Escolhas
15 Capítulo 15
Notas iniciais
O meu mundo voltou ao normal quando nossos lábios se repeliram. Uma sensação desconfortável e pesada me atingiu, e tudo parecia exatamente como há três anos e meio: vazio e dolorido. Algo mudou em mim. Senti o meu sangue esquentar, e por um momento achei que fosse esmurrá-lo até que ele saísse do meu quarto, da minha casa, da minha vida, mas então olhei em seus olhos e...
Seus olhos. Como senti falta daqueles olhos. Agora eles pareciam estranhos, mas ainda brilhosos e cheios de expectativa com algo a mais, algo que ainda fazia o meu sangue esquentar, porém não de raiva. Foquei meu olhar no dele, e então tudo começou a ficar embaçado e nublado. Droga. Eu estou chorando.
— Violetta...
Ele disse o meu nome, mas não disse nada depois. Eu estou incapaz de dizer alguma coisa, e creio que se eu disser, chorarei até amanhã de manhã. Melhor ficar quietinha, lágrimas silenciosas são melhores que lágrimas e soluços desesperados e angustiados. Sua mão se ergueu, e eu pensei que ele fosse tocar o meu rosto, mas segundos depois ele recuou e deu dois passos para trás, me olhando perdido e um tanto deslocado.
— Me perdoe, e-eu...
Por que era tão difícil ele terminar uma frase agora? Abracei o meu corpo enquanto assistia ele virar de costas e erguer a cabeça para encarar o teto. Ele é tão bonito, tão grande e elegante, tão seguro e cheio de si, por que agora não falava nada? Por que não me encarava? Por que depois de me beijar, não consegue me tocar? Quando minhas mãos pararam de tremer e eu senti que o meu interior estava mais equilibrado, fui até ele.
— Isso não muda nada. – murmurei quando entrei na sua frente. – Ainda sou a Violetta que não gosta do que você se tornou, e você é o León que namora outra garota, e que – engoli o nó que se formava em minha garganta. – por mais que eu ache que ela é o problema que acabou com nós dois, você gosta dela.
— Você pode estar errada. – murmurou não me olhando nos olhos.
— Ou você pode estar querendo me enxergar como a errada. – peguei a sua mão. – Você não sente o que sentia anos atrás por mim, sente? – perguntei entrelaçando nossos dedos. – Não, não sente. – sorri triste olhando nossas mãos juntas. – Eu sei que não sente, pode parecer estranho, mas eu sinto o que você não sente mais.
Ele não disse nada, e eu não o encarei para tentar enxergar além dos olhos dele, permaneci olhando nossas mãos entrelaçadas, elas tinham um encaixe único, mas agora parecia um gesto tão frio e sem significado.
— Eu deveria estar com tanto ódio de você por ter vindo aqui, por ter me acusado, por não acreditar em mim, mas eu não consigo. – suspirei erguendo minha cabeça para encará-lo. – É tão distinto, quase como se fosse um sonho tudo isso, mas eu sei que quando você sair por aquela porta, tudo vai mudar, já mudou na verdade.
— Eu ainda sou o mesmo. – ele disse baixinho.
— Como? – perguntei surpresa por ele falar.
— Você disse que não gosta do que eu me tornei. – sua voz grave e baixa balançava o meu coração. – Mas eu sou o mesmo, sempre fui. Tudo o que eu sou, tudo o que eu sinto, está tudo aqui, está tudo a mesma coisa.
— Está León? – perguntei sentindo algo queimar em mim. – Você tem certeza que está? – coloquei a outra mão sobre o lado esquerdo do seu peito, sentindo seu coração que batia calmo e controlado. – Pois eu digo que não está.
— Violetta...
— Acabamos de nos beijar. – o cortei. – Foi intenso. – murmurei surpresa comigo mesma de ter confessado aquilo. – Mas então você se afastou, e foi tudo tão – pensei um pouco em quais palavras escolher. – frio e distante. – suspirei. – Não preciso ser tão genial pra saber que você não me ama mais.
— Não é assim, você sabe que eu...
— Eu não sei de nada. – tirei a mão do lado esquerdo do seu peito. – Não sei do que você gosta de fazer nos fins de semana, ou na sexta-feira à tarde, e você acha que eu sei como você se sente? Tudo o que eu sei, é que você não me ama, e que talvez nem goste de mim, só está aqui para resolucionar um c... – ele me interrompeu.
— Você não faz ideia do que eu sinto por você. – ele disse apertando nossas mãos que ainda estavam juntas. – Não faz ideia do quanto eu valorizo nossa história, e tudo que construímos juntos.
— Você conseguiu destruir tudo que construímos. – o olhei decepcionada. – Tudo que um dia já foi real para mim, não existe mais.
