Escape
9 Rainha Má X Branca de Neve
Notas iniciais
Devagar quase parando, o tempo passou na prisão Litchfield, e finalmente Regina estava completando um mês de prisão. Não parecia muito, não era muito, mas pelo menos era alguma coisa. Enfim tinham se passado 30 dias, só restavam mais 365. A morena abriu um sorrisinho debochando de si mesma, ao enfatizar o "só".
Podia jurar que estava há pelo menos uns dez anos dentro daquele lugar. As vezes perdia o sono imaginando o dia em que sairia dali. Imaginando o filho e o marido lhe esperando de braços abertos na saída daquele lugar horrível. Imaginando o banho demorado que tomaria em sua banheira na companhia do marido.
Sua cama, seus lençóis de seda, sua televisão, suas séries favoritas, seu vinho predileto, pensava em tudo. Fez vários roteiros, imaginou várias cenas, já tinha tudo planejado, bastava só, o tempo passar.
– Bom dia, Regina Mills! — Emma e sua fiel companheira chamada insistência, apareceram para mais um café da manhã. A loira sentou-se ao lado da amiga.
– Bom dia! — Desejou de muito mau gosto. As coisas entre as duas não tinham mudado muito. Emma continuava tentando recuperar a velha amizade. Regina continuava magoada.
De todas as coisas perigosas da prisão, para Regina, Emma, era a sem sombra de dúvidas a mais ameaçadora. O sorriso idiota daquela loira estúpida, junto com sua fala mansa, e as insistentes lembranças que ela fazia questão de compartilhar, eram tudo armadilhas, Regina tinha certeza. Assim como tinha certeza que uma vez que se deixasse levar, tudo estaria perdido. Então todos os dias travava uma batalha consigo mesma para ser o mais indiferente possível.
– Que bom dia animado, hein? — Emma pegou no pé da morena.
– Dê uma olhada ao seu redor. — Regina murmurou como se fosse um segredo, fazendo a loira passar os olhos lentamente pelo lugar, tentando achar algo de errado.
– O que tem? — Indagou ainda procurando o problema.
– Está vendo quanta gente? — A loira balançou a cabeça afirmando. — Então, por que você não escolhe uma dessas pessoas para azucrinar e me deixa em paz? — A sugestão da morena arrancou um sorrisinho da loira insistente.
– Obrigada, mas eu prefiro você. — Respondeu com toda sinceridade. Na noite em que fugiram da sessão cinema e foram para rua, Emma decidiu que não desistira de recuperar a amizade da morena. Gostava da frase "vença pelo cansaço", e estava seguindo aquela filosofia. Embora Regina continuasse a tratando com desprezo quase sempre, as vezes, a velha Regina fazia uma breve aparição, o que enchia a loira de esperança. — No que você estava pensando antes de eu chegar? — Indagou cheia de curiosidade. As vezes Regina fixava os olhos em um ponto e fica lá, paradona por um bom tempo. Sempre que tal coisa acontecia, Emma ficava morrendo de curiosidade para saber o que se passava pela cabeça da amiga.
– Nada em que lhe diz respeito. — Respondeu ácida.
– Tem a ver com seu mesário na prisão? — Emma sabia que a morena estava completando seu primeiro mês ali.
– Desde quando ficou boa com datas? — Se existia alguém péssima para lembrar de qualquer tipo de data, esse alguém era a loira. Era sempre Regina, quem a lembrava do que quer que fosse.
– Desde quando as datas tem a ver com você. — Foi direta. Ela podia ser horrível com essa história de datas, mas quando o assunto envolvia Regina as coisas eram diferente.
Sua resposta sincera deixou a morena irritante sem uma resposta a altura, o que a fez mudar de assunto.
– Planos para o dia em que eu sair daqui, era o que eu estava fazendo. — Respondeu muito de mau gosto, antes de enfiar um pedaço de pão na boca.
– Além de encontrar com seu marido e seu filho, o que mais tem nesses planos? — Inconscientemente, Emma rolou os olhos ao lembrar de Robin.
– Minha banheira, uma garrafa de Châteauneuf du Pape, minha cama, sexo. — Emma sorriu ao ver os olhos da morena brilhando.
