whigs se preparava para interrompê-lo, Jack prosseguiu: — Porém, façam isso e meu patrono ficará feliz em recompensá-los fartamente. Todos os senhores poderão aproveitar o lucro que a Lei do Chá trará aos homens que represento. Mas garanto-lhes que tudo isso será feito por detrás das cortinas. Nada mudará em suas imagens públicas. O povo de Boston continuará acreditando nos senhores, e vocês devem apenas... resignar-se. Declarar publicamente que vocês continuam representando o povo, mas as coisas nem sempre saem como gostariam, "perdemos essa batalha mas ainda enfrentaremos essa guerra", etcétera, baboseiras assim. Ninguém precisa saber o que vocês fizeram.
Um silêncio se estabeleceu no recinto. Samuel se aproximou de Jack, encarando-o com desprezo.
— Sr. Weeks. Não importa quantos floreios você use. Não importa o quanto você fale bonito, e tampouco me importa se você pensa que somos idiotas. Mas todos nós sabemos do que o senhor realmente está falando. E se você acha que algum de nós pode ser corrompido com subornos... — Ele dizia, em tom ameaçador.
Jack Weeks riu.
— Samuel Adams condenando subornos? Minha mãe realmente dizia que todos os homens são hipócritas. Apenas diga se você aceita ou não, e eu o levarei ao meu chefe.
Interrompi a conversa antes que Adams pudesse responder.
— Leve-me a ele.
Todos na sala olharam para mim, abismados.
— Você está louco, Connor? — questionou Adams.
— Eu não prometo nada a ele. Quero apenas analisar as nossas opções. Saber como esse homem pode nos beneficiar.
O líder do Caucus andou até mim.
— Connor, eu não deixarei que você...
Segurei-o no ombro. Aproximando meu rosto do dele, sussurrei para que apenas ele ouvisse:
— O homem para quem esse sujeito trabalha é o mesmo que eu venho procurando, ou ao menos está ligado a ele. Além do mais, este é um encontro secreto, e mesmo assim ele ficou sabendo. O que acha que isso indica?
Adams chegou a uma realização que o chocou.
— Há um traidor entre nós. Um informante dos consignatários — continuou, em um tom tão baixo quanto o meu.
— Isso mesmo. E se me permitir seguir Weeks, posso descobrir quem é.
Ele balançou a cabeça em aprovação. Dei um tapinha em seu ombro, para em seguida caminhar até a porta.
— Vamos. — Eu disse a Jack Weeks. — Quero ver seu chefe. — Infelizmente eu estava sem minhas lâminas ocultas, mas ao sair do quarto, botei meu tricorne de volta e peguei minha adaga, que eu tivera de abandonar antes de entrar na reunião. Algo me dizia que eu poderia precisar dela.
Deixei a Green Dragon, e segui Jack Weeks conforme ele prosseguia norte pela rua e virava à direita, me levando a um beco que ia de encontro ao riacho Mill. Lá estava um carro, puxado por dois cavalos, e um cocheiro. Percebi que no lugar das janelas, tábuas de madeira cobriam a carruagem, para que não fosse possível nenhum contato entre os passageiros e o mundo exterior.
— Meu chefe é sigiloso, então ele prefere que ninguém saiba onde está. Não se preocupe, logo você o encontrará, e em seguida o traremos de volta ao mesmo lugar.
— Acho bom — respondi.
Weeks pegou um lampião com o cocheiro, acendeu-o e entrou no vagão comigo. Com as janelas tampadas, eu não conseguia ter a menor ideia do lugar aonde estávamos indo, porém, pelos movimentos da carruagem, pude identificar que ela andava com destino ao sul, talvez para fora da cidade. Andamos por quinze minutos, durante os quais tentei extrair alguma informação de Weeks. Ele, porém, resistia e despistava as minhas perguntas, limitando-se a repetir o quanto o chefe era precavido ou a dizer o óbvio.
Após um certo tempo, o carro parou. Pudemos ouvir uma série de batidas que o cocheiro deu no vagão.
— Ah. Chegamos — exclamou Weeks, ao ouvir as batidas. Um criado abriu a porta do vagão. Jack levantou-se do assento, e me fitou com suas lentes escuras. — Creio que é aqui que nos despedimos.
— Eu não irei com você até seu chefe?
— Ah, de jeito nenhum. Ele é quem virá até você. — E, estendendo-me a mão, completou: — Foi um prazer conhecê-lo, Connor.
Dei mais uma longa olhada no anel templário que ele usava e o cumprimentei, sem dizer nada. Weeks desceu, a porta fechou-se atrás dele, e eu esperei no vagão por um ou dois minutos. Em seguida, a porta se abriu novamente, e um homem começou a subir os degraus, segurando uma garrafa e dois copos.