— Acabamos de nos beijar, será que isso não basta para mostrar que ainda sinto coisas por você? Que estou confuso? Que eu não me culpo por ter destruído nossa história, mesmo não sabendo exatamente como?
— Não bastou. – neguei. – Não bastou porque por mais caloroso que tenha sido, por mais apaixonado que tenha sido... Você não acredita em mim. E isso fez com que o que veio depois do beijo, ou melhor, o que não veio depois do beijo, me fizesse concluir que, eu não sou tão importante quanto você acha que eu sou não mais.
— O que não veio? Diz o que não veio.
— Foi como se você tivesse levado um banho de água fria. – respondi. – Você me olhou, e então desligou. – soltei nossas mãos. – Você a ama León, ama a mulher que nos destruiu. – falei alto. – E não tente negar isso, não para mim.
— Eu nunca disse que a amava. – ele sussurrou.
— Nunca disse para mim ou para ela? – perguntei franzindo a testa.
— Para as duas.
Recuei um pouco. Isso não queria dizer que ele não a amava, queria?
— Não entendo você e...
— Ela é importante para mim, mas ela nunca substituiu o espaço que você ocupou na minha vida. – ele disse baixo. – Ela foi minha amiga muito antes de ser a minha namorada. Nós construímos algo sólido, uma relação equilibrada, algo em que eu podia e posso me apoiar diariamente.
— E nós não tínhamos isso? – senti meu coração afundar. – Não tínhamos uma relação forte o suficiente? Você não podia se apoiar em mim nas situações ruins, era isso?
— Nós éramos imaturos Violetta.
— Você pode ir embora?
— Você não pode acabar com os seus problemas me mandando embora.
— Sim, eu posso, e eu estou pedindo, não mandando, ainda.
— Não seja infantil.
— Você acha que é fácil ficar ouvindo todos os adjetivos que você atribuiu ao seu relacionamento com a Gery? Pois não é. Você construiu com ela, o que eu achava que havíamos construídos juntos, você construiu com ela, algo que eu quis construir quando o meu mundo virou de ponta cabeça sem você ao meu lado. – falei irritada com lágrimas quentes e desnecessárias escorrendo por minha face.
— Será que você não pode entender o meu lado por um minuto? – se estressou. – Estou aqui por vontade própria, querendo e buscando entender o porquê de nossa história ter acabado.
— Do que adianta eu te dizer o porquê, você não acreditar e correr para os braços da mulher que você ama?
— Para de dizer que eu a amo, quando nem eu sei dos meus próprios sentimentos.
— Mas você a ama! – gritei.
A porta do meu quarto se abriu em um baque muito alto, me fazendo quase pular de susto, pensei que fosse desmaiar quando vi os olhos de meu pai furiosos em direção a mim e o León.
— O que é que... – ele parecia tão irritado que não sabia como falar. – Violetta!
— Ah pai, tudo o que eu não precisava é que o senhor se metesse. – murmurei.
— Me meto sim! Não vou deixar que você derrame mais uma gota de lágrima por esse rapaz! – gritou olhando raivoso para León.
— Ah ótimo, seu pai também me culpa? – León perguntou se virando para mim. – Ah claro, todos me culpam. – disse no tom irônico que eu conheço muito bem e odeio. – Ah, me esqueci de que até os meus amigos me culpam, ou me culparam durante um tempo.
— Pare de agir como um babaca. – pedi sentindo minhas bochechas esquentarem assim como o meu sangue, e dessa vez era raiva.
— Agora além de ser um mentiroso, além de trair a namorada, eu sou um babaca. – ele me olhou com os olhos prontos para a batalha. – É ótimo ser recebido com tantos insultos no lugar onde cresci e vivi por tanto tempo.
— E você esperava que eu o recebesse como? Com chocolates e beijinhos no aeroporto? Não seja tão iludido a esse ponto.
— Não vou mentir, eu imaginei muito essa cena no aeroporto. – disse com a voz pesada. – Assim como imaginei que fosse um pesadelo quando Francesca me disse que eu havia te traído. – seus olhos escureceram. – Queria ter imaginado também quando te vi beijando outro cara, dias depois da minha volta.
— Se você está ficando com outra pessoa, o que tinha de mais eu querer ficar também?
— Você não se toca que eu não queria outra pessoa? – ele perguntou. – Quando você passou a me ignorar, que outra escolha eu tinha?
— Não sei. – dei de ombros. – Podia ter procurado saber de mim, ligado para sua prima, até mesmo para Francesca, mas você não fez isso, você nem correu atrás para saber o que tinha acontecido, você não se importava, e continua não se importando.
— Já chega... Eu não aguento mais isso. – os olhos dele estavam avermelhados, e ele foi andando para trás. – Eu não posso mais.
