Escape
11 Um abraço?
Notas iniciais
Até então nunca tinha conseguido imaginar a loira beijando outra mulher, finalmente seu bloqueio mental tinha sido quebrado. A loira realmente beijava mulheres, e parecia saber muito bem como fazer aquilo.
Emma teve a impressão de estar sendo observada, ato que a fez abrir os olhos e se deparar com Regina. Em questão de segundos ela se afastou da detenta que foi lhe desejar feliz aniversário. Seu coração batia frenético com a possibilidade de Regina ter ido ali atrás dela.
–Eu... sinto muito. — A morena desculpou-se antes de dar as costas para elas e sair dali.
– Regina, espera! — Praticamente implorou, mas a morena já tinha isso.
– Vamos continuar. — A irmã de French sugeriu ao puxar a loira, mas Emma se afastou.
– Desculpa, mas eu não posso. Sério, você é uma pessoa bacana e merece alguém que goste de você de verdade. Esse alguém não sou eu. Me desculpa, preciso ir. — Avisou ao tirar as mãos da irmã de French de cima dos seus ombros e correr em busca da amiga.
Alcançou Regina quando a morena atravessava o refeitório.
– Regina, espera! — Pediu. A morena parou de caminhar, mas não se voltou para a loira. — Por favor, espera! — Repetiu o pedido ao tocar a mão da amiga. Antes de voltar-se para a loira, Regina respirou fundo.
– Não queria atrapalhar. Volta lá, outra hora nós... — Emma esperou ansiosa pelo fim da frase que acabou não saindo.
– Nós? — Incentivou para que continuasse.
– Conversamos, ou coisa assim. Vou voltar lá para o cinema. — A morena ameaçou ir, mas Emma voltou a segura-la pela mão.
– Eu não quero voltar para lá, Regina. Só estava indo até a rua quando a menina me surpreendeu. — Não sabia porque, mas sentiu necessidade de explicar. — Eu estava me sentindo tão sozinha e aí ela me disse meia dúzia de palavras bonitas e a gente acabou se beijando. — Continuou.
– Você não precisa me dar explicação sobre isso. — A morena a avisou.
– Eu sei. Só estou contando o que aconteceu. — Regina apenas balançou a cabeça concordando. — Me acompanha até a rua? A noite está maravilhosa. — A morena suspirou e prendeu os olhos nos olhos claros de Emma.
– Você vai congelar lá fora hoje. — O frio tinha finalmente dado as caras e Regina sabia o quanto Emma sofria com aquilo.
– Não me importo. Só por favor, vem comigo. — Elas trocaram um outro olhar antes de a morena responder.
– Okay. — Emma abriu um sorriso quase maior que seu rosto. Se olhos sorrissem mesmo, os dela estavam com toda certeza sorrindo para morena, que mesmo em querer esboçou um sorriso.
Com medo que a amiga fugisse, Emma se recusou a largar a mão dela. A rebocou até a rua sem nunca desprender a mão da mão quentinha de Regina. Infelizmente quando alcançaram a rua, a morena tratou de largar a mão da loira.
Regina mirou o céu repleto de estrelas, antes de suspirar e sentar-se no banco que tinha por ali. Fechou os olhos para sentir o ar frio da noite de inverno.
Emma sentou-se ao lado da amiga, e limitou-se a observa-la. Sorriu ao vê-la de olhos fechados, apreciando aquele vento frio do cão. Regina amava o frio, amava senti-lo, amava escapulir de casa a noite e sentar-se na varanda só para fechar os olhos e sentir o vento frio. Fazia aquilo desde que era criança. Emma nunca entendeu direito aquilo, mas sempre acompanhou a morena, mesmo que isso quase a matasse de hipotermia depois. "Isso me faz sentir viva." Era o que a morena sempre dizia.
– Está se sentindo viva? — A loira murmurou timidamente.
