Escrava do destino

11 Treinamento e descobertas sombrias


No outro dia, Sehra acordou mais cedo para o treinamento, estava ansiosa para um treinamento em grupo, não importava o objetivo, ela não queria pensar naquilo.

Enquanto se arrumava, ela se olhava no espelho e tocava seus lábios lembrando do que tinha acontecido no dia anterior. Ela tinha sido beijada por Zen pela primeira vez. E foi tão mágico, que pensava como aquilo poderia ficar melhor.

Ao chegar no local do treino como de costume, se deparou apenas com Naruse. Ele estava sorrindo ao ver Sehra que se aproximava.

— Gosto de pessoas pontuais — Disse Naruse — e é mais um motivo para gostar de você, branquela.

Ele era divertido, ela gostava muito dele. Sempre sorrindo, sempre elevando o astral da turma.

— Cadê os outros? — Perguntava Sehra que olhava em volta. Ela procurava Zen, porque ele não estava ali? Será que... Não, era tolice pensar nisso de que ele não a queria ver depois que a beijou com tanta intensidade. Será que foi tão ruim assim? Pensava Sehra.

— Estão trabalhando em busca de respostas, mas nada com que se preocupar. — Respondeu Naruse jogando as luvas de box para Sehra.

— Eles virão ainda?

— Creio que não, mas você os virá na aula, já que está com tanta saudade deles e nenhuma minha — Naruse continuava sorrindo para ela. — Mas agora, eu quero foco, me mostre o que sabe.

Sehra encarava Naruse que agora estava com uma expressão séria.

— Agora eu quero que você me mostre suas defesas, é a primeira coisa em que você deve ser boa. — Falava Naruse mudando o peso do corpo de um lado para o outro — Irei te atacar e você somente se defender, entendido? — Sehra acenava com a cabeça em confirmação. — Se esquive o máximo que conseguir para não levar um golpe, seria fatal em uma batalha. Use os braços, as mãos e as pernas.

O treino iniciou e Naruse atacou Sehra com socos e chutes, ela rapidamente se esquivava ou se defendia com os braços e mãos. Naruse não atacava com força e aos poucos iria aumentando o ritmo. Era surpreendente que Sehra estava conseguindo se defender. Ela estava sorrindo. Estava se divertindo.

— 1 hora de treino na defensiva e a princesinha não pediu intervalo — ele sorria e esfregava o suor com a camisa. Sehra encarou o abdômen dele, era puro músculo e definição. O suor escorria pelos gominhos, assim como água escorria pelas pedras, e Naruse flagrou ela o encarando — Gosta da vista, não é? Eu também. — E sorriu baixando a camisa.

Do outro lado estava Sehra banhada em suor. Tinha decidido ir com uma regata e legging, mas se arrependeu, gostaria de ter ido com uma camisa folgada, o calor a estava matando.

— Sorte sua está de camisa e poder levantar para perder o calor para o ambiente. Porque estou morrendo. — Falou enquanto bebia água e ria.

— Bom, Sehra, você possui uma ótima defesa, devo parabenizar seus pais e seus professores. Mas... — Sempre tinha um mas, pensou Sehra — a pergunta que fica é: porque você não conseguiu se defender dos caras do beco? E a resposta está sendo procurada por Obi, Fiona e Zen nestes dias.

Um calafrio percorreu a coluna de Sehra ao ouvir aquilo.

— Agora que descansou, temos 1 hora para ver seus ataques. Tente me acertar e te levarei ao bar. E caso não consiga... — Naruse olhava para ela que ergueu as sobrancelhas e riu.

— Continue, mestre — Falou Sehra fazendo um movimento com a mão para ele prosseguir rindo.

— Hum, gostei, me chamará de mestre na frente dos outros.

Sehra gargalhou.

Ela realmente gostava dele, ele era o único que não a forçava a assumir o papel de escolhida pelos espíritos e bla, bla, bla, pensava ela.