León esbarrou em minha cadeira e depois na minha estante de livros e em seguida na minha cômoda, e logo estava fora do meu quarto. Não tive reação. Papai me encarava com os olhos em estado de alerta, e meu corpo estava travado no lugar. Tudo parecia em desordem, e eu só queria um pouco de paz.
— Violetta – papai me chamou.
— Me deixe sozinha. – virei de costas. – Não quero conversar.
— Violetta...
— Pai, por favor, vai embora. – minha voz ficou embargada e eu soube que estava prestes a chorar até dormir.
— Eu me preocupo com você.
— Eu sei, mas isso não muda a minha vontade de querer ficar sozinha.
Então ele saiu fechando a porta. Sentei na cama e deixei que as lágrimas viessem. Que redundância absurda. Quando é que chegaria o momento que não ficássemos revivendo todos os acontecimentos sem explicações? Quando é que tudo isso acabaria? É segunda vez que León vem aqui, e é a segunda vez que ele sai e me deixa sem certeza de nada. Será que ele não cansa desses jogos, desses mistérios? Será que ele não percebe que eu estou cansada de discutir, de querer entender.
Eu só quero que termine logo.
Francesca
— Quer que eu te leve em casa? – Diego perguntou enquanto caminhávamos pela rua em direção ao shopping, já havia escurecido, e o tempo em Buenos Aires começava a esfriar, e eu ainda não entendi porque ficamos tanto tempo naquele barzinho.
— Diego, o meu carro está no shopping. – ri. – E o seu também.
— Ah sim, é verdade. – ele sorriu encabulado. – Vi você conversando com o barman.
— Ah, ele é muito gentil. Joseph o nome dele.
— Francesca, eu não sei o que está acontecendo, mas não acha que o Marco...
— Não vamos falar dele tá? O dia está tão agradável.
— Está sofrendo, eu compreendo, mas...
— Diego, por favor, não vamos falar disso. – pedi. – Hoje o dia foi legal e tranquilo, não quero estragá-lo.
— Tudo bem, me desculpe. – ele parecia envergonhado.
— Mas e você hein... – o olhei desconfiada com um sorriso. – Está atirando para todos os lados né? Eu vi você conversando com aquela loira no bar.
— Ah... – ele coçou a nuca com as bochechas avermelhadas. – Ela esbarrou comigo no corredor dos banheiros, e começamos uma conversa, peguei o número dela.
O olhei espantada, ele era rápido.
— Ela que me deu, não fui eu que pedi. – ele riu da minha cara. – Além do mais, eu não quero uma namorada agora.
— Mas e aquela garota que furou com você hoje? Aquela que você ia encontrar?
— Era apenas uma garota. – deu de ombros. – Íamos nos conhecer, mas ela sabe que eu não curto relacionamentos.
— Não curte é? Que pena, a maioria das garotas buscam isso hoje em dia. – ri.
— Acho que não sirvo pra isso.
— Bobagem, é que você não encontrou a mulher certa ainda. – sorri. – Garanto que quando encontrar será como se você estivesse esperando por isso a vida inteira. – suspirei. – E vai ser maravilhoso.
Diego me olhou com um sorriso cheio de graça e eu senti minhas bochechas arderem. Eu certamente viajei um pouco em dizer aquilo, mas às vezes não tenho controle do que sai da minha mente, e uma das coisas que tenho aprendido com a faculdade, é que a mente humana é muito complexa e...
— Ah meu pai... Ah meu pai... – murmurei desesperada.
— O que foi? – Diego me olhou desmanchando o seu sorriso. – Qual o problema?
— Eu me esqueci de fazer um trabalho. – quase chorei. – Complexidade da mente humana, preciso fazer um artigo sobre isso e apresentá-lo aos meus superiores na quinta, e eu não tenho nada, nadinha de nada feito, quão irresponsável sou?
— Nenhum pouco irresponsável. – riu. – Calma, tenho certeza que conseguirá fazer um artigo mais do que ótimo, e conseguirá uma excelente nota.
— Não Diego, eu não vou. – andei mais depressa até o shopping. – Tenho que ler livros, assistir a palestras, fazer pesquisas experimentais, ler outros artigos. – choraminguei. – Vai ser uma tragédia.
— Conheço alguém que pode te ajudar. – ele disse acompanhando os meus passos o mais rápido que conseguia. – O nome dela é Ágata, ela está de passagem pela Argentina, amanhã será um dos seus últimos dias, posso falar com ela, a mesma é formada em psicologia há bastante tempo, tenho certeza que te acrescentará algo.
— Ágata? – perguntei parando de repente.
— Sim, Ágata George, ela escreveu alguns livros e...
