Escudo
1 Capítulo 1
Á nós mulheres resta uma certeza: temos à espreita o sofrimento. Não como opção, mas como condição. E uma vez que nos dada essa condição passamos a vida a evitá-la;
Ou ao menos tentar.
É certo que, ao longo de toda vida, estive a tentar evitá-lo a todo custo, mas por muitas vezes falhei e, falha após falha, aprendi a lidar com ele. Ao longo de muitos anos fomos subjugadas e forçadas a acreditar que, o valor de uma mulher é dado por um homem. Pelo seu pai, pelo seu esposo, pelos seus filhos. Seja sendo vendidas a dotes, sujeitas a casamentos arranjados, e ainda após esse sofrimento, a vida doméstica que nos restava: cuidar da casa, dos filhos como se de nós mesmas, e dos maridos como se fossem filhos.
Não tivemos desde o nascimento um dia que não fosse sobre cuidar, abnegar, devotar, e nada disso a nosso favor. E mesmo após anos de avanço, ainda sentimos esses efeitos contra nós, e é graças a eles que vivo nesta fachada, de parecer forte mais do que de fato devo ser.
Por todo esse tempo presenciei relacionamentos, casamentos tidos e falados como algo precioso, e vi em tudo os motivos pra rejeitá-los, ou me esforcei até que visse.
Lutei contra o mar de mim até que convencesse, que não poderia viver assim, e de fato não o queria, mas até que ponto eu posso estar errada?
Lembro-me dos dias em que pensei ter conhecido a sensação que a muito quero sentir, voltando aqueles anos em que Élio e eu costumávamos ser alguma coisa, e penso em como deixei tudo pra criar esse escudo, maldito escudo que me consome, que deixo crescer a cada dia e que quer ser maior do que eu!
Como nosso coração pode nos confundir, nos enganar e fazer pensar que merecemos aquilo que muitas vezes não nos merece. Élio e eu sabíamos que não podíamos estar juntos, mas que ao nos separar podíamos não aguentar o sofrimento que viria depois.
— Por que me olha assim, Élio?
— Gosto de olhar. Me faz gravar seu rosto em minha mente. E é isso que quero ter gravado.
Olhei para ele, e naquele momento, pude ouvir meus pensamentos:
Deus, por favor! Me deixe mantê-lo, e é tudo que te pedirei.
Até aquele momento, não sabia que mantê-lo seria um erro do qual sempre me arrependeria, e é claro, ao contrário do que pensei, aquele não foi meu único pedido a Deus.
Quando o conheci, senti que havia encontrado tudo que precisava, quando Laerte nos deixou sozinhos enquanto estava ocupado com todos os litros de álcool que alguém pode consumir antes de perder a consciência.
— Você é a Siena, certo?
— Culpada! Alguém no meio da noite vindo de encontro a Laerte bêbado pra salvá-lo, fora eu? Então você deve ser o Élio.
— Por que é que ele sempre faz isso?
— Laerte não conhece limites, ou se conhece, sabe que estamos aqui pra amparar e prefere os ignorar
— Você é uma boa amiga, ele tem sorte.
— Eu tenho mais sorte que ele, esteve comigo em todos esses anos, desde a escola, e não sei o que faria sem ele. Antes de você, acredite, estive encarando a falta de limites dele por conta própria, pode ser um trabalho solitário as vezes!
Laerte e eu fomos grandes amigos, maiores do que muitos, mas, não maiores do que o drama. Ele sempre conheceu Elio, e sempre conheceu a mim, mas por algum motivo até aquele momento, Elio e eu não tínhamos nos conhecido. Não posso dizer que me apaixonei por ele naquele exato momento, mas se a paixão leva a breve ruína, estava mais perto do que eu pude imaginar.
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