Sehra após lavar o rosto cuspiu a água e guardou a garrafa. Ela tinha que mostrar a ele o treinamento que durou anos da sua vida. Tinha que provar que não foi em vão que seus pais pagaram diversos professores após eles terem ido em sonho avisar que a treinassem desde os 8 anos. Ela não conseguia nem imaginar não o acertando. Era tentador lutar sem restrições, sem temer que ferisse alguém. Memorias do passado invadia sua mente.

Ela lembrou da vez que quebrou a mão do moleque do roubo e ainda colocara uma faca em seu pescoço, a marca ainda estava ali, leve, mas estava. Ou daquelas outra vezes em que tentavam arrancar o capuz para verem o seu cabelo na pracinha, e ela sempre acabava sendo pega e agarrada pelas meninas curiosas e atrevidas, ou pelos meninos valentões que não tinham vergonha na cara de importunar alguém. Em uma das vezes ela usou um dos seus golpes, por sorte, não machucou ninguém, mas seus professores a proibiram de aplicarem em crianças da idade dela e seus pais, oh seus pais ficaram furiosos, o que antes só saia raramente para ir a pracinha, foi proibida de sair sem eles ou se quisesse sair, saísse com uma babá, o que era ridículo, já que ela sabia se defender, não era mais um bebê que precisava de uma babá. Foi só mais um motivo para provocar o seu ódio, não pelos seus pais, e sim pelos seus cabelos. E mesmo assim, Sehra continuava fugindo para ir a pracinha pulando pela janela do quarto, com pouca frequência, mas diminuiu mais ainda quando sua mãe notou que seus tênis estavam sujos com a areia da pracinha.

Sehra pensava agora, o que seus pais achariam de ver a filha treinando pela manhã com um grupo que diz que ela possui espíritos reencarnados nela. Eles iriam endoidar, iriam proibir, e o melhor a se fazer seria manter sigilo, eles não precisavam saber sobre isso. Era para o bem deles, e melhor ainda para o dela.

— Está pensativa hoje – Disse Naruse. – ou esta nervosa por que vai me enfrentar? – Ele sorriu para ela, um sorriso malicioso.

— Estou ansiosa para saber o quão bom é você, – Respondeu Sehra verificando uma última vez as luvas – veremos se não é só da boca para fora.

— Oh...um tom de confiança? – Disse Naruse rindo – Gosto disso nos meus adversários.

Sehra iniciou com um chute a altura da cabeça de Naruse que o defendeu com o braço.

— Muito bom, gosto da sua flexibilidade. — disse Naruse — Mesmo sendo baixinha, ainda assim conseguiria nocautear alguém, mas...use mais força da próxima vez.

Ele sorria para ela e ela lançou um sorriso selvagem a ele. Ele gostava daquilo nela., ela não só estava se divertindo, como liberando anos de treinamento e forças.

Já tinha passado algum tempo e ela não tinha conseguido acertar um único golpe. Já estava irritada e ele sabia disso.

— Não se estresse se não conseguir me acertar, no máximo irá me chamar de mestre, no mínimo... bem não existe mínimo, já que você também vai deixar de beber comigo. — Ele ria, não dela, mas da situação.

Sehra continuava avançando, odiava perder como da última vez, já estava ficando cansada de só atacar e não se defender. Naruse não tinha brechas, sua defesa era perfeita, se ela iria por trás, ele a derrubava, se ela iria pela frente, ele a bloqueava e continuava os ataques e defesas.

Quando Naruse pisou em algo diferente dos outros locais e olhou para o chão, este foi o momento em que Sehra viu uma brecha e o atacou derrubando-o no chão com uma chave de braço.

Naruse gargalhou sem acreditar no que tinha acontecido por um bom tempo.

— Céus! — Falou ele tentando se controlar a crise de risos – Meu ténis! – Ele gargalhava.

Ela sorria para ele, cansada, suor descendo pelo corpo inteiro. Ainda bem que sua roupa era preta. Tudo nela doía. Fazia anos que não treinava tão intenso assim.

— Eu não sabia se iria usar ou não. — Respondeu Sehra rindo.