– Perto disso. — Foi a resposta da morena, que suspirou antes de abrir os olhos. Elas ficaram em silêncio por algum tempo. Emma queria muito puxar assunto, mas tinha medo de falar alguma coisa que fizesse a morena levantar e ir embora dali, e entre a presença muda de Regina ou a não presença de Regina, a loira ficava com a muda. Pelo menos ela estava ali, ao seu lado.
Regina ensaiou algumas frases mentalmente, mas todas pareciam forçadas demais, por fim desistiu e resolver falar a primeira coisa espontânea que veio a sua cabeça.
– Então, como está se sentindo mais velha? — Indagou sem olhar em direção a loira.
– Péssima! — Respondeu de imediato, fazendo a morena arquear as sobrancelhas.
– Animador! — Debochou, arrancando um sorriso da loira.
– Eu só... — Soltou um suspiro desanimado. — Sei lá! Mais um ano que começa e eu continuo na mesma. A vida está passando e eu estou parada exatamente no mesmo lugar há anos. — Lamentou-se.
– Então está na hora de começar a se mover. — A morena sugeriu.
– Esse é o problema, eu não sei para onde ir. — Admitiu. Regina tirou os olhos do horizonte e voltou-se para a loira perdida.
– Quando não se sabe para onde ir, qualquer caminho serve. Não é isso que dizem? — A loira sorriu a acenou levemente com a cabeça.
– Acho que é. — Os olhos delas ficaram presos por alguns segundos, antes de Regina voltar a mirar o horizonte. — Acho que até hoje estou procurando o caminho que me faça voltar alguns anos. — Confidenciou em um sussurro.
– Não perca seu tempo. Isso é impossível. — A morena respondeu com convicção. Emma riu, sabia que Regina tinha provas científicas, tecnológicas, astrológicas, físicas e tudo mais sobre aquilo.
– Se fosse possível e você pudesse voltar, você escolheria não ter me conhecido? — Indagou com medo.
– Não. — Respondeu sem pestanejar.
– Por que não? — Aquela resposta deixou Emma um tanto surpresa.
– Porque você faz parte de quem eu sou hoje. — Respondeu simplesmente.
– E quem você é hoje? — Voltou a indagar.
– Alguém que confia desconfiando. — Soltou com o ar. — Que espera ser abandonada de uma hora para outra. Que pensa mil vezes antes de se abrir com alguém. Que tem medo do amanhã. — Não fez por mal, apenas respondeu o que lhe foi perguntado, mas sua resposta fez o sentimento de culpa de Emma triplicar. Não imaginava que por trás daquela Regina inabalável, tinha uma Regina cheia de traumas, traumas causados pela estupidez da loira. — Alguém que come os milhos não estourados da pipoca. Alguém que deseja bom dia aos mendigos na rua. Alguém que acorda de madrugada para comer pasta de amendoim. Que dirige cantando como se estivesse no chuveiro. Que tenta se divertir no engarrafamento. Que respira fundo três vezes evitando começar uma briga boba. Que não foge dos banhos de chuva. Que as vezes ri da própria desgraça. Que sempre dedica uma parte do dia a quem realmente é importante. — A loira sorriu com lágrima nos olhos, ao ver que Regina também lembrava das partes boas e que aparentemente tinha as adotado. — Você foi minha ruína, Emma, mas seria muita hipocrisia da minha parte dizer que você não me ensinou coisas boas. — A morena admitiu pensativa.
– Por favor, não fuja. — A loira pediu ao agarrar a mão da amiga, que apenas balançou a cabeça concordando. Regina tinha medo, muito medo do que iria ouvir, mas precisava ouvir. Desejava muito que pelo menos algumas interrogações que assombravam sua mente, fossem respondidas. Talvez assim, ela finalmente pudesse esquecer qualquer coisa do passado e viver só de presente. — Você me pegou totalmente desprevenida quando disse que gostava de mim. — Começou hesitante ao lembrar-se do dia em que a amiga se declarou.
Regina estava deitada no sofá da sala com os olhos fixos no teto, uma mão segurava o cigarro preso em sua boca, e a outra brincava com a garrafa de whisky já vazia, que estava no chão. Não conseguiu pregar os olhos por um segundo sequer, na verdade, não quis fazer aquilo.