— Eu sei quem é Ágata George! – exclamei irradiando. – Tenho três livros dela sobre a complexidade do cérebro humano, comprei hoje na verdade, mas os meus professores falam muito bem dela e... – pensei um pouco. – Como você conhece Ágata George? – perguntei cruzando os braços.
— Digamos que ela é da família... – ele deu um sorrisinho de canto.
— O quê? – arregalei os meus olhos não acreditando. – Mas o nome dela é Ágata George, não... – ele me interrompeu.
— Quando ela casou, pegou o George do marido, mas seu nome é Ágata Dominguez George, irmã de meu pai. – ele riu. – Sorte sua que ela está por aqui, tenho certeza que entrevistar uma grande psicóloga te dará uns pontos a mais neste trabalho.
Por um momento de felicidade total dei uns pulinhos histéricos e em seguida pulei no pescoço de Diego o abraçando. Seria sonho me encontrar com a autora dos livros sobre complexidade humana?!
— Ah, muito, muito obrigada! Você é incrível, me salvou, de verdade! – murmurei me afastando em seguida.
— Seu sorriso está enorme. – riu.
— Ah, eu não me importo, estou feliz, mais do que feliz na verdade, felicíssima!
— Gosto do seu sorriso. – ele riu me olhando nos olhos.
— Você gosta de caçoar de mim. – dei um tapinha em seu braço. – Sério, não sei como te agradecer, por que de verdade, esse gesto foi incrível.
— Você pode me agradecer desabafando sobre o que está acontecendo entre você e Marco, o que acha? – perguntou risonho.
— Você realmente sabe estragar o momento né Diego? – murmurei brava. – Não quero falar de Marco, então não vou falar sobre o Marco. – voltei a andar depressa.
— Calma, Fran, eu estava brincando. – disse correndo atrás de mim. – Olha, vou falar com a minha prima, preciso do seu número de celular, para que ela entre em contato com você. – ele me entregou o celular dele, e eu digitei o meu número lá. – Aí vocês conversam e vejam que dia é melhor para se encontrar.
— Tem certeza que eu não a incomodarei? – perguntei receosa. – Tudo que eu menos quero é estressá-la.
— Não esquenta, Ágata é o exemplo de que um ser humano pode viver bem sendo paciente. Além do mais ela vai adorar te encontrar, tenho certeza que vai se encantar com a sua inteligência, você nasceu para isso Fran.
— Acha mesmo? – perguntei insegura lhe devolvendo o celular.
— Tenho absoluta certeza.
— Obrigada. – suspirei tirando um peso dos meus ombros. – Você é segunda pessoa que acredita em mim, depois da Vilu é claro. – sorri me sentindo melhor com essa constatação. – Obrigada por valorizar o que eu escolhi para viver, é realmente muito bom ouvir alguém dizer isso.
— Tenho minhas dúvidas... Só eu e a Violetta acreditamos que você será a melhor psicóloga que este mundo já conheceu? – ele perguntou sério me fazendo rir. – Tenho certeza que seus pais estão orgulhosos, e que Marco deve estar muito contente.
— Digamos que a profissão que eu quero exercer é um problema para o Marco, e que esse é um dos motivos para nossa relação estar tão desestabilizada. – contei triste. – Mas um dia superaremos.
— Por que é um problema? – ele perguntou tentando entender.
— Não gosto de falar sobre isso, não quero te chatear com os meus problemas. – respondi e antes que ele dissesse alguma coisa, falei em seguida: — Vamos buscar nossos carros depressa, daqui a pouco o shopping fecha e pagaremos uma multa caríssima.
E então continuamos nossa caminhada até o shopping.
Ludmila
— Melanie! – gritei assim que a governanta da minha prima abriu a porta da casa dela. – Melanie! Eu sei que você está em casa! Preciso falar com você!
Oliver, o cachorrinho de Mel veio correndo em minha direção assim que ele ouviu a minha voz, e pulou em mim, e bem, digamos que ele não é um “cachorrinho”, então assim que pulou sobre mim, fui parar no chão como uma tábua caída de alguma construção.
— Oliver! Isso são modos! – Suzi, a governanta disse tirando o cachorro de cima de mim.
— Quando foi que você cresceu tanto?! – perguntei chocada com o tamanho daquele cachorro. – O que você anda dando pra ele comer? Fermento?
— É da raça senhorita. – Suzi riu. – Ouvi dizer que eles crescem ainda mais.
— Deus nos proteja de seus ataques então. – murmurei acariciando a cabecinha de Oliver. – Você está muito sem educação, mocinho, se quiser que eu venha visitar mais vezes, nada de pulos exagerados, estamos entendidos? – perguntei e ele lambeu a minha mão. – Lamber também não é nada educado, sinto dizer. – falei tirando um lencinho de minha bolsa.
