Escrevendo Meu Livro
3 2 - Inesperado?
Notas iniciais
‘'Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era,
mas acho que já mudei muitas vezes desde então.”.
- Alice no País das Maravilhas
Tudo que eu tinha a obrigação de fazer, eu já tinha terminado. Ou foi o que pensei.
Minha festinha de aniversário tinha sido na sexta á noite, então no sábado minha mãe e nós fomos comprar meu material escolar novinho em folha. Não reclamei em momento algum, afinal o cheirinho de páginas recém-compradas era um velho vicio. Mamãe tinha me matriculado na escola nova antes mesmo de sairmos do Paraná, pra deixar tudo mais tranquilo quando voltássemos.
No começo, a ideia de ir á uma nova escola e ter novos amigos me deixaram muito triste, primeiramente porque eu me sentia como se estivesse traindo minhas amigas da “antiga escola” como mamãe chamava. Mas naquele dia da compra do material, eu não senti aquela culpa e senti que não estaria perdendo nada lá no Paraná, e assim me senti um pouco melhor.
Fomos de manhã a tal papelaria+livraria pra comprar o material, e saí de lá mais do que feliz, sentimento que não tinha nem um pouco a ver com o fato de mamãe ter torrado os últimos 20 reais com um livro novo pra mim. Quando chegamos em “casa”, (já que ainda não sentia que aquela seria minha nova casa), minha mãe me deu um bilhão de afazeres. Acho que foi castigo por causa da minha fuga no aniversário na noite passada, sabia que ela não deixaria aquilo de lado.
Quando terminei de arrumar meu material, etiquetar tudo, lavar a louça, fazer a cama de todo mundo, dar uma varrida na casa e desencaixotar o resto das coisas, já era de noitinha. Morrendo de cansaço tomei um banho e liguei o meu notebook já bem gasto. Entrei no Gmail e tinha três e-mails.
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De: Mônica
Para: Olívia
Assunto: Saudade.
Lili,
O que eu faço? Hoje teve a maior festança por que era aniversário da Manuela (aquela feiosa que usa polaina) e o Henrique me deu uns olhares e ficou me paquerando o aniversário inteiro! Mas (não sei se você lembra) ele tem namorada, que é tal de Ligia que não estuda conosco (não mais você). Preciso tanto dos seus conselhos neste momento! E só agora que cheguei da festa e lembrei o quanto queria que você estivesse ali pra me dizer o que fazer. Então foi só aí que sentia na pele o quanto de saudade eu estava sentindo. Como se não bastasse, liguei pras meninas e nenhuma me disse a coisa certa á se fazer, como você sem me contava. Então só fiquei mais triste, sem você aqui, o que eu vou fazer? Desculpe se isso soou meio egoísta, mas eu preciso de você! Então responde logo esse e-mail Lili!
Beijos ansiosos,
Mômô.
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Eita. A Mônica inventava cada uma que só por deus mesmo! Respondi o e-mail dela com muita sinceridade e saudade também. A Mômô só encontrava cara comprometido, como se ela ligasse. Respondi que ela antes de qualquer coisa iria á ele e perguntaria se ele ainda estava namorando, caso a resposta fosse não, livre para ataque. Depois desse fui ver o próximo.
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De: Ana Luísa
Para: Olívia
Assunto: Você.
Olili,
Pra mim você sempre foi como uma irmã, sério mesmo. Então imagine como seria perder uma irmã. Bom é isso que estou sentindo. Todos os momentos que vivemos juntas foram tão especiais, que me sinto tão triste em saber que agora você está tão longe. Nada mudou aqui, só a carência de todo mundo que cresceu mas fora isso ta tudo na mesma. A Mô já arrumou um pra descarregar a carência e a Fer também. Só eu que continue forever alone, solteirona. Só falta comprar um gatinho, ou melhor, uma dúzia deles! E sorvete é claro, não podemos esquecer. Mas enfim Olili estou te escrevendo pra dizer com outras palavras que estou com saudade, mas muito feliz por você estar podendo ver novos horizontes. Qualquer dia vou ir aí. Nossa amizade pode passar por qualquer coisa, eu acredito. Pode contar comigo pro que der e vier.
