Escrutínio do Mundo

1 Capítulo 1 - Escrutínio do mundo


Notas iniciais
Filhos não planejados; Fundão não tem fundo; Faz de conta e muito mais...

Descartáveis

Ser humano

Não planejado

Sempre foi descartável.

Milhares e milhões

Tornaram-se anjinhos.

Foram descartados

Antes mesmo de nascer.

Muitos eram postos

Nas rodas dos enjeitados.

Outros deixados

Nas portas de abastados.

Hoje são largados

Em sacolas plásticas

Pelos muros e calçadas.

Jogados nas represas

Ou em caçambas

Nas calçadas.

Ainda há aqueles

Que nem em caixa

De sapato e colocado.

Na sarjeta

É simplesmente jogado.

Ser humano

Não planejado

É artigo descartável.

Vítimas da honra

Ácido!

Tortura!

Tochas humanas!

Zarah morreu!

Dizem que foi por honra.

Menina.

Menina mulher.

Objeto de negócio.

Vida mercadoria.

Sorriso juvenil roubado.

Sonhos roubados.

Vida roubada.

Morte repara honra?

Malala!

Naeema!

Jyoti!

Qandeel!

Mulheres.

Mulheres violentadas.

Mulheres mutiladas.

Heroínas.

Mundo emudece.

Horror!

Descaso.

Dia Moderno

Pessoa apressada.

Carro apressado.

Ônibus apressado.

Trem apressado.

Farol ascende.

Farol apaga.

Passante esbarra.

Alarme dispara.

Veículo não para.

Letreiro não lê.

Passa reto pela TV.

Fábrica apita.

Escola apita.

Guarda apita.

Relógio disparado.

Passo frenético.

O dia acontece.

Fantasma

Figura desvalida

Vasculha lixeiras generosas.

Banquete dos restos

De uma sociedade mesquinha.

Pernoite privilegiado em hotel

Acessível sob as estrelas.

Cama fina preparada

Sobre grosso papelão.

As grifes que o cobrem

São as estampadas no jornal.

Coberta reciclada do lixo

Onde pelo rico foi jogada

Após ler as manchetes da manhã.

Abajures de faróis.

Adormece preocupado

Com a violência que o espreita.

Farrapo de ser humano.

Trapo de vida desgraçada.

Sombra de um universo

Que não o reconhece.

Fantasma da própria existência.

Faz de Conta

País Faz de Conta.

Máscaras e fantasias.

Lobo parece cordeiro.

Nada é o que parece.

Tudo encenado como

Script de pantomima.

No teatro da vida,

Vilões são salvadores;

Encantadores de serpentes;

Criadores de ilusões.

No país da fartura,

Pobre morre à mingua;

Menino vai a escola

E aprende a lição

À sombra da mangueira.

Pés descalços

Em campinho de terra

Chutam bola de latinha

No país do futebol.

Em Faz de Conta

Miséria vira lenda e

Pobre, atração de televisão.

Loucura

Ela é louca!

Louca!... Eu!

Por que louca?!

Louca por que falo diferente?!

Louca por que penso diferente?!

Louca por que ajo diferente?!

Num mundo intransigente,

Num mundo egoísta,

Num mundo malévolo,

Ser benevolente é loucura.

Ser atenciosa é loucura.

Ser generosa é loucura.

Ser amorosa é loucura.

Prefiro a simpatia.

Prefiro a generosidade.

Prefiro a amabilidade.

Prefiro a loucura.

Sou diferente!

Estou na contramão do mundo!

Mundo em Agonia

No mundo em agonia

Natureza está rebelde.

Mares ferozes avançam,

Tsunamis... destruição.

Chão treme... se rasga...

Prédios ruem...

Morros desabam.

Tufões brincam de Lobo Mau.

Rugem e destroçam em pedaços.

Chuva não cai...

Terra rachada...

Aridez não produz...

Escassez espalha fome.

Chuva em demasia...

Afoga sonhos...

Submerge esperanças...

Vidas acabam em bueiros.

Mata tomba amputada...

Despida, desfigurada,

Terra segue aleijada.

Lama tóxica desliza voraz.

Engole cidade,

Asfixia peixe martirizado.

Planeta aborta vida...

Agoniza... desespera...

Implora...

SOCORRO!

Farrapo

Distante no céu

Uma estrela brilha.

Seu brilho tênue

Incide cálido

Sobre uma figura

Encolhida e triste.

Em pequenos murmúrios

Solta lamentos abafados.

Face banhada em lágrimas

Volta-se para o infinito.

Procura alento ao desespero,

Mas não encontra consolo.

Lágrimas de dor e desassossego,

Que como gotas de orvalho

Molham o rosto macilento.

Refugo do mundo.

Abandono da sociedade.

Restos de ser humano.

Sombra sem esperança

Em busca de dignidade.

Farrapo de vida.

Respeito

Passageira em trem lotado.

Viajante de ônibus abarrotado.

Desrespeitada em seu espaço.

Desconsiderada em seu espaço.

Vai e vem todo dia

Em viagem de pura agonia.

Não cochila e nem vacila,

Pois malandro está a espreita.

Se bobeia safado se aproveita.

Mulher guerreira,

Que luta suas batalhas,

No trabalho...

Na escola...

Na condução...

Até em sua casa

É uma batalha por dia.

Vestida em preconceito

Exige mais respeito.

Conquista direitos.

Deseja ir e vir

Sem violência.

Deseja apenas

RESPEITO!

Síria

Bomba que cai.

Prédio cai.

Escola cai.

Barulho que despedaça.

Destrói a casa.

Destrói o lar.

Destrói família.

Destrói vidas em desgraça.

