Escassez da Vida Humana
2 Quatro Almas Desperdiçadas
Notas iniciais
Este cheiro é delicioso! A mãe está a fazer o jantar e o pai está a sorrir com aquele ar que os adolescentes fazem — o olhar de apaixonado — enquanto vê a mãe cozinhar. Acho que está mesmo apanhadinho pelos olhos cor-de-avelã da mãe. Mãe, és tão bela!
– Maya, vai à tua mochila e chega-me aquelas folhas que apanhas-te, por favor. Vão servir para fazer um ótimo tempero!
– Sim, mãe. — corri para ir buscar a mochila que estava encostado à proteção de madeira que eu e o pai estivemos a construir. Um walker atrevido encontrava-se com o braço direito, quase desfeito, e a cabeça, visivelmente podre, a trespassar pela cerca. Agarrei na mochila rapidamente, tirei as folhas que a mãe tinha pedido e tirei a minha arma: uma chaves de fenda comprida e aguçada. Olhei para trás e perguntei — Paaaai, posso matar este? — e sorri com aquele olhar angelical de uma criança de 10 anos.
– Claro que...
– Não! Claro que não! Maya, por favor, já lavaste as mãos para jantar! Não devemos desperdiçar água... — a minha mãe tinha acabado de atropelar a permissão do meu pai. Ai ai... Eu com 17 anos completos e tenho problemas com a minha mãe sobre lavar as mãos. Isto é um apocaliplse, mãe... Depois de resmungar mentalmente, entrego as folhas e sento-me ao pé da fogueira a ver o coelho a ser cozinhado.
O jantar tinha sido devorado e o pai disse que era hora de descansar os olhos. Depois de me deitar em cima de um cartão velho que estava perdido por aqui e cobrir-me com um bocado de pano que tinha exatamente as minhas medidas, fechei os olhos e tentei dormir. Antes de adormecer, assim como todas as noites, relembro os momentos obscuros de um ano de luta contra a morte. É realmente triste ver como o mundo se encontra agora e como a vida de uma pessoa escorrega do corpo rapidamente. Lembro-me de todas as pessoas que vi morrer. Aqueles gritos de desespero e de dor, a morte óbvia, o cheiro a morto e a sangue... Tudo isto está guardado num cantinho do meu cérebro e todas as noites parece que estas memórias gostam de sair e passear pelos meus pensamentos. Por entre estas memórias horríveis, finalmente adormeci.
A minha mãe chamava o meu nome enquanto me balançava, para que eu acordasse. Era de manhã cedo e era possível ainda ver nascer o mesmo sol que se tinha posto nas colinas. Era hora de partir para Atlanta pois o pai queria chegar lá o mais rápido possível. Depois de abrir os portões, consegui matar três walkers com alguma habilidade. O truque era simples: como o corpo deles está podre, é facil desfazê-lo. Depois de um pontapé forte no joelho, a perna é facilmente partida e o morto cai. Nessa altura é mais fácil furar o crãnio deles. Fantástico, não é?! Dito isto, o meu número subiu para 71. Estou mais perto do meu centésimo walker! Os meus pais também tinham eliminado uns quantos bichos, o meu pai com uma pistole e a minha mãe com uma faca de cozinha. Os dois são tão adoráveis juntos!
Percorremos as ruas de North Carolina durante algumas horas. Tentamos deviar de alguns walkers que andavam a vaguear por ali mas outros eram realmente persistentes! Eu e a minha mãe tinhamos de tratar deles porque a arma do meu pai era realmente barulhenta e iria atrair atenção. À saída de North Carolina só tinha um pequeno parque infantil, abandonado à imenso tempo e gasto, de um lado e um edifício dos bombeiros do outro, também vazio e com mau aspeto. No momento em que estavamos a passar o parque o alarme da sede dos bombeiros dispara, fazendo ressoar o som por toda a cidade. Cum caneco! Aquilo ía atrair todos os walkers das redondezas! O medo voltou à minha consciência e comecei a pensar no que podiamos fazer para sair dali. Antes mesmo de alguém reagir, quatro pessoas, dois homens e duas mulheres, saiem do edifício e dão de caras connosco.