Não sabia se já tinha amanhecido, se era de manhã ou se já era de tarde. Passou a noite inteira tomando doses de coragem, também muito conhecida com Jack Daniels e fumando, para conter a ansiedade que sentia.
Não aguentava mais aquele impasse com Emma. Estava cada dia mais difícil fingir que nada era nada. Cada dia mais difícil ignorar seus sentimentos idiotas. Por tais motivos ela finalmente tinha se decidido, contaria para a amiga o que estava acontecendo.
Embora tivesse ensaiado vários discursos durante a madrugada, ainda não sabia como iria abordar aquele assunto. Não sabia um jeito delicado de dizer para a melhor amiga que estava apaixonada por ela. Imaginou vários tipos de cenas, em todas elas a loira cairia na gargalhada achando que aquilo era uma brincadeira.
– Hey, você! — Ao ouvir a voz sonolenta e quase inexistente de Emma, Regina tirou os olhos do teto e encontrou com uma loira descabelada, trajando apenas uma camiseta larga e comprida que muito provavelmente caberia outra dela dentro e que muito provavelmente também, ela pegou do cara com quem tinha passado a noite. — Caiu da cama ou dormiu por aqui mesmo? — Questionou ao roubar o cigarro da amiga.
– Nem um coisa, nem outra. — Murmurou. Emma arqueou as sobrancelhas, tragou o cigarro que estava no fim, roubou a garrafa de whisky vazia com a qual a mão de Regina brincava e jogou o que sobrou do cigarro lá.
– Não dormiu? — Indagou ao soltar a fumaça.
– Não. — Foi tudo que respondeu, atiçando a curiosidade da loira, que sem pensar jogou-se para cima da amiga, deitando a cabeça sobre o peito da morena.
– Folgada! — Regina reclamou, sorriu e levou as mãos aos cabelos da amiga, os alisando. Aquele carinho, junto com o som das batidas do coração de Regina, fizeram Emma fechar os olhos e sentir vontade de dormir de novo.
– Cafuné é a melhor coisa do mundo! — Ronronou preguiçosamente.
– Dizem que é. — Regina sussurrou um tempo depois.
– Ouvir seu coração batendo é a segunda melhor coisa do mundo. — Voltou a ronronar, arrancando um sorriso da morena.
– Afinal, quem é meu coração idiota para competir com cafunés, não é mesmo? — Pegou no pé da amiga, lhe fazendo sorrir.
– Não seja ciumenta, Regina Mills. O SEU cafuné é o melhor do mundo. Ou seja, você é a dona das duas melhores coisas do mundo. — Quando a loira falava daquele jeito, Regina tinha quase certeza que seu sentimento era recíproco. Era aqueles pequenos detalhes que ela se agarrava para tomar coragem e falar com Emma. O coração da morena bateu forte pensando sobre tudo que estava prestes a falar, e aquilo não passou despercebido por Emma, que levantou a cabeça para encarar a amiga.
– O que há de errado? — Indagou investigando o semblante da morena.
– Não há nada errado necessariamente. — Respondeu ao desviar os olhos de Emma.
– Foi Daniel? Vocês brigaram? Ele te fez alguma coisa? Pelo que eu me lembro, vocês dois estavam juntos ontem a noite. E agora você está aqui, com mais olheiras que o Drácula, cheirando a cigarros e whisky. Então com certeza há alguma coisa de errado. — Acusou Regina, que acabou rindo pelo jeito alvoraçado da loira.
– Não foi Daniel. Nós não brigamos. Ele não me fez nada. Sim, nós estávamos juntos, mas eu não estava no clima para uma noite de sexo, então eu despachei ele. Ele foi dormir e eu fiquei aqui. Obrigada por me comparar ao Drácula, na era dos vampiros atuais, ser comparada a ele é um elogio e tanto. Quanto ao cheiro dos cigarros e whisky, você não é obrigada a estar assim perto de mim, então... — Respondeu tudo em ordem, sem esquecer de nada. Emma continuava a analisando, enquanto decidia se acreditava em todas as respostas ou não.
