Eu encarei atordoado a imagem de Blair vestida de noiva.

O que está acontecendo?

— Ahh isso, você não vai acreditar — ela parecia sem graça com a situação.

Duas garotas se sentaram cada uma em um lado dela, me observando com expectativa. Uma era a mesma que acompanhava Blair no dia em que nos conhecemos.

— Hey Comandante, essas são Claire e Alisson. As amigas de quem te falei — Blair sorriu — Nós viemos com a Abby escolher o vestido de noiva.

— Eu não sou especialista, mas não era ela quem devia usar o vestido? — eu decidi provocá-la.

Certamente aquilo se tratava de algum tipo de piada entre elas, mas eu nunca perderia a oportunidade de importuná-la.

— Ahh, Abby está se vestindo agora. Blair escolheu esse vestido para você — Claire confidenciou.

— O qu.. Não! — Blair arregalou os olhos, empurrando a amiga — não foi isso que aconteceu!

Eu sabia que deveria deixá-la em paz e não provocá-la sobre o assunto.

— Blair, nós já não conversamos sobre isso? — eu suspirei, fazendo com que ela revirasse os olhos do outro lado da tela.

— Calado...

— Conversaram sobre o que? — Alisson perguntou.

— Blair tem tentado me convencer de todas as formas a me casar com ela — eu expliquei, recebendo um olhar chocado em troca — eu já tentei gentilmente dizer a ela que não vai acontecer, mas ela não se convence.

— Como é? — Alisson segurou o riso enquanto Blair me encarava boquiaberta.

Seu rosto estava levemente corado e eu estava adorando apreciar aquilo.

— Não é verdade — ela se apressou em dizer — definitivamente não é verdade. Ele quem cismou com isso. E eu só estou vestida assim porque esse bando de malucas sequestraram meu celular e só devolveram quando eu coloquei o vestido.

As duas garotas saíram de minha linha de visão, me deixando apenas na companhia de Blair que logo passou a sussurrar.

— Não acredito que você falou aquilo, elas não vão mais me deixar em paz! — seu tom afiado fez com que eu escondesse um meio sorriso.

Ela não imaginava o quanto estava bonita naquele momento, mesmo irritada.

— Você aparece vestida de noiva e quer que eu faça o que? — eu devolvi.

— Aja normalmente...

— Normalmente eu não converso com mulheres vestidas de noiva.

— Você tem medo de compromisso, comandante? É isso que está acontecendo? — Ela voltou a sorrir.

Eu não pude conter meu próprio sorriso diante daquela pergunta. Era no mínimo irônico que ela falasse aquilo quando até ontem eu estava disposto a tentar algo com ela, até que surgir aquela história de amizade colorida. Mas de certa forma não deixava de ter um pouco de razão, eu não me relacionava com ninguém desde meu término com Olga.

— Não é o caso.

— Eu acho que é exatamente o caso — ela devolveu, desviando o olhar da tela do celular por um momento — Ahh meu Deus.

A voz das outras garotas surgiram ao fundo totalmente animadas. Provavelmente Abby havia aparecido com algum vestido.

— Dimitri, você está pronto para ver a noiva mais linda desse lugar? — Blair perguntou.

— Eu não gostei do modelo do seu vestido, mas concordo — acabei soltando sem pensar.

Aquele comentário acabou pegando Blair desprevenida e ela não parece ter sido a única. Ela piscou algumas vezes antes de recobrar a voz enquanto as garotas sussurravam entre si.

— Isso é estúpido, eu vou tirar esse vestido — ela murmurou encerrando a chamada fazendo com que eu encarasse o por do sol visto da cabine de um avião, que era o papel de parede de meu celular.

Ótimo, o que eu fiz? Ela realmente se ofendeu com esse comentário? Pensou que eu estava zombando dela ou coisa parecida?

Eu soltei o aparelho em cima da mesa ao lado da poltrona onde eu estava acomodado, sem saber ao certo o que havia feito de errado. Eu não devia me sentir dessa maneira por ela, isso era tudo o que eu devia evitar desde o início. Ela tinha razão ontem, nós nem morávamos no mesmo continente. Imaginar que algo assim daria certo era ridículo.

