Escondida do Mundo, Menos de Você
1 Capítulo Único: Akane??
Shirofuku suspirou ao entrar em casa e encontrar Kimagure Prince e seus amigos jogando videogame. Apesar de a situação ser mais do que normal – Punta e Aoi estavam sempre trazendo seus amigos para jogar alguma coisa, ou estudar — , era impossível não sentir a tensão no ar.
Além de Punta, havia mais três pessoas ali – Tomitake, Forgeru e Nokkuso, se não se enganava-, e embora dois deles estivessem concentrados na partida do jogo, os lábio e sobrancelhas franzidas e o olhar preocupado dos outros dois quando olharam para si o deixaram atento à situação.
O que estava faltando?
Ah, claro?
—Cadê ele?- perguntou baixo olhando para o amigo com quem dividia o apartamento.
Uma situação comum era chegar em casa do trabalho ou da faculdade – mais que cansado, diga-se de passagem – e encontrar os dois rapazes que moravam consigo juntos, estudando, jogando ou apenas conversando. Então, entrar em casa e não encontrar o mais novo, sendo que ele não iria sair naquele dia, era, no mínimo, muito estranho.
— Se trancou no seu quarto, Shirofuku-san – Kimagure Prince respondeu no mesmo tom. – Tentamos falar com ele, mas ele se recusou a nos responder.
—Há quanto tempo ele está lá? – Suspirou e colocou sua bolsa no chão de qualquer jeito. Já tinha uma ideia do que estava acontecendo.
—Desde que chegou do curso. Faz uns quarenta minutos. Nem falou com a gente.
Shirofuku assentiu e pegou o celular, enviando um arquivo para uma pessoa do trabalho e conferindo suas mensagens.
—Vou lá falar com ele – decidiu.
—Eu acho que ele não quer conversar com ninguém.
O outro riu, estendendo o celular de modo que o mais alto lesse a mensagem escrita ali. Era de Aoi, cerca de vinte minutos atrás, e dizia “Vai demorar para chegar? Preciso falar com você”.
— Se ele não quisesse falar comigo, teria se trancado no quarto dele, e não no meu, né? – perguntou rindo, roubando um petisco da mesinha de centro e recebendo um olhar mortal de Nokkuso, que jogava. – Não fiquem jogando até tarde.
Ouviu Tomitake lhe sussurrar um “boa sorte” e seguiu caminho até seu quarto, parando na porta e batendo cinco vezes antes de chamar, em tom cauteloso, vendo que a porta realmente estava trancada.
— Ei! Sou eu... Vou entrar, tudo bem? Estou sozinho.
Esperou alguns segundo e, como não houve resposta, pegou a própria chave e abriu a porta, permitindo-se suspirar de alívio ao ouvir o choro baixo vindo do seu banheiro. Pelo menos, não houvera um suicídio ali. Trancou a porta de novo e manteve a chave na fechadura, impossibilitando que Punta entrasse ali.
Respirou fundo e analisou o estado do quarto. Não estava surpreso por encontrar a bagunça de roupas espalhadas pelo chão e cama e o guarda-roupas escancarado, apesar de estar tudo organizado quando saíra pela manhã.
Segui em passos cautelosos até o banheiro, sentindo o coração se apertar ao encontrar a pessoa que tanto amava ali naquele estado, mais uma vez.
As roupas que tão claramente pertenciam ao mais novo estavam espalhadas pelo chão, jogadas de qualquer jeito como se o dono delas não as quisesse mais.
E não queria.
O corpo menor que o seu estava parado em frente ao grande espelho que ocupava parte da parede, os olhos castanhos, já vermelhos pelo choro, estreitos enquanto analisavam a imagem que lhe era apresentada, claramente não gostando do que viam.
Shirofuku franziu os lábios ao ver mais marcas que o normal nas pernas e tronco alheio. De novo, chegara tarde demais para impedir que mais cortes fossem feitos. Suspirou e se apoiou na pia para olhar para a pessoa a sua frente.
— Akane... – Chamou baixo, esperando ver o olhar sobre si e ver o corpo mais baixo tremer antes de se aproximar e o abraçar.
Levou uma mão aos cabelos agora escuros e os acariciou enquanto o outro braço retribuía o abraço com força.
Aoi... Nunca receberia uma resposta se usasse esse nome naquele momento. Ele apenas choraria mais, insultando-se sem pausa. Ele não ouviria. Ele não existia. O nome que se encontrava no registro não lhe pertencia, mas... Akane, sim.
