Escravo de ilusões
7 Capítulo 7
Vida real:
– Aline – a chamei- Eu te coloquei na carta, venha ver! Espero que esteja feliz.
– Feliz não seria a palavra certa... Quem sabe satisfeita?
– Ok, agora vai corrigindo esse primeiro “capítulo” de minha incrível e dramática historia de vida.
Enquanto Aline lia a carta, eu não desgrudava os olhos da menina. Percebi que a feição dela mudava a cada palavra que ela analisava. Enfim Aline parou de ler e se pronunciou:
– Qual é a sua intenção com essa carta?
– Como assim?
– Você quer que todos tenham pena de você? Quer que as pessoas achem que você é o indefeso, o “pobre coitadinho” ?
Já havia entendido o porque da revolta, eu havia modificado um pouco da história de como nos conhecemos, para ficar mais emocionante. Ela devia entender, ela adorava ler todos os tipos de livros existentes no mundo. Ela precisava aceitar que é necessário uns trechos exagerados para dar aquela animada.
Na real, que coisa chata, ler. Para que ler? Você vai esquecer a maioria das palavras. Qual é a excitação de perder manhãs, tardes, noites lendo? Prefiro fazer coisas que acrescente uma importância na minha vida.
– Aline, você mais do que eu sabe que para um livro ficar bom, precisa de coisas clichês. Logo minha carta deve seguir a mesma linha de pensamento.
Ela me olhou com um ar de reprovação e continuou a analisar a carta, vi ela arrumando umas coisas, na verdade, ela não tirava a caneta do papel. Tentei espiar, mas falhei. Ela escondeu completamente o que estava fazendo.
– Pronto, agora passe para o computador, e da próxima vez traga ele. Não to a fim de escrever a mão.
– Desculpas Aline. — Sabia muito bem a razão de ela estar sendo grossa naquele momento.
– Relaxa, fiz algumas mudanças no texto. E se mudar mais uma coisa em relação a mim... Paro tudo e conto para o diretor que essa carta é uma farsa.
– Você não teria coragem – mas eu sabia que ela teria, a Aline é uma garota que quando não curte algo, vai te infernizar até você mudar. E caso isso não aconteça, vai ter vingança — Não mesmo.
Dei uma olhada para ver o que Aline escreveu, me surpreendi ao perceber que ela não havia mudado nada, apenas corrigiu os erros de gramática e sintaxe.
– Não queira nem testar. E aliás, por que você se privou do passado, aquele antes de entrar na escola?
– Meu diretor não precisa saber o que aconteceu, ele só quer uma história comovente e babaca de como essa escola me mudou e eu mudei a escola.
–Ué, pensei que a carta iria se transformar em um livro famoso...
Estávamos prestes a levantar, quando aquele menino imundo cruzou a porta da biblioteca. Ele era gostoso, dava para ver que tem uns anos de academia no braço. Ele é mais alto do que eu, cabelos lisos escuros e olhos castanhos claros. Seria um cara perfeito, se não tivesse espinhas em seu rosto. Mas seu sorriso compensa todos os seus defeitos. Ele de fato era muito sexy.
– Oi amor – ele chegou por trás da Aline e a cumprimentou com um beijo – Sentiu minha falta?
– Vão se pegar no banheiro – Eu me intrometo – Não quero ficar vendo essa melação toda.
– Vitor, eu sinto lhe dizer, mas você vai ter que se acostumar.
– Eu? Nunca, saiam os dois daqui, antes que eu vomite.
– Oi Leo- a Voz dele era suave – Você se importa de eu me sentar com vocês?
– Claro que não. – Quando percebi as palavras já saíram da minha boca, tentei concerta-las — Porque eu já estou indo, eca.- Mas é claro que não deu certo.
Ao sair, senti o perfume dele, havia se espalhado por todo o local, como não sentir aquele cheiro, aquele nojento do Eduardo. Como Aline teria conseguido ficar com ele? Ela nunca me contara, será que se eu perguntar vai ficar muito na cara? Concentra Leonardo, foco em sua vida. Se preocupe com a carta. Não nesse idiota, apenas na carta.
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Chegando ao meu lar, o observo de um novo ângulo, tem algo diferente nele, mas não consigo identificar o que exatamente, morei tantos anos lá, porém nunca percebi o formato dela, o cheiro. Minha casa é uma das únicas que continuaram vivas depois da forte epidemia de prédios em São Paulo. Ela é pequena, porém confortável para os quatro sobreviventes.
Na entrada você encontra um portão acinzentado, entrando há uma garagem para dois carros que sempre foi ocupada por moveis velhos que minha mãe tem dó de jogar fora, a “Ecosport” de meu pai e o “Sandero” de minha mãe ( que no momento deveria estar no mecânico). No fundo da garagem está a porta de madeira, ninguém se preocupou em pinta-la, então continua com um tom parecido com um marrom claro. Abrindo a porta, com cuidado, pois ela está totalmente velha (a casa era de meus avós paternos, eles morreram, e como meu pai era o único filho deles, ficamos com a casa), avisto a sala, um quadrado de 4 metros cada lado, com um sofá vermelho se destacando das paredes sem cor, em frente a ele há uma televisão grudada na parede.
Seguindo meu caminho, existe um corredor longo com quatro portas, duas de cada lado. A primeira da esquerda leva a um lavabo, a segunda porta é meu quarto (o único cômodo onde posso ser feliz e livre, sem ninguém me atrapalhar). Já do outro lado há o quarto de meu irmão e de meus pais. No final do corredor a cozinha e um quartinho chamado por todos de lavanderia.
