Escape

40 Mais do que você possa imaginar


Notas iniciais
Oi, gente! Demorei né? Mil perdões por isso. As coisas no trabalho estão bem corridas e aí quando chego em casa, não consigo desligar minha mente de lá, tudo que consigo pensar é em boletos de cobrança e notas fiscais. Também tive problema com esse capítulo, não gostei do primeiro que escrevi, apaguei tudo, e fiz tudo de novo, o que também colaborou para o atraso. Enfim, finalmente consegui (comemora), agora acho que deu certo e estamos aqui. Agradeço a todos pelos review lindos e sempre muito incentivadores, muito obrigada! E um agradecimento especial para a Laís e para Juh Parrilla, que fizeram recomendações maravilhosas para a fanfic. Não sei o que dizer para agradecer ambas as recomendações, amei, adorei, li e reli. Muitíssimo obrigada, de coração! Quanto ao capítulo, o que estiver em itálico é flashback (teremos dois) e aproveitem, escape está chegando ao fim (agora de verdade) faltam dois ou três capítulo e dentro desses capítulos vamos ter alguma tensão, então é isso, preparem-se.

Regina andava cabisbaixa, triste e magoada, pelo corredor da escola. Quando sua visão ficava muito embaçada, usava os braços para tentar livrar-se das lágrimas estúpidas, que por mais que odiasse, as faziam companhia quase todos os dias, desde que sua mãe morreu.

Seu pai caminhava ao seu lado sem dizer nada, e aquilo só tornava tudo ainda pior, queria ouvi-lo gritando, brigando, dizendo que o que ela fez foi errado, ou qualquer coisa do gênero, tudo que queria era ouvi-lo. Queria que ele voltasse a interagir com ela, nem que fosse para brigar, apenas queria seu pai de volta.

O homem foi chamado na escola, graças a um ataque de raiva que Regina teve, quando ouviu um colega fazer piada sobre sua mãe. Nunca tinha batido em ninguém antes, mas já tinha espiado clandestinamente, o pai de Emma assistir um filme cheio de lutas e brigas, e fez o que os homens fizeram no filme, fechou as duas mãos e partiu para cima do colega. Apesar de menor, o derrubou, e quando ele caiu, ela bateu nele caído.

Provavelmente ainda estaria lá batendo, se Emma não tivesse de algum jeito conseguido a tirar de lá. Claro que devido ao descontrole, sobrou socos até para a sua amiga, outro dos motivos pelo qual estava chorando, provavelmente tinha machucado Emma também.

Bom, seu pai ao invés de concordar com o diretor e dizer que o que a filha fez foi errado, a defendeu. “Esse comportamento é totalmente aceitável, Regina perdeu a mãe há poucos meses, não merece ouvir nenhum tipo de gracinhas sobre a mesma”. Foi praticamente tudo que o homem falou na presença da filha. Depois de tal coisa o diretor deu a menina três dias de suspensão, o pai aceitou sem reclamar muito e os dois foram liberados.

Andavam lado a lado pelo corredor vazio e já escuro, estavam tão próximos um do outro, que quase se tocavam, tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe. Quando saíram da sala do Sr. Avery, Regina teve uma pequena esperança que o pai lhe dirigiria a palavra, pelo menos para perguntar se ela estava bem, mas à medida que foram caminhando e a única coisa que se fazia audível entre eles era o barulho dos seus passos e da chuva que caía lá fora, teve certeza que aquilo não aconteceria. Foi a partir desse momento que começou a chorar, e de novo, mesmo o pai estando ciente de suas lágrimas e soluços, não esboçou nenhuma reação.

Ao alcançarem a porta de saída, pararam. Regina para procurar onde o carro do pai estava estacionado, o homem por ver o quanto chovia forte. Assim que os olhos da morena acharam o carro, ela deu um passo à frente para correr em direção ao mesmo, mas a mão do pai sobre seus ombros a impediu, o que fez o coração da menina bater forte, cheio de esperança.

– Espere aqui, vou buscar o carro. – Foi tudo que ele lhe disse, antes de ir. Regina balançou a cabeça negativamente, se achando boba por ter tido qualquer tipo de esperança. O pai não gostava mais dela, e não voltaria a gostar, tinha cada vez mais certeza que não. Precisava ser forte e aceitar aquilo, não podia chorar para sempre por aquele motivo. Brava consigo por ser tão fraca e chorona, mais uma vez passou os braços pelo rosto, tentando se desfazer das lágrimas.

– Brigaram muito com você? – Ao ouvir a voz de Emma, seu coração bateu apressado. Timidamente levantou a cabeça para encarar a amiga e acabou se assustando quando viu Emma, a poucos metros de si, só que debaixo de toda aquela chuva. O uniforme da loira, estava grudado em seu corpo magricelo, e seus cabelos sempre revoltados, estavam lisos e escorridos, graças a toda a água que caía sobre eles. Gostas pingavam dos cílios de Emma, enquanto ela tentava deixar os olhos abertos.

– O que você está fazendo aqui? – Indagou incrédula.

– Esperando você! – Emma deu de ombros.

– Na chuva? – Continuava incrédula, enquanto balançava a cabeça descrente.

– Lá dentro não tinha mais ninguém, já estava quase tudo apagado e eu tenho medo de ficar sozinha dentro das coisas, e se alguém me trancasse lá? – Regina voltou a balançar a cabeça negativamente. Com certeza preferiria ficar sozinha e no escuro, do que encarar toda aquela chuva. – Você estava chorando? – A morena apenas deu de ombros, não estava afim de falar sobre aquilo, porque não queria voltar a chorar. – Eles brigaram muito com você? – Balançou a cabeça negando.

– Você não está brava comigo? – Sua pergunta soou preocupada, o que fez a loira juntar as sobrancelhas.

– Não. Por quê? – Regina apontou para amiga, mais precisamente para seu lábio inferior onde tinha um pequeno machucado.

– Porque eu bati em você. – A resposta fez Emma dar de ombros.

– Doeu! – Reclamou. – Antes... depois... antes... – Franziu a testa, confusa com que palavra deveria usar. – Eu fiquei um pouquinho chateada, mas agora já passou. – Explicou por fim.

– Eu não queria ter batido em você. – Tentou desculpar-se.

– É, eu sei, mas doeu do mesmo jeito. – Reclamou.

– Você me desculpa? – Pediu e ganhou um balançar afirmativo de cabeça e um sorriso.