Beijinhos,
Ana Lu.
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A Ana Lu é sempre tão querida, que quase chorei ao ler o e-mail dela, mas me segurei e mandei pra ela um trilhão de abraços e disse que ela não estava encalhada, que nunca é tarde pra restaurar amores do passado...
Fui ler o último me sentindo muito amada e feliz por ter amigas que se importavam deste tanto comigo, mesmo que a Mônica tenha dito meio que indiretamente.
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De: Fer
Para: Olívia
Assunto: Saudade e Francis!
Livinha do meu triste coração,
Como está tudo aí? Aqui está no mesmo, e até mais chato sem ter você aqui pra poder me dar bronca por eu só ficar assistindo TV! Hahaha! Agora é a minha vez de dar bronca (não pra você, e sim pro destino)! Quem mandou você tirar de mim meu bem mais precioso, uma amiga e parceira tão querida?! Livinha, ta tudo aqui tão triste! Na festa de hoje todo mundo perguntou se você estava bem e se adaptando, eu só dizia “Vocês conhecem a Olívia, se adapta rápido até em Marte!” E tentei assim como as outras pessoas acreditar no que eu mesma estava dizendo.
Ah, quase estava me esquecendo!!! Hoje ainda encontrei um gatinho abandonado na rua, o peguei e levei na veterinária amiga da minha mãe. O bichinho estava ótimo! Adotei-o e o chamei de Francis! Acho que você e a Aninha iam amar ele!
Beijocas,
Fer
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Fiquei muito alegre ao descobrir isso da Fer, ela continuava a mesma! Respondi o e-mail, e peguei o meu livro para terminar de ler. Depois de algumas horas minha mãe apareceu e perguntou se eu queria uma pizza, e eu disse que sim. Depois de comermos, eu dormi no sofá mesmo morta de cansaço.
“Filhinhaaaaaaaa” – disse minha mãe cautelosamente. Eu fingi que nem tinha ouvido e virei a cara pro travesseiro, mas então alguém (nada delicado) arrancou o edredom+lençol de mim e jogou um copinho de água geladíssima no meu pescoço.
Pulei com um sobressalto, ao mesmo tempo nervosa por terem me acordado e assustada com o método. Mas só quando olhei pra ver quem era eu entendi. Não tinha sido minha mãe, é claro. Tinha sido a Alice, minha prima (louca).
“Olívia, trate já de se arrumar!” – ela me ordenou como se fosse minha mãe, que já ia saindo do quarto. – “vamos aproveitar esse sol enquanto há tempo! Anda!”.
“Sol? Sair? Me arrumar? Que maluquice é essa Alice?” – disse com as mãos na cintura, muito nervosa pra falar a verdade. “–” que eu saiba, hoje é Domingo, dia internacional de dormir até tarde e ficar em casa o dia todo mofando!”
“Não aqui! Nós vamos ao clube agorinha mesmo! Não quero perder o sol, e eu prometi á todo mundo que levaria minha prima recém-chegada.” Então ela fez uma carinha de Gato de Botas do Shrek, e começou a suplicar de verdade, que ela passaria vexame e blá blá blá. Então por fim aceitei, mesmo não querendo ir.
Ela me fez por o menor biquíni que eu tinha, me fez ainda por uma canga em volta da cintura pra ficar charmosa e até passou gloss em mim. Embora eu não gostasse de me sentir assim toda produzida, fiquei meio feliz quando minha prima disse que a primeira impressão era a mais importante, já que eu ainda era carne fresca.
Minha tia levou a gente com muita animação, dizendo que eu iria amar tudo ali, que conheceria muita gente e quem sabe no dia seguinte (primeiro dia de aula) já teria companhia além da Alice. E em menos de dez minutos estávamos lá. Era um lugar enorme e cheio de piscinas e coisas desse tipo. Enfim, era um clube normal. Mas me surpreendi mesmo foi à quantidade de gente da nossa idade se divertindo com os amigos, ou até mesmo sozinhos ali.