– Venham! Temos de sair daqui! — disse o homem com barba e um chapéu rosa com um boneco da Hello Kitty, típico das meninas pequenas, que nos agarrava e puxava para a entrada do pinhal que se encontrava já fora de North Carolina. Após correr durante uns minutos, estavamos num pequeno acampamento.
– Aqui estamos seguros. Fomos nós que o construímos. — dizia a rapariga de cabelo muito curto e ruivo enquanto apontava para o acampamento e para a proteção de madeira e metal, à sua volta.
– Porque dispararam o alarme? — perguntava o meu pai com um ar sério. Só o vejo assim quando está a analisar pessoas. Acho que ele faz isso para testar a confiança deles.
– Para este acampamento ficar seguro. As aberrações seguem o barulho daquele lado e nós, deste lado, ficamos a salvo. Ainda que este sítio seja resistente, mais vale prevenir que remediar! — dizia novamente o homem barbudo. Sempre que o ouvia falar dava uma risada por causa do chapéu dele.
– Juntem-se a nós. Mas terão que nos ajudar a fortificar o lugar. — o outro homem falou e falava enquanto olhava para baixo. Estava de óculos de sol escuros e parecia apoiar-se num pedaço de madeira esculpida em forma de cilindro. Parecia uma arma, mas estava limpo demais.
– Não é um problema. Obrigado pela ajuda! Sou a Sam, este é o meu marido, Oliver, e a nossa filha, Maya.
– Chamo-me Carlos. Este é o meu irmão mais novo, Victor. A ruiva é a Sophia e a rapariga tímida ao lado é a Jun. Prazer em conhecer-vos. — Carlos sorriu e o meu pai apertou-lhe a mão. Acho que confia neles.
Entramos no acampamento e começamos a colocar tábuas e chapas na cerca, fortificando-a. A barreira era boa, desde que estivesse bem construída. Trabalho perfeito para o meu pai, que era um carpinteiro antes de tudo isto começar.A mãe e as mulheres estavam a preparar o almoço. Cheirava realmente bem! Talvez um dia eu decida aprender a cozinhar. Nunca gostei muito...
Depois de almoçar aquilo que me tinha conquistado totalmente, javali, sentei-me perto de uma árvore que estava dentro do acampamento e tirei um livro da mochila. Tinha-o apanhado em North Carolina. Era muito bom para curar do tédio diário. A rapariga tímida, tinha-se sentado ao meu lado. Estava encolhida e parecia ter receio. Olhei para ela e sorri. Ela era asiática e tinha um nariz e uma pele perfeita, lisa e branca. Tinha também um cabelo escuro que caía pelos ombros. Era realmente bonita. Sorri novamente e ela balbuciou umas palavras com um sotaque engraçado:
– Gostas de.. hum.. ler?
– É giro ler quando não se está a lutar com os walkers. Cura o tédio. — sorri novamente e ela parecia estar mais à vontade. Sorriu de volta e juntas começamos a explorar o mundo daquele livro desconhecido.
As horas passaram e fui descobrindo que Jun era realmente uma pessoa divertida por trás daquele aspeto tímido e frágil.
– Sabes, quando eu tinha a tua idade, adorava ficar em casa a escrever histórias pequenas sobre uma menina que adorava poder aventurar-se mais era demasiado tímida e tinha medo. Então passava horas a criar aventuras imaginárias no quarto: vestia-se com várias roupas, usava vários objetos e assim divertia-se durante horas a fio. — explicava Jun com um entusiasmo palpável na voz. Logo depois contou-me algumas das histórias que tinha escrito e ali ficamos até ao sol de pôr.