Akane aceitaria ser cuidada. Ela responderia aos chamados. Ela se permitiria ser abraçada e não recusaria as palavras de conforto que o mais velho podia lhe oferecer. Ela contaria para o namorado os porquês daquela crise.
—Estou aqui, Akane – Shirofuku a confortou, beijando os cabelos curtos da garota. – Estou aqui pra você.
Akane sorriu e apertou mais o namorado no abraço. Precisava daquele contato, do calor do corpo de Shirofuku, das suas palavras de conforto, do seu cuidado ao escolher as palavras e pronomes no gênero certo, no gênero que a fazia sorrir e o abraçar com força. Precisava ser ela mesma naquele dia, e só poderia com Shirofuku, o único que sabia o quão o nome Aoi e os pronomes masculinos a machucavam.
—Obrigada, Shiro-san. – agradeceu baixo quando ele se afastou, apenas o suficiente para limpar suas lágrimas.
Quis chorar de novo quando viu os olhos do mais velho passarem pelo seu peito e braços, obviamente frustrados com os novos cortes que havia ali. De repente, sua semi-nudez – estava apenas com uma toalha enrolada na cintura – lhe pareceu errada em vários níveis. Se sentiu exposta, não queria que o mais velho visse as marcas que fazia em seu corpo quando sentia a disforia atacar com muita força.
Não queria que o namorado se preocupasse consigo ou se culpasse por aquilo. Por sorte, ele não parecia querer discutir sobre isso naquele momento.
—Descul- — Foi interrompida por um selar nos lábio, seguido por vários selares por seu rosto, e foi guiada até o quarto do mais velho.
Shirofuku a colocou sentada na cama, se inclinado para pegar uma maleta vermelha e branca de debaixo da cama.
—Deixe-me te arrumar, amor – ele sussurrou, vendo-a assentir e relaxar o corpo.
Respirou fundo ao abrir a maleta de maquiagem, estreitando os olhos enquanto analisava as cores e pensava em como faria a maquiagem. Akane observava seus movimentos com curiosidade, os traços se suavizando embora ainda fosse possível ver como estava abalada.
Shirofuku foi até seu guarda roupas, procurando em meio a uniformes, camisas e bermudas, as roupas que pertenciam à Akane. Encontrou a mala alaranjada sob seus agasalhos – roupas que não usaria tão cedo devido a estarem no verão. Sorriu e a abriu sobre a cama, se sentindo aliviado quando a mais nova sorriu amplamente e se ajeitou na cama para escolher as roupas que usaria.
Akane sorriu aliviada ao ver as roupas que não encontrara antes. Saias, vestidos e acessórios ocupavam o espaço não tão pequeno. Pegou um colar e soltou a respiração ao sentir os cristais coloridos em suas mãos. Olhou para Shirofuku e sorriu antes de lhe dar espaço na cama, pedindo que ele se sentasse ao seu lado.
— Você escolhe – pediu, olhando para o mais velho, querendo surtar com o quão fofo ele ficava ao corar como naquele momento.
—Tem certeza?
Akane aquiesceu, mordendo o lábio inferior de nervosismo.
— Você sabe do que eu gosto. Eu confio em você, Shiroro.
Ele assentiu e observou as peças de roupa que estavam a sua frente. Analisou as opções, de repente se lembrando de algo.
Akane estranhou quando ele se levantou apressado e começou a procurar por algo em sua escrivaninha. Possivelmente havia se lembrado de algo que tinha que fazer. Sentiu-se deixada de lado. Não era possível que ele a ignoraria naquele momento. Sentiu o formigamento e calor familiar atrás dos olhos e soube que voltaria a chorar.
Engoliu um soluço e desviou o olhar de volta para as roupas. Se Shirofuku não a ajudaria, ela faria. Segurou uma saia verde-água e respirou fundo enquanto procurava por uma camiseta que combinasse.
Franziu as sobrancelhas quando o dono do quarto voltou a se sentar ao seu lado e tentou, de verdade, se sentir bem, mas mesmo o sorriso radiante do namorado não conseguiu animá-la. Shirofuku a abraçou e beijou seu rosto. Conseguia ver pelos olhos do mais velho que ele não entendia o porquê daquelas lágrimas agora, mas ele não a questionou, ao invés disso, apenas sussurrou um “estou aqui para você” e tirou a saia de suas mãos.
