Escalas e Destinos - A apaixonante vida de Blair
18 Capítulo 18 - Istambul

— Posso te fazer uma pergunta pessoal? — Blair e eu estávamos caminhando juntos pelas ruas de Istambul quando decidi matar uma curiosidade que queimava em mim.
Nós passávamos por uma estreita rua de paralelepípedo repleta de antigos prédios coloridos, as pessoas não pareciam se intimidar com a baixa temperatura e o céu nublado, que anunciava uma provável chuva a qualquer momento.
Blair estava radiante ao meu lado e eu ainda pensava em como colocar o plano que havia traçado em minha mente em prática. Mas aquilo poderia esperar por hora, eu só queria aproveitar sua companhia.
— Pode falar.
— O que exatamente é o seu pai?
— Eu não entendi — ela franziu o cenho.
— Ele é diferente do que eu esperava para um turco — eu procurei me explicar da melhor maneira.
Aquela frase fez com que Blair soltasse uma pequena risada.
— Você pode guardar um segredo, comandante?
— Claro.
— Meu pai tem toda essa pose de turco e vive falando daquela maldita guerra, mas a verdade é que ele foi Californizado há muito tempo — Ela abaixou o tom para quase um sussurro.
— Californizado?
— Sim, como na música Californication — ela explicou como se aquilo devesse fazer algum sentido para mim.
— Meus avós faleceram quando meu pai era bem novo, ele tinha acabado de se formar na faculdade e não tinha mais nada para o prender aqui, então ele se mudou para a Califórnia e se especializou em cirurgia plástica, foi quando conheceu minha mãe. Ela era recepcionista na clínica em que ele trabalhava.
Blair narrou despreocupada, se encolhendo junto ao meu corpo quando uma brisa gelada nos atingiu.
— Longa história curta, ele trabalhou duro e conseguiu um bom reconhecimento em todo o estado da Califórnia, se tornou um cirurgião plástico conceituado. Ele pode não admitir e ainda ter alguns costumes turcos, mas adorava viver na Califórnia e ele é tão americano quanto eu ou minha mãe.
— Isso explica muita coisa.
Blair me guiou para uma passagem do outro lado da rua, ainda falando sobre seus pais.
— Ele apenas retornou para Istambul quando recebeu uma proposta de trabalho irrecusável. Você provavelmente estava esperando um turco conservador e tradicional, mas esse não é meu pai.
Nós saímos em uma avenida, e a cruzamos, seguindo o fluxo de pedestres. Blair estava mantendo segredo sobre o nosso destino, mas aquilo apenas estava me deixando mais intrigado.
— E como é o seu pai?
— Meu pai é o homem que sempre me amou, apoiou, incentivou em todas as áreas, apesar de não ter uma religião definida, ele gosta de comemorar o natal e sempre me instruiu como me comportar ao visitar algum templo — ela começou a enumerar — e principalmente, ele me ensinou que eu mereço ser tratada como a princesa do universo.
Algo naquela frase me chamou atenção.
— Princesa?
— A rainha é a minha mãe — ela inclinou o rosto em minha direção, piscando para mim.
Não pude evitar rir diante da conclusão. Ela era uma peça única e estava claro quem a havia feito daquela maneira.
Blair me soltou, correndo até um beco. Eu a segui, interrompendo meus passos quando cheguei ao lugar que ela tanto queria me mostrar. Era uma escadaria que ficava escondida entre duas casas antigas, ela foi construída no estilo Art noveau, seus degraus curvos, criaram uma ilusão de ótica, como se uma parte fosse o espelho da outra.
— O que você achou? — Blair perguntou com expectativa.
— Uau, isso…
— Sabia que você iria gostar! Isso é tão a sua cara e eu sabia que tinha que te mostrar — seu sorriso se alargou.
— É linda, eu nunca esperava encontrar um lugar assim aqui. É diferente de tudo — um meio sorriso surgiu em meus lábios.
É claro que eu gostaria disso, ela me conhece tão bem. Aquele pensamento fez o meu sorriso se alargar, trazendo de volta a minha mente a conversa que tive com minha mãe dias atrás. De fato, fazia muito tempo que alguém não me fazia sorrir como ela faz. Isso deve significar algo.
— Essa escadaria foi construída no fim do século 19 pela família Camondo, era uma família de banqueiros que acabou dando o próprio nome para esse lugar, Kamondo Stairs. Dizem que eles fizeram para que seus filhos tivessem um atalho para ir para a escola, mas não sei se isso é real — Ela narrou, parada ao meu lado enquanto eu tentava absorver cada detalhe daquela pequena obra de arte arquitetônica.
