Espírito das Sombras
2 Elisa
Notas iniciais
Dez vítimas no total. Levei dez almas hoje. Não posso dizer que não estou surpreso com a quantidade. Esperava que mais pessoas morressem... mas talvez seja só um dia fraco.
Deixei-me vagar pelas ruas de Phoenix, vendo adolescentes se agarrando em becos, adultos saindo cansados de seus trabalhos, gente indo pra festas e finalmente, um pouco de calmaria.
Parei pra pensar, por um momento, o quão entediante era a vida da Morte. Era obvio que ela tinha muito trabalho, mas... provavelmente ficava entediante.
Parei de andar, finalmente e olhei ao redor. Estava na área industrial da cidade e ao meu redor, via apenas armazéns. Foi então que despertei para a realidade por conta de um grito agudo.
Deixei me levar até a origem do som o mais rapidamente possível. Irrompi pelo alçapão de maneira silenciosa, e fiquei alguns segundos em choque.
O lugar totalmente sujo e abandonado, ganhou uma faceta horrenda e terrível. Havia uma moça ruiva, quase nua e por cima, um ser fétido, já em decomposição tentando alcançar seu pescoço.
Ela gritava desesperadamente e então, como um estalo, peguei a arma que havia recebido da minha nova chefe e atirei. Duas, três, quatro vezes seguidas e com um gorgolejar estranho, ele desabou no chão com um estrepito surdo.
Virei para a moça que tremia sem parar e ela para mim. Não esperava que ela pudesse me ver, obviamente e foi com grande surpresa que ouvi sua suave voz.
– Ai. Meu. Deus. Muito, muito obrigada mesmo! Espera... Ai, Deus... Não. Não. Não. MERDA! – Ela começou a praguejar rapidamente e depois do terceiro palavrão decidi tentar parar de entender.
– Hm.., moça, o que há de errado? – Perguntei hesitante.
– Você é o que há de errado! Um maldito servo da Morte!
Automaticamente dei um passo para trás e a encarei. Seus olhos verdes brilhavam de raiva e ela deu um passo à frente. A blusa em retalho mal tampava os seios e a calça... bem, não havia mais calça. Antes que pudesse me conter, já a havia encarado e alto a baixo e ela corava furiosamente.
Tirei minha jaqueta e estendi para ela, que mesmo hesitante, decidiu pegar. Colocou a peça de roupa e me encarou por um breve momento, antes de suspirar.
– Sou Elisa. Elisa Shaw; e você deve ser a última aquisição da Morte, servo número 208, ou seja lá como ela te chama.
– Meu nome é Charles – disse fazendo uma careta – e você poderia ser mais educada, sabe? Eu salvei a sua vida.
– Você não devia. Não é natural. E agora eu estou com esse enorme problema.
– Seria se legal se você fizesse algum sentido pra mim, moça.
– Você. Você estar aqui, não é natural. Você não está morto. A Morte esta trapaceando, tornando tudo mais fácil pra ela. E ai, gente como você, que não tem nada a ver com a situação, é pego em sua enorme e sedutora teia de aranha e força gente como eu a caçar almas de pessoas como você e se não matar, forçar a voltar para o corpo o que pode não ser bom... – Ela finalmente parou para respirar e eu finalmente perguntei:
– Então, você caça almas?
– Almas de quem não morreu. – Ela enfatizou e em seguida mordeu o lábio. – Já devem ter detectado sua presença perto de mim.
– O que vai fazer? Me matar ou algo assim? Não quero voltar pro bendito hospital.
– Não posso te matar, imbecil. – Murmurou a contra gosto. – Tenho uma divida com você. Poderia deixar você solto, e estaria livre, mas eles iriam te perseguir e te matar e isso me faria ter ficado em divida com você.
– E então? – A questionei, já pensando seriamente em deixar o local.
– Vamos fugir. – Encarei-a atônito.
– Vamos? Nós dois? Ta doida menina? – Dessa vez ela me encarou em choque. – Eu tenho almas a recolher, sabia?
– Você prefere recolher almas ou salvar sua pele? – Estava prestes a dar uma resposta mal educada quando o já característico puxão se fez presente.
– No momento eu preciso recolher uma alma. – Falei trincando os dentes tentando permanecer ali por mais alguns momentos.
– Vou com você então. – Disse e simplesmente segurou meu braço.
– Não faço a mínima ideia se isso vai dar certo. – Murmurei. – Mas dane-se. Espero que você não morra ou algo assim.
Deixei-me levar pelo puxão. Fechei os olhos e quando vi, estava na sombra de um enorme prédio. Sem fazer a mínima ideia de onde estava, olhei ao redor e reparei em Elisa, apoiada na quina da contrução vomitando provavelmente tudo que tinha no estomago.
– Deus... como consegue passar por isso?
– Não preciso comer, então... e você precisa de roupas novas. Sabe onde estamos? – Ela assentiu.
– E sei também onde arranjar roupas. Estamos em Henderson, Nevada. Minha casa. – Ela franziu levemente as sobrancelhas e balançou a cabeça. – Vá pegar a bendita alma e me espere aqui, entendeu? – Concordei e fui fazer meu mórbido trabalho.
Como o homem havia sido atropelado, seu corpo jazia em meio a pelo menos 20 pessoas, porém, como não me enxergavam, foi bem fácil. Voltei para a marquise do edifício, sentei-me e fechei os olhos, tentando relaxar.
Fiz uma retrospectiva do dia, e percebi que tivera um encontro com a Morte, ganhara um emprego terrível e conheci uma gata que mata gente como eu.
– Que animador. – Resmunguei.
– Além de quase morto é louco? – Falou a voz da ruiva a qual estava preso.
– Engraçada você, moça. – Ironizei, e parei para olha-la. Ela, é claro, era linda quase nua, porém, tinha uma grande charme vestida. Antes que pudesse falar alguma coisa sobre o assunto, uma voz masculina grossa chamou por ela.
– Shaw? É você? – Ela empalideceu e agarrou minha mão. Com olhos arregalados, ela formou com os lábios rosados a palavra “corra”.
E foi o que fizemos. Percorremos rua após rua, desviando e fazendo voltar a torto e a direito e quando finalmente paramos em uma estação rodoviária, ela me olhou com ar assustado e sussurrou:
– Nos acharam.
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