– O que diabos é châteaun... — A loira não conseguiu pronunciar o maldito nome, o que arrancou um sorriso da morena.
– Châteauneuf du Pape. — A pronuncia perfeita da amiga metida, fez Emma rolar os olhos.
– Que seja! O que é isso, Champagne? — A testa franzida pela duvida, arrancou outro sorriso da morena.
– Um vinho francês. — Explicou.
– Ahh, mas você anda muito metida, hein? — Pegou no pé da amiga. — O que aconteceu com o whisky? — Até onde sabia, whisky era a bebida favorita de Regina.
– Depois que conheci o vinho, deixei o whisky de lado. — A verdade era que a morena "deixou de lado", tudo que a lembrava Emma. Whisky, jogos de baseball, noitadas, rock n roll, cigarros entre outras coisas.
– Vinho é? — Emma não pode deixar de sorrir ao imaginar Regina e uma taça de vinho. Com certeza assistir a morena saboreando uma taça de vinho seria algo no mínimo, agradável aos olhos.
– Qual o problema? — Indagou desconfiada ao ver o sorriso da loira.
– Nenhum. Só minha imaginação fértil. — Emma virou o rosto para encarar Regina. — Queria ter conhecido essa Regina apreciadora de vinhos. — Sussurrou com uma voz baixa e talvez... sedutora? A morena não tinha certeza daquilo, mas de qualquer jeito, o olhar que a loira lhe lançava estava a perturbando, mas por algum motivo ela não conseguia quebrar aquele contato visual.
– Bom dia, ex futuro casal! — Para o alívio de Regina, Ruby e French, apareceram por ali, desfazendo o "feitiço" de Emma.
– Bom dia! — Emma respondeu sorrindo. Regina não respondeu nada, já que não gostou da piadinha da ruiva.
– Bom dia para você também, Realeza! — French pegou no pé da morena.
– Bom dia! — Resmungou.
– Então, nós temos um convite para vocês. — Ruby, anunciou sorrindo, enquanto apontava de Emma para Regina.
– Por que eu tenho medo disso? — A morena indagou.
– Sexo a quatro? — Emma disfarçadamente piscou para Ruby, para que ela entrasse na brincadeira. Elas criaram gosto de falar sobre sexo lésbico perto da morena, já que a mesma sempre saía constrangida.
– Uhh! Super topo! — French se pronunciou. — Só me digam a hora e o lugar.
– Hoje, depois do expediente, na capela. — Ruby respondeu. — Quero ser a primeira a foder com a Realeza. — Pediu ao levantar a mão, como fazia em uma brincadeira de crianças.
– Nada disso, vamos tirar no par ou ímpar. — French se pronunciou.
– Acho justo eu ser a primeira, já que vocês vivem dizendo que somos um ex-casal. — Regina que até então se limitava a comer e não responder as provocações. Parou de mastigar ao ouvir aquilo. — Dizem que sexo de reconciliação é uma das sete maravilhas do mundo. — Continuou. A morena até abriu a boca para dizer alguma coisa, mas sabia que quanto mais ligasse para aquele tipo de provocação, mais elas provocariam. Então nada disse.
– Acho que deveríamos excluir a loira sem sal da brincadeira. Ela vai querer monopolizar a realeza. — Ruby levantou os polegares concordando.
– Verdade. Você está fora, Swan. — Ela lançou um olhar indignado.
– Foi eu quem deu a ideia. — Protestou.
– Mas sua ideia envolve sentimentos. Você não vai querer dividir o pão. Algo me diz que quando vocês começarem a se pegar, não vão querer saber de mais ninguém. Então para o bem do grupo, você está fora. — Ruby explicou. Enquanto Emma continuava as olhando indignada, Regina balançava a cabeça muitas vezes em sinal de descrença.
– Regina, diga que se eu não brincar, você também não brinca. — Emma recorreu a ex amiga.