— Quando eu contar aos outros, eles irão rir de mim...Você é a primeira que me derrubou, todos os outros, inclusive Zen, nunca me derrubaram. — Ele se levantou limpando a roupa. — Pensou nisso tudo enquanto olhava meu corpo naquela hora?

— Depois daquele dia...- ela olhava pra o horizonte, o sol já iluminando tudo — Eu não quero mais perder. No colégio com o cara da tatuagem, foi diferente, eu não podia reagir, o que meus pais diriam ao saber que apliquei golpes em alguém mais uma vez?! Mas depois daquilo...Eu jurei me esforçar e nunca mais deixar alguém ameaçar meu corpo, minha vida.

Naruse sabia do que ela estava falando e se aproximou dela oferecendo uma garrafa de água e passando o braço pelo seu pescoço.

— Marque o dia para irmos ao bar, se quiser posso pedir aos teus pais?

Ela riu. E como sempre, ele melhorando o clima.

— Eu te daria os parabéns pela audácia, mas — Sehra tomou um golpe de água. — Não se preocupe com isso, dou um jeito. — Ela olhou para Naruse que estava sorrindo para ela e piscou um olho.

— É assim que se fala, branquela. E mais uma coisa, parabéns pelo treino de hoje. Você foi ótima. — Ele retirou o braço do ombro dela e alisou a cabeça dela. — Como eu havia dito, ninguém tinha me derrubado assim. Foi meio estúpido da minha parte, mas da sua...foi genial. Quando você tiver seus poderes ativados, será uma ótima lutadora. — Sehra desviou o olhar ao lembrar do acontecimento no banheiro da sua casa. — Você vai gostar da sensação. — Ela esfregou a testa, o local da marca. O que eles diriam ao ver aquilo?

O celular de Sehra toca e é hora de ir para casa e depois aula.

Sehra chegou na sala e todos estavam lá, inclusive o Zen. Ela tentava ao máximo não lembrar da noite anterior, mas foi inevitável assim que ele sorriu para ela.

— Bom dia, princesa...Sehra – Falou Zen se corrigindo rapidamente.

— Bom dia... a todos. – Respondeu Sehra sentando rapidamente.

— Eu tenho algo a contar. – Disse Naruse. – Sobre o treino, estava só esperando Sehra chegar.

— E nós também. – Falou Fiona.

— Comece. – Disse Obi apontando para Naruse.

— A nossa princesinha aqui – Disse Naruse apontando para Sehra e falando baixo – ganhou uma aposta após me derrubar. – E gargalhou.

Todos olharam para Sehra que estava rindo da forma como Naruse falou.

— Ela é ótima na defesa, é incrível como ela consegue se defender tão bem.

— Mas isso foi por causa dos nossos mestres que alertaram os pais delas quando ela tinha 8 anos. – Disse Fiona.

— Sim...é... mas não só isso, significa que ela deu duro, queria que vocês tivessem visto. -Respondeu Naruse. – Ela sorria selvagemente.

— E como foi? – Perguntou Zen encarando Sehra que desviava o olhar assim que seus olhos se cruzavam.

— Depois do treino de defesa, fomos para o ataque, ela iria me atacar e eu me defender. No intervalo, a safadinha olhando meu abdômen enquanto...

— Ei! – Interrompeu Sehra chutando a cadeira de Naruse que gargalhava, Fiona que deu um tapa no braço do irmão e Zen que encarava Sehra.

— Eu estou mentindo? – Naruse olhou para Sehra rindo e Sehra não disse nada, mas sua expressão indicava ódio por Naruse ter dito aquilo na frente dos outros, na frente de Zen. – Continuando, enquanto ela bebia água, ela cuspiu no chão...e meus amigos, enquanto ela me atacava, ela me guiava para o local em que havia cuspido água e quando pisei no local e olhei para o meu tênis sujo, ela me atacou e me derrubou. – Uma pausa dramática, Sehra riu daquilo. – Ela, meus amigos – Naruse apontou na direção de Sehra – vai beber comigo no bar do centro.