— Vou chamar Melanie, senhorita. – Suzi disse com um sorriso. – Creio que ela não te ouviu chegar porque está no quarto.
Assenti e me sentei no sofá. Oliver deitou aos meus pés e eu cruzei os braços. Esse cachorro é muito folgado, nunca vi igual, sempre que venho visitar Melanie, ele insiste em ficar o tempo todo me perseguindo, e toda vez que a visito saio com muitos pelos em minhas roupas. Uma tragédia.
— Ludmila! – Melanie disse descendo as escadas como uma louca. – Quanto tempo que não nos vemos.
— Não faz tanto tempo assim. – torci o nariz.
— Sua última visita foi no mês passado. – ela disse cruzando os braços.
— Ah, ok, faz bastante tempo. – dei um sorriso constrangido. – Isso explica como Oliver cresceu tanto e tão pouco tempo.
— Ele é um Golden, cresce a cada minuto. – ela riu. – Mas me diz... A que devo a honra de sua ilustre visita?
— Fernando está em casa? – perguntei baixinho.
— Não, ele viajou para fazer aquele curso sobre carros sabe? Porque ele insiste dizer se estudar um pouquinho mais sobre peças e motores, ele trabalhará melhor que um mecânico. – Melanie revirou os olhos e eu dei risada. – Não sei por que ele odeia tanto mecânicos. – resmungou.
— Ótimo. – me joguei no sofá. – Tenho que te contar algo, algo extremamente bom, e algo extremamente ruim. O que você quer saber primeiro? – cruzei as pernas e joguei o cabelo para trás.
— A extremamente ruim, é claro.
— Primeiramente, antes de contar a notícia ruim, queria dizer que a minha vida é mais dramática do que novela mexicana, segundo, eu estou a ponto de realmente achar que estou em uma novela mexicana.
— Acho que você sempre esteve em uma, aquelas que são bem clichês, sabe? – disse zoando com a minha cara e eu tive que rir.
— Ah Mel, Federico está noivo. – contei assim que parei de rir e ela me olhou chocada. – Uma mulher chamada Nina, ela é linda, ruiva, olhos verdes, sardas e parece ser um amor de pessoa. – sorri. – Estou realmente feliz por ele, mas uma parte de mim ainda não o esqueceu, por mais que faça tanto tempo, por mais que tenha acabado de forma mais inusitada, estranha e ilógica. – suspirei. – Ele foi muito importante para mim, você sabe disso. Foi o único cara que eu apresentei aos meus pais, foi o único cara que eu realmente conheci os pais, nosso namoro era tão certo quanto respirar, e do nada, acabou.
— Lembro-me do quanto você sofreu, e o tanto que se confundiu com Diego, e depois sofreu novamente com aquele amor obsessivo. – ela pegou a minha mão. – Mas se o Federico vai casar, é porque ele encontrou fortes razões para isso, e que está na hora de você conhecer outro cara para sua família conhecer também, e que o amor de vocês se torne tão certo quanto respirar.
Bem eu também espero.
— Agora a notícia extremamente boa.
— Conte-me. – abriu um sorriso ainda segurando a minha mão.
— Miguel está vindo para Buenos Aires. – abri um sorriso maior do que cabia em meu rosto.
— Ludmila! Achei que você estava sofrendo mais do que o necessário pelo noivado do Federico! E agora a senhorita vem falar de Miguel? Sou muito tonta mesmo. – ela disse com uma indignação divertida, e eu ri.
Não se pode chorar pra sempre, né? A vida continua.
— Mel, se lembra de que nós nos conhecemos na África né? Ele ajuda crianças órfãs e protege outras da fome e solidão.
— Sim, me lembro.
— Então, semana passada, ele entrou em contato comigo, dizendo que a vida dele tinha mudado no instante em que eu apareci, e que ele estava louco para me reencontrar.
— Acho que você acabou de encontrar o amor que tão certo quando respirar. – Melanie torceu o nariz e eu gargalhei.
— Ah Mel, eu não sei... – dei um sorriso. – Mas eu realmente estou criando expectativas sabe? Ele foi o único cara que eu não dei muita esperança sabe, só demos um beijo, um único beijo, e foi especial querendo ou não. Estou animadíssima.
— Estou vendo. – ela murmurou com um sorriso. – Só cuidado para não se machucar tá bom? Seu coração é muito precioso, não o entregue de bandeja para qualquer um.
— Não é qualquer um, é o Miguel. – tentei argumentar.