– Queridas, no dia em que os dedos de vocês tiverem pelo menos uns 15 centímetros e forem de uma grossura razoável, venham conversar comigo. Até lá, me deixem em paz. — A morena esbravejou ao levantar-se dali, mas antes que pudesse fazer uma das suas saídas triunfais, Ruby que ria da resposta da morena, a segurou pela mão, a impedindo de ir.
– Realeza, espero que um dia você deixe uma de nós lhe mostrar que tamanho não é documento. — Regina limitou-se a bufar. — Agora senta aí, eu realmente preciso falar com vocês duas. Não é um assunto amoroso, não se preocupe. — A morena rolou os olhos, voltou a bufar e por fim sentou-se novamente ao lado de Emma.
– O que você quer? — A morena foi direto ao ponto.
– Esse seu olhar irritado me faz pulsar lá embaixo. — French a provocou.
– Vá se ferrar! — O pouco de paciência que Regina ainda tinha, estava praticamente esgotado.
– French, agora chega. — Ruby pediu ao perceber que a morena estava se descontrolando. — Mills, Swan, o negócio é o seguinte. Como vocês sabem, o natal está logo ali. Falta praticamente um mês pro papai Noel dar as caras e a gente encher a pança de peru. Peru as vezes até que é bom, no fim das contas. — O pensamento que deixou escapar acabou fazendo todos ali rirem, todas incluindo até Regina. — Enfim, como vocês são novas aqui, não sabem do teatro que a gente faz todo ano.
– Teatro? — Emma questionou.
– Sim. Encenação.
– Tipo, Jesus, Maria, José, os anjos e toda essa papagaiada? Está de sacanagem com a minha cara, não é? — Emma assistiu aquela encenação do nascimento de Cristo todos os 33 anos da sua vida. Aquele era o primeiro natal que ela pensou que iria se ver livre daquela coisa entediante, afinal estava em uma prisão. Pessoas da prisão deveriam ser más, como assim elas queriam encenar o nascimento de Cristo?
– Não. Estamos cansadas da mesma apresentação todos os anos. — Ao ouvir tal coisa, Emma suspirou aliviada. — Por isso estamos pensando em outra coisa. — Regina que estava quieta até então, resolveu se pronunciar.
– Que outra coisa? E o que Emma e eu, temos a ver com isso? — A impaciência da morena, fez Ruby sorrir.
– Então, as latinas querem a todo custo, fazer a mesma coisa de sempre. As negras vão fazer um coral. Estamos pensando em separar nosso grupo e fazer um outro tipo de encenação. — Regina juntou as sobrancelhas em sinal de dúvida.
– Isso não é descriminação racial? — French deu risada.
– Só se for da parte delas. Realeza, elas nos odeiam. Não sei se você percebeu, mas todas aqui são separadas em grupos. Brancas americanas, latinas e negras. Se acha que é preconceito, sugiro que reclame com elas, porque são elas quem fazem questão de nos dividir. — Sim, aquilo era com certeza, discriminação racial e sim, Regina já tinha notado aquela divisão há algum tempo, só nunca questionou e como ela não era juíza de paz, religiosa, algum membro da ONU ou qualquer coisa do tipo, resolveu que não iria se meter. Até porque se não fosse pelas "colegas" insistentes, ela já teria formado um novo grupo de uma pessoa só.
– Ok. Agora que a gente já entendeu essa parte, disserte sobre a sua ideia e explique onde Emma e Regina entram nessa história. — A loira pediu, imitando uma professora, o que as fez rir.
– Então, vamos encenar a Branca de Neve. — Antes que Ruby, pudesse continuar, Emma e Regina abriram a boca para protestar.
– O quê? — A morena questionou indignada.
– Você tá de sacanagem? Branca de Neve? Sério? Branca de Neve é quase tão velha quanto o nascimento de Cristo. — Regina se viu na obrigação de concordar com a ex amiga.
– Agora eu estou entendendo porque não nos aceitam em nenhum grupo. O que diabos a Branca de Neve tem a ver com o natal? — French lançou um olhar de "eu te avisei", para Ruby, que sorriu tranquilamente antes de responder.
– Amor verdadeiro e tudo mais. Não é esse o símbolo do natal? — Emma não fazia ideia do que era o símbolo do natal. Regina também não era lá muito religiosa. Até fazia suas orações e tudo mais, mas não sabia exatamente qual era o símbolo do natal.