Naruse caiu na gargalhada.

— Vai beber com você? Não entendi. – Perguntou Zen com uma expressão de que não estava entendendo nada.

— Se ela ganhasse eu a chamaria para ir ao bar e se perdesse, iria me chamar de mestre. – Respondeu Naruse.

— Você é um alcoólatra e só a deixou ganhar porque é só um motivo para ir beber. – Disse Fiona rindo.

— O quê?! Claro que não, estávamos em um treino justo. E outra, posso ir beber na hora que eu quiser. – Falou ele rindo.

— Nossa...você é péssimo. – Disse Sehra rindo.

— E quando vocês vão beber? – Perguntou Zen.

— Não sei, mas em breve, tenho que ver um dia disponível que meus pais não estejam em casa. – Respondeu Sehra olhando para Zen que a encarava.

— Bem, agora vamos falar das novidades sobre a investigação. – Falou Obi olhando para Sehra, mas foram interrompidos por o professor que chegou na sala. – Vamos deixar para o intervalo, na biblioteca.

Todos acenaram em confirmação, Sehra estava ansiosa, queria saber sobre tudo. Ela mal conseguia prestar atenção na aula, pediu para sair para beber água e chegando lá, viu Suho andando casualmente com as mãos nos bolsos na sua direção oposta. Ela não esqueceria aquele andar e aqueles cabelos nem em sonho. Ela entrou na sala e mais alguns minutos, era hora do intervalo.

— E é isto. – Respondeu Obi.

— Como assim? – Perguntou Sehra, suas mãos estavam levemente tremendo. – Os homens foram encontrados mortos, com marcas de garras, o sangue drenado e havia marcas de runas de controle mental em seus corpos, além de runas que ocultavam aquele beco por isso que Zen sentiu eu desaparecer?

— Isso explica o porque você não conseguiu lutar contra eles. – Disse Naruse com a mão no queixo.

— Mas...há algumas lacunas abertas. – Falou Fiona. – A pessoa que te salvou, conseguiu atacar eles...não sabemos se as runas de controle só funcionavam em você ou...não temos outra explicação. E segundo, Zen só sentiu sua presença quando você desceu do carro, o que é mais estranho ainda.

— E se ele fosse um anjo como vocês? – Perguntou Sehra esfregando as mãos na roupa.

— Impossível, — Respondeu Obi. – Só nos 4 existimos na terra, qualquer outro seria um demônio em forma humana, mas eles não te ajudariam.

— Sim, já foram eles que controlaram aqueles homens no beco e montaram o circo todo. – Disse Fiona.

— E por que drenaria o sangue deles? – Perguntou Sehra tensa.

— Abrir portais. – Falou Zen – Magia proibida. Eles usam runas já esquecidas pelo tempo e misturam com sangue.

— E...e porque eles abririam portais? – Perguntou Sehra.

— Pode ser varias coisas... pode ser para trazer mais demônios, pode ser alguém voltando, pode ser qualquer coisa. Qual coisa. – Respondeu Naruse.

Sehra encostou a cabeça na cadeira e olhava para os livros atras de Fiona e Naruse. Sua cabeça estava mais uma vez uma tempestade em copo d’água.

— Princesa, — Disse Zen colocando a mão sobre a mão de Sehra. – Estamos com você e você está sendo treinada, vai ficar tudo bem. Nesta semana não poderemos ir treinar com você mais uma vez, porque estamos tentando rastrear o local onde foi aberto o portal. Você continuará treinando com Naruse, e assim que concluímos, iremos treinar seus poderes.

Ele falava tão suave, Sehra olhou para a mão dele em cima da dela e Fiona colocou a mão em cima da sua outra e sorriu.

— Meu irmão é um panaca, mas ele sabe como tratar uma dama.

Ela era tão linda, Sehra olhava aqueles cabelos loiros, ela queria imaginar como que a Fiona era quando estava com os cabelos ruivos. Sehra inspirou fundo e mais uma se viu se perguntando porque essas coisas tinham logo que acontecer com ela.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.