– Um dia você me ensina a bater que nem os homens dos filmes do papai? – Regina esboçou um sorriso, com o tom empolgado da pergunta.

– Não é legal bater nas pessoas. – Falou o que sua professora e o diretor tinham lhe falado.

– Mas você bateu.

– E por causa disso, vou ter que ficar três dias em casa. – Os olhos de Emma cresceram ao ouvir tal coisa.

– Sério? – Regina afirmou. – Você bate em alguém e ainda pode ficar em casa? – Abriu um sorriso largo. — Que legal! Vou bater em alguém amanhã, para ganhar férias também! – Aquilo era o que Emma chamava de sorte.

– Não, você não pode. – A morena avisou. — O diretor disse que se eu fizer isso de novo, vou ter que procurar outro colégio para estudar. – Emma lhe lançou um olhar preocupado.

– Você vai embora? – A mão fria e molhada da menina loira, tocou a da amiga.

– Se eu bater em mais alguém, vou ter que ir. – Explicou.

– Eu não quero que você vá embora. – Regina era o único bom motivo para Emma ir para aquela coisa chata chamada escola.

– E eu não quero ir. – Não queria mudar de escola, não queria parar de ver Emma, a loira era a sua única amiga. Regina não tinha muita paciência para pessoas, não tinha paciência para as brincadeiras e gritarias dos amigos, por algum motivo, eles a irritavam fácil. Emma falava pelos cotovelos, trocava palavras, não prestava atenção nas coisas, gostava de brincadeiras que envolviam correr, e cantava músicas estranhas. Resumindo, era tão irritante quanto as outras crianças, mas ao mesmo tempo era diferente, e Regina simpatizava e muito com aquele diferente. Era um diferente que a fazia se sentir melhor, quando estava muito triste. Era um diferente que muitas vezes era a única coisa que lhe fazia sorrir durante todo o dia. Era um diferente que mesmo falando pelos cotovelos, sabia ouvir. Era um diferente que mesmo não prestando atenção em quase nada, prestava atenção nela.

– Promete que não vai mais bater em ninguém? – A loira pediu preocupada e ganhou uma afirmação.

– Prometo. – Não acreditando muito naquela promessa, Emma estendeu o dedo mindinho para a amiga.

– Jura de dedinho? – Regina rolou os olhos, mas entrelaçou seu dedo ao da amiga.

– Juro de dedinho que não vou mais bater em ninguém. – Satisfeita com aquilo, Emma sorriu e sem que Regina esperasse, a puxou, a fazendo descer um degrau, a trazendo para a chuva junto consigo. – EU VOU BATER EM VOCÊ! – Regina esbravejou, paralisada graças a água gelada que caía sem dó nem piedade sobre seu corpo, até então quentinho.

– Você jurou de dedinho que não vai mais bater em ninguém! – Emma a lembrou enquanto ria da cara da amiga, que passava a mão pelo rosto, tentando livrar-se da água que escorria por ele.

– Eu odeio você! – A morena esbarrou as mãos nos ombros da amiga, que continuava rindo.

– Você não é de açúcar. – A afirmação de Emma, deixou a amiga sem entender.

– E o que isso tem a ver? – Esfregava as mãos pelos braços, tentando de alguma forma se aquecer. Odiava chuva, odiava. A sensação da roupa grudando em seu corpo, era horrível, a água gelada escorrendo sem parar pelo seu corpo, era pior ainda.

– Meu pai diz que quem é feito de açúcar, não pode ir na chuva, porque senão desmancha. – Falou o que seu pai sempre falava para a sua mãe, mesmo não entendendo o significado daquilo. – Vem! – Puxou a amiga fresca pela mão, antes que a mesma pudesse fugir da chuva.

– Ir onde? Vamos esperar meu pai ali debaixo do telhado. – Tentou puxar Emma de volta, mas como a amiga era teimosa, não lhe deu ouvidos.

– Vamos ali na grama. – Avisou enquanto puxava Regina.

– Eu não quero ir na grama, quero me proteger da chuva. – A morena continuava reclamando, mas já não fazia esforço algum para voltar. Ao alcançarem o lugar que Emma queria, a loira soltou a mão da amiga, e jogou-se no chão, deitando sobre a grama. — Deita aqui, Regina Mills. – Pediu e Regina negou.

– Se eu deitar aí, vou ficar coçando. – Ou seja, era uma ideia tão ruim, quanto tomar banho de chuva.

– Se ficar coçando, você coça. – Emma deu a solução simples, fazendo a amiga suspirar e fazer a vontade da loira.

– Pronto. Já posso levantar agora? – Colocou as mãos sobre os olhos, os protegendo da chuva.

– Não. Quero mostrar uma coisa. – Avisou.

– Que coisa? – Assim como Regina, Emma usava as mãos para proteger os olhos.

– Fecha os seus olhos e me dá a sua mão. – Sem questionar, Regina fez o que a amiga pediu, fechou os olhos e estendeu a mão esquerda à loira.

– E agora? – Sentiu a mão de Emma pegando a sua, e as abaixando.

– Agora você tem que respirar bem grandão, assim. – Respirou fundo, mostrando para a amiga como ela precisava fazer, e de novo, Regina fez. – Do que você está sentindo cheiro? – Indagou com a amiga o mesmo que o pai tinha lhe indagado, no seu primeiro banho de chuva.

– De chuva. – Regina respondeu, o mesmo que Emma tinha respondido.

– E chuva tem cheiro do quê? – A morena voltou a respirar fundo.

– De grama molhada. – Emma concordou.

– E de terra molhada. – A loira complementou e fez Regina sorrir e também concordar. – E agora tem um pouco de cheiro do seu shampoo cheiroso. – Continuou.

– E do seu. – Até que tomar banho de chuva, não era tão mal como pensou ser.

– E o barulho dela é bom, você não acha? – Fez alguns segundos de silêncio e pela primeira vez, parou para realmente prestar atenção no barulho da chuva. O barulho combinava com cheiro, com os pingos caindo sobre si, com sua mão agarrada a da amiga.

– Acho que ela está cantando. – Murmurou com Emma.

– O que você acha que ela está cantando? – Regina suspirou.

– Eu não sei. Alguma coisa triste e feliz ao mesmo tempo. – De repente, identificou-se com a chuva.