— Eu sei, eu sei. – apertou a minha mão. – Eu só não quero que você acabe com o coração partido mais uma vez. Seja firme, aprenda a dizer não, aprenda a dizer que não está confortável, ou que não se sente bem com determinadas atitudes, aprenda a impor suas vontades, mas sem ser rude, me entende? Não quero que as coisas cheguem ao ponto que chegaram com Diego, Ludmila. Ele poderia ter te machucado fisicamente, não só emocionalmente como ele fez.
— Compreendo, mas não acho que irá acontecer, não com Miguel. – dei um sorriso e ela pareceu ceder.
— Está bem, só preste atenção. – sorriu. – Tive uma ideia, o que acha de ficar aqui está noite? Podemos comprar pizzas, fazer brigadeiro, e até comer sorvete. E Fernando comprou umas tortas de maçãs antes de viajar, estão na geladeira. O que acha?
— Não sei, está tarde, e eu não avisei meus pais.
— Bobagem, eles irão entender, além do mais, já está tarde, é perigoso você sair por aí.
— Melanie, eu moro duas quadras daqui. – ri.
— Mesmo assim, as ruas estão perigosas, assaltaram a minha vizinha semana passada, acredita? E também o seu Zé, aquele padeiro, disse que... – a interrompi.
— Você não quer ficar aqui sozinha né?
— Não. – fez uma carinha triste. – Odeio quando o Fernando viaja, e por mais agradável que Suzi seja, me sinto bastante solitária.
— Ai como a minha priminha é uma pessoa carente. – a abracei. – É claro que eu fico. – sorri. – Mas vamos ter que fazer beijinho também, e torta de maçã com sorvete é uma delícia, já provou?
— Ainda não. – ela riu.
— Você vai amar. – ri.
— Obrigada por ficar.
— Como eu recusaria?
León
“Baby, onde você está?” – Gery.
“León Vargas, peço que retorne imediatamente as minhas ligações.” – Gery.
“Oi. Tudo bem? Como foi com a Vilu?” – Francesca.
“Eu juro pra você, que a minha paciência está acabando.” – Gery.
“Mais uma hora sem me responder e você pode se considerar solteiro”. – Gery,
“León, por favor, vem logo para casa. Estou tão preocupada. Eu te amo”. – Gery.
Essa era a minha caixa de mensagens. Não respondi Gery, não estava com cabeça para isso e muito menos para voltar para casa. Também não respondi Francesca, tudo o que eu menos queria era ter que falar sobre a Violetta e sobre o que conversamos.
Eu estou em frente a minha casa. A minha verdadeira casa. Ainda não toquei a campainha. Na verdade estou tomando coragem para entrar, e sinto que quando o fizer, não vou querer sair nunca mais.
Aproximei-me da campainha, respirei fundo e a toquei. O mesmo som de anos se fez. Ding dong. Sorri. Não sei por que não vim aqui antes, aqui é o meu lar, a minha casa, o lugar que eu cresci e que aprendi. O lugar onde eu fui feliz, realmente feliz.
— León? – Rosa, a governanta, sorriu ao abrir a porta para mim. – Quanto tempo querido, entre. – disse me dando espaço para passar e eu sorri um pouco sem graça. Seria possível ter perdido o conforto que eu tinha com as pessoas que moravam e trabalhavam na minha própria casa?
Entrei, e me deparei com o piano branco. Lembro-me de como o papai não gostava a princípio, que eu o tocasse, porque ele achava que música, não era profissão para uma família que tinha grande parte da linhagem voltada a medicina, me lembro de como foi difícil para ele aceitar, mas valeu cada esforço que eu tive para convencê-lo.
— Minha mãe, está em casa? – perguntei estranhando o silêncio que estava aquele lugar, não costumava ser assim antes.
— Creio que está no quarto cuidando de seu pai. – Rosa sorriu. – Quer que eu a chame?
— Cuidando de meu pai? – perguntei estranhando e ignorando sua pergunta.
— Sim, ajudando com toda a medicação. – sorriu. – Espere um segundo que vou chamá-la. – Rosa disse saindo da sala em instantes.
Sentei-me no sofá e aguardei. A casa parecia maior, e mamãe tinha pintado todas as paredes de branco, tirando a cor da parede azul que Melanie achava tão bonita quando éramos pequenos. Olhei para a parede oposta, e vi o quadro de nossa família. Tudo parecia distante daquela imagem, é como se nós quatro juntos, não existisse de fato.
— Querido, desculpe a demora. – mamãe apareceu na sala depois de exatos quinze minutos. – A que devo a sua visita a seu antigo lar? – perguntou vindo me abraçar. – Estava morrendo de saudades. – sussurrou e logo se afastou.
— Também estou. – murmurei dando um sorriso.
— Então... – ela se sentou e indicou que eu me sentasse novamente. – O que faz aqui? – perguntou olhando bem para os meus olhos. – Te conheço bem para saber que está com problemas, seus olhos estão vibrantes e angustiados. – suspirou pegando a minha mão. – O que houve?