Antes que pudesse questionar, porém, uma caixa de presente vermelha de fita amarela foi posta sobre seu colo. Franziu o cenho e olhou para o namorado, se esquecendo do sentimento ruim de há pouco. Shirofuku, vendo seu olhar confuso, apenas riu e lhe deu um selinho, apoiando as mãos no colchão logo após.
— Abra.
Akane arqueou uma sobrancelha e tirou a tampa da caixa, sentindo as famosas borboletas no estômago se agitarem ao encontrar um vestido e alguns acessórios.
— Eu comprei pra você faz algumas semanas, mas não consegui ficar sozinho com você pra te dar. Vista isso hoje, quero ver em você. — explicou ao ver o sorriso radiante que a garota tinha em seus lábios.
Amava tanto aqueles sorrisos.
Focou a atenção nos detalhes da camiseta que usava enquanto Akane se vestia, oferecendo “privacidade” à ela. Quando ela pediu para que ele olhasse, foi inevitável sorrir. Sua garota era muito fofa.
— Adorável. Venha, Akane. Vou te deixar “você” agora. – Riu com o modo como a mais nova quase pulou na cadeira que estava próximo à escrivaninha e à maleta de maquiagem. Se levantou e foi até lá. Hora da mágica.
Separou a peruca que a garota mais gostava – ela queria tanto poder deixar os cabelos crescerem- e a arrumou na mais nova, ajeitando as chiquinhas que ela fazia questão de usar. Fez uma maquiagem leve (teria que tirar quando fossem dormir), finalizando com um gloss rosa claro.
—Pronto, amor.
Akane abriu os olhos, se sentindo animada e confortável. Ainda não vira como estava, mas só pelo modo como Shirofuku a olhava já era o bastante para que se sentisse bem, para que se sentisse linda.
E quando parou em frente ao espelho e olhou para a imagem que lhe era apresentada, sentiu vontade de chorar, mas dessa vez de felicidade.
Shirofuku estava sempre dizendo que era fofa, que ele queria apertar e morder suas bochechas, principalmente quando estava corada. O mais velho deixava claro o quanto gostava de vê-la feliz e sorrindo.
Seus olhos buscaram os do outro através do espelho. Ele tinha um sorriso discreto nos lábios e um brilho satisfeito nos olhos. Voltou sua atenção para seu corpo mais uma vez, adorando o jeito como o vestido vermelho com círculos amarelos ficava em seu corpo.
Riu. Pela primeira vez em meses, um riso de alívio. Não poderia ser ela mesma por muito tempo, mas era um alívio tão grande se olhar no espelho e não encontrar indícios masculinos no reflexo. Agradecia por Shirofuku ter se esforçado para ajuda-la (aquele curso de maquiagem e cabelo que o rapaz fizera depois de descobrir sobre si quase a fez chorar) e, mesmo depois de quase um ano e meio de namoro, ainda não sabia o que havia feito para merecê-lo.
Olhou para ele pelo espelho enquanto sorria grande, sabendo que não poderia gritar de felicidade e pular nele como queria fazer, já que os rapazes continuavam na sala e com certeza ficariam preocupados o bastante para arrombar a porta (Tomitake estava lá, não duvidava que ele fosse capaz de fazer isso) para encontrar o que a fazia gritar.
—O que você achou?- perguntou, mordendo o lábio inferior de nervosismo quando o viu se aproximar e segurou a vontade de enchê-lo de beijos por ser tão fofo, a expressão meio confusa a olhando como se não entendesse o porquê de ela querer sua opinião.
Ele sustentou seu olhar enquanto andava até si, e a abraçou por trás, uma mão em sua cintura e a outra se entrelaçando com a sua enquanto deixava um beijinho em sua nuca.
— Eu acho que a minha namorada é incrivelmente mais linda com esse sorriso no rosto do que chorando. Olhe para você, Akane. A garota mais bonita, inteligente, forte, amigável e fofa que eu conheço. Me preocupa que chore. O que aconteceu?
A garota respirou fundo, apertando a mão entrelaçada à sua e se virando para o outro sem sair do abraço.
—Você se lembra do Yuji?
Shirofuku franziu as sobrancelhas. Claro que se lembrava. Yuji, Yujimaru. Era um amigo da turma de Akane na escola. Se lembrava do episódio em que o conheceu, a felicidade da garota ao apresentá-los e a vergonha que o mais novo obviamente sentia ao explicar sua situação (era trans, assim como Akane) à Shirofuku quando esse ergueu uma sobrancelha para a voz mais fina e alta que o normal.