Sem pensar muito, eu peguei meu celular, tirando uma foto do lugar, mas quando fui guardar o aparelho Blair o tomou de minha mão.
— Estou te convocando para uma Selfie no topo da escada, comandante — Ela piscou para mim.
E para minha surpresa, ela correu escada acima, me deixando para trás.
— Eu vou chegar primeiro — Ela gritou por cima do ombro.
Soltei uma pequena risada antes de me colocar em movimento, correndo atrás da minha namorada. Eu fui pelo lado contrário ao dela, a alcançando no primeiro patamar, a envolvendo pela cintura, puxando seu corpo em direção ao meu.
— Isso eu duvido — eu zombei.
Mas em um movimento rápido ela conseguiu se livrar, voltando a correr, gargalhando. Eu não perdi tempo em segui-la, nós permanecemos daquela maneira até chegar ao topo, quando finalmente a envolvi pela cintura, a puxando para um beijo antes de tirar a Selfie.
Nós só percebemos toda a atenção que havíamos atraído com nossa interação ao notar o olhar reprovador de algumas senhoras de idade que estavam passando na rua.
— Nos desculpem — Blair se afastou a uma distância respeitosa, antes de se desculpar com as mulheres, abaixando o tom em seguida — é falta de respeito essas demonstrações de afeto em público, principalmente na frente de idosos.
— Mesmo? — Eu franzi o cenho, estranhando o fato de se ofenderem com algo tão pequeno.
Mas acho que no fim, me deixei levar pelo comportamento dos pais dela e esqueci que a Turquia é um país muito religioso e tradicional.
— Sim, muitos casais não se beijam sequer no próprio casamento — ela confidencializou, pegando o celular da minha mão para ver nossa foto — Mas foi por uma boa foto, então valeu a pena.
E realmente a foto tinha ficado muito bonita, era quase que possível enxergar a aura de felicidade que nos cercava naquele momento, me fazendo ansiar por mais.
Aproveitando a rua basicamente deserta, já que as mulheres de antes já estavam há alguns metros de distância e de costas, eu a puxei para mais um beijo rápido, fazendo com que ela se afastasse rindo.
— Dimitri!
— Não tem ninguém aqui, então não estamos desrespeitando ninguém — eu pisquei para ela, que entrelaçou nossos dedos ainda rindo, me levando na direção oposta das mulheres.
— Vamos, ainda quero te apresentar outros lugares.
Eu a acompanhei até uma parada para bonde que ficava próximo dali, onde aguardamos para seguir até o nosso próximo destino.
— O que mais você me diz sobre o seu país? — decidi puxar assunto.
— Bom, eu não considero a Turquia como meu país. É um lugar muito bonito e eu gosto de visitar meus pais. Mas eu não acho que conseguiria viver aqui, com todas as restrições e tradições que acabam sendo impostas — Ela franziu o cenho.
— Então você não se mudaria para a Turquia?
Eu decidi sondar o terreno para saber um pouco mais sobre o futuro de nosso relacionamento, quem sabe ela pode aceitar se mudar para a Rússia em alguns meses, nós poderíamos fazer dar certo.
— Eu já pensei nisso algumas vezes, até porque sinto falta dos meus pais. Mas não, eu sempre desisto dessa ideia — ela negou com a cabeça — Além disso, acho que eu não conseguiria deixar tudo o que eu conheço para trás.
— Você não deixaria os Estados Unidos?
O bonde chegou, fazendo com que ela demorasse um pouco para me responder, já que nos concentramos no embarque.
— E então, você não deixaria os Estados Unidos? — eu retomei o assunto quando já estavamos acomodados dentro do bonde.
— Você deixaria a Rússia? — ela devolveu.
— Não, eu tenho um bom apartamento e minha família está lá — Eu franzi o cenho.
— Eu também tenho um bom apartamento e meus amigos — ela forçou um sorriso.
Eu me calei depois daquela resposta e nós seguimos em silêncio por alguns minutos, presos em nossos próprios pensamentos.
O que eu estou fazendo? Está claro que nossa relação não tem futuro, e ainda assim eu entrei em um avião e deixei meu país apenas para me desculpar com ela.
Eu deveria acabar com tudo, mas só de pensar na forma como me senti miserável nos dias que não nos falamos, o quanto tudo parecia incompleto.
