Eram 22 horas e eu estava trancado no meu quarto tentando escrever uma redação, para explicar e convencer meu diretor que mereço passar de ano e continuar naquela escola maldita. Um ótimo jeito de começar contando minha vida. Meu nome é Leonardo, mas a maioria me chama de Leo, pois é mais fácil de se pronunciar e meus amigos são folgados. Voltando ao Leo aqui, sou uma pessoa difícil de ser caracterizada, pense em alguém perfeito, é esse alguém não sou eu. Pense agora em alguém com sorte, boa tentativa, mas passou longe.

Tenho 16 anos, 1,70 de altura, cabelos castanhos claros e olhos esverdeados, irresistível, mas minha indelicadeza em certos assuntos faz com que as garotas ( na verdade garotos) passem longe. Muita informação em pouco tempo de processo.Mas é isso que você precisa saber até agora. Como vim parar aqui? Bom, para isso é preciso primeiro saber a minha historia.

Que coisa mais clichê.

Sempre fui a pessoa mais quieta da sala, nunca fiz questão que me notassem, sempre fazia as coisas no meu canto. Ao silencio da minha voz, caminhava minha jornada, onde meu objetivo era passar de ano, nada de pensar sobre a vida em si. Bom, nesse estilo consegui sobreviver até o começo do ensino médio, onde tudo começou a dar errado para dar certo.

A vida da dessas, uma hora você esta preocupado com o porquê o seu amiguinho derrubou leite em você e agora você se pergunta por que sua melhor amiga pegou e menino que você estava ficando. Por que não posso voltar aos dias de jardim, aonde os telletubies sorriam para mim, era um sorriso doce e inocente. E agora quando abro uma pagina na internet, vejo os mesmos personagens transando.

Crescer dói, mas faz parte da vida. E agora me pergunto o que escrever sobre o colégio que passei a maior parte de minha vida, o instituto responsável pela degradação da minha imagem e destruição da minha existência.

Volto meus olhos para o teclado e havia escrito uma frase “ não é bem o que parece”. Agora eu percebo a importância das as aulas que tive de redação, que no caso: ou eu dormia, ou estava resolvendo alguma encrenca na qual eu havia colocado meu focinho no meio.

Olho para o relógio, são 23 horas. Se passou uma hora e a única coisa que consigo pensar é o porquê estou escrevendo essa bosta. Ok, talvez eu precise mesmo passar de ano, entrar em uma faculdade e ser alguém na vida. Mas talvez não se trate de fazer coisas comuns, quero ter um objetivo, mas não faço a mínima ideia de como consegui-lo.

Comecei a tentar digitar, mas as palavras não saiam, pensei em ir tomar banho, esfriar a cabeça. E foi o que fiz. Sai do meu quarto e percebi que todos já estavam dormindo: meu pai, minha mãe, e meu irmão caçula. Liguei o chuveiro silenciosamente. Que delicia ouvir o barulho, sentir a temperatura, respirar o vapor, era tudo eu que precisava.

O tempo que passei na banheira me fez pensar mais em minhas atitudes do que de costume. Achei estranho, será que era porque eu estava crescendo? Ou será porque uma mentira contada varias vezes poderia virar verdade até para a pessoa que a inventou? Como se situar em uma confusão? Muitos falam sobre o tempo, mas esperar não vai consertar o prato quebrado. Preciso de atitudes, e a falta delas me fez estar na situação em que estou.

Se tivesse que escrever um livro sobre minha vida, nunca iria encontrar palavras para descrevê-la, o leitor iria ficar todo confuso e também eu precisaria ter aprendido um pouco português para isso. Quem sabe um reality show? Ou uma serie de TV que conte desde meu nascimento, para o espectador não ficar perdido.

Eu sou um gênio, gravar minha historia comovente para a escola me entender, e me passar de ano. Mas aonde vou encontrar atores profissionais para todos os personagens da minha vida? Acho melhor ficar na ideia de começar a frequentar as aulas de gramática e redação e escrever a triste/alegre historia de Leonardo.

É claro que vou enfatizar meus problemas, e mentir um pouco, pois toda historia contada do jeitinho que ocorreu, não tem a menor graça. Como a de Titanic, todos sabemos que o romance de Jack e Rose nunca existiu dentro do navio, apenas colocaram um drama para que os telespectadores não dormirem e se interessarem pelo ocorrido. Preciso de emoção. Talvez seja bom relembrar meus momentos frágeis para me tornar mais forte. Por que meus pensamentos são clichês? Talvez eu queira que sejam.

Vai ser a redação do ano, talvez a do século, pois não vou querer escrever mais nada depois disso. Vou precisar de testemunhas, falsas testemunhas. Inspirações. Ainda não sei como irei dar continuidade em meu plano, nem sei se isso é um plano.

Já eram duas da manha e não havia conseguido dormir, que bosta. Mas é isso que escritores de Best-seller têm, não? Insônia. Então preciso me comportar como um. Vai que o diretor fique tão emocionado que queira publicar minha “autobiografia” como um livro.

Entre um pensamento e outro eu adormeço.