– O símbolo do natal é Jesus. — Mesmo sem ter certeza, a morena respondeu confiante.
– E por que Jesus nasceu? — Ruby a questionou.
– Porque Maria e José transaram sem camisinha. — Emma respondeu.
– Não. — A morena voltou-se para loira, para lhe explicar. — Maria e José não transaram. O Espírito Santo apareceu para Maria e perguntou se ela queria ser mãe do Salvador ou coisa assim. Ela aceitou, então o Espírito Santo fez a mágica e ela ficou gravida. — Explicou pacientemente, como sempre fazia quando Emma tinha alguma dúvida ou falava algo incorreto.
– Você acredita mesmo nisso? — O tom de dúvida na voz da loira, fez Regina sorrir. A morena tinha certeza que se falasse que acreditava, mesmo sem entender Emma aceitaria aquilo como verdade.
– Não importa se eu acredito ou não. Só estou lhe contando a história.
– Mas você acredita na história? — A loira insistiu.
– Eu sou só uma mera pecadora. Acredito na ciência. Acredito no que meus olhos veem. Não acredito em milagres. Então não, eu não acredito nisso. — Emma suspirou aliviada, porque tinha certeza que não aceitaria nenhuma explicação que Regina fosse dar para a gravidez espiritual de Maria.
– Então, ex futuro casal, voltando aqui para o nosso assunto. — A provocação de Ruby fez Regina rolar os olhos e Emma sorrir. — Jesus nasceu para nos salvar. E só o amor verdadeiro salva. Se ele não nos amasse de verdade, teria inventado qualquer desculpa para não ficar lá pregadão na cruz, certo? — A morena limitou-se a concordar com a cabeça, já a loira apenas deu de ombros. — Então, a nossa história é sobre amor verdadeiro e você, cara Regina Mills, sua linda, diva, perfeita, você vai ser a nossa Rainha Má. — Regina arqueou a sobrancelha.
– O quê? Por que eu tenho que ser a Rainha MÁ? — Não que ela estivesse concordado em participar do tal teatro, que para ela era coisa de crianças que frequentavam o primário, mas CASO ela concordasse, queria ser a Branca de Neve ou qualquer outra pessoa que não fosse má.
– Porque você é a cara da riqueza! Você é linda. Você é branca. Sua pele não tem uma imperfeição. Você tem ar de superior. Você tem uma postura digna de rainha. Você tem uma cara de poucos amigos. Tem um olhar sexy. Tem uma boca... — Antes que Ruby pudesse continuar a explicar os motivos, Emma coçou a garganta, pedindo o fim da explicação. — Fui convincente? — Indagou com Regina, que acabou ficando constrangida pelo olhar de excitação que a ruiva lhe lançava.
– E a sua voz, você tem uma voz autoritária, Realeza. Sonho em ouvir você gemer para mim. — French completou, deixando a morena ainda mais sem graça.
– Não. Eu não quero ser a Rainha Má. Se querem que eu participe dessa coisinha de crianças, me deixem ser a Branca de Neve. — Quando Regina tinha seus 9, 10 anos, sonhava em ser a Branca de Neve, mas devido a cicatriz que carregava nos lábios, aquele papel sempre lhe era negado.
– Mills, você não combina com a Branca de Neve. A Rainha Má tem muito mais glamour e charme. — Ruby não desistiria da sua Rainha Má, ela lutaria até o fim. — A Branca de Neve é muito sem graça. Swan, será a Branca de Neve.
– Como é? — Emma que estava perdida em pensamentos, imaginando o quão interessante Regina ficaria trajada de Rainha Má, voltou a realidade ao ouvir seu nome ligado a Branca de Neve.
– Você vai ser a Branca de Neve. — Ruby repetiu.
– Por que eu? — A loira tinha planos de no máximo ser um dos sete anões.
– Porque você é tão sem sal quanto a própria. — French respondeu.
