Esclarecendo
1 Motivos
Notas iniciais
Quem diria? Quem realmente diria? Jorge havia acabado de beijá-la. Em nome de tudo que era sagrado! Se houvesse acontecido há um tempo, tinha certeza que o coração estaria disparado ainda mais forte, e que provavelmente seria a pessoa mais feliz do mundo. Mas, não. O coração estava realmente disparado pela surpresa. E era só. Ela ainda estava esperando os joelhos tremerem, estava esperando o arrepio na pele e a falta de ar. Mas, não veio. E ela percebeu por que. Não era o mesmo gosto! Não era intenso, nem... suculento! E pelos céus, isso era lá hora de pensar em Ernesto?? Mas, ele veio de súbito em seus pensamentos.
“Um motivo, estou lhe dando um motivo para voltar!”
Um beijo era um motivo?
— Ema... se eu te amasse menos, eu seria capaz de falar mais. Mas, meu amor é esse. E minhas palavras essas. – a voz de Jorge a despertou. Ela se apercebeu de onde estava.
Afastou-se dele assoberbada.
— Não devia ter feito isso Jorge. Não devia! – disse, os olhos marejados. A confusão em seu peito.
— Perdoe-me! Perdoe-me, Ema! Foi mais forte que eu. Era um desejo que a muito eu tinha e que não pude mais calar...
— Mas, não está certo! Esta não é a hora de ceder a seus desejos e rompantes. Existe Amélia! – ela lembrou. – Deve respeito a ela.
— Perdoe-me – ele pediu novamente. – Não quis desrespeitá-la nem a você. Apenas... Não suportei vê-la desta maneira. Pensando em atitudes que não deve pensar. Porque acho que está pensando errado. Sacrificar sua felicidade num casamento sem amor, por interesse ou convenções. Acho que não é por aí que sua cabeça deve ir, principalmente se está pensando em se unir a um homem que nem ao menos conhece.
— E o que você sugere que eu faça? Diga-me? – perguntou-lhe inquisitivamente. Jorge não podia tentar brincar com seus sentimentos. Fora ele que desistira dela, para agora está falando de amor. – O que sugere?
— E-eu... Ema! – ele suspirou, parecendo tomar coragem. – Sei que existe Amélia! Mas, por você... Ah Ema por você...
— Não, Jorge... Não. Eu não poderia fazer isso, casar por interesse com alguém que eu amo. — disse-lhe ela. – Com que cara eu lhe olharia? Quando o único motivo que fez unir-me a você foi o interesse?
Ela o viu engolir a seco.
— Você acabou de dizer que me ama! Como poderia ser apenas por interesse? – perguntou ele, a decepção em sua voz pelas palavras dela.
— Porque se não fosse pelo interesse em salvar minha família nunca chegaríamos a tal ponto. Porque eu realmente o amo... como um amigo! – ela foi categórica, pois agora finalmente entendia. – E você tem Amélia.
Jorge fechou os olhos sentindo algo atravessar seu peito.
— Se eu tivesse feito diferente no passado. – disse ele. – Se tivesse sido sincero quando você descobriu do diário.
— Mas não foi! Mais uma vez você não foi sincero comigo. São as consequências de nossas escolhas. Desde ali, muita coisa mudou!
— Está falando de Ernesto?
O coração de Ema deu um salto involuntário.
— Estou falando de mim! – disse altiva. – Dos meus sentimentos. E dos meus deveres. E de sua moral Jorge. Não me diga mais essas coisas. Porque eu não aceito tal declaração. Pois jamais seria capaz de perdoar-lhe se voltasse a fazê-lo, você traiu seus próprios sentimentos e com isso feriu os meus no passado. Não me relembre isso. E não pode fazer a mesma coisa com Amélia agora!
— Ema...
— Quero manter nossa amizade. Ela é muito importante para mim. E sinto que precisarei mais do que nunca de um amigo...
— Sempre terá em mim um amigo! – disse ele, os olhos marejados, a dor da culpa e do arrependimento incrustado neles.
— É o que me basta.
Ela não podia sequer pensar na possibilidade. Casar-se com Jorge estragaria tudo. Estragaria a única coisa que a unia a ele. A bela amizade de anos. Seria mais cômodo, mais fácil, porém depois seria terrível. Porque Ema falara que o amor é balela, provavelmente era, mas não queria dizer que ele não existia. Não queria dizer que ele não se transformava em saudade e quando isso acontecia, o amor ardia dolorosamente. Ela sabia disso, por mais que não quisesse admitir. Ernesto lhe vir a mente na hora do beijo de Jorge lhe provava isso. Seria assim a cada dia de sua vida. A cada momento em que o coração disparasse, seja por susto, surpresa, felicidade ou tristeza. Cada vez que seu coração disparasse ele viria a sua memória. E não poderia colocar em xeque sua amizade com Jorge desse jeito.
Seus pensamentos foram interrompidos pelas batidas na porta. Era um mensageiro. Uma carta para Jorge. Amélia estava no hospital. Ela o viu empalidecer. Viu a culpa ainda mais forte em seus olhos. E apesar do coração dela preocupar-se com Amélia, sentiu-se aliviar. Tomara a decisão certa. Ela não precisava de Jorge, não mais que Amélia.
Jorge saiu em disparada para São Paulo. E a vontade dela fora seguir com ele. Tomar a direção do cortiço, esquecer os últimos dias no Vale. Esquecer-se de seu pai lhe dizendo que deveria casar-se com um homem que tirasse sua família da penúria. E correr para os braços do único homem que de verdade queria.
Voltou para o quarto, largou-se na cama, as lágrimas molhando a face.
Um beijo era um motivo? Um motivo para voltar! Se a voz de Aurélio não fosse constante em sua mente, com certeza era um motivo! Mas, ela não podia. Por tantos mais motivos não podia. Não podia ser egoísta e não pensar em sua família. Prometera a sua mãe. Cumpriria sua promessa.
E no fim estava certa: O amor acaba em sofrimento!
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