— Confesso... — Ele iniciou, com uma voz profunda e um leve sotaque irlandês. — Eu não esperava encontrar um amigo da Confederação aqui tão longe de Nova York. — Ele sentou-se logo à minha frente. Sob a luz do lampião pude analisar seu rosto com atenção. Seus ocasionais pelos brancos denunciavam que ele tinha mais de cinquenta anos. Sua testa larga parecia ainda maior graças a seus cabelos castanho-claro penteados para trás. Em volta da boca ele tinha uma ainda curta barba, porém fora isso tudo naquele rosto era familiar: era o mesmo rosto que eu vira nas pinturas e retratos que Achilles me mostrara: o Superintendente dos Assuntos Indígenas, Sir William Johnson. Ou, como meu Mentor o chamaria, meu Alvo. — É Connor, não é? — Ele estendeu a mão para me cumprimentar, sorrindo. Um anel idêntico ao de Jack Weeks estava lá.
— Sim — respondi.
— Warraghiyagey. Ou William Johnson, como preferir. E você, qual seu nome verdadeiro?
— É apenas Connor — menti.
— Mesmo? Você não foi criado entre os Haudenosaunee?
— Em parte. Meu pai era bostoniano, e minha mãe me trouxe para cá quando eu ainda era muito pequeno.
Ele riu. Em seguida, pôs-se a falar em Kanien’kéha:
— Aceita vinho, Connor?
Recusei gentilmente, mas ao que Johnson insistiu, deixei que ele enchesse uma parte de meu copo. Bebidas alcoólicas nunca haviam me agradado, e eu tivera experiências pouco aprazíveis na tripulação da Aquila, então fingi que bebia. Ainda no idioma, ele prosseguiu:
— É bom saber que Adams estava disposto a negociar, mesmo que por meio de você.
— A reunião era secreta. — Eu comentei. — Como sabia onde nos encontrar?
— Ah, Samuel e eu temos um... amigo em comum. Se você cresceu na cidade, deve ter ouvido o nome de Benjamin Church. Pois bem. Church já trabalhou de perto do Caucus e dos Nove Leais, então... Notícias correm bem rápido, ainda mais quando se tem os contatos certos.
Então Church era o informante dos Templários. Eu não devia me espantar. Com a influência de Sam Adams, certamente a Ordem iria gostar de manter um ouvido próximo a ele.
— Entendo — respondi — E qual é a sua proposta, Sir Johnson?
— Eis a questão, Connor. — Johnson retomou, novamente em Inglês. — Eu me considero um homem visionário. Eu vi com os Haudenosaunee um potencial que o meu tio não viu, e veja aonde isso me trouxe. Mas eu estou sempre em busca de expandir o meu comércio. Eu considero os Haudenosaunee como meu próprio povo, e eu faria qualquer coisa à minha capacidade para ajudá-los.
“E em troca eles precisam apenas trocar suas liberdades por dinheiro, não é?”, eu pensei. Porém, obviamente não quis arruinar o disfarce, não agora tão perto do Alvo. Permiti que ele continuasse falando.
— A Lei do Chá será um negócio muito lucrativo para a minha rede de comércio. Sendo um consignatário oficial da Companhia das Índias Orientais, eu conseguirei revender o chá por toda Nova York a um preço muito mais em conta do que aqueles contrabandistas holandeses. Porém, é claro que para mim e para os outros negociantes parte do acordo, este novo piquete do ousado Samuel Adams é uma bela de uma pedra no sapato.
Ele interrompeu o discurso para tomar um gole de vinho.
— E o que quer que eu faça? — questionei-lhe.
— Até onde eu sei, você é próximo de Adams, não? O que eu preciso é simples: que Adams e seus cúmplices recuem. Mande-lhes a mensagem de que há muito dinheiro envolvido nessa barganha, e haverá o suficiente para cada um deles, desde que eles apenas abortem o piquete pacificamente.
— O Sr. Weeks já lhes fez essa proposta — informei — Adams nunca aceitaria.
— Bem, então se ele não colaborar por bem, talvez colabore sem saber? Que tal se você, na sua qualidade de amigo, convencesse Adams a desistir? Não haveria necessidade nenhuma que ele soubesse de seu acordo comigo, ele apenas nos beneficiaria sem nem perceber.
— Você convenceria o governador Hutchinson a desistir do plano dele?
Johnson tomou uma expressão pensativa.
— Mesmo que eu tentasse, ele não mudaria sua posição.
— E nem Adams o faria.