Eu voltei a pegar o celular sobre a mesa, imaginando se deveria retornar à chamada, mas assim que estava prestes a fazer, recebi uma mensagem de meu copiloto, me convidando para jantar com a tripulação antes de seguir para o aeroporto. Eu aceitei, eu deveria tomar um banho e deixar que Blair aproveitasse o dia com suas amigas, mas ela retornou a chamada de vídeo em seguida, interrompendo meus planos.

— Hey comandante, me livrei daquele vestido horrível — ela apareceu sorridente na tela assim que eu aceitei a chamada, recebendo um olhar pouco amigável de uma mulher que estava praticamente ao seu lado — seus vestidos são lindos, senhora.

Ela tentou consertar ao notar o deslize me fazendo rir. Ela se afastou da mulher com pressa, me olhando com cumplicidade.

— Ela é a dona do ateliê, eu não tinha percebido que ela estava tão perto.

— Cuidado com o que você fala, Blair — eu avisei — eu...

— Vamos, você tem que ver a Abby, ela está em dúvida sobre um modelo e quer uma opinião.

— Você quer dizer a minha opinião? — eu franzi o cenho.

— Sim. Eu disse a ela que você participaria disso porque ela precisava de uma opinião masculina — ela prendeu a língua entre os dentes em um sorriso travesso.

— Blair.

— Dimitri esse foi o vestido que nós mais gostamos. É só você concordar com a gente — ela sussurrou.

— Tudo bem.

Blair passou por uma porta, entrando em uma sala repleta de espelhos, onde uma jovem que estava dentro de um vestido se encarava totalmente surpresa.

— Abby, dê uma volta para que Dimitri possa te ver — Blair pediu.

A jovem se virou em minha direção, me avaliando discretamente antes de sorrir.

— Oi Dimitri, é um prazer conhecê-lo.

— Abigail, igualmente, Blair me falou muito sobre você.

Aquela declaração fez com que o sorriso dela se alargasse.

— Ahh Blair, é mesmo? Ela fala de você o tempo todo!

— O que!? Não é verdade — Blair virou a câmera em sua direção — eu não falo de você o tempo todo.

— Na verdade...

— Vamos logo com isso, o vestido não é perfeito, comandante? — ela voltou a mostrar a amiga.

O vestido não era exatamente o que eu esperava, ele era grande, cheio de brilho e... Rosa....

Não era um tom escuro, na verdade era bem claro, mas ainda assim era rosa.

— É bonito, mas não devia ser branco?

— Eu sabia! — Abigail exclamou, descendo da plataforma que estava enquanto as garotas gemiam.

— Dimitri, ela vai querer provar todos mais uma vez! — Blair reclamou.

— Foi você quem pediu minha opinião, todos os vestidos de noiva que já vi são brancos — eu me defendi.

— Nós ficaremos presas aqui por horas e ainda temos que montar a lista de presentes — ela se afastou de seu grupo de amigos — e hoje em dia ninguém mais se casa de branco. Eu não vou me casar de branco!

— Bom, desculpe por esperar uma noiva vestida de branco — eu respirei fundo — eu preciso me arrumar para encontrar a tripulação, falo com você amanhã?

— Claro, me deixe aqui sozinha com esse poço de indecisão — ela murmurou antes de encerrar a chamada.

Talvez eu deva ficar longe enquanto ela estiver envolvida com esse casamento.

~~**~~

"Eu já terminei de me arrumar, você está pronta?"

Eu enviei a mensagem para Blair, faltavam poucos minutos para o horário combinado para nos encontrar e eu sentia a ansiedade me consumir. Faz dez dias desde a última vez que nos vimos e nós teríamos essa noite juntos em Zurique, eu embarcaria novamente pela manhã então decidimos aproveitar o tempo que tínhamos.

" Quase, você conseguiu a reserva do restaurante?"

"Confirmada para às oito horas, é um dos melhores restaurantes da cidade. Tivemos sorte"

Eu vesti o sobretudo, me preparando para ir até o hotel em que ela estava hospedada, que por sorte ficava na mesma quadra do meu.

" Você é tão esnobe"

Eu franzi o cenho diante daquela mensagem.

"Eu adoro isso"

Ela complementou em seguida me fazendo sorrir antes de sair do quarto.

" Estou a caminho"

Alguns minutos depois, quando eu já estava na rua, ela respondeu.

"Estou na entrada do hotel "

Eu não demorei para avistá-la. Blair estava encolhida dentro de seu sobretudo, exposta a temperatura de seis graus que assolava a cidade em novembro.