– Okay, então por que você não me diz o motivo de não ter dormido e de ter fumado todos os cigarros que estão ali dentro da garrafa vazia? — Pediu. — Você só tem insônia e fuma desse jeito quando tem alguma coisa lhe perturbando muito. — Regina suspirou e assentiu.
– Talvez você queira sair de cima de mim, para que a gente possa sentar antes de eu começar. — Sugeriu e muito sem vontade Emma obedeceu.
Regina sentou-se, prendeu os cabelos compridos em rabo do cavalo alto, e massageou as têmporas tentando pensar em como começaria aquilo. Emma acabou sorrindo com aquela sequencia de atos. A loira folgada jogou os pés para cima do sofá, deitou a cabeça sobre as pernas da amiga e fez com que a mão de Regina fosse parar em seus cabelos novamente.
– Mas é muito folgada mesmo. — A morena resmungou.
– Vamos lá, sou toda ouvidos. Qual o problema? — O coração de Regina que já batia em um ritmo apressado, acelerou ainda mais.
– Sinceramente, eu não sei como começar. — Soltou com o ar.
– Regina, faça como você sempre faz, vá direto ao ponto. — Emma sugeriu e Regina concordou. Respirou fundo e decidiu falar de uma vez.
– Eu gosto de você. — Soltou com o ar. A loira esperou pacientemente que ela continuasse, mas por algum motivo ela não continuou. Encarou Regina tentando entender se tinha perdido alguma parte importante, mas aparentemente era só aquilo mesmo.
– Eu também gosto de você. Agora me conta qual o seu problema? — A morena rolou os olhos ao concluir que a loira lerda não tinha entendido o significado da frase.
– Emma, eu gosto de você não só como minha amiga. Eu sinto coisas... estranhas, intensas, diferentes por você. Eu estou apaixonada por você. Esse é meu problema. — Falou tudo apressadamente, para não perder a coragem. Se seu coração continuasse batendo daquele jeito, muito provavelmente ele não aguentaria os próximos dez minutos.
Emma arregalou os olhos em sinal de surpresa e seu coração que até então batia preguiçosamente, acelerou com a aparente declaração da amiga.
– Apaixonada? — Murmurou mais para si do que qualquer outra coisa.
– Não sei como aconteceu. Sinceramente não sei, mas aconteceu. Aconteceu e eu estou enchendo a cara todos os dias para tentar esquecer, mas não está funcionando. Quando eu estou bêbada parece que as coisas pioram ainda mais. — Regina não tinha mais coragem de olhar para amiga, por isso tinha fixado seus olhos na TV apagada.
– Eu... eu... eu não sei o que dizer. — A loira foi sincera. — Quer dizer... UAU! — Emma pensou em dizer que quando bebia sentia coisas estranhas pela amiga também, mas que nunca se permitiu pensar naquilo quando estava sóbria, só que não sabia se deveria. Talvez fosse melhor pensar calmamente sobre aquilo tudo primeiro.
– Você não precisa dizer nada. Não estou cobrando nada. Simplesmente não conseguia mais guardar isso só para mim. — Mesmo não querendo cobrar nada, tinha uma pequena esperança de que Emma abrisse a boca para dizer que sentia o mesmo, mas concluiu que ela não faria aquilo, o que a deixou um pouco triste.
– Olha só, não vou negar que quando a gente bebe meus olhos não conseguem desgrudar de você, mas eu nunca parei para pensar nisso quando não estou bêbada. A verdade é que eu tinha muito medo de pensar sobre isso. Porque você é a minha melhor amiga, e eu não quero perder isso por nada. — A morena concordou com a cabeça.
