Eskalith
23 Lágrimas e Chuva
Notas iniciais
Fubuki Shirou agarrou meus braços, e sentir gravar suas unhas com força da minha pele. Olhei para ele furioso, porém, seus olhos pareciam muito mais perigosos do que qualquer outro que eu já havia encarado. Estava com tanta raiva que parecia até mesmo ser outra pessoa.
Soltei ele surpreso e ele me empurrou com força. Não pude esconder a vontade de sorrir para ele, quase como um louco, talvez o que eu precisasse era isso, de uma briga, com alguém com aquele olhar. O olhar de raiva que me lembrava, de alguma forma, Suzuno, mas, para minha surpresa, ele não parecia gelado e intenso como de Suzuno – apesar de ser essa a sensação que eu esperaria de Shiro. Era quente, quase como um vulcão. Já estava avançando para cima dele de novo quando senti alguém tocar no meu ombro.
— Nenhum de vocês conhece Suzuno Fuusuke – falou uma voz por trás de mim.
A atmosfera hostil parecer se romper naquele momento. Fubuki tossiu um pouco baixando a cabeça antes de me olhar com uma expressão confusa.
Me virei para ver quem era o infeliz que havia nos interrompido.
Terumi Afuro sorriu discretamente para nós, balançando os seus longos cabelos louros de leve. A luz da janela do corredor indicava que a tarde estava chegando ao fim, e logo os corredores estariam cheios de alunos desesperados para sair dali.
— O que você disse? – Perguntei, olhando para ele rancoroso.
— Olá, Shirou – Afuro olhou para Fubuki, abrindo um sorriso.
Em resposta, Fubuki fez uma cara desagradável, como se estivesse com medo e ao mesmo tempo confuso e irritado, no entanto, notei que seus olhos voltaram ao normal. Olhos frios, mas que passavam uma sensação calma, como uma brisa gelada no final da tarde. Diferente de antes, que era como uma tempestade de ácido ou algo assim.
O garoto de cabelos brancos apertou o lenço em volta de seu pescoço e saiu, esbarrando em meu braço – pareceu proposital – e sumindo pelo corredor. Isso foi realmente estranho, só que eu estava muito mais interessado em outro assunto naquele momento para me preocupar com quem diabos era esse menino.
Dei uns passos em direção a Afuro, fitando meus olhos nos dele, que me olhou com certa curiosidade.
— O que você disse? – Perguntei novamente, dessa vez mais alto, parando frente a frente com ele – O que você sabe sobre Suzuno?
— Você tá mesmo fissurado naquele cara, não é? – Ele perguntou, dando um meio sorriso – Mesmo sem o conhecer.
— Suponho que você conheça ele, já que esta falando essas coisas – afirmei, cruzando os braços e tentando parecer ameaçador.
O louro deu outro sorriso, coçando um pouco o queixo.
— Você se parece um pouco com ele, dá pra ver que você gosta de brigar – começou a falar, mexendo em seus cabelos – Eu sabia que poderia encontrar algo interessante aqui quando vi que ele estava aqui.
Senti um aperto no peito. As palavras dele pareciam me irritar mais do que as do próprio Suzuno naquele momento. Ao nosso redor, vários alunos começaram a sair de suas salas e o corretor logo estava cheio, como já era de se esperar. O sol iluminava metade do corpo de Terumi Afuro a minha frente, deixando uma sombra em seu rosto. A noite estava caindo mais cedo do que de costume. O tempo era de chuva.
Olhei para ele pensativo, e o mesmo me fez um sinal para segui-lo. Eu queria chegar logo em casa e ver se Fuusuke estava bem e saber o porquê não foi a aula aquele dia, no entanto, estava curioso, e um tanto irritado. Apenas segui o rapaz pelo corredor, provavelmente esbarrando na maioria das pessoas que passavam por mim. Não que eu ligasse, era apenas um bando de idiotas vivendo suas próprias histórias desinteressantes.
Afuro me levou até a quadra, onde os alunos de educação física costumavam ter suas aulas práticas. Fui conduzido até próximo a saída que dava para o final do bloco D – o último.
Ele parou e observou as pessoas passarem, o sol cada vez mais fraco e o barulho dos passos cada vez mais distante. Logo estávamos sozinhos na divisão entre o bloco de salas e a quadra esportiva. A área era coberta mas ainda sim ficava da parte de fora de ambos (o bloco e a quadra) e podíamos sentir um sereno caindo.
— Qual é a sua? – Perguntei, franzindo a testa. O outro voltou a sorrir.
— Achei que poderíamos conversar – respondeu.
— Não me enrole – cruzei os braços – Não quero ouvir seu papo furado, só me diga o que sabe sobre Fuusuke.
— Você é bem direto. Nem se quer esconde o que sente, saindo pelo campus agarrando alunos e tentando arrancar qualquer informação sem nem se importar se isso é estranho ou suspeito.