Para a surpresa de Yuji, Shiroro apenas lhe sorriu e ofereceu comida aos dois, achando fofo o jeito como Akane assentiu imediatamente e a falta de jeito do menino ao assentir enquanto o olhava estranho, como se não acreditasse que o mais velho aceitaria aquilo com tanta naturalidade.
—Você é um garoto, o que tem para aceitar? — respondera quando o menino o questionou mais tarde, enquanto ajudava os dois a organizar a apresentação de um trabalho que eles deveriam apresentar na semana seguinte na escola.
Depois desse dia, o menino os visitava mais, às vezes só para se divertir ou conversar com eles. E Akane já admitira ao mais velho que, quando fosse contar à alguém além dele sobre si, esperava que esse alguém pudesse ser Yujimaru.
—Lembro... — Respondeu depois de um tempo, observando os olhos da garota voltarem a lacrimejar. — O que aconteceu com ele?
Sabia não ser nada muito grave, como uma morte, porque a menina ainda se mantinha em pé, e tentava segurar o choro.
—Algumas pessoas dos outros anos... elas decidiram mostrar para ele o que é "ser homem". Por pouco ele não foi parar no hospital. Eu consegui tirar todo mundo dali, mas lembrei que se eles soubesse sobre mim eu ia ser só mais uma vítima, e não o "guarda costas gay" do Yuji.
—Eles te chamam assim? -Ela hesitou e negou.
— Eles falaram isso hoje depois que ameacei mandar todo mundo pro hospital se não se afastassem do meu amigo. Eu nem faria isso! Eles só têm medo porque sabem que se você ou o Punta aparecerem lá a coisa vai ficar feia. Sou veterana deles e ainda assim ninguém realmente me respeita ali.
—Você quer que eu e o Punta vamos à sua escola? Podemos conversar com o seu diretor, se você quiser.
Akane pareceu tão horrorizada com aquela possibilidade que empalideceu, negando imediatamente.
— Por Deus, não! Você é o meu namorado, não meu pai.
—Mas sou responsável por você, você sabe.
—E o que você diria? "Não quero expor minha namorada à uma situação dessas"? Que namorada, Shirofuku? Eles não sabem, ninguém sabe, além de você! — Aumentou o tom da voz e estreitou os olhos, dando alguns passos para trás, se afastando dele.
—A.. Akane, calma.
—Ia me chamar de Aoi?
—Claro que não! Akane, por favor, se acalme.
—Ia me chamar de Aoi, não ia? Shirofuku, não ouse mentir para mim!
O mais velho se desesperou um pouquinho ao vê-la com a respiração alterada, os olhos apertados o condenando por "ter errado" ao falar com ela. Bem, não poderia e nem queria mentir. E Akane precisava saber o quão frustrante era ficar se atentando ao falar com ela.
—Akane, por favor. Não fale alto, os meninos estão na sala, não quer que eles escutem, quer? – Respirou fundo, tomando coragem. – E o que você esperava? Que eu nunca erre e te chame pelo outro nome em um momento desses? Acha que eu gosto de ficar pensando em como tenho que te tratar? Acha que eu não quero acabar com isso e te apresentar pros outros como "minha namorada" e não "meu colega de quarto", "meu amigo"? Acha que eu gosto disso?
Ela arregalou os olhos e observou o mais velho. Pela primeira vez desde o início daquela amizade, ela viu aquele olhar hostil sendo causado por si. Ele estava com raiva, isso era óbvio. Akane se questionou quantas coisas Shirofuku aguentava sem se alterar.
Ela não trabalhava, e Punta estava desempregado no momento. Mesmo que recebessem uma pequena ajuda dos pais da garota, ainda assim não era o suficiente para sustentar uma casa com três pessoas e visitas frequentes. Shirofuku trabalhava e estava no sétimo semestre da faculdade, então tempo livre era algo que ele certamente não tinha. Além de aguentar os dilemas dela sobre se assumir ou não e a consolar quando algo acontecia, como foi o caso de hoje, ela sabia que os pais do rapaz estavam passando por um divórcio que definitivamente o afetava e muito; Kimagure Prince estava em tratamento de depressão, e Shirofuku era como seu pilar, seu melhor amigo (além de ajudar a pagar as consultas ao psicólogo); e a irmã dele estava internada fazia pouco mais de quatro meses, sem sinal de melhora.
Isso era o que ela sabia, e tinha medo que ele escondesse mais coisas para não a preocupar mais. E isso sem surtar ou demonstrar estar quebrando.
Nossa, como ela era egoísta.
