*Near*

Ele entrou no quarto. Exatamente a pessoa que eu mais queria ver no mundo.

–Cadê o BB? Foi degolar alguns alunos?

–Ele só foi dar um volta. – Respondi. Não queria perder tempo. Queria ir direto ao assunto.

*Mello*

Isso vai ser mais difícil do que pensei. Ele começou a enrolar com os dedos os lindos cabelos brancos cacheados, exatamente como faz quando fica nervoso. Não ajudou em nada.

–Near, vou dizer isso de uma vez,então presta atenção. Eu não entendo o que está acontecendo... Estou confuso... Na verdade nem sei direito o que te dizer,mas...Só queria te fazer uma pergunta : é possível estar perdidamente apaixonado por duas pessoas ?

Tive a impressão de dizer esta última parte muito rápido. Só espero que ele tenha entendido. Agora o quarto estava iluminado por um pequeno abajur,de modo que Near vê minha lágrimas, que caem antes que eu possa limpá-las rapidamente com as costas da mão.

*Near*

Chorando? CHORANDO? Isso não faz sentido. Mello, sempre tão forte,tão corajoso. Eu não podia acreditar no que tinha visto.

–Sim. Eu acho que é possível.

No segundo seguinte, ainda sentado,me virei de costas para Mello. Não queria ter que encará-lo.

–Era essa a resposta que eu queria ouvir.

*Mello*

Um impulso. Não consegui ignorar. Me levantei e fui até a sua cama. Até de costas ele é fofo.Coloquei minhas mãos em sua cintura por baixo da blusa de pijama. Como ele era quente.

–Me-mello!Para com isso!

Aquela voz infantil,mas firme.Eu adorava.

–Algum problema, Near?

Disse isso bem devagar.Bem pertinho dele.Minha voz estava um pouco doce demais.Acho que isso só deixou ele mais nervoso.

–E-eu não con-consi...consigo...não....Mello...pa-para...

Seu rosto estava muito vermelho. Apesar do que dizia,não demonstrava a menor tentativa de resistência. Muito pelo contrário: eu passava minhas mãos pelo seu tórax,seu pescoço,seu rosto e de volta a sua cintura. Ele é tão pequeno e frágil. Tenho medo de machucá-lo.

Coloco Near no meu colo. Uma mão em seu pescoço e outra na parte de baixo de suas coxas. Como se estivesse embalando um bebê. Ele parecia a vontade e, ao mesmo tempo,extremamente desconfortável. Tinha certeza que Near queria me dizer alguma coisa. Eu o deitei de costas,como se estivesse colocando-o em um berço. Me aproximei prendendo levemente seus pulsos com minhas mãos e olhando bem fundo em seus olhos.

*Near*

Para. Não. Para agora. É claro que não. Estou indeciso. Com o Mello em cima de mim daquele jeito eu mal conseguia pensar. Minhas mãos tremiam. Mas aquilo tinha que parar.

–Mello,vo-você não acha que talvez a gente deveria... – Não consegui terminar a frase.Ele não parava de sorrir. Aquilo estava me deixando louco.

–Eu não vou fazer nada que você não quiser,Near. – Ele fez de novo. Disse meu nome daquela forma lenta e linda. Droga.

– T-ta. – Respondi com a voz trêmula. Concentração Near,concentração. Apesar da minha constante relutância, a única coisa em que em pensava,que sentia e desejava, era a sensação das mãos de Mello. Ele me observava,esperando uma resposta. Mesmo falando aquelas coisas,seus olhos me diziam que não aceitaria um não. E eu não queria dizer não. Mello parecia relaxado. Poderia passar a noite ali,só me observando.

Sorri e levantei minha cabeça até encostar meus lábios nos dele.

*Mello*

.....O que é isso...Near...Eu que estava no controle da situação...Por que meus olhos se arregalavam enquanto ele me beijava?... Era irresistível...Um tilintar de correntes. Near gostava mais de brinquedos do que eu pensava. Envolveu rapidamente meus pulsos e acabou me machucando.

–Ahn,Near,doeu.

–Desculpa,é que você está muito tenso.

No momento em que nossos lábios se tocaram novamente,eu senti como se estivesse provando o chocolate mais doce do mundo.

(...)

Ok,é oficial. Estou apaixonado pelos dois. Matt,tão intenso. Near,tão delicado. E eu,Mello,um completo idiota. Como eu ia explicar que tinha ficado com os dois? Droga,droga! Parei no corredor,com a última pessoa que eu queria ver bem na minha frente.

–Preocupado,Mello?-disse BB.

–Não,por que estaria?

–Não sei mas,se eu fosse você,estaria pelo menos envergonhado.

Meu rosto esquentou. Como eu o odiava.

–BB,não faço a menor ideia do que você está falando.

–A sua camiseta rasgada,o cheiro de baseado,a marca de correntes em seus pulsos e a mistura de fios brancos e vermelhos em seu pescoço diz o contrário.

Me ferrei. Geniozinho maldito. Nem me dei ao trabalho de responder. Corri direto para o banheiro e olhei para o espelho.Ele estava certo: minha calça rasgada em vários pontos,aranhões pelo corpo todo e meus fios loiros descabelados. Nunca tinha me visto naquele estado. Me arrumei da melhor forma que pude,troquei de roupa e fui correndo procurar o Matt. Tinha decidido conversar com ele primeiro.

–WATARI! – Disse assim que invadi sua sala. Tinha estado poucas vezes ali,mas sempre me entediava com o excesso de livros nas prateleiras que decoravam as paredes.

–Olha,Mello...

–O SENHOR JÁ CHAMOU O MATT FAZ QUATRO HORAS! ONDE ELE ESTÁ?

–Ele se foi Mello. Fui conversar com Matt sobre um assunto confidencial e mandei que ele voltasse ao quarto. Cinco minutos depois,entrou na minha sala chorando e disse que queria ir embora Então o deixei partir.

–VOCÊ DEIXOU UM MENINO DE TREZE ANOS IR EMBORA SOZINHO?VOCÊ É LOUCO?

–Eu não sou pai dele, Mello. Matt é livre pra fazer o que bem entender.

Tinha vontade de matá-lo. Nem sabia o que realmente eu estava sentindo naquele momento. Saí da sala e corri o mais rápido que pude. Eu respirava cada vez mais lentamente enquanto a verdade desabava sobre mim : Matt tinha visto. Ele me viu com Near, viu quando nos beijamos. Sem perceber, entrei com tudo no quarto e me atirei na cama,com o rosto enterrado no travesseiro. Sentia raiva. Raiva de mim mesmo. Levantei a cabeça. Near estava encolhido no canto de sua cama,enrolado em um cobertor com apenas sua cabeça a mostra. Seus olhos estavam muito vermelhos: estava chorando.

– Você já soube? – Perguntei a ele.

Near apenas balançou a cabeça; afirmando.