– Entendo. Eu também não quero perder sua amizade, Emma. Nem estou sugerindo que tenhamos alguma coisa. Você me conhece, sabe que quando tem uma coisa me perturbando, não consigo guarda-la por muito tempo. Você não precisa pensar, nem me dar uma respos... — Emma não deixou a morena acabar a frase, levou a mão até sua boca a impedindo.
– Mas eu quero pensar. Quero muito. — O jeito sugestivo com que disse aquilo, fez as borboletas se alvoraçarem no estômago da morena, que suspirou e concordou com a cabeça. — Só me prometa que independente do que aconteça entre nós, nós nunca vamos perder essa cumplicidade. — Pediu, na verdade, quase suplicou. A morena sorriu e tirou a mão da amiga de sua boca.
– Independente do que aconteça, nós nunca vamos perder essa cumplicidade. — Prometeu. A loira sorriu satisfeita com a resposta e entrelaçou seus dedos com os da amiga.
– Se a gente tiver alguma coisa Regina Mills, eu não vou querer mais saber de pouca vergonha entre você e meu irmão. — Regina riu envergonhada.
– Ah por favor! Esse assunto me deixa constrangida. — A morena admitiu, fazendo Emma se fingir de incrédula.
– Como assim constrangida? Acha que nosso lance vai ser como? Só pegar na mão e pronto? — As bochechas da morena estavam cada vez mais vermelhas. — Nada disso. E não adianta ficar vermelha. Eu com certeza vou exigir beijos, sexo e todo o tipo de putaria que tivermos direito. — Continuou.
– Tá, tá! Chega! — A morena pediu rindo.
– Vamos precisar assistir muitos pornôs lésbicos, porque sinceramente eu não sei se vou saber como me comportar. Vamos ser virgens nesse assunto. Será que esse lance de pôr a ling... — Regina pôs as duas mãos sobre a boca da loira, antes que a mesma a deixasse ainda mais constrangida.
– Chega Emma, chega! Para com isso! — Pediu. A loira gargalhou ao ver o quão envergonhada Regina estava. — Sua sem graça! — Regina murmurou envergonhada.
– Posso falar? — Sua voz saiu abafada, já que as mãos de Regina cobriram sua boca. A morena rolou os olhos sabendo que ouviria mais besteiras e tirou as mãos de lá. Emma foi rápida ao pegar uma mão da morena e voltar a entrelaçar seus dedos. — Você sente vontade de me beijar? — A pergunta fez Regina levar a mão livre ao rosto o cobrindo.
– Ah que merda! Você vai pegar no meu pé pelo resto da vida! — Lamentou-se.
– Sente ou não? — Voltou a questionar e fez com que Regina tirasse a mão da frente do rosto.
– As vezes. — Admitiu dando de ombros. Emma achou fofinho o jeito tímido com o qual a amiga tinha dito aquilo. Teve uma imensa vontade de beijar Regina, só não fez aquilo porque não queria se precipitar. Não queria de jeito nenhum magoar a amiga, então antes de mais nada, pensaria, conforme prometido.
– Sabe, sempre que eu paro na frente do espelho e olho dentro dos meus olhos, também sinto uma imensa vontade de me beijar. — Ao ouvir aquele absurdo, Regina fez que iria vomitar, arrancando uma alta gargalhada da amiga.
