Escalas e Destinos - A apaixonante vida de Blair
11 Capítulo 11 - Glass Beach

— Blair — A voz de Dimitri soou através do alto falante do carro que eu tinha alugado no aeroporto de LA.
— O GPS diz que eu chego em dez minutos, comandante — eu cantarolei — eu já fiz todo nosso itinerário até Carmell. Já sei o que vamos ver.
— Dez minutos? — ele respirou fundo.
— Você não parece feliz com isso. Algum problema? — eu franzi o cenho enquanto me concentrava no tráfego.
— Meus tios querem te conhecer — ele passou a sussurrar.
Aquela informação me pegou de surpresa. O combinado era que ele passaria os primeiros dias na casa dos tios em LA enquanto eu estava em Londres, e quando eu voltasse, eu o buscaria e iríamos juntos para a cidade dos pais de Abigail. Eu não esperava conhecer ninguém da família dele.
— Então é assim que vai funcionar, comandante? Eu te apresento meus pais e você faz eu conhecer sua família inteira? — eu zombei, apesar da confusão em minha mente.
— Blair, isso não foi ideia minha — ele respirou fundo.
— Por que não? Não quer que sua família me conheça? Vou começar a achar que você tem vergonha de mim — eu o provoquei
— Blair.
— E eu que pensei que estávamos evoluindo — eu prossegui — dessa maneira eu vou começar a pensar que você desistiu de me convencer sobre o casamento, Dimitri.
— Blair, eu posso entrar no seu jogo. Só não garanto que você vai gostar — ele desafiou.
— Eu estou louca para conhecer sua família, comandante — eu pontuei — te vejo daqui a pouco, estou quase chegando.
Eu encerrei a chamada olhando em volta apenas para avistar os grandes portões das casas da rua.
Esse pessoal tem dinheiro!
Eu encontrei a casa indicada e parei meu carro diante do portão, que se abriu quase de imediato.
Conduzi o carro pelo caminho até a frente de um grande e bonito sobrado de cimento queimado, detalhes em madeira e grandes vidraças.
Eu saí do carro admirando uma porta de madeira que parecia ter o dobro do tamanho de uma porta normal, sem saber ao certo se deveria tocar a campainha ou ligar para Dimitri.
Mas antes que eu pudesse tomar alguma decisão, a porta foi aberta e uma mulher loira bem vestida saiu.
— Bom dia.
— Bom dia, você deve ser a Blair — a mulher sorriu — Dimitri está esperando você.
Ela indicou com a cabeça para que eu a seguisse para o interior do imóvel.
— Meu nome é Dallas Miller, eu sou a tia do Dimitri — ela me olhou por sobre o ombro — Joseph está ansioso para conhecê-la.
Vozes exaltadas começaram a soar conforme avançávamos para dentro da casa, fazendo com que eu pensasse que talvez eu tivesse chegado em uma péssima hora.
— Ele não vai me envergonhar mais uma vez. Se você realmente não tem a pretensão de nos acompanhar, nem pense em sugerir isso — uma voz masculina bradou.
— Ele é seu filho, tio — eu reconheci a voz de Dimitri.
— Ele é um fracasso — o homem devolveu.
— Espere aqui, eu vou avisar que você já chegou — a mulher sorriu como se nada estivesse acontecendo.
Eu a vi desaparecer dentro de uma sala, me deixando para trás trocando o peso de uma perna para a outra por uma pequena eternidade
— Leve a garota, será um prazer apresentá-los. Mas não tente me convencer a fazer isso — a outra voz rosnou.
Eu franzi o cenho diante daquela declaração. Eles estão falando sobre mim?
— Convencê-lo... Como se eu fosse aceitar — uma voz masculina me sobressaltou, fazendo com que eu me virasse assustada como se tivesse sido pega bisbilhotando.
— O que? — eu pisquei atordoada, observando o rapaz que estava atrás de mim.
Ele era parecido com a mulher de antes, cabelos e olhos claros. Seu rosto tinha belos traços simétricos que poderiam facilmente lhe conceder uma bela carreira de modelo.
— Vamos, eles estão esperando — ele indicou com a cabeça — você é a Blair, não é? Meu primo está louco por você.
— O...
Mas ele não esperou que eu terminasse a frase, simplesmente entrou na sala interrompendo a discussão.
— Vocês podem parar, a garota do Voitovich chegou e eu não tenho intenção nenhuma de atrapalhar o jantar de ação de graças do meu pai — ele declarou atraindo a atenção de todos do cômodo.
Eu entrei atrás dele no que por fim era um escritório, encontrando Dimitri parado em frente a um homem de meia idade de cabelos grisalhos com Dallas ao seu lado.