O jantar tinha sido servido e por entre palavras de "como tem sido a viagem até agora" foi devorado. Fiquei a saber que Carlos adorava chá e era médico; Victor era cego, daí usar óculos escuros, e falava pouco; Sophia, depois de perder a irmã mais nova porque esta foi apanhada pelo cabelo, cortou o longo cabelo ruivo e agora usa a faca da irmã para se defender; por fim Jun teve de matar um grupo inteiro de 5 pessoas que havia sido mordido por walkers. Que gente incrível! Bem, o pai deu sinal: hora de dormir. Até amanhã, mundo! Estou à tua espera!
Acordei de sobressalto com o som feroz de um disparo. Era a arma do pai! Conheço esse som à imenso tempo devido ao número de vezes que o ouvi! O que se estava a passar?!
– Sam! Maya! Temos de sair daqui! Os walkers entraram! — gritava o meu pai enquando carregava freneticamente no gatilho da arma e disparava consecutivamente contra a cabeça dos mortos-vivos.
– Como?!
– A chapa da parte de trás soltou-se e eles entraram! Rápido, temos de sair daqui! — o meu pai agarrava nas mochilas e a minha mãe ajudou-o. Eu não conseguia reagir. Num momento, pensei nos outros quatro membros do acampamento: Onde estão eles? Olhei para os lados numa busca confusa. Não estavam à vista! O ambiente era horrível: walkers por toda a parte, uns a andar e outros mortos no chão, a fogueira tinha sido derrubada e a relva começou a arder. O pânico era audível. Oh, o horror!
Finalmente estavamos num local seguro, longe do acampamento. Era possível ver uma luz à distãncia, aquilo que eu suponho que seja o acampamento a arder. Escapamos a isto, mas não havia sinais de Carlos, Victor, Sophia e Jun. Instalou-se o silêncio. A minha mãe levantou-se e olhou à volta.
– Shhh... Ouvem? Está alguém a chorar.
Eu ouvia! Seguimos o som de um choro magoado no meio do pinhal. Era Jun! Jun estava com uma faca na mão, a faca da irmã de Sophia. Estava cheia de sangue e soluçava loucamente. Olhei para o lado e senti-me enojada, perdida, derrubada: três corpos estavam estendidos no chão, era Carlos, Victor e Sophia.
– Outra vez... Fi-lo outra vez... Eles foram mordidos e eu não os pude ajudar... Porquê? — Jun estava compeltamente transtornada. Estava a tremer e estava compeltamente perdida em soluçõs, cada vez mais sentidos e dolorosos.
– Está tudo bem... Está tudo bem. Estás viva. O que aconteceu? — o meu pai tentou consolá-la. Não teve grande efeito.
– O Victor tentava proteger o acampamento quando foi mordido. Carlos voltou para atrás e tentou ajudá-lo. Eu fugi com eles e a Sophia veio logo atrás, com a perna a sangrar: tinha sido mordida também e os tendões estavam pendurados e baloiçavam enquanto ela tentava correr. Aqui no pinhal, tive de furar a cabeça de Sophia, que morreu devido à febre. Quando tentei fazer o mesmo com Victor, Carlos protegeu o corpo morto do seu irmão ameaçando-me que não me ia deixar tocar nele. Mas no fim ele transformou-se e mordeu Carlos...
Jun começara agora a chorar violentamente. Ela teve de recordar o passado ao perfurar o crânio de três amigos. Ela levanta-se, trémula e descontrolada e saca loucamente uma arma. Estava com os olhos fechados e já não havia um resto de esperança nela.
– Não aguento mais! — Jun gritou e disparou. Os salpicos de sangue esvoaçavam aleatoriamente contra a relva, os corpos já ali mortos e as árvores à sua volta.
Nunca antes tinha visto tal coisa na minha vida! Caí de joelhos e comecei a chorar. Naquela noite, mais quatro almas se juntaram às vítimas de sobrevivência. Mundo, és um lugar malvado e nojento!
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