– A verdade é que eu tinha incontáveis de sentimentos confusos em relação a você, sentimentos que eu preferia não pensar, esconder debaixo do tapete, esconder de mim mesma. Éramos amigas desde sempre e aí sei lá, as coisas começaram a mudar, ou nós começamos a perceber que não era apenas amizade. — Suspirou. — Enfim, era só eu beber que eu sentia uma vontade imensa de sei lá... de ficar você. — Regina desejava muito se sentir indiferente ouvindo aquilo, mas não estava conseguindo, seu coração batia cada vez mais forte, a cada palavra que Emma pronunciava. — Eu não me permitia pensar sobre isso quando estava sóbria, porque eu tinha medo, medo de descobrir o que eu sentia por você. Medo de você me achar uma surtada e dar no pé. — Fez uma pausa para respirar. — E aí você como a corajosa da dupla, abriu a boca e se declarou. — A morena sentiu as bochechas arderem ao ouvir aquilo. — Em um primeiro momento eu fiquei muito surpresa, porque jamais imaginava ouvir aquilo de você. Sei lá... você sempre foi meio fraca para bebida, então na minha cabeça as coisas que quase aconteciam entre nós quando estávamos bêbadas, era por culpa da bebida. — Regina sorriu sem humor, lembrando que aquela era a resposta que ela se deu por algum tempo, quando pensava no que sentia por Emma. — Era meio surreal, sabe? Regina Mills, gostar de Emma Swan. Eu nunca fui grande coisa. Ser traficante era a única coisa interessante que eu achava que sabia fazer, e tipo, você odiava que eu fizesse aquilo, então ficava me perguntando porque você gostava de mim. — Emma suspirou. — Nesse tempo para pensar que eu pedi para você, eu me permiti pensar em você, Regina, pensar sem ressalva, sem medos e foi então que eu descobri que mesmo sem querer, eu estava apaixonada por você. Além de ser minha melhor amiga, você era tipo, uma mulher, assim como eu e até onde eu sabia, eu não gostava de mulheres, mas mesmo assim eu estava super gostando de você. — Fez mais outra pausa para organizar os pensamentos. — Eu meio que surtei, foi então que caí na besteira de me abrir com Daniel. — Ao lembrar da conversa com o irmão, Emma sentiu raiva. — Ele me disse muitas coisas, coisas do tipo, "nossos pais não vão aceitar", "o pai dela não vai aceitar", "vocês só estão confusas", "você não a merece". Mas a que me fez mesmo decidir foi "ela vai cansar, mais tarde ou menos tarde vai conhecer um cara, vai se apaixonar e vai deixar você. Não vai sobrar nem a amizade."– A loira suspirou. — O medo me fez desistir antes de tentar. Sabia que para ficar com você eu teria que abandonar a vida maluca que tinha, e aí eu correria um sério risco de ficar sem você, sem meu tráfico, sem nossa amizade, sem nada. — A morena ouvia a tudo sem dizer uma palavra, sem se mover, sem piscar. Era muita informação para tentar digerir. Estava sentindo vontade de muitas coisas, uma delas envolvia matar Daniel. — Daniel me convenceu que ele era o cara certo para você e que se eu saísse de cena por algum tempo, ele te conquistaria, depois disso você me perdoaria por ter sumido e no fim das contas seríamos uma família feliz. Como vocês viviam de rolo, constatei que o plano dele provavelmente daria certo. Então fiz o que ele sugeriu. Infelizmente, ou felizmente, ele não conquistou você e eu não faço ideia do porque. — Emma nunca questionou aquilo com o irmão e ele nunca chegou perto de tocar no assunto. — Até cheguei a ir atrás de você um ano depois, foi então que soube que você estava morando com um cara e esperava um filho dele. Então eu desisti e resolvi deixar você em paz. — Emma pensou que Regina fosse levantar e correr para longe dali, mas para a sua surpresa ela sequer se moveu. Seus olhos estavam fixos em um ponto qualquer, enquanto tentava assimilar e decidir se acreditava ou não em tudo aquilo. Muito do que ouviu fazia um pouco de sentido, algumas coisas ela não tinha certeza. Mas ao lembrar-se da conversa que teve com Daniel uns dias depois que Emma sumiu, concluiu que totalmente mentira, aquela história não era.
A loira estava apreensiva, não conseguia tirar os olhos da amiga, que estava sem se mover faziam alguns minutos. Queria muito que Regina abrisse a boca para falar alguma coisa, nem que fosse para lhe xingar, qualquer coisa seria melhor do que aquele silêncio perturbador.
– Por favor, diga alguma coisa! — Implorou. A morena ficou mais alguns minutos em silêncio, antes de abrir a boca para responde-la.
– O que quer que eu diga? — Sua voz saiu quase inaudível.