Parado em frente a porta de entrada comecei a estranhar os móveis. Eles sempre estiveram ai? Sempre foram desta cor? Deste formato? Será que estou louco? Este é um daqueles momentos parecido com os filmes, que você é transportado para uma dimensão diferente?
– Alguém em casa?- é claro que tem, minha mãe me trouxe para cá. Mas é sempre bom perguntar.
– Não se lembra de mim, a mulher que teve cólica por nove meses, aquela mesma que te buscou hoje na escola.
– Ah você existe.
Ela me olhou com desprezo e tristeza, mas ela sabia que eu estava brincando, não sabia? Eu nunca a entendi, uma hora ela esta feliz e de repente o humor dela muda. Não precisa acontecer nada para esse fenômeno acontecer. Tem dias que ela quer saber as novidades da minha vida, e outros que parece se desligar da casa e da família. Já tentei falar para ela procurar ajuda, mas sempre recusa dizendo que quem precisa de tratamento sou eu. Talvez eu precise mesmo, mas não ela também.
–Mãe!- corri atrás dela- Mãe, você sabe que eu estava brincando.
No momento em que virei para ela os olhos dela estão vermelhos.
– Eu sempre guardei tudo para mim, tudo o que eu sentia, sabe toda a raiva,ela sempre ficou entalada, mas agora chega! Eu realmente não aguento mais. Se você é um lixo, não me trate como um, te garanto que descarregar a raiva nos outros não irá aliviar sua dor – ela fazia longas pausas, tentando recuperar o fôlego perdido- Saia da minha frente, se eu tivesse abortado você, estaria mais feliz.
Eu tentei analisar cada palavra que ela me disse, foi tudo tão verdadeiro. Meus olhos começaram a arder, e não conseguia abri-los. Eu senti alguém tentando me acariciar, ouvi múrmuros como se alguém pedisse perdão. Mas ela estava certa, porque pedir desculpas se eu era quem estava errado?
Voltei para a realidade, retirei as mãos do rosto e percebi que os móveis pareciam ser os mesmos. Era eu quem estava diferente. Eu estava de joelhos no chão da cozinha, tentei me levantar, mas eu estava fraco, minha mãe continuava do meu lado, chorando como sempre, Sem pensar eu solto:
– Apenas me deixe sozinho.
Ela obedeceu, saiu da cozinha me deixando sozinho. Como sempre sozinho.
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Passei o resto da noite pensando em jeitos de incrementar a carta, tirei meu diário da mala, pois havia levado ele para colocar alguns trechos na minha redação e comecei a folhear. Havia tanta asneira escrita lá que desisti. Liguei o computador para xeretar no meu Orkut, mas não lembrei a senha. Logo tive que me contentar com o facebook e ver se eu ainda tinha algum post do passado.
Quando abri o feed de noticias, apareceu uma solicitação de amizade, não fiquei nada animado para saber quem queria me adicionar, talvez uma criança imunda do ensino fundamental. Ao clicar fiquei surpreso, era Eduardo, o que ele queria comigo? A Aline deveria ter falado com ele para ser gentil, mas eu não precisava de atenção, muito menos a dele. Porém aceitei o pedido por educação. Não deu um minuto, não que eu havia contado, mas o menino veio me chamar no chat.
“Oi” – eu visualizei, porém não dei o gostinho a ele de responde-lo. Pensei até que ele iria tentar continuar a conversa para ver se eu dava o ar de minha graça, mas não. Ele não escreveu mais nada, fiquei com o chat dele aberto por horas e nada.
Não fiz nenhuma alteração ou adição na carta, apenas a introduzi no Word, fiquei lendo e relendo ela, pensando em como continuar. Todas minhas tentativas de colocar alguma letra eram falhas. Eu estava tão animado dias atrás, o que havia acontecido comigo?
Tic-tac;tic-tac
O barulho do relógio era a minha única companhia, meus pensamentos eram os convidados indesejados da festa, aqueles que me colocavam para baixo, contando piadinhas sobre mim, sem a menor preocupação em saber como eu me sentia. E agora eles diziam que eu não iria conseguir terminar a carta e teria que terminar o terceiro ano em uma escola qualquer com amigos novos que irão me convidar para festinhas, apenas por educação, e eu irei só para não ser mal falado depois.
Eu já sei que meu futuro vai ser ruim, só não queria antecipá-lo. Gostaria de poder aproveita-lo, viver realmente meus últimos dias de união, pois eu sei que ano que vem, vai ser o pior ano da minha vida. E eu realmente não vou ligar que seja, só desejo apenas que esse seja muito bom, e tudo depende de mim. Por que sempre precisa depender de mim? Estou cansado da minha filosofia de boteco.
Um dia estava debatendo com um professor sobre o tema Liberdade e ele me disse: “Queria viver na época dos escravos, eles sim eram livres. Eles não precisavam tomar suas próprias decisões, sei que é uma loucura falar isso, mas eles eram livres.”
Liguei a tela de meu computador e fui pesquisar mais sobre os escravos. Não tinha entendido muito bem o que meu professor queria dizer, procurei e procurei, mas apenas achei que eles queriam ser livres. Coisa que eles não eram, fiquei confuso. Por que meu professor tivera aquele pensamento? Ah, isso eu pergunto à Aline depois, ela deve saber.
Decidi dormir e tentar esquecer o dia de hoje.
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