Dei de ombros. “Quanta bobagem!” Pensei comigo mesmo, “como se eu fosse me importar se os outros acham estranho ou suspeito”.
— Não to nem ai pra isso, cara – Respondi, arqueando as sobrancelhas e o olhando nos olhos – Você vai me dizer ou só ficou de conversinha pra salvar seu amiguinho de antes?
Afuro riu.
— Salvar? Eu até que gostaria de ver vocês brigando – Ele deu um suspiro – você não conhece o Fubuki, se engana se acha que ele precisa ser “salvo” por alguém.
— Ah, sim, de repente todo mundo virou algum tipo de magrelo que na verdade é forte e perigoso, já entendi – Zombei.
O outro me olhou confuso por alguns segundos. As nuvens de chuva já cobriram a maior parte do dia, e ficou difícil saber que horas eram. A noite chegara mais cedo e com ela o vento gelado.
—Vai abri o bico ou não?
Afuro soltou outro suspiro, balançando um pouco os braços. Deu uma olhada para o ceu, com um certo ar de nostalgia e preocupação.
— Eu estudei com ele quando erámos crianças – ele finalmente falou – quando soube que ele estava em Inazuma, procurei por ele pra saber como ele estava.
— Procurou por ele? – Perguntei baixinho, sentindo meu estomago se revirar de nervosismo.
— Sim, nós erámos bem amigos!
Enquanto Afuro falava, imagina em minha cabeça um Suzuno criança, como o da foto que encontrara a algumas semanas atrás. Um rapaz pequeno e magro, pele amarelada e cabelos acizentados, quase brancos, sorrindo enquanto corria pelos corredores da escola carregando uma bola de futebol.
— Fuusuke! – Outra criança gritou para ele, no final do corredor da escola. As paredes brancas e as janelas altas.
Afuro tinha o cabelo curto quando criança, mas o jeito era o mesmo. Sorriu sereno para o amigo e este o retribuiu com outro sorriso. Tinham em torno de 9 anos de idade, e já eram amigos a muito tempo. Jogavam bola juntos quase todos os dias e quase sempre eram cercados de várias outras crianças bem vestidas. O colégio era enorme, e aparentemente muito caro, e Suzuno era sempre buscado pela sua mãe, num carro igualmente caro.
O clima estava bom, o sol iluminava o pátio da escola. Afuro contava que brincaram muito naquele dia e no outro, quando chegou a escola e foi procurar o amigo não o encontrou. Ninguém falou nada sobre o assunto com as crianças, porém o clima era pesado na escola. Ele era muito pequeno para entender o que estava acontecendo, mesmo assim sabia que alguma coisa havia mudado aquele dia, e que nunca mais as coisas seriam as mesmas.
Passou-se alguns dias até que finalmente ele descobriu o que houve. Seus pais conversavam na sala e ele escutou, escondido no canto do sofá.
— É realmente horrível, não fazia nem quinze dias que a esposa dele morreu – começou a mãe de Afuro, checando seu celular, sem olhar para o rosto do homem sentado ao seu lado.
O pai de Afuro parecia mais abatido. Era amigo dos pais de Suzuno.
— Não consigo acreditar no que aconteceu! – Falou ele, levando as mãos a cabeça e pareceu que ia chorar – Ainda não tinha caído a ficha que Yukiko havia morrido, e agora isso! O que esta acontecendo?
— Se acalme, querido! – A mulher largou o celular e colocou seus braços em torno do marido – Foi uma tragédia! Mas você precisa ser forte, sei que eram bem amigos, mas tem coisas que não tem como evitar, elas acontecem!
A esposa tentava acalmar o marido enquanto a criança assustada ouvia a conversa escondido, segurando as lagrimas. Seu amigo deveria estar sofrendo, e ele só conseguia imaginar a dor que o outro devia estar passando.
Foi então que ele descobriu que a mãe de Suzuno, gravida, havia sofrido um acidente. Ela caiu das escadas e foi parar no hospital. O bebe em seu ventre havia falecido e na quando foram retirar a criança morta, a mãe não resistiu e morreu junto. Em uma noite, Suzuno perdera a mãe e seu irmãozinho.
Passou alguns dias e seu pai acabou falecendo também, porém não conseguiu descobrir como. Afuro não queria perguntar aos pais e todo evitavam conversar sobre o assunto. Depois de um tempo a escola foi voltando ao normal. Os seus pais foram voltando ao normal. Ninguém mais comentava o assunto e todos seguiram em frente. E Afuro nunca mais viu o amigo.
—-
A lua iluminava o céu com dificuldade. As nuvens de chuva já haviam coberto o céu por completo e já dava para sentir a umidade no ar. Os alunos do turno da noite já começaram a chegar e passavam correndo pelo campus como se já estivesse chovendo.
Afuro terminou de falar e minha mente voltou a onde estávamos. Dava pra ver que seus olhos estavam lagrimejando com a historia. Ele deu um sorrido quando percebeu.