There will be an answer, let it be... – Emma sussurrou um trecho da velha canção. – Acho que essa é uma música triste e feliz ao mesmo tempo. – Compartilhou seu pensamento com Regina. – É dos Beatles. – Regina balançou a cabeça concordando. Graças à insistência da amiga, tinha finalmente “conhecido” os tais Beatles e a verdade é que tinha simpatizado com as músicas. E sim, talvez aquela música fosse realmente feliz e triste, talvez mais triste do que feliz, a melodia tinha seus picos de felicidade, mas a tristeza a dominava. Deduziu que talvez a chuva estivesse lhe cantando uma música, a sua música. Pensou em abrir a boca e dividir seu pensamento com Emma, mas talvez a amiga não fosse entender. – Regina? – Foi tirada dos seus pensamentos pela voz de Emma lhe chamando.

– Oi?

– Você é a minha melhor amiga de todo o mundo! – Regina abriu um sorriso largo, ao ouvir tal coisa.

– E você é a minha melhor amiga de todo mundo! – Também se declarou. – Você faz a parte feliz da minha música triste. – Contou.

– Eu não entendi, mas se eu ajudo você a ficar feliz, então também fico feliz. – O sorriso voltou a tomar conta do rosto da morena ao ouvir aquilo. – Se um dia você tiver que mudar de colégio, eu vou junto com você. – Prometeu.

– E se um dia você tiver que mudar de colégio, eu também vou junto com você. – Também prometeu.

– E nós vamos ser amigas até depois de depois de depois de depois de depois de depois de depois, de ontem. – A confusão da loira, fez Regina rir.

– De amanhã. – A corrigiu, como sempre fazia quando Emma confundia o ontem com o amanhã.

– Foi o que eu disse. – Não foi? – Você acha que isso é bastante tempo? – Regina afirmou.

– Acho que é.

– Qual o maior tempo que você conhece? – Com certeza a amiga conhecia um tempo maior, afinal, ela era a Regina.

– Cem anos. – Respondeu.

– Quanto tempo é cem anos? – Para Emma, aquilo não parecia muito tempo.

– É um tempo bem grande. Com cem anos nós vamos ser bem velhinhas, ter cabelos brancos, não vamos mais enxergar direito, e o nosso rosto vai ficar meio caído e ter algumas dobrinhas, e talvez a gente não consiga mais andar. – Emma estava surpresa, cem anos era muito tempo mesmo.

– Acho que a minha bisa tem cem anos. – Comentou com Regina. – Então nós vamos ser melhores amigas de todo o mundo por cem anos. O que você acha? — A morena concordou de imediato.

– Acho que é uma boa ideia. – Ao virar o rosto em direção à Emma e abrir os olhos, surpreendeu-se ao encontrar com os olhos da amiga também abertos, lhe olhando.

– E se um dia eu precisar viajar com meus pais, para visitar os parentes da minha mãe que moram lá longe, você me espera? – Sua voz soou preocupada.

– Espero. – Regina a tranquilizou.

– E se eu demorar? – Voltou a questionar.

– Vou continuar esperando. – A garantia, fez Emma sorrir.

– Prometo que sempre vou voltar. – Regina lhe retribuiu o sorriso.

– Então eu prometo que sempre vou esperar.

Três anos e quatro meses, mil duzentos e dezessete dias, incontáveis horas que graças à matemática, Emma não sabia como calcular, enfim, o dia que certa vez era tido como inalcançável, tinha finalmente dado as caras.

Emma tinha cumprido todo o seu tempo da prisão, já não estava mais no mesmo espaço que as outras detentas. Estava em uma sala de espera, enquanto aguardava o conselheiro aparecer com os papéis que ela tinha que assinar. Alguns minutos, era esse o tempo que restava para Emma dentro da prisão. Poucos minutos a separavam do mundo lá fora, poucos minutos a separavam dos seus medos, receios, e de Regina, a única certeza em meio a tantas incertezas.

Mal conseguiu dormir à noite, pensando em como seria sua vida a partir do momento que pusesse os pés para fora da prisão. Tudo bem, ela e Regina já tinham feito e refeito muitos planos durante os últimos nove meses, só que até então eram só planos, algo para o futuro.

A verdade é que estava um pouco assustada diante de tal futuro, que finalmente estava começando a se tornar presente. Tinha medo de fazer tudo errado de novo, medo de enfiar os pés pelas mãos mais uma vez, medo de que as coisas não saíssem como planejado, mas ao contrário das outras vezes, estava disposta a enfrentar todos esses medos.

Sabia que a vida não seria só o mar de rosas que planejaram, sabia que enfrentariam alguns problemas, que brigariam muitas vezes, que bateriam boca, e que provavelmente ainda trocariam muitas juras de ódio, mas de algum jeito também sabia que dariam um jeito, no que quer que fosse, elas dariam um jeito, e no final do dia, antes de deitarem para dormir, fariam as pazes.

Dali alguns minutos, quando enfim pusesse os pés para fora daquele lugar, se dedicaria a ser uma pessoa melhor, a pessoa que Regina merecia que fosse. Com certeza ainda errante, com certeza ainda um pouco teimosa, ainda sem muita paciência para as pessoas, mas disposta a fazer o que quer que fosse para pôr sua vida nos eixos, e vive-la bem, ao lado das pessoas que amava.

Ao ouvir mais um barulho estrondoso de trovão, suspirou. Claro que estava chovendo, já deveria esperar por aquilo, seu currículo de falta de sorte era bem grande, então estranho seria se estivesse fazendo um lindo dia de sol. Estranho seria pôr os pés para fora daquele lugar, sem tomar um banho de chuva. Estranho seria se Regina estivesse lhe esperando lá fora encostada em seu carro, trajando um short e uma de suas camisas de verão, de braços cruzados, cara de má, usando seus óculos de sol, ao invés de lhe esperar dentro do carro, graças a maldita chuva. Estranho seria se seu plano de correr em direção a namorada assim que a visse, desse realmente certo.

– Você realmente não gosta de mim, não é mesmo? – Reclamou com Deus, ao olhar para o teto do lugar. Suspirou, e nervosa com toda a situação começou a remexer nas fotos que tinha guardado na caixa junto com seus outros pertences, e que estava sobre suas pernas. Sorriu antes de seu indicador cutucar o nariz de sua sobrinha. – Vamos enfim nos conhecer. – Resmungou para a imagem, sem deixar de sorrir. – Espero que você tenha menos medo de mim, do que eu provavelmente vou ter de você. – Voltou a resmungar. Sem pressa foi passando as poucas fotos que tinha ali, sorrindo e relembrando o momento em que cada uma aconteceu. A última a fez rolar os olhos e balançar a cabeça negativamente. – Só você para ter me feito tirar uma foto estando nesse estado. – Sussurrou para as imagens, ao recordar-se daquela noite.