Eu a observei ao meu lado, ela era tão bonita, mesmo de pijama e cabelo bagunçado depois de acordar. E ela me fazia feliz.
Aquela constatação fez com que eu acalmasse meus anseios anteriores. Eu não queria pensar no que deveria ou não fazer, eu queria apenas aproveitar o quanto ela me fazia feliz.
— Onde nós estamos indo? — decidi chamar sua atenção.
— Bom, estou te levando ao Grande Bazar — Ela explicou com um sorriso satisfeito.
— Grande Bazar?
— É um dos maiores e mais antigos mercados cobertos do mundo, tem milhares de lojas e…
— Meu Deus, a gente nunca mais vai sair de lá, não é?
Aquela declaração a fez rir, atraindo atenção de alguns rapazes que estavam próximos a nós.
— Eu apenas quero comprar um presente de natal para você.
— Natal?
— Eu sei que está atrasado, mas como não pensei que te veria tão cedo…
— Na verdade, eu não comemoro o natal — eu expliquei, me sentindo estúpido por não me lembrar de dar feliz natal a ela, ou até mesmo comprar um presente.
Bom, eu comprei um presente de ano novo para ela, creio que isso conte alguma coisa.
— Não? — Ela parecia surpresa.
— Russos não comemoram o natal.
Ela me encarou boquiaberta, se recuperando alguns segundos depois.
— Uau, quando você me falou que iriam fazer a festa do seu irmão, eu pensei que estavam aproveitando a ocasião e não que não comemorassem.
— Algumas famílias comemoram o natal ortodoxo no dia sete de janeiro, mas nós não somos muito religiosos — eu dei de ombros.
— Mas por que?
— Durante a união soviética não eram permitidos feriados religiosos, então transferiram a comemoração para o ano novo — tentei resumir a história de uma forma que fizesse sentido.
— É parecido com o que acontece aqui, também transferiram a comemoração. Então o ano novo é um feriado importante?
Ela perguntou, indo para a porta, indicando que estávamos próximos de nosso destino.
— Sim, é uma comemoração bem familiar, todos nós nos reunimos na casa dos meus pais e trocamos presentes.
O bonde chegou à parada e nós descemos, Blair parecia pensativa.
— Então você não pode ficar, não é? Nós não fazemos nada muito extravagante, mas comemoramos o ano novo — ela me observou.
Eu dei um sorriso fraco diante de seu convite, eu sabia que não poderia aceitar, apesar de seus pais já terem me convidado para ficar. Eu precisava estar em casa, mas com sorte, nós teríamos outra alternativa.
— Eu preciso voltar amanhã, mas eu tenho uma proposta.
— Se você se ajoelhar, eu juro que grito — Ela me provocou, me fazendo rir.
O bairro que estávamos agora era bem antigo e muito comercial, nós caminhamos lado a lado, mantendo uma distância mínima entre nós.
— Não esse tipo de proposta, Blair.
— Agora que eu sei que você é considerado velho solteirão desesperado por casamento no seu país, vou desconfiar de todas as suas propostas, comandante Voitovich — ela zombou.
— Volte para a Rússia comigo — ignorei sua provocação.
Ela parou de caminhar, me lançando um olhar surpreso.
— O que?
— Para o ano novo. Vamos conhecer a minha família, eu já comprei o seu presente — eu insisti, me aproximando dela, contendo meu desejo de beijá-la.
Ela franziu o cenho, parecendo confusa com minha proposta.
— Eu não sei, Dimitri.
— Vamos, você está de férias, essa é a chance que temos para te apresentar para minha família — eu insisti.
— E se eles não gostarem de mim?
— Blair, minha mãe quase fez o nosso casamento por vídeo chamada, eles vão te amar, eu garanto — eu peguei sua mão, creio que isso seja permitido — eu entendo e vou respeitar se você não quiser ir, mas… Pra mim significaria muito se você fosse.
Ela ponderou por alguns segundos tudo o que eu tinha falado antes de dar as costas, retomando seu caminho.
— Vamos, a entrada fica metros adiante — Ela avisou.
Eu senti toda a esperança que tinha desvanecer. Comecei a segui-la um pouco desanimado.
— Saiba que nós temos muito o que fazer, se eu vou conseguir presentes para sua família, eu vou precisar visitar no mínimo metade dessas lojas — Ela olhou por sobre o ombro, piscando para mim.
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