— Nossa, não achei que ainda era tão ruim falar sobre isso – ele falou, mexendo novamente nos cabelos – mas não sei porque, achei que deveria te contar.
Olhei para ele sem conseguir dizer nada. A sensação que tomou conta de mim era uma forte pressão sob o peito, como se o ar estivesse se comprimindo e me sufocando. Eu conhecia essa sensação. Foi então que me lembrei de minha infância. Um dia tudo parecia normal e no outro minha vida mudara completamente.
Nem conseguia me lembrar do rosto de meus pais. Lembrava do toque suave das mãos de minha mãe acariciando minha cabeça quando deitava para dormir. Lembrava do cheiro de cigarros que sentia quando meu pai me abraçava. Lembrava vagamente de suas risadas enquanto assistia seus programas favoritos na tv. Também lembrava que eles brigavam e se preocupavam muito com as contas, coisa que na época não entendia, pois tinha acabado de fazer 5 anos. Lembro de me abraçarem quando eu aparecia na sala chorando por ver eles brigando, e eles diziam: “Tudo bem, Haru, dias melhores virão!”.
E eles nunca vieram. Um dia estavam eles lá, fazendo o almoço e cantarolando. No outro, eu estava acordando no hospital, sem entender nada. E nunca entendi. Quando contaram que havíamos sofrido um acidente e eu era o único sobrevivente eu não entendi. Quando vi a casa em que morávamos sendo posta a venda e nossas coisas sendo encaixotadas, eu não entendi. Quando me vi morando com minha avó, que mesmo tão querida não conseguiu acalmar a angustia que eu sentia, eu também não entendi.
“Porque eu ainda estou vivo”?
— Nagumo?
A voz de Afuro me trouxe de volta a realidade. Ainda estávamos na universidade, e as primeiras gotas de chuva já caiam. Alguns alunos passavam correndo por nós, nos olhando irritados pois estavam parados no meio do corredor coberto atrapalhando a passagem dos outros.
— Tudo bem contigo? – Afuro perguntou, se aproximando um pouco, com ar de preocupação e surpresa, provavelmente não esperava que eu parecesse tão abalado de repente.
— Não é nada – respondi secamente, me afastando um pouco – não entendi por que me contou isso.
— Eu observei você por um tempo. Quando cheguei e encontrei Fuusuke, não conseguir coragem de ir falar com ele. Eu sei que é ele, mas ao mesmo tempo, não parece o mesmo que eu conheci – Ele começou a falar, parecendo meio sentimental – E então eu vi que você observava e falava com ele. Vi que você o levava pra casa as vezes. Então pensei que vocês estavam juntos ou eram ao menos amigos. Pensei que se me aproximasse de você conseguiria me aproximar dele também.
Não sabia realmente o que dizer. Ainda estava lutando contra o sentimento de angustia e a pressão em meu peito. A muito tempo não pensava nessas coisas, e agora estava ali, quase que segurando lagrimas. Fazia quanto tempo que eu não sentia vontade de chorar?
— E então eu vi você brigando com o Fubuki por causa do Suzuno – ele continuou – Pensei que talvez você não soubesse sobre isso e acabei contando, não achei que seria tão difícil. Talvez eu só quisesse falar disso com alguém.
— Você disse que Fubuki não conhece Suzuno – finalmente falei, a voz saia rouca e parecia arranhar minha garganta – Por que disse isso?
— Para falar a verdade eu só falei a primeira coisa que me veio à cabeça, pra chamar sua atenção – ele deu um sorriso tímido – Porém, eu conheço Fubuki Shirou e nunca vi os dois juntos.
Agora a chuva caia mais forte. O som das gotas pesadas caindo sobre o campus ofuscava o som que os alunos faziam por toda instituição. Não sabia que horas eram. Só dava para ver que passara um bom tempo desde a hora que eu planejava chegar em casa.
Afuro continuou me olhando quando me afastei, sem olhar para seus olhos. Me sentia fraco e um pouco sentimental e não queria que o outro percebesse isso.
— Ok... – Falei, antes de dar as costas – Obrigado por me contar.
O outro não disse nada. Pude sentir que me observou sair pela chuva campus a fora. Tudo que eu queria era chegar em casa e ver Suzuno. Deixar esse sentimento que estava brotando em meu peito depois de tantos anos sumir novamente. Amar as pessoas é difícil, é dolorido, principalmente quando você que as pessoas que amam não existem mais. Eu poderia procura-las em qualquer lugar do mundo, elas não estariam lá. E com o tempo, não existiram nem mesmo em mim. Não lembrava seus rostos a tantos anos, e pensei que seria apenas uma questão de tempo para esquecer tudo sobre eles. Uma parte de mim quis isso por tantos anos, e agora que as lembranças voltaram, só pude correr para longe de todos e deixar as lágrimas correr pelo rosto. A chuva as camuflava, e abafava meus soluços. A saudade é a pior coisa sobre se amar alguém.
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