Seu sorriso ao me ver foi imediato, ela veio em minha direção, se lançando em meu pescoço, eu envolvi sua cintura com meus braços sentindo seu corpo colado ao meu naquele abraço. Ela se afastou com um sorriso estampado no rosto, parecendo tão animada quanto eu por aquele encontro.

— Hey, eu estava com saudades.

— Eu também senti sua falta — eu garanti.

E não era mentira, desde a primeira vez que nos encontramos em Amsterdã, conversar virtualmente não era o suficiente para aplacar meu desejo por sua presença.

— Vamos, se a gente não se apressar vamos perder a peça.

— Você tem certeza que não quer a ópera? — eu tentei uma última vez — acho que ainda dá tempo de conseguir os ingressos.

Blair e eu tínhamos combinado de planejar essa noite juntos, mas não conseguimos entrar em acordo sobre nossas atividades, quando enfim ela aceitou o teatro, eu pensei que veríamos algo clássico na casa de ópera que era tão famosa na cidade. Mas Blair tinha outros planos.

E a pior parte é que eu não sabia quais eram esses planos.

— Confie em mim, você vai amar essa peça. Estão falando muito bem. Eu vi na Internet — ela garantiu, apontando para o carro que parou junto ao meio fio ao nosso lado — Deve ser o Uber que pedi.

Nós nos acomodamos lado a lado no interior do veículo, Blair entrelaçou nossos dedos, sorrindo para mim quando olhei para nossas mãos juntas. Por mais que nós tivéssemos entrado em um acordo sobre toda a nossa situação, eu não sabia como agir quando estava perto dela. Nós muitas vezes brincávamos e flertamos, mas então surgia aquela história de amizade.

Decidi apagar aquelas dúvidas, eu não perderia tempo pensando naquilo quando o tempo que tinha com ela era tão escasso.

Levei sua mão aos meus lábios depositando um rápido beijo ali, antes de olhar para ela. Blair acompanhava cada movimento meu com atenção e não hesitou um segundo sequer quando me inclinei em sua direção. Ela correspondeu o beijo imediatamente, levando sua mão livre até meu rosto, o acariciando, fazendo com que eu esquecesse tudo o que estava em minha cabeça momentos atrás.

— Eu amo nossa amizade — ela sorriu com os lábios ainda colados aos meus.

— E eu quero saber o que você está aprontando — eu mudei de assunto, me afastando dela, sentindo o motorista nos observar através do retrovisor.

— Não se preocupe, você vai gostar. Eu escolhi a coisa mais clássica que encontrei — ela garantiu.

— E o que é?

— Nesse teatro estão apresentando sonhos de uma noite de verão...

— E foi isso que você escolheu? — Ela não aceita assistir ópera, mas quer ver Shakespeare!?

— Você não gosta? Pensei que como você gosta de ópera gostaria disso também — ela franziu o cenho.

— Eu nunca vi — eu admiti olhando em volta, estranhando o fato de estar nos afastando do centro.

— Ótimo, vamos assistir isso à toa — ela gemeu — eu pensei que você gostaria.

— Nós podemos gostar — eu garanti, achando graça de sua reação — Onde fica esse teatro?

Eu franzi o cenho ao notar o motorista rir disfarçadamente.

— Acho que estamos chegando — ela desconversou.

Alguns momentos depois nós dois estávamos parados na frente da entrada do teatro sem entender ao certo o que era aquilo.

— Blair, quando você disse teatro...

— É um teatro barco, não é incrível?

— Claro, vamos entrar em uma armadilha flutuante — eu indiquei A grande construção de madeira pintada de verde sobre uma barcaça que estava ancorada na Marina.

— Não seja ranzinza, comandante. Pode ser divertido — ela avisou, me puxando até a entrada — e se não for, podemos ir embora.

— Algo me diz que vou me arrepender — eu respirei fundo antes de embarcar.

O lado de dentro era um pouco impressionante, a decoração passava um ar misterioso de uma época passada, fazendo com que me sentisse preso em um filme dos anos 20.

— Sejam bem vindos, vou levá-los ao lugar de vocês — um velho vestindo um antigo terno com suspensório e gravata borboleta nos recepcionou.

— E melhora a cada minuto — eu sussurrei pra ela

— Olhe, nós temos um bom lugar — ela apontou.