Emma estava irritada, não podia acreditar na quantidade exuberante de azar que tinha com tão poucos anos. Se com dezessete, já tinha tanta falta de sorte, provavelmente com vinte e sete, estaria no guines book como a pessoa mais azarada do mundo, e com trinte e sete, com certeza já não existiria mais.

Catapora, coisa de criança, que você pega com seis, sete anos, e fica feliz da vida, por ter contraído tal coisa. Bom, Emma não pegou catapora com seis, sete anos, reclamou e chorou com os pais por esse motivo, mas não adiantou, o vírus simplesmente não lhe quis, pelo menos não naquele tempo.

Dez, onze anos depois, quando já não pensava mais na tal catapora, quando já não a queria mais, quando já tinha superado a falta daquilo, quando estava com dezessete anos, e as provas finais tinham começado, o maldito vírus resolveu lhe querer. Graças a tal coisa, perdeu os dois primeiros dias de prova, estava com incontáveis pintas vermelhas pelo corpo, com mais coceira do que cachorro sarnento, com febre, e completamente sozinha. Sozinha em plena sexta-feira à noite, enquanto todos os seus outros amigos, incluindo Regina, estavam na festa de Gabriel.

Irritada, apertou com força o botão do controle remoto, trocando o canal da TV pela milésima vez. Fazia mais de meia hora que estava descontando toda sua frustração no coitado do botão, como se de repente, tivesse sido ele quem lhe transmitiu a catapora.

Bufou pensando em Regina. Amiga ingrata! Okay, tudo bem, a morena tentou lhe visitar por dois dias seguidos, e foi praticamente expulsa de lá pela loira. Já que Regina também fazia parte do seleto grupo de quem nunca pegou catapora, não queria que a amiga se aproximasse, para que continuasse fazendo parte de tal grupo. Trancou-se no banheiro nos dois dias em que Regina veio, e só aceitou conversar com ela daquele jeito, cada uma de um lado da porta.

Embora não quisesse que Regina ganhasse aquelas pintas estupidas, esperou que ela viesse lhe ver de novo, mas ao contrário dos outros dias, ela não apareceu. Certamente seguiu seus conselhos, suas ordens de não vir, mas a verdade é que falou tudo aquilo da boca para fora, a verdade é que por mais egoísta que fosse, queria a amiga ali, mas claro que a insensível com certeza preferia se divertir em uma festa, do que visitar a amiga miserável que com dezessete anos na cara, resolveu contrair catapora.

Magoada, irritada, brava, triste, se sentindo a pessoa mais azarada do mundo, esfregou o braço no rosto, tirando de lá as lágrimas estúpidas que resolveram manifestar seu estado de espirito. Foi quando três batidas na porta chamaram sua atenção.

Provavelmente era seu pai, com certeza ele viria para mais um discurso motivador, lhe encheria os ouvidos de muito blá, blá, blá e diria que tudo ficaria bem. Estava cansada de ser consolada pelos pais, não queria ser consolada, queria que eles concordassem com ela, que lhe dissessem quão azarada era, e que chorassem junto com ela. Como sabia que tais coisas não aconteceriam, escorregou as costas pela cabeceira da cama, deitou-se e puxou a coberta para cima de si.

– Não tem ninguém! – Esbravejou bem esbravejado, enquanto se escondia ainda mais debaixo da coberta. Teve vontade de gritar e xingar quando ouviu a porta ser aberta, e tudo piorou quando ouviu passos se aproximando. Por que os pais têm dificuldade em entender quando os filhos dizem que querem ficar sozinhos? – Vá embora! – Ordenou. Segundos depois a coberta foi tirada de cima de si. Surpreendeu-se ao abrir os olhos e ver Regina ali, diante de si.

– Você não quer que eu vá embora. – Não bastou usar seu melhor tom convencido, precisou abrir um sorriso presunçoso também.

– Se você for mesmo inteligente, você vai embora. – Fungou e voltou a usar o braço para limpar qualquer vestígio de lágrimas, não queria que Regina soubesse que estava chorando.

– Talvez eu não seja mesmo inteligente. – Deu de ombros, arrancando um balançar negativo de cabeça da amiga, que também deixou escapar um sorrisinho.

– Você não precisava ter vindo assim toda produzida me visitar. – Apontou com a cabeça para amiga, que usava um vestido de renda creme, com mangas ¾. Um fino cinto de couro preto, marcava sua cintura. Seus pés estavam dentro de um par de scarpins também pretos. Seus longos cabelos estavam soltos, e caiam em camadas nas laterais do seu rosto. Emma gostava do contraste que o vestido fazia com o tom de pele e os cabelos escuros da amiga. Regina era linda, nunca precisou se esmerar muito para tal coisa, mas quando se arrumava para alguma festa, ela ficava maravilhosa. – Ou poderia ter me ligado e pedido para eu me vestir de acordo. – Ao ouvir tamanha besteira, a morena rolou os olhos.

– Não lembro se você tem algum vestido vermelho para combinar com as suas pintas, então resolvi deixar para lá. – Provocou a amiga, que lhe mostrou a língua. – Por que você estava chorando? – Estava chorando, estava triste, estava irritada, e provavelmente estava se sentindo a pessoa mais miserável do mundo, não precisou olhar a amiga por mais de dez segundos, e trocar mais do que duas frases, para saber sobre aquilo.

– Não estava chorando. – Só a maldita palavra “chorando”, fez lágrimas traiçoeiras virem aos seus olhos. Querendo disfarçar tal coisa, tirou os olhos dos da amiga e os concentro na TV. Regina sorriu sem humor por ter uma amiga tão orgulhosa, tirou os sapatos, e sem ser convidada, juntou-se a Emma na cama. – Você está louca? Quer ficar doente? – A loira indagou indignada, afastando-se o máximo possível. – Qual o seu problema? – Tudo bem, queria que Regina ficasse ali, queria muito Regina ali, mas não queria mesmo, que a amiga pegasse catapora.

– Por que você estava chorando? – Insistiu na pergunta, sem se abalar com o ataque de pelanca da amiga.