O diplomata quase engasgou com a bebida e soltou uma gargalhada.
— É verdade, rapaz. Esse impasse há de ser gravado nos anais algum dia.
Ele se reconfortou no banco, e continuou, novamente em minha língua materna.
— Aumentemos a oferta, então. Enquanto Adams e Hutchinson estiverem vivos, eles não recuarão de nenhuma maneira, e nos prenderão num jogo de xadrez em xeque infinito. Se algum deles for posto fora do jogo, no entanto... Creio que nossos interesses seriam atingidos.
Pisquei os olhos, sem entender.
— Eis o acordo, Connor: em breve eu irei adquirir uma grande porção de terra em Nova York. Um condado inteiro, habitado por algumas vilas Kanien’kehá:ka. Temo pela segurança deles. Meu desejo profundo é comprar as terras para protegê-los. E, com a sua ajuda, eu o farei. Junte-se a mim, e tudo aquilo será seu. Te darei títulos, você será o administrador do condado. Os Kanienkehá:ka te ouvirão, minhas tropas no novo forte te obedecerão, e você viverá como um rei. Escolha uma esposa num dos vilarejos, construa uma grande mansão, e você nunca mais precisará se preocupar na vida. Eu construirei as fortificações e escavarei os recursos da região, e você lucrará com tudo isso. A única coisa que me impede de te dar isso é...
Ele me fitou, em silêncio.
— Samuel Adams — completei.
— Exato — disse ele — Todas essas posses podem ser suas, e para isso você precisará fazer apenas uma coisa: matar Samuel Adams. Chame-o para uma discussão confidencial, e ataque-o quando ele menos esperar. Espalharemos a notícia de que ele foi assaltado, e você viajará para Nova York para ser meu tenente e dono da sua própria terra. — Ao ver que eu não respondia, ele perguntou em inglês: — Temos um acordo?
Meneei a cabeça, fingindo interesse.
— Tenho uma contra-proposta — disse.
Johnson abriu a boca para falar algo, mas eu agi mais rápido. Levantei-me do banco, segurando a cabeça dele com a mão esquerda. Levei a mão direita à cintura, e peguei a adaga, colocando-a a uma distância ínfima da garganta de Johnson. Comecei a ameaçar em minha língua materna.
— Você deixará Boston, para nunca mais voltar. Abandonará qualquer contrato com a Companhia das Índias Orientais. Renunciará a qualquer direito sobre as terras Kanien’kehá:ka. Faça tudo isso, e eu te pouparei.
— Você me mataria em nome de um paspalho como Samuel Adams? — ele gania, nervoso.
— Adams fala pelo povo de Boston, algo que você nunca poderia fazer pelos Haudenosaunee. E o povo de Boston não te quer, não quer o seu chá e nem os impostos sobre os quais você quer lucrar. O povo de Boston quer liberdade, e também os Kanien’kehá:ka.
— Ah, e me matando você conquista o quê? Minha morte seria culpada na trupe de Samuel. O governador usaria isso como desculpa para reprimir o piquete com violência, e com certeza a notícia de que o rapaz que me matou era nativo irá fazer com que cidadãos revoltados descontem no seu povo e todos os outros. A Confederação te deserdaria, isso se alguém não te matar antes. Você não consegue nada.
Encarei o Alvo com fúria. Minha adaga estava rente à sua garganta. Bastava um simples movimento e minha missão estaria completa. Mas eu não o fiz. O Templário estava certo. Uma abordagem dessas iria apenas dar motivo para que os inimigos retaliassem. Havia muitas coisas para arriscar. E, acima disso, também estava o meu medo: o medo de matar alguém. Aproximei o meu rosto do dele e tornei a falar.
— E é por isso que eu disse que te pouparia — abaixei a adaga, mas não falando com menos fúria — Você irá fazer o que eu disse. E, se não fizer, eu te encontrarei de novo, e na próxima vez misericórdia não será uma opção.
O Templário suava pela testa, apesar do outono frio. Ele abriu a boca e assentiu com a cabeça.
— Se é assim que será...
Eu mais uma vez o fuzilei com os olhos, e enfim o larguei. Voltei a sentar em meu banco enquanto ele inspirava fundo, checando se o pescoço estava intacto. Ele se levantou, pegou a sua garrafa e anunciou:
— Não nos veremos novamente.
Sem nenhuma palavra a mais, ele abriu a porta e desceu do vagão, fechando-a logo em seguida.
Ouvi alguns cliques baixos, e, em seguida, meu coração disparou. Pulei para a maçaneta, tentando abri-la, em vão. Estava trancada. A carruagem começou a se mexer. Em que cilada eu havia me metido?
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