Escolhida
2 Conhecendo Miranda e Leo
Notas iniciais
Conhecendo Miranda e Leo
Não era assim que eu esperava acabar a sexta-feira.
Mas como sempre as coisas nunca aconteciam do jeito que eu queria
Estava um dia lindo,céu azul,vento fraco,sol forte queimando o barro pelas ruas da cidade.Nada parecia fora do lugar ou incomum.Coisas estranhas acontecem normalmente em lugares sombrios e frios,não é?Contudo,estava um lindo dia.
Percebi ,enquanto caminhava para a escola ,que meu passo tinha um certo ritmo,sorri sozinha,dando uma rodada me achando A bailarina da música que meu pai cantava para mim ,quando era bem pequena .O vento forte rodou a saia,peça do uniforme escolar,junto com a camiseta branca.
Queria esclarecer algo antes de continuar:
Nada de maravilhoso ou mágico havia me acontecido a vida toda,o máximo que eu conseguia fazer de diferente era um almoço fora com a família e a melhor magia do mundo acontecia quando eu estava na praia,a algumas quadras dali,quando o vento batia nos meus cabelos cor de mel e os balançava lentamente,cada poro do meu rosto parecia se abrir deixando o vento se apoderar da minha pele.
Ainda mais que era sexta feira ,o melhor que podia acontecer era algum professor faltar e ficarmos como horário vago,realmente feliz.
Cheguei na pequena escola no interior perto de Cancun ,México.Uma construção minúscula,com a fachada igual a uma igreja,alta,com uma grande porta de madeira que estava aberta ,por onde os alunos passavam para assistir as aulas.Dentro tinha pelo menos dez salas pequenas com cadeiras de madeira,duas grandes janelas marrons e por incrível que pareça ainda usava um quadro de giz.Parecíamos um povoado excluido da sociedade moderna.
Sentei-me na frente,meu lugar já marcado com meu nome na carteira.Esperei impaciente a aula começar,tirei meus livros e o caderno da bolsa,aluna aplicada.Ajeitei os materiais com perfeição.
A professora de inglês chegou calando a sala,todos sentaram-se.Ela começou a escrever no quadro,o pó de giz fazia seu nariz franzir constantemente.Todos da 5ª série já deveriam ter algum problema na respiração por causa desse pó agonizante.
Eu odiava inglês,era burra na matéria,mas a professora me olhava como se minha vida dependesse do teste que eu ia fazer daqui a pouco.Seus olhos eram chamas,seu cabelo ruivo combinava perfeitamente com o barro vermelho pregado em suas botas,que predominava na cidade.
–Valerá um quarto de sua nota-Murmurou ela apenas para que eu escutasse,em uma rápido e perfeito espanhol
Ela não podia fazer isso ,podia?
Resolvi não arriscar
–Sim,senhora-Respondi.
Para me salvar houve uma batida na porta da sala,não precisei levantar os olhos para saber quem entrava.
–Senhor Valdez-Disse ela escondendo o desagrado.-Atrasado.
–Desculpe-Murmurou ele ,sentando-se ao meu lado-Oi
–Oi-Respondi desanimada.
–O que foi?
Eu neguei com a cabeça.
–Depois te falo.
A aula continuou com a professora entregando os testes.Quando o meu chegou eu tentei fazer alguma coisa ,mas além de ser em uma outra língua o déficit de atenção piorava tudo,as palavras pareciam fazer festa no papel ,me confundiam ,me deixavam tonta,não consegui passar da segunda questão sem sentir minha cabeça rodar.
Bom,se eu não tinha nada para fazer meu olhar foi inconscientemente para o menino da cadeira ao lado,que dormia em cima da prova.Tinha cabelos castanhos enrolados e olhos da mesma cor ,quando ria ,parecia esquecer de tudo que havia passado,por que sim ,Leo Valdez passou por muita coisa,ele me contou que sempre havia pulado de casa em casa ,cidade em cidade ,desde o acidente com sua mãe.Fogo,me dissera.
Meu melhor amigo,mesmo o conhecendo a só dois meses,havia gente naquela sala com que eu estudara desde o maternal,mas nunca havia me dado muito,Leo era especial.
Morava com uns tios,ainda era recente a morte de sua mãe.Ele agora tinha 11 anos assim como eu.
Leo só não roncava por que estava com o rosto colado na mesa,babando.
Mas ainda era muito bonitinho.
Ele percebeu que havia alguém o observando ,ao encontrar meu olhar me deu uma piscada marota.A professora que rondava a sala veio em minha direção,me fazendo tremer.
–Não ,não Miranda-Disse ela,em um sussurro,se aproximando de mim,falando baixo para que só eu escutasse ,puxando minha prova-Não minha graça,a forja controla o fogo,o fogo não gosta de ser controlado.
–Não entendi,desculpe-Murmurei em resposta,a cabeça baixa ,quase chorando por minha prova em suas mãos.
–Vá para casa,amanhã irei conversar com seu pai.-Disse,saindo de perto de mim levando meu teste.