– Porque eu estava me sentindo triste, e sozinha. E porque essas porcarias não param de coçar. – Respondeu irritada enquanto coçava seu pescoço, e chorava. – Agora você quer fazer o favor de se afastar? – Regina negou, sorriu e agarrou as mãos da amiga, antes que a mesma começasse a se esfolar de tanto coçar.

– Você não está mais sozinha agora. – Emma lhe olhou de canto, e livrou suas mãos das da amiga teimosa.

– Mas deveria estar. Graças a sua teimosia, você vai ficar doente também. – Ao ouvir tal coisa, a morena rolou os olhos.

– Emma, você está mais preocupada do que eu, sobre a minha talvez, catapora. – Respondeu despreocupada. – Okay, digamos que você me passe essas coisas. Se você der sorte, até sexta-feira que vem, eu estou doente, ou seja, vou perder a prova de matemática, ou seja, vamos acabar tendo que fazer essa prova depois, já que você também não vai fazer na sexta. – Explicou. – E caso eu fique doente só na próxima semana, já estarei de férias, então... – Deu de ombros.

– Você quer ficar doente só para perder a prova de sexta? – Indagou de sobrancelhas arqueadas.

– Quero ficar doente só porque você vai perder a prova de sexta. – Corrigiu. – Emma, se nós não fizermos essa prova no mesmo dia, você vai ter que estudar muito, muito mesmo, para passar. Vai ter que estudar em uma semana o que não estudou em um ano todo. E você não presta atenção no que eu explico nem quando está bem de saúde, imagina então quando está desse jeito. – Resumindo, Regina queria ficar doente, queria ficar cheia das pintas vermelhas, queria ficar se coçando, queria ter febre e ficar em quarentena, só para salvar Emma da matemática.

– Qual o seu problema? – Fez a mesma pergunta, enquanto balançava a cabeça descrente.

– No momento? Estou com um pouco de fome. – Deu de ombros.

– Regina, você não precisa fazer isso. Prometo prestar atenção em todas as suas explicações. – Regina sabia que a amiga até tentava prestar atenção em suas explicações, o problema é que não conseguia.

– Não, eu não preciso, mas quero. – Respondeu tranquilamente.

– Você não existe. – Murmurou, enquanto esboçava um sorriso. Regina tirou os olhos da TV e encarou a amiga.

– Não? – Também sorriu. Seus olhos acabaram parando uns nos outros, como andava acontecendo cada vez com mais frequência.

– Não. Você... – Não sabia o que dizer, as vezes era estranho o que a amiga lhe fazia sentir, gostava de Regina de um jeito, que as vezes tinha vontade de abraça-la e nunca mais larga-la. Será que era legalmente possível se apropriar de uma pessoa? Porque queria que Regina fosse propriedade sua. Era muito errado querer aquilo? – Você é a melhor amiga do mundo, Regina Mills. – Era uma pena não conseguir expressar em palavras o quanto gostava da amiga.

– Eu sei. – De novo Regina usou seu tom convencido, só para provocar Emma, que sempre fazia vomitar quando Regina tinha esse tipo de crise.

– Que bom que você sabe. – A morena virou-se para a amiga.

– Você também é a melhor amiga do mundo, mesmo quando fica doente e me expulsa do seu quarto, ou se tranca no banheiro para aceitar conversar comigo. – A prova de matemática era um dos motivos para Regina estar ali, outro motivo era que não conseguia passar um dia sem ver Emma, nem que fosse apenas por meia hora, só para ouvir o caminhão de besteiras que saia da boca da amiga, e que sempre lhe arrancava muitas risadas. Emma lhe fazia bem, a loira sempre dava um jeito de tornar seus dias melhores, mesmo quando esses dias envolviam TPM.

– Você não deveria estar em uma festa? – Já que Regina queria ficar doente, Emma resolveu chegar seu corpo mais para frente, o aproximando do corpo da amiga.

– Eu estava. – Soltou com o ar. – Mas sinceramente, eu não tenho paciência para a nossa turma, e tudo piora quando eles tomam duas cervejas e já estão bêbados, e piora ainda mais, quando as meninas começam com os assuntos fúteis, e os meninos resolvem apostar na sua frente, quem eles vão levar para a cama. – Emma riu das reclamações da amiga rabugenta.

– Confessa, você sentiu minha falta. – Precisava mesmo confessar aquilo? Já não estava bem explicito?

– De você, dos nossos cigarros, da sua playlist, das bebidas fortes que você sempre leva, das nossas filosofias de bêbadas. – Suspirou. – Eles não sabem fazer festas. – Lamentou-se.

– Que bom que eles não sabem, assim você está aqui comigo. – Regina lhe olhou de canto.

– Estou por insistência minha, e não por um pedido seu. – Resolveu esclarecer.

– Obrigada por estar aqui comigo! – Agradeceu com um sorriso no rosto. – Eu queria que você estivesse, só não queria lhe passar catapora. – Explicou-se, fazendo a amiga sorrir.

– Obrigada por não me expulsar, e não se preocupe com a minha talvez catapora. – Emma suspirou e por fim balançou a cabeça concordando. Em vez de uma semana de quarentena, teria duas, já que grudaria na amiga, quando as malditas pintas viessem tomar posse do seu corpo. – Está menos triste agora? – A loira afirmou.

– Já nem lembro o motivo de ter estado tão triste. – Admitiu. — Você quer ficar aqui hoje? – Convidou.

– Você quer que eu fique aqui hoje? – Emma afirmou com a cabeça.

– Quero. Eu vou dar uma festa particular. Só você e eu, o que acha? – A morena juntou as sobrancelhas.

– Acho que você está doente. – Emma rolou os olhos.

– Não é como se nós fossemos sair do meu quarto. – Em um pulo se pôs de pé, foi até sua poltrona onde pegou sua linda placa com os dizeres “não perturbe”, abriu a porta do quarto, pendurou a placa na maçaneta pelo lado de fora, e como sabia que seus pais não davam a mínima para aquela placa, chaveou a porta.

Apagou as luzes do quarto e foi até seu aparelho de som, ligou o mesmo em um volume considerável e foi até a estante de livros. Tirou de lá um livro de um tal Harry Potter, que nunca chegou a ler, e que nunca leria, pelo menos não aquele, já que cortou boa parte das folhas, para fazer um esconderijo para seu cantil de bebida. Em outro livro da mesma coleção, tirou sua carteira de cigarro e um isqueiro. Por fim, caminhou até a cama, onde Regina ainda estava deitada, assistido a tudo.