– Obrigada pela parte que me toca. Mas eu não posso ser a Branca de Neve, primeiro, porque eu não gosto dela. Segundo, a Branca de Neve tem cabelos pretos. Caso vocês não tenham notado, eu sou loira. — Regina abriu a boca para protestar novamente e de novo pedir o papel de Branca de Neve, mas então lembrou-se dos detalhes da história, lembrou-se da perseguição que a Branca de Neve sofria, por fim sorriu, amando a ideia de ser a rainha.
– Ruby, nessa sua versão da história, a rainha também persegue a Branca de Neve? — A ruiva afirmou.
– Claro. — A morena abriu um sorriso maquiavélico, digno de uma rainha muito má.
– Tem a parte da maçã também? — Indagou novamente.
– Também.
– Por um acaso tem como arrumar uma maçã envenenada de verdade, só para dar mais veracidade a trama? — Enquanto French e Ruby, deram risada, Emma olhou Regina pelo canto dos olhos, arrancando um sorrisinho da morena.
– Eu não quero ser a Branca de Neve, me deixa ser o espelho. — A loira pediu magoada feito uma criança que não ganhou o que queria.
– Não. Eu sou o espelho. — French avisou.
– Vamos lá Emma, me deixa ser sua madrasta. — Regina pediu ao cutucar seu cotovelo no braço da loira.
– Quem vai ser o príncipe? — Indagou enquanto ainda pensava sobre ser ou não a tapada da Branca de Neve. Como não existia homens por ali, o príncipe com certeza seria uma mulher. E ela só decidiria aceitar ou não, depois de saber quem iria ter que beijar. Desde que acertou sua "dívida" com Panda, a loira andava meio traumatizada com a história de mulheres.
– Eu! — Ruby respondeu sorrindo. Aquilo não fazia sentindo. Pelo menos não para Emma.
–Ok. Você descaradamente arrasta uma asa para cima da Regina, e aí quando ela pede para ser a Branca de Neve, você me escolhe. Tem certeza que você prefere beijar a "loira sem sal", ao invés de beijar a morena gostosa? — Ao lembrar da parte do beijo, Regina suspirou aliviada por terem lhe negado o papel da Branca de Neve. Ser a Rainha Má era tão melhor.
– Para você ver o que um artista não faz pela arte. — Foi a resposta da ruiva. — Mas enfim, nosso beijo não vai funcionar. — Emma juntou as sobrancelhas.
– Não? Então eu vou dormir para sempre? — Ruby negou.
– Não. O príncipe não é seu amor verdadeiro. — Aquela mudança de script deixou tanto Emma quanto Regina curiosas.
– Então quem é? — Questionaram em uníssono. French e Ruby, trocaram um olhar cúmplice, antes de a ruiva voltar-se para as duas e sorrir.
– A Rainha Má. — Ao ouvir aquilo, os olhos de Regina cresceram.
– O QUÊ? — Indagou um pouco alterada pelo que acabará de ouvir.
– A Rainha Má não queria matar a mais bela, de fato. Ela só queria o coração da Branca de Neve. Só que não o coração físico. E sim no sentido figurado, o coração no sentido de amor, paixão, química, lance de pele. — Explicou animada. — A rainha ama a enteada, e pelas atitudes da Branca, ela pensa que o sentimento é recíproco e na verdade é. Mas, a Branca é jovem, imatura, cheia de dúvidas e medos, e quando a rainha se declara, a Branca fica sem saber o que fazer e resolve dar no pé sem nem uma explicação. Então a rainha passa a ser a Rainha Má, seu amor se transforma em ódio e ela começa a perseguir a Branca de Neve. — Regina teve uma sensação de déjà vu ao ouvir aquela história. O semblante da morena tornou-se sério, ela apertou a mandíbula, estreitou os olhos e encarou a ruiva.
– De onde você tirou essa história? — A mudança de humor da morena junto com seu tom de voz irritado, deixaram Ruby e French sem entenderem. Já Emma estava tão surpresa e chocada quanto Regina. Aquela nova história da Branca de Neve era sinistramente parecida com a história das duas. Regina parecia transtornada, o que fez a loira concluir que aquela história a magoava muito mais do que ela deixava transparecer.
