Escolhidos
2 Capítulo um
O sol bate em meu rosto e os passarinhos cantam, levanto para admirar a paisagem pela janela. O despertador toca e dou conta que que foi apenas um sonho. Poderia ser real, se ainda existe a Terra. Tomo banho e visto minhas roupas.
Hoje é um dia especial, e aguardado por muitos. Todo ano as pessoas que completam 20 anos podem escolher ficar ou ir para Terra. Eu escolhi ir para Terra. Tomo o café da manhã disponibilizado pela comunidade, um pouco de batata cozida, cenoura e comprimidos para suprir nossa alimentação. Não acho que seja o bastante para me encher mas é o que a comunidade pode oferecer. Saio de casa e vejo Clarisse me esperar ansiosamente. Nas últimas semanas o que ela só sabia falar e pensar era sobre o dia de hoje. Não que ela vá para a Terra, ela quer ficar aqui. Ela só não quer que eu vá. Nunca ouvi notícias dos que foram para Terra, de como estão ou onde estão.— Então, preparada para hoje? — ela me pergunta com um sorriso no rosto.— Você sabe que não vou ficar aqui.— Está bem, eu sei que não vou conseguir fazer você mudar de ideia. Clarisse fica calada, ela certamente não é de ficar sem falar. Acho que ela não quer ficar aqui, mas seus pais que querem que ela fique. Ela vem tentando fazer com que eu não vá e fique com ela mas eu não posso ficar.—Clarisse, você quer ir para Terra? Ela me olha pensativa, escolhendo as palavras para falar.—Eu não quero interferir na sua escolha mas você tem que escolher algo que você queria, não o que os outros queiram. Seguimos em silêncio rumo ao grande salão. Pelo que eu ouvia dizer, nós teremos um banquete e em seguida receberemos as orientações. Após o banquete a cerimônia iniciará, e a partir desse momento teremos uma nova vida. Passamos pelas simples casas, não são tão luxuosas compradas com as da Terra. Aqui temos o necessário para viver. Existem várias comunidades, são ao todo 300 comunidades em Marte, e cada comunidade tem umas 500 casas. Pode parecer muito, mas é pouco em relação a quantidades de pessoas que viviam na Terra, e as que estão aqui são as que sobreviveram. As comunidades têm estufas para cultivar os alimentos, possuem centros médicos, laboratórios e outros. As regras aqui são bem duras, se você não seguir as regras é transferido de comunidade. Caso você continue descumprindo as regras, simplesmente é jogado no espaço para morrer. Há muitos jovens seguindo em direção ao salão. Alguns estão mais animados que outros. Clarisse e eu estamos no grupo dos não animados, ou talvez só estamos nervosos. Ao chegarmos há uma enorme fila para entrar. Esperamos alguns minutos e todos nós já estávamos postos em nossos lugares. Há duas longas mesas com um verdeiro banquete, pão, suco e frutas. Há um púlpito em frente as mesas e uma cortina preta atrás. Faz tempo que não comemos comida de verdade. Após deliciarmos o belo banquete, a líder da comunidade se prepara para o início da cerimônia. De repente o ar fica estranho, por um momento fico sem ar e meu pescoço arrepia. Uma sensação entranha percorre minha veias.— Maisie, quem é aquele cara? Você já viu ele por aqui? — Hã? O que disse?— Aquele cara que está te encarando, já viu ele antes? O garoto misterioso está em outra mesa me observando. Olho em sua direção e ele desvia o olhar, consequentemente a sensação estranha passa. — Não, nunca vi ele antes.— Bom dia — a líder da comunidade começa — hoje é um grande dia para vocês e por isso devem saber o Porquê estamos aqui. Há 50 anos a Terra foi destruída por um vírus, por isso o governo criou comunidades em Marte para abrigar os sobreviventes. E se vocês estão aqui hoje, seus pais ou avós foram os sobreviventes. Hoje vocês terão o poder de escolher os seus destinos, então façam uma boa escolha — ela faz uma pausa e bebe um gole d'água — Vocês possuem duas escolhas, e a primeira é ficar aqui na comunidade. Você poderá seguir a área que possuir maior afinidade. Já as pessoas que decidirem ir para terra, realizarão pesquisas para enviar para os laboratórios das comunidades. Há uma comunidade na Terra para as pessoas que decidirem essa opção. Façam uma boa escolha. — ela acena para Isis e desce do palco. Isis me traz uma sensação estranha, é como se eu já tivesse visto ela. Sim, eu vi ela nos anúncios mas essa sensação é diferente. Ela sobe no palco de forma elegante e começa seu discurso.— Bom dia, sei como é difícil para vocês terem que escolher o destino de suas vidas, mas é preciso. — ela faz uma pausa — Seus familiares vieram, sejam para se despedir ou comemorarem. As luzes dos camarotes ascendem e os familiares nos observam, esperançosos para que fiquemos. Procuro minha mãe e encontro ela me observando. Ela sabe da minha escolha, e eu sei que ela prefere que eu fique mas ela me apoia no que eu decidir. A cortina atrás do palco se abre deixando visível duas estátuas, uma representando a comunidade e outra a Terra. Todos ficam surpresos e os mumurros começam. Um homem ergue a comunidade nas pontas dos pés, provavelmente ele é o criador das comunidades. A estátua que representa a Terra é uma árvore grande com suas raízes expostas, e uma menina está em com uma lupa observando ela. Certamente que prefiro a da Terra.