Shirofuku tinha todo direito de ficar irritado, cansado ou o que fosse. Mesmo com tudo aquilo acontecendo, ele não se deixava abalar e nunca recusava ajudar alguém que precisasse de ajuda, mesmo que isso resultasse em ir dormir quase às 3 da manhã com aula às 7. Ele precisava extravasar.
Como nunca se tocara antes? Shirofuku precisava, urgentemente, de um tempo para si, de ser mimado e de não se preocupar com o que quer que fosse. Akane poderia oferecer isso, embora duvidasse que o mais velho se permitisse ficar sem fazer nada.
—Shiro-san... — chamou com cautela agora que toda a raiva que sentia antes se esvaíra. Seu namorado precisava de si, e não seria egoísta de não ajudá-lo.
—Um ano e meio, Akane! Acha pouco? Tente namorar com uma garota que ninguém sabe que é uma garota, e ter que tratá-la de um jeito que sabe que a machuca só porque tem um desconhecido a dez metros de distância! Olha, eu te amo. Pra caralho. Mas, poxa, desculpe por quase errar uma vez. Eu me confundi. A maior parte do tempo eu tenho que te tratar do outro jeito, mesmo com você do meu lado, mesmo que eu veja quando se recolhe um pouco quando a chamam de "garoto" ou pelo nome que está nos seus documentos. Eu te juro, que tudo o que eu quero fazer nessas horas é te beijar na frente de todo mundo e te provar que você é uma mulher incrível e que não precisa se sujeitar a se esconder assim.
Ela se aproximou um passo, tanto preocupada quanto surpresa por Shirofuku não ter levantado a voz em nenhum momento. Sempre um tom controlado, alto o bastante para ser ouvido por ela, e baixo o bastante para não ultrapassar as paredes finas. As vozes dos meninos na sala eram audíveis, e Akane realmente se preocupou quando viu o mais velho respirar fundo e se afastar para se sentar na cama, com certeza se segurando para não falar mais nada.
Akane foi até ele, se sentando ao seu lado.
—Desculpe.
—Desculpe.
Os dois disseram juntos. A garota o abraçou com força, sentindo que agora era a sua vez de consolar o rapaz. Ele não podia estar pedindo desculpas, não é?
—Shiro-san. Não. Você não fez nada de errado. Eu entendo, tudo bem. É complicado, desculpe. Eu vou me esforçar para tirar esse peso de você, eu juro. Me desculpe por não te dar a atenção que você merece. Me desculpe por ser uma péssima namorada, eu vou melhorar, eu juro.
—Akane, você é ótima. — Ele retribuiu o abraço, fechando os olhos e se permitindo sentir o cheiro dela. – Não se diminua, você é incrível. Mas não se force a nada, por favor.
—Eu sei que é difícil esse relacionamento. Eu mesma tenho que me lembrar de não te beijar em público. E... eu mesma estou cansada disso, cansada de me esconder de tudo. Eu estou escondida do mundo, Shirofuku, menos de você.
— Não vou te apressar. Nunca fiz isso, amor, e nem pretendo. Essa decisão, amor, deve ser sua, e não quero influenciá-la de modo algum. – Suspirou enquanto acariciava a bochecha dela com carinho e cuidado. – E eu namoro com você, Akane, não com o Aoi. Se você não for você, não tem nada. Eu já te disse isso antes.
Ela assentiu, se surpreendendo com a naturalidade da conversa. Em algum ponto, ela se sentara no colo dele, de frente com as pernas uma de cada lado do corpo dele. Ao contrário do que pensava antes, a situação em que a posição aconteceu não havia nada de malicioso, e sim de preocupação e desabafo. Não havia percebido como precisavam conversar até começarem.
—Eu vou fazer o possível para fazer isso acontecer. Para que possamos nos assumir.
Ele riu, beijando a bochecha dela. Maldito vestido cheio de babados na saia, eles faziam cócegas ao mesmo tempo em que pesavam e incomodavam. Bem, não daria importância àquilo agora.
—Eu te amo, Akane.
—Eu te amo, Shirofuku.
Trocaram, pela primeira vez no dia, um beijo de verdade, permitindo que fossem um do outro. Definitivamente, os dois precisavam daquilo.
—Vocês estão acordados?
A voz de Kimagure Prince tirou o casal da bolha em que estavam. Akane suspirou baixo e Shiroro riu da expressão da menina.
—Sim. — O mais velho respondeu, sorrindo ao sentir a menina massagear seus ombros com cuidado.
—Aoi?
