Escarlate
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Castiel
Aquele loiro é um bom estudo para minha cabeça. Nathaniel é, de certo modo, um dos rapazes que mais julgo desprezível. Espera, palavra muito forte...
Admito que o loiro é uma das bases de meu transtorno de bipolaridade, ao mesmo tempo que me arranca sorrisos pelos atos gentis e pelo modo que esconde o cansaço, arranca-me certa fúria por agir tão responsavelmente e me jogar uma caçamba de culpa por fazê-lo passar horas e horas mergulhado na papelada do conselho estudantil. Não é minha culpa se aquela velha o obriga a assinar.
Assim que o vi se aconchegar ao vento não consegui dissipar meus olhos de seus fios loiros. Tão doce.
Nathaniel pendia a cabeça para trás e uma leve brisa assoprava em seu rosto, de uma forma suave, bagunçando seu cabelo já um pouco desalinhado. Sua boca estava entreaberta e pude ouvir um ofego de sua parte a procura de ar. Os olhos dóceis fechados de forma sutil e calma, como se sua vida dependesse disso e se baseasse nisso. E não pude conter-me a vergonha ao ver que meus instintos me puxavam para morder seu pescoço e me deliciar pelo seu corpo que transbordava um cheiro doce, enjoativo, mas que estava me enlouquecendo. Nathaniel a tempos vivia me prendendo e aquilo me fazia ficar louco, aquela voz que pesava em mim apenas murmurava as palavras em meu ouvido: Você não é Gay Castiel.
Lá estava ela, me implorando para deixa-lo sozinho enquanto havia tempo, repetindo as mesmas palavras de forma incomodável. Não o deixei sozinho pela voz insaciável de minha consciência rebelde, mas sim por ver que poderia estar aproveitando daquele tempo para pensar. No ultimo olhar que lhe lancei pude vê-lo da mesma forma que antes.
Castiel Vincent-Louis (no caso eu), um "rapaz amigável", "fácil" de se conviver, tem grande possibilidade de estar apaixonado pelo coleguinha de classe (que nem coleguinha de classe pode ser considerado). Não nego em dizer que aquele garoto realmente desperta espasmos em meu corpo com apenas o olhar de fúria que sempre me lança, aquele olhar de fúria que encaro como algo cômico. O loiro mesmo nervoso tem o rosto gentil e tranquilizante, isso é algo engraçado. O modo como ele fala, me faz tremer e imaginar coisas que eu realmente não deveria imaginar, é tão... prazeroso tê-lo por perto, que tantas vezes a cena de agarra-lo se passa em minha mente.
Aquele representante muitas vezes ocupa meus desvaneio nas noites e, claro, sempre aflora meu mal humor pela manhã. E lá estava ele caminhando ao lado de uma gorda a caminho da sala do Conselho Estudantil. Apenas desviei meu olhar e desencostei-me do armário, caminhando para o pátio.
– Hey Tiel!
– Não se atreva a repetir esse apelido idiota. — ralhei para Lynn que se pôs a rir.
– Você pode assinar isso aqui? — me estendeu um papel e a olhei desconfiado.
– Deixe-me adivinhar, presente do representante? — revirei os olhos quando a garota sorriu de canto — Pode devolver este pedaço de folha, não vou assinar nada. — ouvi um suspiro vindo da parte dela e notei uma expressão de desanimo
– Por favor torne isso mais rápido para nós dois... — me recordei de um episódio passado, onde a mesma teve que ficar andando de um lado para o outro, e não pude esconder meu sorriso travesso — Assina logo essa porcaria! Ou eu vou gritar Tiel para todo mundo ouvir.
– Você não teria cor-
– TIE- tampei sua boca e a fuzilei com os olhos pegando o papel e a caneta, assinando a porcaria de meu nome — Obrigada Tielzinho. — saiu sem antes deixar de soprar um beijo. Tábua de merda.