– Da minha cabeça. Qual o problema? O que tem nela que deixou você assim irritada? — Pelo tanto de perguntas da ruiva e pela cara de quem não estava entendendo nada, Regina constatou que Ruby não estava entendendo nada.
– Estou fora! Arrume outra Rainha Má. — Antes que alguém pudesse falar alguma coisa, a morena levantou-se dali e se foi.
– Regina, espera! — Emma pediu, mas a morena já estava longe e mesmo que não estivesse, ela não esperaria.
– Qual o problema dela? — French questionou chocada com a cena.
– De onde você tirou essa história? — Emma voltou-se para Ruby, e lhe lançou um olhar nada amigável.
– Da minha cabeça, já disse. — A loira fechou a cara e fechou também a mão em punho, antes de choca-la contra a mesa.
– A VERDADE! — Esbravejou. Ato que chamou a atenção de outras detentas por ali. — A verdade. — Pediu com mais calma. — Por favor. — A ruiva coçou a cabeça, suspirou e assentiu concordando.
– Ok. Mills, ganhou um livros do marido. Aquela trilogia de 50 tons de cinza. — A loira assentiu. — Teve uma tarde que eu estava sem fazer nada, vi um dos livros em cima do travesseiro dela e peguei para dar uma olhada. Não sei porque, mas as últimas páginas do livro estão em branco e ela aproveitou aquilo para usa-las como diário ou algo assim. Só li uma página, e nessa página fala sobre uma tal Emma. — O coração da loira acelerou ao ouvir aquilo. Ela tinha medo de saber o que Ruby leu lá. — Fala sobre o primeiro dia que vocês se encontraram aqui. Fala como você é dissimulada. Ela odiou o seu "oi, Regina Mills". — Emma desviou os olhos dos da ruiva.
– E o que isso tem a ver com a história da Branca de Neve? — Murmurou.
– Bom, lá está escrito que você a tratou como se vocês ainda fossem melhores amigas, como se você não tivesse se mandando sem dar uma explicação decente, como se não tivesse sumido no mundo. Como se tivesse respondido aos emails, telefonemas, mensagens e postais. — A ruiva fez uma pausa para respirar. — Juntei isso com a informação que você me deu, naquele mesmo dia quando eu disse que sentia de longe o cheiro de couro, e você disse que não era aquilo, mas que poderia ter sido, se você não tivesse agido como uma idiota.
– Pera aí, deixa eu ver se entendi direito. — French tirou os cabelos da frente do rosto para olhar nos olhos de Emma. — Mills, era afim de você e você dispensou ela, é isso mesmo? — A loira nada respondeu, só concentrou os olhos na sua bandeja de comida.
– Acertei em cheio, não foi? — Ruby questionou com ar vitorioso.
– Por que diabos, você fez isso? As coisas já estão bem difíceis de consertar assim, tudo que eu menos preciso é que você traga a porra do passado de volta e deixe tudo mais complicado do que já é. — Emma esbravejou.
– Só estou tentando ajudar. — Ouvir aquilo fez a loira abrir um sorriso sarcástico.
– Ajudar? Nossa! Me avise quando quiser atrapalhar, assim eu tenho tempo para fugir. — Debochou.
– Ela está magoada. — Emma se perguntou que tipo de gênio era tal Ruby.
– Sério? Nem tinha percebido. — Continuou com o mesmo tom de deboche.
– Hey, não tente descontar sua raiva em mim. A culpa é toda sua. — A ruiva acusou, fazendo a loira levantar os olhos e encara-la.
– Eu sei. Você não precisa me lembrar disso. Precisa menos ainda se meter nessa história. — Sua voz saiu baixa, fria e um tanto quanto ameaçadora.
– Você é muito mal agradecida. Estou lhe dando uma oportunidade. — A loira abriu um sorriso debochado. — Essa história de teatro, vai aproximar vocês duas. Aproximar de verdade. Vocês vão ter que trocar mais do que meia dúzia de palavras. Ela vai ter que conviver com você para ensaiarem e se você for inteligente, só se você for inteligente, você vai aproveitar uma dessas oportunidades e vai contar a verdade. Porque está escrito na sua testa, que você gosta e muito daquela morena gostosa. — Emma ficou alguns segundo em silêncio, só encarando a ruiva em sua frente. Aquilo até que fazia um pouco de sentindo, mas ela não entendia o porque Ruby estava aparentemente a ajudando.