– Levanta Regina, estamos dando uma festa, anime-se. – Ordenou, enquanto mexia o corpo de um lado para o outro.

– Emma, seus pais estão em casa. – Pegou o cantil de bebida que a loira lhe estendeu, enquanto decidia se deveriam mesmo “dar uma festa”.

– Aposto que eles sabem que você está aqui, e como para eles você é praticamente uma santa, com certeza eles não vão vir até aqui, checar se estou me comportando. – Aquilo era verdade, por algum motivo, os tios achavam que Regina era um poço de comportamento e exemplo, então sempre deixavam Emma ir a qualquer lugar, sendo que Regina fosse junto. – Agora levanta essa bunda daí, vamos dançar! – Ordenou a amiga, que rolou os olhos e fez o que lhe foi sugerido.

– Okay, concordo em darmos uma festa, se você concordar em não beber. – Emma balançou a cabeça, aceitando os termos. Tirou um cigarro da carteira, o prendeu entre os lábios e foi até sua janela, abrindo a mesma, antes de acender o cigarro.

– Cigarros, whisky, e música boa, o que está achando da minha festa? – Indagou com a amiga, caminhando em sua direção.

– Está sendo melhor do que a meia hora que passei na casa de Gabriel. – Admitiu sem problema algum, antes de dar um gole na sua bebida. Sentiu o líquido descer queimando pela sua garganta o que a fez fazer careta, antes de dar um outro gole. – E a sua roupa está linda. – Apontou para a camiseta gigante que tinha uma estampa do Mickey, que Emma usava como pijama.

– Debochada! – Acusou a amiga, que riu. — Cigarro? – Ofereceu, enquanto ria da careta que a amiga fez, ao dar um outro gole no whisky. Regina tirou um cigarro da carteira que a amiga lhe estendeu, o prendeu entre os lábios e aproximou-se de Emma. Levou uma mão até a cintura da amiga a trazendo para perto, enquanto a outra segurou o pulso da loira, para que sua mão ficasse parada enquanto a morena tentava acender o seu cigarro, com o cigarro já aceso da amiga. – Maria fumaça! – Regina fazendo fumaça sair pelo nariz e pela boca, divertia Emma. A morena sorriu satisfeita ao ver o quanto estava ficando boa no quesito acender um cigarro com outro. Soltou o pulso de Emma e deu um passo para trás.

– Cara... – Tragou o máximo que pôde daquela coisa boa. – Estou ficando viciada nisso. – Soltou junto com a fumaça, de novo fazendo a amiga rir.

– Eu sei, e me sinto um pouco culpada por tal coisa. – Admitiu. Foi Emma que teve a ideia de fumarem, quando ao atravessarem o campo de baseball da escola, encontraram uma carteira de cigarro. Desde então, começaram a fumar clandestinamente.

– Sentir-se culpada por qualquer coisa, não faz seu tipo. – Regina provocou a amiga.

– Não faz meu tipo quando eu não me importo com a pessoa, mas eu me importo com você. – Defendeu-se. – E eu sempre prometo para o tio Mills que vou cuidar de você. – Ao ouvir tal coisa, Regina rolou os olhos e tragou o seu cigarro. Se irritava só em ouvir o “nome” do pai.

– Eu não preciso que você cuide de mim, sei me cuidar muito bem sozinha. – Soltou com a fumaça.

– Sei que você sabe se cuidar muito bem sozinha, assim como sei que você gosta de ser cuidada. – Regina abriu a boca para negar, mas desistiu, Emma estava certa.

– Você também gosta de ser cuidada. – Emma concordou com a cabeça.

– Por isso você está aqui comigo, na minha festa particular, ouvindo meus lamentos, pegando a minha doença. – Concluiu.

– Eu cuido de você, você de mim. – A loira sorriu e voltou a assentir.

– Vai ser sempre assim, mesmo que essa história de universidade faça cada uma ir para um lado. Você promete? – Regina afirmou.

– Prometo. Vai ser sempre assim, nós duas contra o mundo, mesmo que uma de nós acabe se mudando para a lua. – Garantiu. – Você vai ser sempre... – Pensou em algumas palavras que com certeza deixariam aquela frase estranha. – Você. – Respondeu por fim. Emma concordou, entendeu perfeitamente o que a amiga quis dizer.

– E você vai ser sempre você. – Passou a mão pela franja, a jogando para o lado. Às vezes a troca de olhares que acontecia entre ela e Regina, a deixava um pouco sem graça, mas não conseguia evitar, tampouco desviar os olhos.

– E nós vamos ser sempre nós. – Disseram juntas, e riram daquilo.

– Aquela promessa boba que você fez no seu primeiro banho de chuva continua valendo, certo? Só que agora as viagens podem não envolver mais os parentes da minha mãe. – Regina concordou com a cabeça.

– Você vai continuar voltando? – Emma sorriu e afirmou.

– Vou sempre continuar voltando para o lugar onde você está. – A promessa fez Regina suspirar e abrir um sorriso bobinho.

– Então eu vou sempre continuar esperando, não importa quanto tempo demore. – Também prometeu, e de repente um silêncio um tanto quanto estranho, se fez presente entre elas, enquanto seus olhos se prendiam. Sem saber exatamente o que fazer para que o clima entre ela voltasse ao normal, Regina desviou os olhos dos olhos da amiga, enquanto pensava em alguma coisa idiota para dizer, já que aparentemente, Emma estava com problema para fazer tal coisa. Quando seus olhos pararam na máquina fotográfica da amiga, teve uma ideia e caminhou até a mesma. Largou seu cantil de bebida em cima de alguns livros e pegou a máquina. – Ainda tem filme? – Indagou com Emma, enquanto ligava a câmera.

– Ainda tem. – Regina caminhou até a amiga.

– Então vamos bater uma foto, para nunca corrermos o risco de esquecermos dessa festa da catapora.