— Blair..
— Blair, certo? —O homem se adiantou em minha direção me oferecendo a mão — é um prazer finalmente conhecê-la. Joseph Miller.
— É um prazer conhecê-lo, sr Miller — eu garanti.
— Eu estava aqui tentando convencer meu sobrinho a nos acompanhar para o jantar de ação de graças hoje. Seria um prazer apresentá-los aos meus chefes — ele garantiu.
— Nos apresentar? — eu lancei um olhar confuso a Dimitri, que apertava a ponte do nariz claramente frustrado.
— O que meu pai quer dizer é que seria ótimo ter alguém com uma carreira de sucesso para apresentar por aí, ao invés do próprio filho — o rapaz de antes devolveu.
— Joe, não é...
— Um piloto e uma... desculpe querida, o que você faz no aeroporto? — Joseph ignorou o sobrinho que tentava amenizar a situação.
— Eu sou comissária de bordo — eu expliquei.
— Uma comissaria! É perfeito. Joe geralmente traz apenas garçonetes bebadas para casa. E espera que eu o apresente por aí como se pintar quadros no parque fosse um grande motivo de orgulho — o homem declarou com certo desprezo fazendo com que eu considerasse um grande babaca.
— É a minha profissão! — o rapaz exclamou.
— Você devia aprender o que é ter uma carreira de verdade — ele devolveu.
É oficial, esse cara é o maior babaca do universo.
— Tio, por mais tentadora que seja a oferta, Blair e eu já temos outro compromisso. Certo, Blair? — Dimitri me lançou um olhar significativo.
— Sim, nós temos. Sinto muito — eu endossei.
— Que desastre. Vocês vão ficar sem nenhum motivo de orgulho para apresentar para seu chefe — Joe murmurou saindo do escritório.
— Eu vou buscar minhas coisas e nós podemos ir — Dimitri segurou gentilmente meu braço, me levando para fora do escritório.
— Vá, querido. Nós vamos conhecer sua garota — Dallas me interceptou, me guiando em direção a uma sala.
Dimitri parecia em dúvida por um segundo antes de respirar fundo e subir as escadas que o levariam ao segundo andar.
— Você tem uma bela casa, srª Miller — eu decidi elogiar a fim de quebrar o gelo.
— Dallas, por favor — ela pediu assim que chegamos à sala — Obrigada.
Joe estava sentado em um dos sofás e nos observou com desinteresse assim que entramos.
Eu me aproximei de uma pintura que estava exposta na parede. Era de uma cauda de pavão pintada sob um fundo manchado em cores pastéis. No canto da tela tinha as iniciais J M desenhadas.
— Você quem fez? — eu virei para o rapaz.
— Como você sabe? — ele questionou sem dar muita importância.
— Não é preciso ser nenhum detetive para descobrir o significado de J M — eu dei de ombros.
— Joe fez essa pintura para mim como presente de aniversário — Dallas relatou — ele tem talento, não acha?
Se ela realmente pensa isso, por que deixou o marido tratá-lo daquela maneira mais cedo?
— É uma pintura muito bonita, eu adoraria ter algo assim no meu loft — eu garanti.
— Ótimo, você pode levá-la — a voz daquele homem odioso chegou aos meus ouvidos, me fazendo morder o interior das bochechas para não bufar.
Sério, esse cara sente prazer em rebaixar e humilhar o filho!?
Eu me senti mal pelo rapaz que permanecia sentado no sofá com uma expressão exasperada no rosto.
— Dallas, por que você ainda não providenciou nada para a garota beber? — o homem ralhou com a mulher que logo saiu em direção à cozinha, me pedindo desculpas.
— Então realmente não há como convencer você e Dimitri a ficar? — ele se colocou ao meu lado — é uma grande oportunidade em minha carreira e vocês me ajudariam.
— Sinto muito — eu agradeci mentalmente por já ter planos, e muitos planos, com Dimitri.
— Então, quanto você quer para me ajudar com ele — o homem indicou o filho no sofá com a cabeça.
Eu pisquei atordoada sem saber ao certo se tinha compreendido sua intenção. Joe finalmente exibiu alguma reação, se sentando ereto no sofá e encarando o pai.
— Eu não entendi...
— É uma noite importante para mim. Não posso deixar que ele estrague tudo — ele declarou como se o rapaz não estivesse ali.
— Eu não vou participar do seu jantar estúpido — Joe se levantou em um rompante — aliás nem nessa casa eu pretendo ficar.
— E você acha que depois do vexame do natal eu vou confiar em você!? — Joseph rosnou.