– O que está pensando? -Regina sorriu sem humor.
– Estou pensando que por muito tempo, isso foi tudo que sonhei em ouvir. E agora eu acho que eu preferia acreditar na história original. — Continuou sussurrando.
– Por quê?
– Não sei. Acho que porque já estava acostumada com ela. — Foi sincera. — Talvez fosse melhor acreditar que você foi embora por não se importar, do que acreditar que você foi embora por covardia. — Continuou seu pensamento. Sim, a morena tinha razão, Emma sabia que ela tinha e não tinha absolutamente nada para dizer em sua defesa. Nada do que dissesse mudaria as coisas. Estava feito e por mais que desejasse, não tinha como desfazer.
– Regina, você é uma mulher incrível! Esse medo que você tem de ser abandonada. Essa sua insegurança, desconfiança, esquece tudo isso. Não conheço o seu marido, mas com toda a certeza posso afirmar que ele sabe a mulher que tem. Você é única, Regina Mills, ele com certeza jamais vai pensar em ir embora. Ele casou com você, então ele é um cara bem inteligente. Eu sou a idiota da história. — A morena balançou a cabeça concordando.
– Com certeza você é. — A loira sorriu e cutucou com o cotovelo no braço da amiga.
– Pelo menos você conheceu o cara certo. — De novo Regina concordou com a cabeça, antes de voltar-se para Emma e a encarar.
– Sabe como eu conheci o cara certo? — A loira negou. — Eu estava muito, muito irritada com você, por você não responder nenhum tipo de contato que tentei fazer. Então decidi fazer uma lista, coloquei nela o seu nome e de todos os envolvidos no seu grupo de tráfico, incluindo eu. Fui até a delegacia, me entregar e entregar vocês, só que tinha acontecido um assalto e o xerife estava enrolado com aquela história e me pediram para esperar. Um advogado qualquer, amigo do xerife, que estava esperando o mesmo para um happy hour, sentou-se ao meu lado e puxou conversa. Acabei contando para ele o motivo de eu estar ali, e ele acabou me fazendo desistir da ideia de me entregar e delatar vocês, porque se eu fizesse aquilo, não poderia ir tomar uma cerveja com ele no bar da esquina. — A morena sorriu sem humor. — Esse advogado qualquer era Robin, meu marido. O "cara certo", como diz você. De uma certa forma, foi por causa de você que nós nos conhecemos. — Ao ouvir aquilo Emma se odiou mais do que já se odiava. Não podia acreditar naquilo. Não podia acreditar que por sua culpa, Regina conheceu o marido. Mas que piada sem graça era aquela? Sem sombra nenhuma de duvidas, alguém com certeza brincava com a vida dela. Ela só podia ser uma marionete, um boneco do the sims, aquela era a única explicação óbvia para aquela palhaçada que tinha se tornado sua vida. Queria gritar, se estapear, se xingar, arrancar os cabelos, mas muito provavelmente se fizesse alguma daquelas coisas, Regina daria no pé, então tudo que fez foi colocar um sorriso na cara.
– Nesse caso, de nada! — Fez sua voz soar o mais animada possível. Regina nada respondeu, só tentou retribuir o sorriso da loira e resolveu olhar para as estrelas. Queria tentar não pensar em nada. Quanto menos pensasse sobre aquilo tudo melhor. Sabia que se pensasse muito voltaria a brigar com a loira por ela ter sido tão egoísta a ponto de decidir tudo sozinha, por outro lado se ela não tivesse feito tal coisa, talvez a morena não tivesse conhecido Robin, e se aquilo não tivesse acontecido, Henry não existiria. Ou seja, sua vida não iria fazer o menor sentido.
– Posso perguntar uma coisa? — Emma aproveitou que estavam sozinhas e estavam tendo um momento de trégua e verdades e resolveu arriscar. Regina tirou olhos do céu e os prendeu na loira.
– Acabou de perguntar. — Pegou no pé da loira, que lhe mostrou a língua.
– Promete que não vai fugir? — Sussurrou o pedido.