– E o que você ganha com isso? — Questionou desconfiada.
– Nada. — Respondeu dando de ombros. — Eu só acho uma idiotice isso. Perder alguém por medo de tentar. A vida é uma só e quando ela estiver perto do fim, você não vai poder voltar para tentar mudar as coisas. — O tom melancólico que Ruby usou, fez Emma concluir que a ruiva também tinha ou teve um caso no mínimo, complicado.
– Ela é casada. -Deu a desculpa.
– Mas não está morta. — French cantarolou.
– Ela não gosta de mulher. — De novo deu outra desculpa que vivia dando a si mesma.
– Ela gostou de você um dia, e pelo que tudo indica, você é uma mulher. — Ruby respondeu.
– Ok. A sugestão de vocês é que eu devo tentar destruir uma família, é isso? — Se elas afirmassem, Emma mandaria sua consciência calar a boca e seguiria a voz de suas colegas de prisão.
– Pense da seguinte forma, você não vai estar destruindo uma família, só vai estar pegando o que é seu de volta. — French filosofou.
– Mas e o garoto? Ela tem um filho. — Usou sua última desculpa.
– Ótimo! Assim vocês não vão precisar adotar. A família já vem completa. Reconquiste a mãe, e depois conquiste o filho. — A loira balançou a cabeça muitas vezes concordando com a sugestão de Ruby.
– Okay. Eu vou pensar! — Respondeu animada demais e então se pôs de pé. — Agora eu vou.. é... — Atrás de Regina, era onde ela daria um jeito de ir. — Trabalhar. — Deu a desculpa, fazendo as outras duas rirem.
– Amor é uma coisa muito patética. — Ruby debochou.
– Muito. Se a minha irmã sabe que essa loira está apaixonada, vai querer o couro da Realeza. — French voltou a filosofar.
– Hey, deixe sua irmã longe, por favor. — Emma pediu. — Agora eu preciso ir. Obrigada! Vocês são os melhores príncipes e espelho de qualquer conto existente sobre a Branca de Neve. — A loira elogiou antes de ir.
Emma não precisou esperar muito tempo até achar uma desculpa para ver Regina, já que a uma das máquinas de lavar da morena estragou, e era a loira quem cuidava da manutenção das maquinas ou qualquer outra coisa que fosse ligado na tomada.
Regina até tentou consertar sozinha aquela tralha que chamavam de maquina, tentou de todas as formas possíveis, faria qualquer coisa para não ter que chamar a loira, pensou seriamente no caso de ir até a limitada biblioteca daquele lugar, para ler uns livros de eletrônica, mas não teve tempo para tal coisa, já que um supervisor apareceu na lavanderia e viu a maquina quebrada. Foi ele quem fez o favor de chamar Emma.
Fazia mais de uma hora que ela estava lá, sentada sobre a maquina, com os pés balançando para frente e para trás, enquanto segurava uma placa com uma mão e uma maquina de solda com a outra. As duas ainda não tinham trocado nenhuma palavra.
Regina fazia de conta estar super-concentrada na lavagem das roupas e Emma, bom, Emma estava realmente concentrada na soldagem dos fios da placa. Queria acabar aquilo o quanto antes, tinha planos de não avisar Regina sobre o conserto, então puxaria um assunto e tentaria tocar sutilmente no passado.
Quando finalmente soldava o último fio, começou a assoviar uma música, e não era uma música qualquer, era a música do Jim Morrison, a música delas, a música do beijou ou do quase beijo. Claro que a morena percebeu aquilo de imediato. Claro também que ela se fez de indiferente.
– Você ainda gosta de The Doors? — A loira questionou de repente.
– Não. — Ganhou uma resposta curta e grossa.
– Rolling Stones? — Tentou de novo.
– Não. E não tente Pink Floyd. — A irritação da morena fez Emma sorrir.
– Do que você gosta então? — Indagou.