Por um momento tive pena do rapaz. Ele estava mesmo querendo que o filho passasse a ação de graças sozinho para não envergonhá-lo?
— Quanto você quer? — ele voltou a me questionar.
Eu pensei por um momento, eu já estava levando Dimitri como um convidado extra, seria total falta de educação levar mais alguém. Mas tenho certeza que se eu contasse tudo o que aconteceu, os Goldberg entenderiam.
— Você é inacreditável — Joe rosnou passando por nós.
— Quinhentos dólares — eu encarei o homem.
Joe parou de caminhar e se virou em minha direção com uma expressão surpresa. Sem pensar muito, ele apanhou o celular, colocando alguns comandos antes de me estender o aparelho.
— Coloque sua conta — ele pediu.
Eu segui suas instruções e devolvi o aparelho. Ele acenou com a cabeça antes de dar as costas e passar pelo filho.
— Me diz a cidade que vão ficar e eu faço a reserva dele — Joseph avisou enquanto se afastava.
— O que foi isso? — Joe abaixou a voz se aproximando de mim.
— Você merecia passar um tempo longe dele, e ele ainda pagou por isso — eu sorri.
— Por que eu iria? — ele cruzou os braços, me encarando.
— Você vai passar quatro dias longe desse cara e eu tenho amigas bonitas e solteiras — eu dei de ombros.
— Eu vou arrumar as malas — ele devolveu, indo é um direção a escada, cruzando com Dimitri no caminho — vai ser um prazer, primo.
— Por que você aceitou isso? — Dimitri murmurou claramente descontente quando eu estacionei o carro à beira da praia que visitaríamos antes de chegar a Carmell.
Tudo bem eu também não estava feliz, parece que ele não queria passar a impressão errada para o primo e eu não ganhei um beijo sequer nas últimas duas horas em que estávamos viajando juntos.
— Você viu o jeito que estavam tratando ele — eu devolvi — ele ia passar a ação de graças sozinho.
— Ele lida com isso todos os dias. Já está acostumado.
— Você não pode estar falando sério — eu ralhei — além disso olhe só para esse rostinho.
Nós dois nos viramos, encarando o rapaz que estava acomodado no banco de trás do carro que eu dirigia.
— Você se deixou levar pelos olhos de cachorro pidão, sério?
— Não seja tão mau, comandante — eu pisquei pra ele em meio a um sorriso.
— Vocês sabem que eu posso ouvir tudo o que vocês falam, certo? — Joe bocejou — nós vamos conhecer essa praia, ou...
— Vamos logo — Dimitri murmurou abrindo a porta do carro e saindo.
Eu o segui, me esforçando para acompanhar seus passos.
— A água deve estar um gelo — Joe comentou nos seguindo.
— Essa não é uma praia para banho — eu avisei, assumindo a dianteira para guiá-los — eu vim aqui uma vez.
Dimitri me observou enquanto caminhávamos, se mantendo em silêncio. Seu primo, porém, não seguiu seu exemplo.
— Qual a graça de uma praia se não é para banho?
— Você vai ver — eu dei de ombros enquanto caminhava, finalmente chegando à orla.
Meu sorriso foi instantâneo ao ver os pontos coloridos que reluziam diante da luz do sol.
— Cuidado com os pés — eu avisei antes de pisar nos pequenos cristais que se estendiam pelo chão da praia.
— O que é isso? — Dimitri franziu o cenho chutando os pontos coloridos que cobriam a areia.
— São cristais de vidro — Eu expliquei — a faixa de areia é coberta por eles.
— Uma praia de vidro? — Joe se abaixou e pegou um dos cristais.
— Nos anos 60 isso aqui era um lixão, o governo decidiu limpar, mas não conseguiu se livrar das garrafas que tinham ido parar no fundo do mar — eu comecei a narrar — as ondas e a areia acabaram lapidando os cacos de vidro, e espalhando pelo litoral.
— É uma história interessante e um belo lugar — Dimitri comentou me encarando.
Eu queria ele. Por que eu aceitei a droga dos 500 dólares? Devia ter deixado o cara pra trás. Ele é bem crescido para cuidar de si mesmo!
— Foi a primeira praia desse tipo que visitei depois da Austrália. Eu tinha acabado de entrar na companhia e ainda fazia voos domésticos — eu expliquei, observando as ondas se quebrarem na areia, fazendo com que um sentimento de nostalgia tomasse conta de mim.
Dimitri finalmente se aproximou, acariciando meu rosto por um momento, me fazendo esquecer de nosso convidado indesejado. Seu toque era gentil, ele virou meu rosto me fazendo olhar em seus olhos.