— Antes de falar por que estou aqui... – cocei a nuca, envergonhado, por ela me conhecer tão vem. – O que aconteceu com meu pai? – perguntei e ela soltou minha mão. – Rose me disse que você o estava medicando, o que houve?
— Apenas um mal-estar. – ela disse sucintamente, forçando um sorriso.
— Mãe, o que houve? – perguntei novamente, num tom mais grave rude e ela revirou os olhos.
— Seu pai anda tendo um cansaço esquisito. – contou. – Ele está respirando com um pouco de dificuldade, desconfio ser algum problema no coração, mas ele se recusa a fazer um exame que se aprofunde no assunto. – pigarreou. – E eu não posso forçá-lo, ou eu mesma fazer algum exame, não sou cardiologista. – suspirou. – Ele diz que vai ficar tudo bem, que é só stress.
— Ele não está aposentado?
— Sim. – sorriu. – Seu pai se aposentou mais cedo por conta do joelho dele, ele não aguentaria mais trabalhar tendo que operar o joelho a cada três anos, mas mesmo assim, ele é um homem bastante saudável de quarenta e seis anos, não tem porque esse cansaço terrível. – olhou para as próprias mãos. – Você o conhece, sabe como ele é orgulhoso, então estou buscando alternativas que o façam procurar um especialista.
— Posso conversar com ele. – me pronunciei.
— Sim, sim, é claro que pode. – sorriu. – Não contei nada para Melanie, mas se ele não melhorar daqui dois dias, terei que recorrer a ela.
— Entendo. – falei. – Ele está acordado.
— Não, está dopado na verdade. – riu. – Dei a ele um remédio para dor de cabeça e ele apagou enquanto eu lhe contava sobre o neném que eu estou observando que nasceu de seis meses. – franziu a testa. – Mas o que te trás aqui? Saudades de casa, eu sei que não é.
— Claro que estou com saudades mãe. – sorri. – Acho que só preciso conversar, gostaria de ir até Melanie, mas não é a mesma coisa agora que ela casou.
— Bobagem, sua irmã continua a mesma. – riu. – Acredita que semana passada ela queimou uma panela e manchou todas as camisas sociais brancas do Fernando? – minha mãe me contou e eu não pude deixar de rir. – Eu estou certa de que a ensinei lavar roupa, e separar por cor, mas acho que ela não aprendeu muito bem.
— Pensei que ela tivesse alguém para ajudá-la nos deveres de casa.
— E ela tem, mas Suzi precisou adiantar as férias, e bem, sua irmã é uma péssima dona de casa. – riu. – Mas e você, continua o mesmo? Porque tenho certeza que o León de antes sairia correndo atrás da irmã mais velha para pedir conselhos e não recorrer à mãe que não entende nada sobre a juventude de hoje.
— Mãe – suspirei. – Eu preciso conversar.
Ela ficou séria, e sua postura mudou de repente.
— Aconteceu algo grave? Você não parece bem...
— Não me sinto mais como antes, eu mudei tanto assim?
— Por que me pergunta isso? – ela franziu a testa. – Você mudou e todos nós mudamos, a mudança é necessária e contínua. Mas ainda não entendi porque isto está lhe incomodando.
— Hoje estive com Violetta e...
— Ah claro. – ela riu me interrompendo. – Estamos como no início? Outra vez tudo gira em torno de Violetta? – perguntou pegando novamente minha mão. – Pensei que o relacionamento de vocês houvesse acabado de vez, depois dos rumores de sua traição.
— A senhora sabe que eu seria incapaz de tal coisa, não sabe?
— É claro que eu sei querido. – sorriu. – Você é a pessoa mais íntegra e honrada que eu conheço nesse mundo. – disse. – Sei que nesse mundo que você vive hoje, muitos rumores surgem, mentiras e acusações são comuns. Mas eu estou tão orgulhosa por você ter se tornado o que se tornou.
— Então por que eu não me sinto? Por que não me sinto satisfeito? Ao contrário, me sinto perdido, deslocado, não me sinto eu.
— Está cansado de tudo isso não está? – perguntou e eu assenti. – Mas você está cansado de sua carreira, ou isso tem haver com seu relacionamento com a modelo e a conversa que teve hoje com Violetta?
— O nome dela é Gery mãe.
— Tanto faz – deu de ombros. – Você não a ama, vejo em seus olhos que o que sente por ela não é nada mais do que gratidão. – sorriu. – Sei quando você está gostando realmente de alguém León, e posso te garantir que só vi você amar de verdade, quando estava com a Violetta. – respirou fundo. – Ela é uma jovem encantadora, e tem o seu coração, por mais que você negue, eu sei que você sempre esteve nas mãos dela, meu anjo.
