Escolhas Opostas
1 Capítulo Único
Minhyun se sentia cansado, perambular pelo mundo no decorrer de muitos o deixava em um estado quase exaustivo. A grande guerra havia sido a seculos atrás e mesmo se passando tanto tempo, tantos anos e tantas coisas sendo modificadas no decorrer do longo tempo, sua decisão e suas escolhas não haviam mudado, nem mesmo por um mísero segundo.
Não estava corrompido, não havia se corrompido mesmo estando livre de regras e por si só no mundo, e mesmo quando se sentia com medo de cair para as trevas, ainda era ele mesmo e ainda possuía a pureza de quando caiu... Caíram.
Todos eles.
Todos haviam caído para que, durante dezoito dias, pudessem refletir e então fazer as escolhas de qual lado se aliar, de qual lado escolheriam ficar. Os dezoito dias ficaram conhecidos como tempo de reflexão e o tempo de trégua. Todos eram anjos caídos nesse tempo e todos eram iguais, não importando para qual lado pendesse a balança. E passando-se esse tempo, a decisão final os enviaria para o lado pelo qual escolhessem.
Bem ou mal. Luz ou escuridão. Deus ou Lúcifer.
O que, é claro, não era imediato. Séculos haviam se passado e ainda haviam muitos anjos caídos tentando descobrir para qual lado pendiam, para qual lado escolher e até mesmo aqueles que não ousavam escolher pois nem todos pensavam que foi dado uma escolha e que a queda de todos os anjos, menos os de alto escalão como os generais dos Céus, foi uma decisão cruel e até mesmo injusta. Uma ordem foi pedida, uma discussão foi causada e uma desconfiança foi plantada na pureza dos anjos.
"Até os anjos podem ter dúvidas." Fu LongFei havia lhe dito antes de a queda acontecer, quando todos os que estavam no céu se sentiam perdidos, com medo e desconfiados.
"Você já duvidou?" Essa havia sido pergunta para LongFei.
"Você não?" E esta havia sido a dele.
Nenhum dos dois responderam a pergunta no momento, era inútil responder, Minhyun soube disso na hora e ainda sabia.
Fu LongFei havia tido dúvidas, havia duvidado e até mesmo questionado ordens. Ao contrario de Minhyun que sempre teve a certeza absoluta. Em nenhum momento sentiu dúvidas sobre sua criação, sua origem e suas obrigações.
E ambos souberam, durante a queda e até mesmo antes, que aquele seria o marco da eterna existência de ambos. Um afastamento difícil de ser superado, quebrado.
Fu LongFei cairia mais do Minhyun, ele iria para a escuridão.
E sem hesitar um dia se quer, LongFei foi se convertendo. As asas brancas eram manchadas, dia apos dia, pena por pena, pelo tom escurecido das trevas. O que era o mais puro branco se tornou um ralo tom de cinza e do cinza mais claro se tornou o preto absoluto. As penas eram tingidas conforme os pensamentos de LongFei se afastavam da pureza celestial para o abismo da dúvida, da desconfiança e das perguntas infinitas.
Minhyun se desesperava toda vez que via as penas mais escuras nas costas de LongFei mas sabia que não estava ao seu alcance, não poderia salvá-lo daquilo que ele escolheu acreditar. O que o anjo fazia aos longo dos dias era observar, olhá-lo escondido sobre um mausoléu, ocultando suas asas e sua aura para que LongFei não o visse, não o percebesse.
Ao contrario do que muitos anjos que haviam escolhido o céu, Minhyun sabia que nem todos os que escolheram as trevas eram maus ou cruéis. Pensamentos impuros, desejos carnais, matança, crueldade e mais eram apenas os casos mais baixos. Nem todos praticavam tais atrocidades.
LongFei não era mau e tampouco praticava tais coisas. Não acreditar em Deus e nos planos do Senhor o afastaram da luz, talvez para sempre, talvez até quando o anjo pudesse ver a verdade em seu coração mas não importava questionar ou pensar sobre isso, e tampouco importava tentar corrigir os outros. Mesmo sendo um anjo puro, ainda um anjo caído, cada um tinha o direito de acreditar no que bem quisesse e todos eles conheciam o caminho de volta.
E não importava pensar em se existiria um futuro onde LongFei voltaria aos Céus. O destino dos anjos não era traçado por ele e mesmo se o fosse, não procuraria a resposta com aquele método.
Os longos anos após a queda estavam se encerrando, esses seriam os últimos minutos de Minhyun na Terra até que suas ordens fosse voltar, os últimos minutos como uma criatura livre para falar e escolher. E enquanto voava na direção de LongFei, as imensas asas brancas o guiando até seu distante e antigo parceiro, ele já sentia saudade.
O anjo pousava sobre um prédio, sentando-se na beirada, olhando o abismo abaixo de si e pensando no quão distante os humanos pensavam que era daquela altura.
Não havia pousado no mesmo lugar que LongFei estava mas deixou que o anjo caído o sentisse nas proximidades.
— Você veio até mim. – A voz de LongFei era baixa e amistosa, como sempre. — Mas porque sua escolha já foi tomada, subirá novamente, não há uma mancha em sua essência.
O anjo negro tomava assento ao lado do anjo branco.
O destino pode ser um pouco cruel, um pouco sarcástico e com um humor questionável mas ali estava ambos os anjos. O bem e o mal sentados lado a lado.
Asas negras, corrompidas, erguiam-se em direção as asas branca, puras, como uma imã que se atraem sem mesmo possuir alguma vontade e mesmo quando as pontas se colidiam, não havia nada... Era apenas o suave toque das penas, uma leve pitada de eletricidade das essências e nada mais.
— O olhei durante todo o tempo, demorando tempo demais para ir e, mesmo assim, me mantendo na pureza.— Minhyun dizia, divagando. — Mas acredito que sempre soube que estive a te olhar.
O silencio tomava conta, não havia palavras que pudessem descrever o momento ou como era doloroso para ambos aquela silenciosa despedida. Os lados era diferentes e as ordens também seriam, as motivações e os momentos. Dificilmente se veriam de agora em diante e ambos entendiam isso sem julgar um ao outro. Não seriam inimigos, os Céus não faziam inimigos, mas também não poderiam ser amigos.
"Não cabe a vocês julgarem." Minhyun se lembrava dessas palavras que um anjo antigo havia lhe sussurrado antes da queda e soube que, mesmo quando no momento não fazia sentido, agora se fazia.
Nunca julgou LongFei. E tinha a certeza de que ele também nunca o julgou por permanecer do lado oposto, era uma decisão individual no final das contas e ambos sabiam claramente disso.
Um último roçar de asas, o toque partindo das mais puras asas brancas enquanto o anjo se erguia e olhava para os Céus, voltaria para a casa. Estava indo para casa depois de um longo tempo e mesmo quando a ansiedade tomava conta de sua essência, a saudade habitava um lugar secreto em sua memoria e por assim ficaria por toda sua eternidade.
— Viva por muito tempo, LongFei.
— Viva por muito tempo, meu eterno companheiro, Minhyun.
As asas de Minhyun bateram apressadamente, o levando cada vez mais para cima e para cima, para casa, para longe de seu amigo. LongFei o olhava do alto do prédio, distanciando-se cada vez mais no lindo céu azul até que não houvesse mais nada a ser visto e mesmo assim, ficou por algum tempo contemplando o vazio deixado por ele.
Notas finais
Até breve;
Ciao, ciao.
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