O salão é grande o bastante para couber três vezes de nós. Eu ouvi dizer que cada um se levanta e se dirige para a estátua que sua escolha representa, e estende o braço para que a mulher o tatue com o símbolo da sua escolha, marcando o início de uma nova vida. Duas mulheres entram com uma máquina de tatuar a laser. Elas se posicionam ao lado de cada estátua que representam.— Por favor fiquem em silêncio, seus nomes serão chamados. A tensão no ar começa e os burburinhos também. Quem diria que esse dia chegaria. Sinto Clarisse aflita, sei quando há algo de errado com ela.— Você está pensando em ir comigo, não está? — indago. Ela me olha com um certo desespero, e olha para os seus Pais. Eles observam ela, com esperança que ela fique.— É que... eu também quero ir pra Terra, mas sei que meus pais não aprovariam — ela sussurra para que só eu escute. Essa é uma decisão que ela tem que tomar. Não acredito que ela ficou falando que ia para Terra só por causa dos Pais dela, e também para fazer com que eu fique, assim ela não iria ficar aqui sozinha. Os nomes são chamados e o peso da escolha começa aumentar. Ela não deveria decidir a vida dela em poucos minutos. Mas se o que ela realmente quer é ir para Terra, é o que ela deve escolher.— Clarisse, sei que essa decisão é difícil para você. Se você realmente quiser fazer essa escolha, que faça. Não escolha algo pelos outros. Seus pais vão entender... Quando cada um faz sua escolha, se dirige para o lado da estátua que lhe representa e é recebido com certa alegria pelos seus novos colegas. Olho para Clarisse e ela respira fundo como se tivesse feito sua escolha, espero que ela não se arrependa. O garoto misterioso é chamado, seu nome é Ethan. Ele é alto em comparação com os outros garotos, seu cabelo é castanho e segue até os ombros. Ele segue em direção as estátuas com determinação, como se estive pronto para esse momento há muito tempo. Sinto uma energia percorrer meu corpo e fico sem ar por um instante. Ele segue em direção a estátua da Terra e a mulher marca o seu braço. Ele se junta com os os outros que também fizeram essa escolha. Sinto um Alívio mas ao observar Clarisse fico tensa novamente. Ela está nervosa, é perceptível pelas suas mãos suadas. Os nomes são chamados em ordem alfabética, e o nome dela se aproxima. Eu estou tranquila com minha escolha, sei o que eu quero. Não quero viver aqui e não poder saber como é a Terra. Quero conhecer novos lugares, experimentar novas emoções.— Clarisse Grier. Ela respira fundo e segue em direção as estátuas. Eu quero que ela vá para Terra, será bom ter uma amiga com quem conversar. Ela segue em direção a estátua da Terra e seu pulso é tatuado. Olho para os seus pais que estão surpresos e chegam mais perto do vidro provavelmente desacreditando no que eles acabaram de ver. Clarisse não olha para eles e fixa o olhar no chão. Os nomes são chamados e observo o grupo que escolheu ir para Terra, é bem menor em comparação com os que querem ficar. Ethan me observa mas eu não desvio o olhar, após um tempo seus olhos mudam de cor. De preto para castanho, como isso é possível? A sensação estranha volta, e é como se literalmente estivesse correndo energia pelas minhas veias. Começo ficar tensa, minha mãos começam a suar e meu coração acelera. Imediatamente ele para de me encarar e observa a Isis chamando os nomes.— Senhorita Maisie Foster? — Isis diz me olhando. Levanto imediatamente, ainda um pouco nervosa. Ela sabia que esse era meu nome? Minhas mãos suam, sigo em direção a estátua da Terra. A sensação não passa, vai aumentando a medida que sigo até a mulher. Ao estender meu pulso vejo que cortei a palma da mão com minhas unhas, ela olha minha palma e eu escondo os cortes. Meu pulso é tatuado com uma árvore e sigo em direção a Clarisse. Meu pulso queima, não sei dizer se isso é normal. Tento ficar calma para tentar passar essa sensação estranha. Ethan está depois de umas quatro pessoas há minha esquerda, não está me observando mais.— Maisie? — Clarisse sussurra.— Oi?— Você está bem? — Sim... Estou. A sensação começa passar e vejo que Clarisse me olha assustada.— Por que suas unhas estão com sangue?— Nada, só estava nervosa e cortei minha palma com as unhas.— Mas sua palma não está cortada. Olho pra minha mão e no lugar dos cortes há somente vestígios de sangue. Como isso é possível? Eles estavam aqui uns segundos atrás. Olho para Ethan mas ele está olhando para frente.— Só um minuto. Sigo discretamente, ou pelo menos tentando, até ele.— Quem é você? Por que estava me encarando? Ele me olha com calma e hesita em responder.— Não estava olhando para você, eu só estava pensando. Não acredito no que ele diz, ele estava sim me encarando.— E quem é você?— Sou Ethan, um transferido. E quem é você? Encaro ele e seus olhos estão pretos. Um transferido, então ele não é de seguir regras.— Você já sabe meu nome. Volto para onde eu estava e Clarisse me olha incrédula.— O que você foi fazer?— Ele é um transferido, por isso não tínhamos visto ele aqui antes. Ela fica surpresa e desiste de me entender, nem eu estou me entendendo. Ela fica calada observando a cerimônia e não me faz mais perguntas. Melhor assim, eu não saberia respondê-las.
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