—Estou aqui. -Ela respondeu, torcendo o nariz de desagrado
—Você tem visita.
Os dois se entreolharam. Estava tarde, quem viria vê-la àquela hora? Shirofuku a tirou de seu colo e só então ela percebeu que ainda estava de vestido, peruca e maquiagem, e arregalou os olhos. Merda!
—Quem é? — Perguntou enquanto via Shirofuku guardar as roupas que estavam sobre a cama na maleta e joga-la sob a cama, logo indo até a maleta de maquiagem.
—Aoi-kun? Shirofuku-san?
Os dois paralisaram e se olharam mais uma vez.
Era Yujimaru.
Não podiam ignorar a visita do garoto, principalmente depois do que ele passara naquele dia. Akane olhou para o namorado, que se sentou na cadeira e olhou para o teto, como se se perguntasse o porquê de ter tanto azar.
Shirofuku estava quase mandando Akane ir para o banheiro se trocar quando a viu andar até a porta.
—O que você está fazendo? – sussurrou para ela, que inspirou fundo antes de levar a mão até a maçaneta. Se levantou. – Imagawa!
Ela girou a maçaneta e puxou, deixando a porta completamente aberta.
— Olá, rapazes! – ela sorriu, meio vacilante diante dos olhares que recebeu.
Silêncio.
Infelizmente, não eram somente Kimagure Prince e Yujimaru que estavam ali. Shirofuku viu o olhar completamente confuso que os cinco rapazes direcionavam à Akane. Tomitake arqueou as sobrancelhas, e seu olhar se alternava entre a garota e Shirofuku, como se o perguntasse o que estava acontecendo ali. Forgeru tombou a cabeça para o lado, analisando Akane tentando descobrir se aquilo era sério ou só uma piada da mais nova. Já Nokkuso parecia ter perdido o chão; ele se apoiou na parede, as sobrancelhas franzidas e os lábios entreabertos enquanto encarava a menina, que começava a ficar desconfortável com aquele tipo de atenção.
Respirou fundo e se aproximou de Akane, segurando sua mão para dar apoio, uma vez que não sabia o que poderia acontecer ali.
Kimagure Prince olhou para as mãos entrelaçadas e mandou um olhar divertido para o amigo, enquanto Yujimaru, assim como Forgeru analisava a garota. O clima já estava ficando pesado demais. Se desvencilhou de Akane e puxou Yujimaru para dentro do quarto, o envolvendo em um abraço que o rapaz aceitou mais que depressa.
—Yuji! Já me falaram o que houve. Você está bem? Precisa de alguma coisa? Meu Deus, essas pessoas são estúpidas ou o quê? – Se afastou levemente do abraço e observou o outro, suspirando aliviado ao não encontrar nenhum ferimento grave.
—Shirofuku-san, eu estou bem... Queria agradecer ao... ahn...
Shiroro olhou para Akane, que apesar de assistir à cena assim como os outros, estava claramente em conflito interno. As atenções voltaram à ela, que por pouco não desistiu e correu para seu quarto. Precisava fazer aquilo, por si mesma e por Shirofuku.
Shirofuku ergueu uma sobrancelha e se aproximou de Akane de novo, dessa vez imitando a pose de mais cedo, um braço envolvendo sua cintura e as mãos entrelaçadas.
—Será que dá ‘pra parar de olhar desse jeito? É desconfortável.
Ele estava evitando falar “ela” ou “ele”, Akane percebeu. Ele ainda não sabia exatamente o porquê de ela ter feito aquilo, e certamente não sabia como deveria agir. Estava do seu lado, mas Akane precisava acabar de uma vez com aquela situação em que estava, então virou o rosto para Shirofuku, beijando sua bochecha e sorrindo quando ele a olhou confuso.
—Não vai me apresentar, Shiro-san? Pensei que quisesse fazer isso, o que você me disse hoje... – Piscou para ele, que finalmente entendeu.
“Acha que eu não quero acabar com isso e te apresentar pros outros como "minha namorada" e não "meu colega de quarto", "meu amigo"? Acha que eu gosto disso?”.
Shirofuku riu de nervoso, olhando para os outros que estavam obviamente em choque com a cena. Respirou fundo e apertou a mão de Akane quando viu que ela estava começando a tremer de nervosismo.
—Pessoal, essa é Akane, minha namorada e colega de apartamento, junto com o Punta.
—Prazer em conhecê-los – ela se inclinou apenas o suficiente para não se soltar do abraço do namorado.