Tiroteio invade vilas.

Soldados alvejam sonhos.

Maldade derruba monumentos.

Tudo vira escombro na praça.

Esta é a Síria.

Lugar de choro e de fuga.

Lugar de resistência e lamento.

Lugar que o futuro parece fumaça.

Refugiado

Cidadão expatriado.

Pegou barco lotado.

Com outros amontoado.

Sentindo-se desesperado.

O pobre desterrado.

Acaba no mar afogado,

Ou numa praia jogado.

Futuro?! Refugiado!

Deseja nova cidadania.

Viver com democracia.

Ter a família em sua companhia.

Nunca mais viver sob tirania.

Pessoas mudam como ventania.

Populações rejeitam por xenofobia.

Alegam ameaça a soberania.

Desenganam a frágil fantasia.

Refugiado carrega esperança

De viver com segurança.

Terminar a sua andança

Desfrutando de bonança.

A memória guarda lembrança

Da desumana matança.

Porém, a crueldade da mudança

Não suprime sua cultura de herança.

Fundão

Fundão ficou sem fundo.

Escorrendo líquido imundo.

Destruindo o solo fecundo.

Enterrando tudo no fundo.

Lama virou tragédia.

Matéria para enciclopédia.

Artigo na Wikipédia.

Enredo de tragicomédia.

Rejeitos de mineração

Espalharam intoxicação.

Provocando devastação.

Ecossistema sofreu alteração.

Nascentes soterradas.

Águas foram desviadas.

Gerações de peixes castradas.

Margens e praias degradadas.

O mundo em choque viu.

O que irresponsável não previu.

E avalanche em seu caminho destruiu

Sonho de um pedacinho de Brasil.

Um Mundo Melhor

Se os olhos fossem abertos

E a realidade vislumbrada,

O sol do amor brilharia

Com mais intensidade.

De ruínas de corações empedernidos,

Jardins multicores floresceriam

Perfumando o ar ao seu redor.

Nos desertos das emoções,

A relva verde e fofa cobriria

As grandes extensões áridas.

Onde houvesse terra rachada

Pelos sulcos do ódio e do egoísmo,

Riachos correriam fertilizando

O solo de bondade e compreensão.

Os picos do orgulho

E os abismos do preconceito,

Tornar-se-iam planícies

De paz e harmonia.

Então os arbustos da alegria,

As árvores da felicidade

E as flores do amor

Cresceriam enchendo o mundo

Do que há de melhor na raça humana.

Dignidade

Caminha pela noite

Triste figura macilenta.

Sem nome,

Endereço,

Ocupação

Ou família.

O vulto cambaleante

Vagueia pelas ruas.

Tropegamente vai

De calçada em calçada.

Procurando.

Vasculhando.

O que procura?

O que vasculha?

Procura alimento.

Vasculha as latas de lixo.

Aqui e ali

Restos da incauta sociedade

São devorados.

Trapos imundos

Cobrem a nudez.

Olhos esbugalhados

De insano desespero

Procuram sem ver

Algo que jamais encontrará.

Será?

Procuram simplesmente

O direito a vida digna.

A Errante

O olhar de uma

Trôpega andante,

Procura uma luz

No passado distante.

Talvez a chama

De um coração amante.

Quem sabe a sutileza

De um sórdido semblante.

Para desvencilhar a afeição

Pelo enganoso farsante,

Era imperioso e necessário

Ter forças de gigante.

Necessário se fazia

Seguir adiante,

Sem vacilar um só instante.

A solução era esquecer

O insensível tratante.

Jogar par longe

O pérfido, indigno

E vil turbante,

Que impede

De seguir avante.

É necessário uma

Alegria contagiante,

Um ávido e perspicaz

Cérebro pensante,

Para reconstruir

Uma vida

Destinada a ser brilhante.

Realiza Hoje

Por que falar das amarguras?

Por que falar dos espinhos?

Por que mencionar as pedras do caminho?

Por que lembrar dos infortúnios?

Por que lembrar das coisas ruins deste mundo?

Por que sonhar com o futuro?

Há tanta coisa boa para dizer.

Há maravilhas para nos encantar.

Há tanto para realizar.

Há tantos para ajudar.

Realiza hoje teu grande feito.

Ajuda a quem precisa.

Dê um sorriso ao triste.

Uma palavra bondosa.

Tranquiliza o aflito.

Mostra o caminho ao perdido.

Não lamenta o passado.

Não espera o futuro.

Realiza hoje.

Herdeiros da Guerra

Pensa o estadista poderoso

Quando ordena um ataque

Nas mulheres e crianças

Que serão atingidos?

Pensa a nação poderosa

Quando ordena um ataque

Nas famílias inocentes

Que serão despedaçadas?

Pensa o político poderoso

Quando defende a guerra

Que destruirá com suas bombas

Uma cultura importante?

Pensa o homem poderoso

Quando brinca de Deus

Que crianças mutiladas

Precisarão reaprender a viver?

Pensam apenas no poder e

Quanto lucrarão em influência.

Não importa a herança da guerra

Ou a falta dela, que ficou.

Efemeridade

Efêmera é a vaidade

Que consome os lucros

Do trabalho extenuante.

Efêmero é o poder

Que por meio fraudulento

Foi alcançado e mantido.

Efêmero é o sentimento

Que não tem raízes

Fundamentadas no amor.

Efêmero é o prazer

Que de forma ilícita

Foi usurpado a outrem.

Efêmero é a dádiva

Que foi dedicada

A quem desconhece o seu valor.

Efêmero é a vida

Passada de forma vazia

Sem ter significado.

Notas finais
Comentem. Digam-me o que acharam. É legal saber.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!