Escape.
1 CAPÍTULO ÚNICO - CORRA.
Notas iniciais
Run. Don't stop. They're coming.
Pernas velozes corriam pela imensidão verde e obscura, silenciando alguns animais e fazendo outros gritarem de susto ou alerta. Algo estava errado naquela noite e não precisava ser um animal racional para saber disso. Todos os seres vivos localizados naquele pedaço da floresta já sentiam o perigo se aproximando em forma de gente, em formahumana. Tão humana que chegava a arrepiar.
– Mais rápido, mais rápido! — Um chegou a gritar para o outro, que já arfava, quase desistindo depois de quilômetros e quilômetros de verde e nada mais que verde. Suas pernas já latejavam, competindo com seu cérebro ainda débil pelas drogas e com suas veias drenadas por agulhas pontudas.
– Não dá, não consigo! Preciso parar ou vou acabar...
– Você prefere morrer de cansaço ou por eles? — A pergunta pairara no ar e o outro simplesmente correu. Correu mais do que devia, mais do que aguentava, mas continuou correndo. Correram então os dois, mal sabendo que estavam mais perto do perigo do que imaginavam.
Logo quando o rio surgiu no campo de visão de ambos, conseguiram soltar um suspiro exasperado, de alivio e de medo. Alivio por estarem longe e medo por não terem para onde ir. Estavam no meio da mata, de algum país na America do Sul, longe de casa, longe da civilização.
– E agora, e agora? — Um perguntou ao outro, beirando o pânico. Seu companheiro de fuga apenas andou pela margem do rio, sem parar para descansar, pois se parasse agora, sabia que desmaiaria em menos de um minuto eeles conseguiriam o que queriam. Eles os pegariam, já que o outro era um imprestável e jamais sairia dali sem ele. Ele precisava ficar lúcido, são, pelos dois.
Pela primeira vez em alguns meses agradeceu as drogas que lhe davam, dando-lhe mais adrenalina do que precisava.
– Tem um barco ali! — O outro gritou exasperado e seu companheiro o olhou da margem onde estava, ainda pensando. — Estamos salvos!
– Não chegue perto disso! — Conseguiu parar o outro, puxando-lhe pelo que um dia fora uma camiseta branca igual a sua — agora ambas eram trapos — É algo que eles plantaram ai, não percebe? Não se aproxime!
– Foda-se! Foda-se você e seu raciocínio. Não percebe — esticou os braços e seu companheiro percebeu que ele estava a beira de um ataque de loucura pelas drogas ou apenas por toda a merda que era aquilo — estamos no meio de uma floresta e tem um barco aqui! É isso ou aquele cubículo imundo!
– Não faça isso — o mais são implorou, puxando o outro pelos trapos da camisa — estamos perdidos se você não parar para pensar! Por favor!
– Foda-se! Não preciso disso! Vou pra casa nem que seja nadando! — E então, se aproximou do barco, que pendia inocente na margem mais ao norte, não tão distante deles.
Seu companheiro o acompanhou com o olhar, fraco demais para pará-lo. Desespero atingiu suas veias quase vazias e seu corpo anêmico gritou, querendo cair por terra. Fixou-se no chão de folhas secas e terra fria enquanto sabia que o outro caminhava para a morte. Chegou a dar dois passos a frente, mas o outro estava mais determinado. Sua adrenalina estava no fim e ele sentia o cansaço exagerado chegando, mas antes que pudesse cair por terra, ele conseguiu ver o outro voar pelos ares.
O barco explodiu simplesmente, deixando o outro em pedaços de carne quase seca. A cabeça dele rolou por terra, um de seus olhos pendendo pra fora, e tocou o pé de seu companheiro, que com olhos arregalados, temia a morte mais do que nunca agora. Fez uma prece silenciosa, agarrando uma fé que nunca teve, mas tudo parecia distante enquanto ele encarava o que sobrara do outro, do companheiro de fuga.
Não moveu um músculo. O choque de adrenalina endurecera tudo, impossibilitando-o de se mover um centímetro se quer. Ele tinha que correr, tinha que sair dali! Eles estavam chegando. Eles estavam chegando.
Com um movimento débil, caiu por terra, olhos nos olhos da cabeça recém morta do outro. Aquilo o dera náuseas e seu corpo queria por tudo o que ele não havia consumido para fora. Porém conseguiu rastejar um pouco para longe, sentindo uma dor estranha na perna direita, até perceber que parte do barco o atingira ali de forma feia. Aquilo deixaria cicatriz, pensou, distraído no meio do desespero, se sobrevivesse.
Chegou às árvores por onde saíra com o outro recém morto e sentou-se, tentando por-se de pé, em vão. Ao longe, ele podia ouvir o barulho dos animais e também o silencio ensurdecedor da noite. Podia ouvir o perigo. Estava próximo.
O desespero tomou conta de seu ser pálido e anêmico. Estavam próximos. Estavam quase lá. Para pegá-lo. Para sugá-lo até a não-existência. Para afastá-lo para sempre de si mesmo. Para torná-lo um deles.
– Não — falou tão baixo que mal ouviu sua própria voz. — Isso não.
Com um impulso conseguiu por-se de pé e sentindo-se vitorioso, deu alguns passos para alguma direção além do perigo, apoiando-se nas árvores que lhe deixavam farpas e machucados nas mãos. Chegou a sentir aquela esperança abrasadora, como se fosse mais do que um humano comum, como se fosse sobrenaturalmente especial.
Mas não era por fim, nem nunca fora. Afinal de contas, eles haviam chegado.
xx
Notas finais
Enfim, reviews são bem-vindos, sejam elogiando ou criticando. Espero que tenham gostado e até a próxima!
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