Estava feito.
Yujimaru sorriu radiante Shirofuku se afastou da menina a tempo de não ser esmagado no abraço do garoto junto com ela. Ele sussurrou algo no ouvido dela que a fez rir e beijar o rosto dele. Forgeru apenas sorriu e riu ao ver o alívio no rosto da menina. Ela parecia estar mais leve.
Tomitake a abraçou também, dizendo que não entendia muito bem, mas se esforçaria para deixa-la o mais confortável possível. Kimagure Prince beijou sua mão e disse era um prazer enfim conhece-la, o que rendeu um olhar afiado da garota para o namorado, que fez um gesto pedindo calma.
O que de fato a preocupou foi a reação de Nokkuso, que contorceu o rosto em desagrado e praticamente cuspiu as palavras.
— Akane? Qual é, Aoi! Virou menina agora, foi? Se toca, cara, você é homem, para de show. Se fosse viado até dava pra engolir, mas menina? Qual o seu problema? Qual o problema de vocês? Como podem aceitar isso?
Felizmente ou infelizmente, ele não deu tempo para que ela nem ninguém se pronunciasse, uma vez que saiu do apartamento fazendo barulho ao pegar suas coisas na sala e bater a porta com força.
Akane baixou o olhar, sentindo Shirofuku e Yujimaru a abraçarem enquanto tentava segurar as lágrimas. Nokkuso era seu melhor amigo, esperava qualquer reação, menos aquela. Ao que parece, Nokkuso era melhor amigo do Aoi, e não da pessoa em si. Ela nem era tão diferente do que mostrava quando era Aoi. Ainda gostava de vídeo games, de jogar futebol e ir dormir tarde por ficar falando sobre besteira ao telefone. Ainda queria cursar dança na faculdade e abrir a própria escola de dança depois.
Nokkuso sabia muito sobre si, e de repente teve medo do que o amigo poderia fazer.
—Akane, por favor, se acalma. – Yuji pediu, tentando não fazer a menina chorar porque sabia como era passar por aquilo (embora os outros três ali não faziam ideia sobre si).
—Amor – Shirofuku chamou, limpando seu rosto quando viu uma lágrima solitária escorrer. – Por favor, não chora.
—Você sabe que o Nokkun é meio esquentado – Tomitake disse, sendo seguido por uma confirmação de Forgeru.
—Ele provavelmente vai pra casa, vai encher a cara com a vodka que ele roubou dos pais, aí ver perceber que é besteira te odiar por isso, e que não quer perder o... digo, a melhor amiga, e vai ligar para eu e o Tomitan, talvez o Shirofuku-san, dependendo do quanto ele se arrepender, e vai voltar com o rabo entre as pernas pra te pedir desculpas. – narrou, adorando ver como Akane riu com aquilo.
—Obrigado... Obrigada, pessoal – se corrigiu, uma vez que era costume falar no masculino perto dos amigos. – Eu sabia que alguém podia reagir assim, mas eu pensei que ia ser o Tomitan, não o Nokkuso.
Tomitake se escandalizou, levando a mão ao peito enquanto fazia uma expressão indignada.
—Akane! Eu jamais faria isso! – Fez uma cara engraçada, feliz ao ver a garota rir.
—Sim, agora eu sei. Obrigada, Tomitan. Obrigada, gente.
—Akane? – Kimagure Prince chamou, e ela estranhou quando viu que ele revezava o olhar entre ela e Shiroro, como se procurasse aprovação no outro. Shirofuku concordou e ela franziu o cenho. – Sabe, somos responsáveis por você, e eu tenho que te perguntar isso, já que seu namorado já fez bastante por você.
—O quê?
—Você quer que todos saibam?
Akane estremeceu. Sabia que teria que fazer essa escolha, mas não sabia se estava pronta. Olhou para Yuji, que só arqueou as sobrancelhas. Aquela escolha deveria ser dela, feita por ela.
—Podemos... Podemos ir aos poucos? –Perguntou, olhando de Shirofuku para Punta. – Não sei se estou pronta pra isso. – voltou a olhar para Yujimaru, se lembrando do que o garoto enfrentara hoje.
—Claro que sim, Akane. – Shirofuku afirmou.
Ela sorriu, e olhou para Kimagure Prince.
—Certo. Agora, como você sabia? Shirofuku te contou?
Shiroro respirou fundo e pegou o celular.