Deveria ser o point ali, todos sempre deveriam se encontra ali no final de semana pra descontrair todos unidos. Achei aquilo muito legal, e fiquei pensando se algum dia eu seria uma daquelas pessoas animadas com um circulo de amigos enorme.
Minha prima encontrou as amigas dela e me apresentei, eu fui simpática com elas e conversei com elas um pouco. Uma mais legal que a outra, mais ainda assim muito parecidas com a minha prima, como se ela fosse a líder do grupo. Tomei um pouco de sol com a Alice, pois segundo ela eu parecia uma morta de tão branquela que eu estava antes branquela do que torrada de sol!
Depois de um tempinho, ficou meio chato e entediante. Minha prima e as suas amigas (ou fãs) estavam tendo uma conversa muito interessante sobre os cremes faciais da Natura e comparando com os da Avon. Então tirei da minha bolsa meu caderno.
Era o caderno que minha mãe tinha me dado e o estava usando com muita frequência desde aquela noite. Estava escrevendo uma história de romance, os nomes dos protagonistas eram Anna e Sebastian e eles não poderiam nunca ficar juntos, pois o destino sempre os separava. E desde a noite passada, fiquei viciada na escrita ali. A história estava ficando cada vez mais intensa e bonita, mas a inspiração própria estava já acabando tão rapidamente...
Escrevi o máximo que pude, porém a inspiração acabou quando tentava descrever os sentimentos de Anna por Sebastian. Eu nunca tinha sentido o que eu pensava que ela sentiria, então não achava certo escrever algo da qual eu nem faço ideia do que se trata. Então fechei o caderno e pus na mesinha que separava as espreguiçadeiras, onde eu e minha prima e companhia estávamos.
Levantei para ir à lanchonete comprar algum refrigerante quando sem querer esbarrei em alguém. Virei o rosto para pedir desculpas, mas ele disse primeiro ou meio que junto ou meio que sei lá! Eu ri e ele também, ele me olhou dos pés á cabeça e disse meio curioso:
“É nova por aqui? Acho que nunca te vi por aqui, você é daqui?” – ele disse se atrapalhando todo com as próprias palavras, me roubando mais uma risada.
“Sou sim”. ““ É a minha primeira vez aqui neste clube, vim do Paraná e agora moro aqui”.” – então como um símbolo de que estava tudo bem eu estiquei minha mão em um cumprimento –” sou Olívia! Vou começar á estudar no Colégio Aprenda+ a partir de amanhã!”
“Sou Mateus! Também estudo lá! Aposto que vamos cair na mesma sala!” – ele disse me cumprimentando daquela forma. Ele sorriu e vi que seus olhos eram claros como os meus, só que os dele eram verdes e os meus azuis.
O Mateus era muito divertido, e conseguiu arrancar muitas risadas minhas. Senti-me totalmente á vontade no clube depois que comecei a conversar com ele. Ele era um pouco mais alto que eu e tinha os cabelos escuros lisinhos, não era bombado, mas não era fraquelo. Ele era normal. Assim como eu. Conversamos á beça, e nem vi o tempo passar. Ele me tratava com tanto respeito e com cuidado, como se eu fosse de vidro. Descobri que ele amava ler, assim como eu e que queria ser escritor quando se tornasse mais velho. Eu acabei comentando sobre o meu caderno e que estava escrevendo na história, e ele achou o máximo.
Mas bem nessa hora a Alice apareceu e disse que tínhamos que ir embora naquele exato segundo, então ela só me deu a minha bolsa e me despedi do Mateus, com três beijinhos como Alice havia me ensinado.
Voamos pra fora do clube e saí muito mais leve do que quando entrei. E estava muito animada para o dia seguinte, pois veria o Mateus novamente. E ainda não tinha resolvido se isso era bom ou ruim. Mas tanto faz!
Quando cheguei em casa para escrever um pouco, percebi que meu caderno amado não estava na bolsa. E entrei em pânico. Será que tinha esquecido o caderno onde eu escrevia tudo que era mais sagrado naquele clube cheio de gente fuxiqueira?!
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