Me deitei num dos bancos, usando os braços para apoiar minha cabeça. As nuvens estavam lentas, as poucas folhas que caiam das árvores rodopiavam por causa do vento. A sombra da grande árvore me mantinha livre da luz do sol, que estava terrível. O maldito loiro tirou meu sono durante a noite, sempre a sua imagem relaxada, qual expressão era quase impossível de se ver, no meio da brisa noturna me atormentava. Agora tenho certeza de que este loiro é uma pulga irritante que grudou em minha cabeça. Nathaniel é o meu lado bom, já que é ele que sempre corrige meus erros e me repreende; também meu lado ruim, já que é o único que ousa me desafiar e isso me irrita profundamente. Quando percebi que toda aquela rivalidade foi me incomodando fiquei totalmente confuso, não era certo eu me sentir incomodado por brigar com Nathaniel. Mas incrivelmente eu me sinto melhor ao vê-lo sorrir, um sorriso que percebi que é tão adorável e aconchegante não faz muito tempo. E isso me deixa incrédulo. Incrédulo pelo fato de meu coração buscar em uma rivalidade tão grande, no meio de todo meu ódio por ele, uma parte que o aprecia, aprecia cada traço de inteligencia e de aparência angelical.
Assim que cheguei em casa naquele dia me pus a dormir. Dormir até ter coragem de levantar para fazer algo útil à minha vida pacata. O difícil de um conflito é que no final sempre haverá uma indecisão, uma indecisão que poderá mudar todo o rumo de uma história e posso dizer que minha indecisão está me matando aos poucos. E a tal questão fica freando em minha cabeça, odeio quando algo me incomoda de uma forma tão esplendida, ao chegar num ponto de não conseguir ter um bom sono. Agradeci mentalmente quando ouvi a campainha soar. Precisava esfriar a cabeça, era uma merda de confusão em que eu estava caindo.
– Certeza que está bem? — perguntou Lysandre pela quarta vez. Estávamos no meu quarto deitados na cama, fazendo exatamente nada. — Está quieto demais, não reclamou da "Porcaria de vida que tenho", até agora.
– As vezes as tarefas invertem, eu quieto e você reclamando da minha quietude. — resmunguei e ele riu fraco
– Posso chutar? — pigarreei em resposta — Nathaniel.
Olhei para meu amigo heterocromático que se mantinha olhando para o teto. Ele me conhecia a muito tempo, não era idiotice Lysandre acertar o que me incomodava.
– Hey, Lysandre.
– Hum?
– Posso experimentar uma coisa?
– Vá ao ponto.
Me curvei em sua direção e por máximo que estávamos próximos ele não recuou ou se assustou com minha atitude. Então tomei a liberdade de continuar. Nossos narizes roçaram e eu juntei nossos lábios. Era estranho, estranho sentir uma sensação tão boa de ter os lábios comprimidos por outra carne macia, mas saber que não são lábios comuns, não são lábios femininos. Mas sim os lábios de um homem. Estranho, realmente estranho, era que continuava a ser uma sensação boa. O encarei.
– Já tem sua certeza? Quer mais Castiel? — e incrivelmente Lysandre sorria, sorria de uma forma que eu não conhecia, de uma forma... incendiada?
Puxei-o pelo cabelo e novamente uni nossos lábios. E... Droga! Ele correspondia com voracidade nosso beijo, qual beijo nem deveria estar acontecendo. Que porra é essa Lysandre? Eu, Castiel Vincent-Louis, sou oficialmente um estúpido que beija o melhor amigo, usando-o para boneco de testes.
– Mas não sou o Nathaniel certo Castiel? — murmurou abafadamente sobre minha boca ao achar uma brecha entre toda aquela loucura. Meu coração palpitou forte, e não seria bobagem se o heterocromático escutasse — É ele que você quer, não se deixe levar por um desejo bobo assim.- o olhei, surpreso pelo mesmo saber meu real desvaneio por Nathaniel — Eu sempre soube que você estava confuso em relação a ele. Não perca-o Castiel. "Dans le milieu de la rivalité trouve l'amour"– cantarolou o trecho da nova música
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