– Swan?! – Ao ouvir seu nome sendo chamado, Emma voltou ao presente. Ao levantar a cabeça e procurar pelo dono da voz, viu o conselheiro Humbert. – Os documentos, é só assina-los e está liberada. – Emma concordou com a cabeça, largou a foto dentro da caixa, pegou os papeis, a caneta e tentou ler o que estava escrito lá. Nervosa, desistiu na segunda linha, seu advogado já tinha lhe explicado sobre o que assinaria, então resolveu apenas assinar. Rabiscou seu nome lá algumas vezes e devolveu as folhas ao homem, que lhe abriu um sorriso até que simpático. – Boa sorte lá fora, Srta. Swan, e espero não ver o seu traseiro aqui nunca mais. – Estendeu a mão para a loira que sorriu e o cumprimentou.

– Obrigada! Lhe dou minha palavra de que nunca mais verá meu traseiro por aqui. – Ele balançou a cabeça em concordância. Se desfizeram do aperto de mão e o conselheiro apontou para a porta que dava acesso à rua. – Pode ir agora, Fox lhe acompanhará até a saída. – Emma concordou e se pôs de pé. Tirou sua jaqueta de couro, e a colocou sobre suas coisas dentro da caixa, para as proteger da chuva.

– Vamos lá Swan, não tenho o dia todo. – A guarda que esperava Emma ao lado da saída com um guarda-chuvas na mão, a apressou. Emma respirou fundo, e fez suas pernas bambas caminharem até a mulher.

Em silêncio e sem nunca olhar para trás, caminhou ao lado da guarda, debaixo do seu guarda-chuvas até alcançarem o famoso e desejado portão que dava acesso à liberdade.

Estava morrendo de medo de não encontrar Regina ali, medo de que de repente, a amiga fosse se vingar por todo o mal que já tinha a causado, medo de ter sido enganada. Tais medos quase a fizeram sair correndo para dentro da prisão quando o portão pequeno foi aberto, mas graças ao bom Deus ficou, e graças a tal coisa, pode ver que tais medos eram infundados.

Paul McCartney — Let It Be

– Dê o fora daqui, Swan! – A guarda cutucou seus ombros no da detenta, enquanto esboçava um sorriso. – Vai logo, não a faça esperar mais. – Como a voz de Emma tinha sumido, ela apenas concordou com a cabeça e deu um passo à frente, se tornando oficialmente, uma ex-detenta.

O sorriso de Emma mal cabia em seu rosto. Sentia as pernas moles, seu coração batia na boca, seu estômago estava agitado, e suas pernas, suas pernas estavam ainda mais fracas. Regina estava lá, estava mesmo lá, como prometeu que estaria. E mesmo com toda aquela chuva estava fora do carro, encostada no mesmo, sem os óculos escuros, com uma calça jeans no lugar de um short, com uma regata preta no lugar de uma de suas camisas estilosas, e com os pés descalços.

Qualquer coisa que tivesse imaginado, planejado, ou desejado, deixou de fazer sentindo diante da visão daquela mulher que estava a poucos metros de si. Aquela mulher era perfeita, o momento era perfeito, toda aquela água era perfeita.

Agradeceu a Deus pela chuva, graças a tal coisa, lembrou-se da chuva que tomou com Regina há muito tempo, lembrou-se da promessa bobinha, mas ao mesmo tempo tão significativa. Regina a esperou, mesmo quando Emma não prometeu voltar, ela de algum jeito, talvez mesmo sem saber, ou sem querer, apenas esperou.

Regina que já esperava fora do carro há mais de dez minutos, estava impaciente, e pensando seriamente em ir até a recepção do lugar, esbravejar com quem quer que fosse preciso, pelo atraso em liberarem Emma. Dentro da prisão eram intoleráveis com as horas, não aceitavam atrasos de espécie alguma, então por que diabos quando o assunto se tratava da liberdade de uma detenta, eles atravessam daquele jeito?

Era paranoica, então já estava imaginando mil motivos nada bom para tal atraso, e aquilo a deixava nervosa. Mesmo não querendo, já estava imaginando que por algum motivo, adiaram a liberdade da namorada, ou talvez, ela estivesse passado mal e estava na enfermaria, ou... Balançou a cabeça negativamente, tentando se livrar de todos os pensamentos ruins e ao olhar mais uma vez em direção ao portão de saída, seu coração acelerou.

Emma estava lá, parada, olhando em sua direção. A loira usava uma camiseta preta e desbotada da sua banda preferida, e vestia a mesma calça rasgada que usava quando há nove meses, Regina foi lhe deixar ali. Suas mãos que seguravam uma pequena caixa de papelão, largaram a mesma, antes de começar a caminhar em sua direção.

Como tinha medo de que suas pernas fraquejassem se resolvesse ir de encontro a namorada, resolveu a esperar ali mesmo. Desencostou-se do carro, assim que Emma parou em sua frente. Graças a forte chuva, Emma parecia com o mesmo problema de deixar os olhos abertos, mas assim como Regina, de jeito nenhum os fecharia.

Sorriram juntas, enquanto pensavam no que dizer, por fim, Emma resolveu que não diria nada, nada do que pudesse falar, deixaria claro o quanto era agradecida a amiga, por ela estar ali. Do quanto ela era importante, então apenas abriu os braços esperando pela namorada, que também sem dizer nada, jogou-se lá.

O abraço apertado selava a promessa muda que se faziam que a partir daquele momento, tudo seria permanente, que independente do que viesse a acontecer, resolveriam juntas, que não haveria mais distancias, nem magoas, tampouco promessas não cumpridas. Apesar de todas as coisas que já tinham dado errado entre elas, ambas tinham esperança e uma certa certeza que tudo seria diferente dessa vez, que daria certo, talvez nem tudo fosse sair como planejado, mas mesmo assim, daria certo.

Emma afrouxou os braços envoltos a amiga e afastou-se minimamente, apenas para conseguir olha-la nos olhos. Sorriu ao vê-la sorrindo, lhe beijou os lábios algumas vezes, antes de segurar seu rosto entre as mãos.

– Por que não me esperou no carro, garota estúpida? – Questionou a primeira coisa idiota que veio a sua cabeça. A verdade é que continuava muito nervosa. Okay, via Regina todos os domingos, falava com ela todos os dias por telefone, mas era diferente. Aquele momento era diferente, era como um divisor de águas, aquele era o exato momento em que enfim, deixariam a vida que, por muitos anos teve de lado, e começava tudo de novo, junto com a mulher que amava desde praticamente a sua vida toda, então sim, estava uma pilha de nervos.

