Escrito nas estrelas
1 Memórias amargas, um novo começo
Notas iniciais
Os capítulos posteriores conterão mais trechos de ação visto que esse é o início do fanfiction e, portanto, sendo mais descritivo e reflexivo.
O sol castigava suas carnes fatigadas e suadas.Com a face ruborizada, Viviane caminhava com aquela matilha de cachorros, pelas calçadas do Rio se Janeiro.Haviam cachorros grandes, médios e pequenos.As línguas dos cães gotejavam, e suas bocas esbaforavam calor.Todos puxavam as guias insanamente, desejavam conhecer aquele belo litoral carioca.Viviane, inquieta, tentava controlar seus amigos caninos, dizia-lhes:
—Pelo amor de Deus se controlem!Assim não vai dar!Somos uma equipe, temos que trabalhar juntos!
Viviane temia a tal hipertemia canina, temia que seus amigos de quatro patas pisoteassem o asfalto cálido e assim queimassem as almofadas dos cães.Feita um camundongo ligeiro e sagaz ela desviava para lugares sombreados, fugindo de pisos onde o sol dominava com sua castidade infernal.
Os cães latiam, latiam descontroladamente e puxavam mais e mais as guias. Viviane puxou as guias no meio da calçada repleta de altos coqueiros.Ofegante, encravou seu olhar claro naqueles seres agitados:
—Olha, desse jeito não vai dar! Enquanto vocês não se acalmarem, eu vou ficar aqui sentada...-Ela ajeitou-se no chão, encostando no tronco de um coqueiro.
As brisas oceânicas refrescavam-lhes os corpos. O céu azul exaltava sua exuberância enquanto as nuvens desfilavam vagarosamente pelo límpido celeste cenário e os pássaros voavam sobre as águas do mar.
—Pronto?Acalmaram-se?- Ela acareciou as cabeças dos amigos peludos.Uns repousavam deitados, outros sentados e ainda outros persistiram em ficar empertigados atentos nas movimentações da rua.Viviane sorriu, ergueu-se.Após o semáforo fechar para os veículos, seus pés atravessaram rapidamente a rua lotada de carros e motos aquecidos.Então, após atravessar atentamente, ela alcançou uma calçada mais larga e tranquila, coberta por sombras de árvores grossas e belas que derrubavam algumas folhas no cimento.
Seus pés caminharam por um longo percurso.E de um em um, ela devolvia cada cachorro para seu respectivo lar.Eram diversas casas.Casas luxuosas, grandes e pequenas.Apartamentos e condomínios diferentes.Cada proprietário recebia seu animal com um largo sorriso no semblante, e assim Viviane recebia uns trocados e guardava-os nos bolsos da bermuda que trajava.
Caminhou para o morro onde sua casa residia.Subiu a rua da ladeira que levava para a comunidade.Haviam sacolas, papéis e garrafas dispersos pelo chão.Crianças berravam e corriam.Viviane sorriu.Ah, como amava crianças!Recordou-se de uma menininha doce que conhecera no ensino médio.Seu nome era Larissa.Larissa amava contar fatos de sua vida, amava abraçar as pessoas que conversavam com ela.Sua voz era tão meiga quanto o canto de um canário.Ah , há tanto tempo não a via!Como estaria ela? Recordou-se então dos tempos do colégio.Era isolada na turma, seus colegas discriminavam-a, ridicularizavam-a pois estudava muito e preocupava-se com seu desempenho nas provas.Convivia apenas com as crianças nos intervalos das aulas, ninguém de sua turma fazia questão de ficar ao seu lado.Por quê? Muitas vezes acreditou que era muito introspectiva ou que cometera algum erro com os colegas, mas depois de pensar muito, chegara a conclusão que a culpa disso tudo era da coordenação da escola e, claro, dos pais irresponsáveis que não sabiam educar os filhos.Não sabiam ensinar seus filhos a amarem o conhecimento, a respeitarem as pessoas e os professores competentes.Que fato triste!Muitas vezes ela recordava-se dos colegas e perguntava a si mesmo se estariam bem. Apesar de acreditar que ninguém daquela turma sentia sua falta, em suas orações ela sempre rezava para que Deus os guiasse para um caminho iluminado onde pudessem desfrutar de uma vida cheia de alegrias, saúde e proteção nesse país onde a criminalidade era alta. Depois de anos, ela reconhecia que o colégio onde concluira o ensino médio fora péssimo, apesar de ser uma escola particular e barata, ela lamentava profundamente de ter desperdiçado seus estudos naquele lugar.Há três anos Viviane frequentou o cursinho Objetivo pré vestibular para tentar ingressar numa faculdade de medicina. No primeiro ano, ela sofreu muito para acompanhar as matérias, visto que a maioria delas eram novidades e não uma mera revisão. No ensino médio de seu colégio, os professores que procuravam ensinar conteúdos do nível de vestibular eram demitidos pois os pais queixavam-se para a coordenação de que seus filhos não conseguiriam passar de ano. Viviane bem sabia quem eram os alunos que odiavam esses professores na sua sala. Infelizmente, era a maioria da turma.Todos exigiam trabalhos em grupos ao invés de provas para que pudessem ganhar nota facilmente. Os trabalhos em grupo eram uma verdadeira ignomínia. Um deles, ela recordava-se, que a professora de biologia havia proposto uma apresentação de receitas de culinária ao invés de ensinar conteúdos fundamentais de genética como condominância, epistasia e crossing over. Enquanto a professora de matemática propunha que os alunos copiassem a mão nos cadernos trechos enormes das apostilas que eram mal elaboradas ao invés de ensinar conteúdos de geometria analítica e plana. Ela lembrou-se de tantos fatos absurdos. Lembrou-se que realmente aquele colégio era mais uma das instituições particulares de ensino que visam apenas lucro e aprovar filhos de pais irresponsáveis em faculdades particulares sem esforço algum para os filhos. Ela suspirou, sentia-se tão excluída naquele ambiente hostil.
Felizmente, no primeiro dia que pisou no cursinho Objetivo, percebia que haviam muito mais pessoas parecidas com ela do que ela imaginava. Era um ambiente totalmente diferente, os alunos empenhavam-se em estudar e ajudar os colegas. Respeitavam os professores e amavam aprender. Percebera que pertencia aquele grupo de estudantes.
Viviane sofria de transtorno de ansiedade por conta desse atraso de conteúdo que tivera na escola. Ela passava muito mal durante os vestibulares e durante as aulas. Tais crises prejudicavam seu desempenho nos resultados dos vestibulares. Ela sentia -se péssima, porém Deus havia lhe concedido um presente nesse início de ano. Ela começaria a frequentar um novo cursinho na Vila Mariana em São Paulo, chamado Poliedro.Ela bem sabia que não seria uma tarefa fácil e sim, muitíssimo árdua. Mas mesmo assim ela estava muito ansiosa para conhecer esse lugar. Ela subiu as escadas estreitas, espremidas pelas casas e barracos irregulares instalados nos terrenos baldios. Ao chegar na porta de seu humilde casebre, seus olhos azuis esverdeados voltaram-se para o horizonte apreciando o sol, um genuíno Monet fatigado, despedir-se no poente mesclando em seu retrato celeste manchas de sangue no horizonte com áureos raios solares e tons acobreados que tingiam as nuvens preguiçosas do céu crepuscular.Por fim, agradeceu a Deus pelo dia abençoado que tivera.
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