— Ohhh olha só... Eu quero me sentar e acho que não é uma boa ideia fazer isso em cima de vários cacos de vidro — Joe comentou desconcertado — é melhor eu ir para a beira da estrada.
— Tente não ser atropelado. Ou sequestrado — Dimitri recomendou sem desviar o olhar de mim.
Nós dois permanecemos em silêncio até que seus passos esmagando os cacos de vidro no chão não fossem mais ouvidos.
Eu fechei os olhos na expectativa de um beijo, e Dimitri não me decepcionou. Seus dedos afundaram em meus cabelos, enquanto eu repousava ambas as mãos em seu peitoral, esperando que aquele momento durasse uma eternidade.
— Você é bom nisso — eu sussurrei quando nos afastamos minimamente.
— Eu sei — ele piscou me fazendo rir — esse lugar é muito bonito.
Ele passou o braço pelo meu ombro e passamos a caminhar juntos pela areia.
— Eu gosto muito daqui. Mas é difícil ter a oportunidade de visitar — eu comentei aproveitando ao máximo seu calor corporal.
Dimitri juntou ainda mais nossos corpos permanecendo em silêncio enquanto o sol banhava nossas peles.
— Não é no mínimo irônico? Eu conheço lugares incríveis pelo mundo. Mas um dos lugares que eu mais gostei, fica no meu próprio país e eu não tenho tempo de vir — eu suspirei.
— É o preço da profissão — ele sorriu.
Eu me abaixei, pegando um caco de vidro vermelho, o erguendo contra o sol. O cristal reluziu em minha mão, e eu logo o ofereci para Dimitri.
— É uma cor bonita — ele seguiu meu exemplo.
— É a cor da paixão — eu o provoquei.
— É mais do que isso. É a mais quente e intensa das cores — ele colocou o cristal ao lado do meu rosto — ela exala força, determinação, energia, paixão, desejo... perigo...
Ele falou cada palavra olhando em meus olhos, fazendo com que eu me sentisse hipnotizada a cada segundo.
— O que é isso? Psicologia das cores? — eu zombei, desviando o olhar ao sentir meu rosto esquentar.
— Sim — ele admitiu com uma pequena risada, se afastando de mim.
Eu pisquei atordoada antes de decidir revidar.
— Se é assim que você quer jogar, vou encontrar a cor perfeita para você — eu o desafiei observando as cores disponíveis no chão.
— E você conhece a psicologia das cores? — ele me desafiou ainda segurando o fragmento vermelho.
— Não, mas o Google conhece — eu sorri apanhando o celular e fazendo uma busca rápida — vejamos, essa não... Nem essa...
Dimitri cruzou os braços, me encarando com diversão.
— Aqui...
— Qual cor? — ele questionou, vendo eu me abaixar enquanto revirava os pontos coloridos na areia até encontrar um perfeito.
Eu me levantei observando o pequeno cristal azul ligeiramente puxado para o turquesa. Segurei a mão de Dimitri, colocando-o ali em sua palma, ao lado do vermelho.
— Azul, cor da calma e da tranquilidade — eu mordi o lábio inferior sem desviar o olhar dele — transmite inteligência, segurança, fidelidade.
— Mais alguma coisa? — ele questionou sem quebrar nosso contato visual.
— É uma cor muito bonita — eu pisquei o fazendo rir.
Seus lábios vieram novamente de encontro aos meus, e eu não perdi tempo, logo enlacei seu pescoço com ambos os braços, sentindo uma de suas mãos envolverem minha cintura. Eu me deixei levar por alguns minutos em seus braços, até que me obriguei a nos separar.
— Por mais que eu adore esse lugar, e eu estou adorando mais do que já adorava — eu sorri com os lábios ainda encostados nos dele — a gente precisa ir, ou não vamos chegar a tempo do jantar.
— Sim, Joe já ficou tempo demais sozinho — ele zombou entrelaçando nossos dedos ao nos separar — não é seguro. Ele pode entrar no carro de qualquer estranha que oferecer carona.
Eu não pude evitar de rir diante do comentário. Eu já conseguia entender um pouco da personalidade do rapaz e estava achando interessante o contraste com o primo.
Nós chegamos ao estacionamento e encontramos Joe conversando com três garotas que aparentemente tinham desembarcado do carro ao lado.
— Não olhem agora, ali está o casal de pombinhos apaixonados que eu falei — ele sussurrou para as garotas que logo olharam em nossa direção.
E talvez eu possa entender porque Dimitri o considera irritante e inconveniente às vezes.
— Se você já pegou o telefone delas, entra na droga do carro. Se não, se apressa. Nós temos um longo caminho pela frente — eu avisei embarcando no veículo.
Fale com o autor