– Parece que eu vou fugir? — A morena também sussurrou sua resposta, sem nunca desprender os olhos dos olhos da ex-amiga, que por algum motivo estavam brilhando.
– Se eu tivesse ficado, você acha que a gente teria... — Fez uma pausa procurando as palavras, e sentiu sua bochecha queimar. — Tido alguma coisa, tipo... — Fez outra pausa para tomar coragem e desviou os olhos dos de Regina antes de continuar. — Amorosa? — A morena arqueou as sobrancelhas um tanto surpresa com a pergunta.
– O que importa isso agora? — Murmurou ao voltar a olhar para o céu.
– Nada. Só curiosidade. — Explicou. Pensou que Regina não fosse responder, a própria Regina pensou que não fosse responder, mas quando deu por si, já estava falando.
– Se tínhamos o mesmo sentimento uma pela outra... — Ela deu de ombros. — Acho que provavelmente aconteceria. — A última frase saiu quase inaudível, e a fez sentir vergonha.
– Ah Deus! Por que você me fez tão burra? — O lamento da loira acabou quase arrancando um sorriso de Regina.
– Pelo que eu ouço e vejo, você já superou. — Pegou no pé de Emma. E não, a verdade era que ela definitivamente, não tinha superado, mas Regina não precisava mesmo saber a respeito.
– Pois é. Tive que superar. Mas não seria nada mau, ter Regina Mills, a mulher mais desejada do momento, na lista de mulheres que eu já fiquei. — Regina achou aquilo engraçado.
– Que tipo de lésbica você é? Pensei que essa coisa de cafajeste fosse coisa de homens. — Debochou.
– Não sou exatamente lésbica, sou bissexual, mas ultimamente tenho preferido mais as mulheres, tipo 99% das vezes. Sou o tipo de lésbica ou bissexual que preza pela beleza, qualidade e desenvoltura das mulheres. — Aquela resposta absurda fez Regina dar risada.
– Ok, senhora bissexual, você faz com certeza o tipo cafajeste. — Emma voltou a lhe mostrar a língua.
– Enquanto eu não acho a pessoa certa, resta me divertir com as erradas. — A morena balançou a cabeça em sinal de reprovação.
– Como aquela que você estava ficando na dispensa da cozinha?
– Oh não, não, não! Aquela lá é maior chave de cadeia. Ela só me pegou em um momento deprimido e foi ela quem me agarrou, eu só retribui. — Explicou-se.
– Sei... — Regina continuava pegando no pé da loira cafajeste. — Você não sente falta de nada na hora do sexo, não? — A pergunta direta da morena, fez Emma rir.
– Depende. Tem umas que são entediantes, mas tem outras que tipo... — Fez uma pausa para procurar palavras para se expressar, ato que deixou a morena curiosa e a fez tirar os olhos das estrelas. — Sei lá! É meio surreal. Minhas melhores transas foram com mulheres, isso é fato. — Regina arqueou as sobrancelhas em surpresa.
– Okay. — Foi tudo que disse, já que não sabia exatamente o que dizer.
– Então, por que você veio atrás de mim? — A completa mudança de assunto, pegou a morena de surpresa.
– Não sei. — Deu de ombros. — Parece que todos resolveram lançar a campanha: Deseje a Emma um feliz aniversário. — A loira deu risada ao ouvir aquilo.
– Obrigada por ter me procurado e por ter me ouvido, isso foi melhor do que qualquer tipo de felicitação. — A morena sorriu e cutucou seu cotovelo no braço de Emma.
– Feliz aniversário, Emma! Tudo que desejo para você é muito, muito juízo. Nunca é tarde para recomeçar, basta você querer. — A loira sorriu e se pôs de pé.
– Se vai mesmo me desejar feliz aniversário, faz isso direito! Me da um abraço, vai! Um abraço pelos velhos tempos. Daqueles que só você sabe dar. — Pediu ao abrir os braços. — Por favor? Me dê isso como presente. — Insistiu.
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