– De silêncio. — Soltou junto com o ar.
– Por que você está brava?
– Não estou brava! — Respondeu brava e então a loira gargalhou.
– Você nesse exato momento não parece ter 33 anos, parece ter no máximo uns 13. — A morena a olhou de canto e resolveu não responder nada. Ficaram um tempo em silêncio até Emma tomar coragem e resolver tocar no assunto. — Fale comigo sobre a sua saída triunfal do refeitório no café da manhã. — Ouvir aquilo fez o coração da morena bater mais forte. Ela não esperava que Emma fosse tocar naquele assunto, na verdade ela imaginava que a loira iria fazer de conta que nada era nada. Por que era exatamente isso que ela faria.
– Não sei sobre o que está falando. — De novo, se fez de diferença.
– Sim, você sabe. — A morena jogou um pouco de roupas para dentro da maquina e voltou-se para a loira.
– NÃO. Eu não sei. — Esbravejou irritada, o que fez a loira suspirar e desistir daquela conversa.
– Okay. Você não sabe. — Em um pulo a loira desceu da maquina, deu as costas para Regina e começou a parafusar a placa de novo na maquina. A morena bufou e voltou aos seus afazeres. Questionou-se o que tinha dado em Emma para ela estar assim tão corajosa. Sim, porque só tendo muita coragem para aquela dissimulada tentar tocar naquele assunto.
– Acabei. Você precisa testar. — A loira avisou. Sem nem um pingo de vontade, a morena pegou um cesto com roupas sujas e aproximou-se da maquina onde a loira folgada estava encostada e de braços cruzados. Regina fez de conta que estava sozinha ali, enquanto jogava as roupas para dentro da maquina.
Emma teve vontade de sorrir, ao ver a cara de má da amiga, se Regina soubesse o quanto a loira amava aquela cara de má, talvez não a fizesse com tanta frequência.
– Regina Mills, você precisa achar um horário nessa sua agenda lotada para ensaiarmos. — Regina rolou os olhos, e depositou a raiva que estava sentindo nas roupas que ela atirava para dentro da máquina sem nenhuma delicadeza.
– Qual a parte de “eu não vou participar desse teatro”, não ficou bem clara para você? — Indagou irritada. Emma nem se abalou.
– Você já tinha aceitado. Desistiu quando ficou sabendo da parte do beijo de amor verdadeiro. Desse jeito eu vou pensar que você está com medo de se apaixonar. — A morena largou as roupas de lado e voltou-se para a loira.
– Sonha! Aproveita que ainda é de graça. — Respondeu ao lhe lançar um olhar ameaçador. Emma por sua vez, não deixou-se intimar.
– Você já se apaixonou uma vez, então não seria um sonho tão impossível assim. — Provocou. — E mesmo que fosse, eu pagaria por ele. — Ouvir aquilo deixou a morena momentaneamente sem reação. O que tinha dado naquela loira lunática afinal?
– Não me provoque! — Avisou antes de lhe dar as costas e voltar para as roupas.
– Regina, eu preciso te contar uma coisa. — A loira começou um pouco hesitante.
– Eu não quero saber. — Respondeu de imediato. Ela não queria saber mesmo. O que quer que fosse, tinha pavor de querer saber. Algo dentro dela dizia que era melhor não saber. Quanto menos soubesse, melhor seria.
– Mas eu quero contar. Eu preciso te contar. — De novo a morena desistiu das roupas e voltou-se para Emma.
– Não. O que quer que você tenha a dizer, não me interessa. — A voz ameaçadora da morena estava de volta.
– Aquele dia quando eu fui embora, eu não fui nem um pouco honesta com você. Eu não estava sendo verdadeira, estava apenas sendo covarde. — O coração da morena voltou a bater forte ao ouvir aquilo. Ela definitivamente não queria saber. Não queria lembrar. Não queria tocar no assunto. Não queria reviver aquilo tudo de novo. Não depois de ter superado. Atordoada com aquilo, deu as costas para Emma, e literalmente correu dali, fugindo de Emma, do passado e de qualquer tipo de lembrança que pudesse voltar para atormenta-la.
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