—Antes que você grite, porque eu não quero brigar de novo, eu não disse nada ‘pra ele... — ele disse enquanto desbloqueava a tela e procurava por uma conversa em específico. Entregou o aparelho à ela, que o olhou confusa. — Aqui, desde essa foto.
A menina franziu o cenho ao ver uma foto sua, com uma roupa semelhante à que estava usando agora, porém com xadrez branco em vez de círculos amarelos, e algumas partes pretas. Se lembrava do dia em que tirara a foto, e Shiroro havia sido um fofo ao imprimir a foto para si, assim como ela pediu. Ela havia sido enviada por Punta, e leu as mensagens que a sucediam.
23 de Fevereiro
Punta: [imagem]
Shirofuku, você sabe alguma coisa sobre isso?
Shiroro: De onde isso surgiu?
Punta: Estava no meio de uns cadernos que o Aoi me emprestou
Tá escrito “Akane” atrás
E o cenário é o seu quarto, não é?
Shirofuku, o que é isso?
Shiroro: Não faço ideia
É o meu quarto, sim, mas não sei de nenhuma foto
Deixa pra lá
Ignora, não vamos falar disso
Punta: ...
Shirofuku?
Shiroro: O que foi, Punta?
Punta: Aoi...
Ele/Ela é trans?
Shiroro: Não sei
Se ele for, uma hora ou outra vai nos contar
Vamos parar de falar sobre isso, não quero me preocupar com ele agora
Punta: Ok...
—Ahh! Os cadernos!! – Ela exclamou assim que terminou de ler. Sabia que estava esquecendo alguma coisa antes de entrega-los ao amigo. – Como eu fui burro- Burra!! – se corrigiu de novo, rindo do próprio erro.
Os garotos a observaram, Shirofuku e Punta segurando uma risada e os outros três com expressões confusas, porém calmas.
—Se você sabia, Punta, porque nunca disse nada? – Questionou ao devolver o celular para o namorado.
—Sempre que eu falava algo do tipo com o Shiroro, ele desviava e deixava claro para deixar isso de lado. Eu pensei em fazer isso, até perceber que em algumas crises você só aceitava a ajuda dele e se recusava a falar com todo mundo. E sempre ia pro quarto dele, não pro seu, como ia nas outras. Aí eu achei que pudesse ser algo sobre isso, mas como vocês nunca falaram nada, eu preferi esperar.
Ela umedeceu os lábios, fechando os olhos ao perceber a própria burrada. Punta era extremamente atento, era óbvio que ele iria perceber alguma coisa.
Riu, mais leve do que nunca, e se afastou de Shirofuku para abraçar o amigo, logo puxando todo mundo para a sala e se sentando no sofá ao pegar os controles do vídeo game. Estendeu um em direção ao grupo.
—Qual de vocês vai ser o primeiro a perder para a Akane? — perguntou sorrindo.
—Ahn... Akane? Tem certeza que não quer- — Tomitake começou a dizer e foi cortado. Ela acabara de se assumir e "perder" o melhor amigo, não tinha certeza se ela realmente estava bem com tudo aquilo.
Ela sorriu e deu de ombros, entregando o controle para ele e selecionando a personagem com que jogaria.
—Vocês podem passar a noite aqui, né? Quem realmente importa está aqui, comigo. Depois eu penso no resto. Ah, Shiro-san, sou bem-vinda na sua cama essa noite? — Ela fez uma expressão safada, sorrindo sugestiva ao namorado.
Todos riram quando Shirofuku corou levemente. Estavam acostumados a ouvir aquele tipo de provocação, que antes eram feitas por aquele mesmo corpo, porém de bermudas e camisetas largas. Ainda era a mesma pessoa, não mais seu irmãozinho, e sim sua irmãzinha.
E embora Shirofuku soubesse que não havia nada de malicioso realmente naquele pedido, não pôde fazer outra coisa a não ser responder à provocação com um sorrisinho malicioso e uma sobrancelha arqueada.
—Hoje e sempre que quiser, gatinha. -Piscou para ela.
Foi a vez da garota de corar, rindo meio sem graça e chamando o garoto para se sentar ao seu lado no sofá, pensando que o choque de descobrir sobre si de certo modo acobertou o namoro deles, mesmo que todos não fossem mais esconder.
Bem, não que eles realmente fossem se importar com aquilo. Estavam do seu lado, e era o que importava naquele momento. O resto? Ela podia pensar e se preocupar com o resto depois, agora Akane só queria se divertir com os amigos e mimar o máximo possível a pessoa que mais a ajudou a vida inteira.
Shirofuku merecia, não é mesmo?
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