— A senhora fala como se eu fosse completamente submisso a Violetta.
— E não é? – ergueu uma sobrancelha. – Você é submisso ao amor que sente por ela, desde que a conheceu você está aos pés dela. – riu.
— Mãe, não distorça as coisas.
— Não estou distorcendo, você que não quer acreditar. – se levantou. – Volte para sua, hm, como é mesmo o nome dela... – sussurrou. – Meri! Volta para a sua Meri e diga o que você está sentindo, sei que ela não é mulher para você, coração de mãe não se engana.
— O nome dela é Gery. – ri desolado.
— Que seja. – deu de ombros outra vez. – Seja lá o que esteja passando com você, vai se resolver. – me deu um beijo na testa. – E Violetta um dia vai perceber que o melhor pra ela, é você.
— Esse não é centro do meu problema mamãe.
— Mas pode ser a solução. – seus olhos piscaram alegres.
— Acho difícil.
— Você é tão dramático, não sei a quem puxou. – colocou as mãos na cintura. – Volte para sua modelo, e diga que está cansado, que quer um tempo de todo esse mundo, que quer voltar a sua vida normal, que quer se reencontrar, e se ela não o apoiar, é porque não te merece.
— Tudo bem. – suspirei derrotado, era quase impossível ter uma conversa com a minha mãe sem que ela envolvesse minhas namoradas, ou no caso ex.
— Você pode estar me achando tola, mas eu sei o que é bom pra você, eu sempre sei.
Francesca
— Francesca.
Franzi a testa ao chegar a casa e dar de cara com Marco sentado no sofá, com a minha mãe lhe servindo café e biscoitos. Olhei para a mamãe e ela sorria para mim com graça, como se tudo estivesse perfeitamente normal.
— O que você está fazendo aqui? – perguntei não saindo de perto da porta.
— Francesca, isso é jeito de tratar s... – a cortei.
— Mamãe, por favor, me deixe conversar com ele em particular.
— Fran...
— Mamãe, agora.
Ouvi um suspiro sair dela e em seguida se retirou, deixando a bandeja de biscoitos sobre a mesinha de centro. Marco se levantou, já que percebeu que eu não estava muito a fim de sentar ao lado dele no sofá e bancar a namorada contente com a presença do namorado na casa dos pais.
— Entendo que esteja zangada porque não pude comparecer ao seu encontro no shopping, mas como eu disse, tive uma reunião, e tinha pensado que você houvesse compreendido.
— Pare. – murmurei cansada me encostando a porta. – Por favor, apenas pare com esse tom tão formal e esse jeito tão automático.
— Não entendo.
— Olhe pra você – murmurei. – eu sei que está feliz com o homem que se tornou, com tudo que está conquistando, mas olhe para você.
— O que tem?
— Quando foi à última vez que você usou bermuda e regata? – senti os meus olhos acumularem lágrimas. – Quando foi à última vez que você se sentou em frente a uma televisão e assistiu a algum programa fútil, ou até mesmo ao jogo de futebol?
— Essas coisas não são mais importantes, nunca foram.
— Está bem. – sequei uma lágrima que ousou cair de meus olhos. – Quando foi à última vez que você me levou ao cinema? Ou a um restaurante? Quando foi a ultima vez que você se sentou no sofá comigo e perguntou como foi o meu dia, como eu tenho ido à faculdade?
— Estou aqui, podemos fazer isso agora. – ele se aproximou em passos lentos.
— Eu não quero que você faça só porque eu falei. – olhei nos olhos dele. – Marco – senti que estava à beira das lágrimas, mas não poderia deixar de falar. – Eu sinto a sua falta – minha voz saiu como um sussurro trêmulo. – você não sabe como eu sinto a sua falta, não tem ideia.
Quando me dei conta, ele já estava perto, já estava na minha frente. Seus braços me envolveram, seus lábios tocaram os meus, e eu não tinha percebido que eu queria beijá-lo até o estar beijando de fato. Passei meus braços ao redor de seu pescoço e me permiti deixar todas as emoções fluírem, e quando menos percebi, eu estava chorando.
— Talvez, antes de fazer amor, nós precisássemos de um tempo para secar todas essas lágrimas. – disse divertido passando a mão por minhas bochechas, e eu não tive como não sorrir. – Eu te amo. – sussurrou com os lábios próximos outra vez, com as mãos em minhas costas, mas precisamente nos botões do meu vestido.
— De verdade? – perguntei.
— Com todo o meu coração.
E quando ele me levou para o quarto, quando tirou o meu vestido, quando me beijou de novo e de novo, eu realmente acreditei. E talvez acreditar, tenha sido o pior de todos os meus erros.
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