– Porque eu disse que estaria aqui, fazendo sol, ou chuva. Não imaginei tanta chuva assim, mas enfim... – Deu de ombros e passou a mão pelo rosto, tentando em vão, livrar-se um pouco da água que caía pelo seu rosto e atrapalhava sua visão. – E porque há muito tempo, uma amiga de meio metro, que adorava banhos de chuva, me garantiu que não sou feita de açúcar. – Regina estava tão nervosa quanto a namorada, exatamente pelo mesmo motivo. Perdeu as contas de quantas vezes tinha sonhado com aquele momento, nenhuma dessas vezes estava chovendo, nenhuma dessas vezes estava tão nervosa, nenhuma dessas vezes recordava-se do primeiro banho de chuva que tomou na vida, e da promessa que fez a Emma.

– Você esperou. – Ao ouvir tal coisa, sentiu como se de algum jeito, Emma pudesse ler seus pensamentos. Levou as mãos até o rosto da loira, sorriu e afirmou.

– Mais do que você possa imaginar. – Juntou os lábios aos da namorada.

– Obrigada! – Agradeceu, enquanto suas mãos tateavam o rosto da amiga, para certificarem-se de que aquilo era mesmo real. – Obrigada! – Repetiu contra a boca da amiga. Suas mãos afastaram o rosto de Regina do seu, para que de novo, pudessem se olhar. – Obrigada por existir, Regina Mills. Obrigada por estar aqui. Obrigada por nunca ter desistido de mim. – Regina mais uma vez sorriu e concordou com a cabeça.

– De nada! – Foi o que respondeu. Emma voltou a beija-la, passou os braços debaixo dos da amiga, a tirou do chão, e as fez girar.

– Louca! Nós vamos cair! – Regina segurou-se o máximo que pode a namorada, enquanto ria e torcia para que não acabassem parando no chão.

– Eu estou tão feliz, que poderia tirar minhas roupas e dançar pelada! – Falou ao devolver Regina ao chão.

– Caso você não saiba, atentado ao pudor da cadeia. – Avisou ao prender os braços no pescoço da namorada absurda.

– E mais o quê? – Regina fez pensar.

– Tudo bem você tirar as roupas e dançar pelada, Emma. Sendo que seja entre quatro paredes, de preferência na minha casa, para ser ainda mais específica, no meu quarto. – A loira abriu um sorriso presunçoso ao ouvir aquilo.

– É para lá que estamos indo agora, acredito eu. – Regina sorriu e balançou a cabeça negando.

– Não. Agora estamos indo para a sua casa, onde seus pais, seu irmão, sua cunhada e a fofa da sua sobrinha, estão lhe esperando. – Contou e fez Emma suspirar. Tudo bem, queria ver os pais e comemorar sua liberdade com eles, tomando algumas cervejas e comendo alguma comida boa da sua mãe, mas será que podiam passar na casa de Regina antes?

– Preciso confessar que estou um pouco nervosa sobre esse negócio de conhecer Carol. – Resmungou um pouco sem graça, fazendo Regina sorrir.

– Ela é um amor, você vai se apaixonar perdidamente. – Derreteu-se pela sobrinha da amiga.

– Eu já sou perdidamente apaixonada, e duvido que uma outra mulher vai roubar o posto da minha. – Ao ouvir tal coisa, a morena suspirou e não pôde deixar de mais uma vez, sorrir.

– Obrigada pela parte que me toca, mas você sabe muito bem do que eu estou falando, engraçadinha. – Beijou o queixo da amiga.

– Okay, vamos lá conhecer Carol, então. No caminho eu ensaio algumas coisas para falar com ela. – A verdade era que já tinha pensado em algumas coisas para “falar” com ela, mas não chegou em lugar algum. – Você vai estar lá comigo, caso eles realmente resolvam me deixar sozinha com ela, não vai? – Regina afirmou, tentando não rir.

– Vou. – Garantiu.

– E se por um acaso, eu fizer ela chorar, você promete que vai faze-la parar de chorar? – De novo Regina assentiu.

– Prometo ensinar você a faze-la parar de chorar. – Okay, já era um começo.

– Certo. – Suspirou. – Okay, vamos lá, eu posso fazer isso. – Disse mais para si do que qualquer outra coisa.

– Tenho certeza que pode. – Regina a tranquilizou.

– E se por um acaso, tudo dê certo entre ela e eu, e se mais por um acaso ainda, eu gostar dela, a gente pode falar sobre o assunto depois? – Regina tinha vontade de rir muito do jeito desconcertado de Emma, ao falar sobre aquele “assunto”.

– Podemos. – Voltou a beijar a boca da namorada, antes de se afastar. – Agora vamos entrar no carro, minha cota de banho de chuva do ano, acabou de ser extrapolada. – Emma sorriu, e puxou a mão da namorada, de novo a trazendo para si.

– Você sabe que na minha casa também tem um quarto, para ser mais especifica, meu quarto. Posso dançar pelada para você lá. – Regina sorriu, balançou a cabeça negativamente e fugiu da namorada.

– Comporte-se, Emma! – Rolou os olhos ao ouvir tal frase. – Não vamos fazer nada hoje. – O novo aviso fez os olhos da loira cresceram. Como assim, não fariam nada? O que Regina queria dizer com aquilo?

– Como assim não vamos fazer nada hoje? Esse nada não quer dizer o que estou pensando que quer, quer? – Regina que já estava parada diante de sua porta, afirmou.

– Quer. – Incrédula, a loira abriu a boca para protestar contra tamanho absurdo, mas Regina foi mais rápida. – Antes que você comece, não vamos porque eu não posso. – Sua mão apontou para baixo. – Área de lazer está fechada. – Depois de dar a terrível noticia, abriu a porta do carro e entrou no mesmo. Incrédula com tamanha falta de sorte, Emma caminhou até onde tinha abandonado a caixa com seus pertences, a juntou e voltou para onde estava. Antes de entrar no carro, levantou a cabeça e mais uma vez no dia, olhou para o céu.

– Sério? Tantos dias para ela ficar menstruada e acontece justo hoje? Você definitivamente não gosta nem um pouco de mim. – Mais uma vez no dia, reclamou com Deus.

Notas finais
O que acharam? Ficou bom? Próximo capítulo provavelmente sai em breve, tenho todas as ideias mirabolantes na cabeça, então é só passar pro note e pronto. Como sempre, conto com a opinião de vocês coisa e tal. Quem quiser cenas do próximo capítulo, deposite aqui seu review =P Bom começo de semana pra vocês, beijos!