Eu tava ferrada.Senhor Vega era complacente,mas não tanto,o estudo ,dizia-me ele ,era porta do mundo,tinha que ser levado a sério.
Peguei minha mochila com lágrimas nos olhos,não as deixei cair ,era muito orgulhosa.Passei como um raio pelos corredores,indo para casa.
Mas algo estava terrivelmente errado.
Minha casa era pequena ,de taipa ,como metade das casas da região,pintada com cal branco que estava desbotado e meio avermelhado pelo barro da rua.Dentro haviam dois cômodos,meu quarto e a cozinha misturada com a sala e a cama de solteiro do meu pai,eternamente humilde,trabalhador da cidade.As janelas eram azuis e descascavam um pouco.um vento forte e puf!Tudo ia ao chão.Mas no México a coisa mais difícil era dar uma chuva,o clima era quente e seco.
Meu pai era Senhor Vega,quase igual ao Zorro ( De la Vega),meu herói favorito.Senhor Vega ,meu herói.
O que era estranho ,o que me alertou foi a grande quantidade de gente circundando a casa.
–O que há?-Perguntei a moça gordinha que barrava a porta ,um terço pendurado em sua mão.Ela me encarou com tristeza.
–Sinto muito.
–O que houve?-Perguntei mais expressiva.
–Seu pai...Ele já tinha problemas...
Sim,meu pai era doente do coração,mas não...Por favor não.
–Sinto muito-Repetiu.
Eu só tinha 11 anos.
...Uma semana depois...
Leo segurava minha mão enquanto caminhávamos de volta a casa.Não era mais a minha casa,era só a casa onde um dia eu fora feliz ,tudo ali era tão triste,sombrio.A alma da casa havia partido num trágico acidente.
Arrumei minhas malas,Leo sentou-se na cama.Me olhava preocupado.
–Você está com medo?-Perguntou.
–Não-Respondi,fungando.Meus olhos se encheram de lágrimas rapidamente.-Eu só quero ir embora.
–Não você ,não quer.Fique conosco ,meus tios ,eles podem...
–Não Leo ,não daria certo.Estarei melhor aonde eles querem me levar.
Ele assentiu,mas não parecia conformado,sua expressão pensativa me fez ficar receosa.Coloquei a mochila nas costas e segurei firme ao corpo um retrato meu e do meu pai que eu havia emoldurado.Tinha sete anos ,não fora a tanto tempo assim,usava um vestidinho vermelho e sapatilhas pretas,banguela ,com um pai lindo me segurando nas costas.Ainda que na época eu não gostasse de ver a foto ,hoje ele seria a única lembrança que eu iria guardar.
Leo me guiou para fora,onde eu pude ver meus parentes a metros de mim,conversando com nada mais ,nada menos do que minha ''adorável'' professora de inglês.
–O que ela tá fazendo aqui?-Perguntei entre dentes.
O garoto não soube me responder.
–Só deve estar com dó de você.
–Não preciso disso.-Murmurei.
Ela virou-se e me fitou ,seu olhar queimando mais do que o chão aos meus pés.Veio andando na minha direção,mal parecia tocar a terra,flutuava em calma e eu estava cada vez mais irritada.
Tocou levemente em meu ombro,senti seus dedos queimarem minha pele através da blusa.
–Ele está em paz,seu serviço aqui na terra foi bem feito,ele terá recompensa.
As mesmas palavras que me falaram a semana toda,mas agora ditas com propriedade.
–Sim- A mesma resposta dita em todas as vezes.
–Você não entendeu.-Disse ela tristemente.
–Entendi-Afirmei.
Ela negou com a cabeça.
–É algo maior do que seu pai,maior do que você ou qualquer pessoa poderia entender.Envolve muita coisa.-Disse ela em tom solene.-Seus tios estão esperando.
Virei-me para as duas pessoas que eu nunca havia visto na vida,uma mulher e um homem com caras bobas e felizes,sorrisinhos fora de hora,rostos americanos que eu não lembrava,além de seus cabelos loiros,serem gordinhos de tanto comer gordura, olhos azuis e camisa de turista,cômico .
Ela deixou-me com Leo.Saiu para tornar a conversar com o casal.
–Entre na casa-Falei.
–O que?-Perguntou ele.
–Eu disse para entrar na casa-Mas não esperei,o puxei pelo braço e o menino não teve outra opção se não me seguir.
–Miranda o que...?
Cheguei em meu quarto e abri a janela,por trás ninguém perceberia.
–Vou fugir.
–O QUE?
–Fala baixo Leo!-Grunhi.-Eu não conheço aquelas pessoas,meu pai me assegurou que de minha família só havia nós dois,eu não vou com eles
–Então eu vou com você-Garantiu.
–Não...
–Eu não vou deixá-la ir sozinha e também já estava pensando em fugir mesmo,igual da ultima vez,isso para mim não é problema,passamos pela fronteira e pronto!Uma vida nos Estados Unidos!
Não era tão simples ,mas eu já não tinha escolha,ou era isso ou meus tios estranhos que nunca haviam dado as caras .
Apertei o retrato mais um pouco.
–Então está bem ,vamos antes que a professora louca venha me procurar.
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