Eu ri enquanto a acompanhava até o sofá que ficava próximo ao patamar um pouco elevado que eu supunha ser o palco, me sentindo incrível por fazer parte daquilo. Em uma noite normal eu jamais frequentaria um lugar assim, mas ela me convencia a viver experiências que jamais imaginava.

— Nós ofereceremos alguns coquetéis em breve, aproveitem a noite.

— Uhh misterioso, eu adorei, e você, comandante? — ela me provocou.

— Apenas sente, Blair — eu me acomodei no sofá de veludo vermelho.

Ela se sentou ao meu lado e eu logo passei o braço ao redor de seu corpo, o trazendo para perto do meu.

— Como você encontrou esse lugar? — eu beijei seu rosto, recebendo um sorriso em troca.

Eu adorava aquele sorriso fácil.

— Você vai se divertir e vai ser tudo graças a mim — ela cantarolou.

— Não cante vitória tão cedo — eu avisei vendo alguns garçons se aproximarem com bandejas repletas de bebidas enquanto o lugar ficava cada vez mais cheio — mas está começando a melhorar.

— Helena, aceite essa taça de néctar dos deuses — um jovem se aproximou, vestindo uma roupa que definitivamente não era dessa época, entregando uma taça com um líquido laranja.

— Eu não sei quem é Helena, mas obrigada — ela sorriu, aceitando enquanto eu franzia o cenho olhando em volta.

Várias pessoas vestidas da mesma maneira estavam espalhadas por ali puxando assunto com os outros da plateia.

Meu cérebro demorou apenas alguns segundos para entender o que estava acontecendo, enquanto Blair bebericava o que o rapaz havia lhe entregado.

— Blair... — eu murmurei ao notar a porta sendo fechada e um leve solavanco antes da embarcação começar a se mover.

— Helena, uma flor para a jovem mais linda de todo esse bosque — outro rapaz lhe entregou uma rosa.

Isso não pode estar acontecendo!

— Desculpe, você se enganou, eu não sou Helena — Blair tentou devolver mas o rapaz se afastou — Dimitri.

— É uma droga de peça interativa! — eu murmurei.

— O que!? Isso existe? — ela arregalou os olhos.

De todas as peças de teatro disponíveis na cidade, ela conseguiu escolher a peça interativa em um barco!

— Nós vamos embora — ela se levantou.

— Blair nós já estamos aqui — eu segurei seu pulso e fiz com que se sentasse.

— Você quer mesmo ver isso? — ela ergueu ambas as sobrancelhas.

— Não, mas pelo o que eu ouvi, nós não estamos mais ancorados.

— Você quer dizer que estamos presos aqui com um bando de malucos?

Blair apertou a ponte do nariz me fazendo rir de sua reação. Eu também não queria estar ali, mas ver a reação dela era impagável.

Ela murmurou alguma coisa enquanto eu voltei a entrelaçar nossos dedos.

— Vamos aproveitar a noite, Helena — eu zombei.

— Dimitri, quem é Helena? — ela me encarou.

— Você nunca leu sonhos de uma noite de verão? — ela negou com a cabeça — nem para a escola?

— Não.

— Isso vai ser interessante — eu não pude evitar de rir.

— Por que? — Blair questionou alarmada — Dimitri, por que?

As luzes diminuíram, indicando o início da peça.

— Silêncio, vai começar — eu sussurrei beijando sua têmpora.

— Numa noite de verão, num bosque, quatro jovens enamorados encontram-se e desencontram-se: Lisandro ama Hérmia que ama Lisandro e é amada por Demétrio, que é amado por Helena — O senhor que nos recepcionou passou a caminhar entre as mesas e assentos espalhados pelo salão declarando em alto e bom som.

Logo em seguida um casal entrou em cena, sendo uma jovem e um senhor.

— Pai, por favor, não me obrigue. Eu amo Lisandro!

— Hérmia, eu sei o melhor para você — o homem declarou — ao menos tente aproveitar sua festa de noivado, Demétrio é um bom homem.

— Isso é um pesadelo — Blair gemeu ao meu lado.

— Preste atenção — eu lhe repreendi.

Por alguns poucos minutos funcionou, Blair permaneceu calada enquanto Lisandro e Hérmia planejavam sua ousada fuga.

— Helena, você deve me ajudar — Hérmia se aproximou de Blair, segurando suas mãos — Deve distrair Demétrio durante essa festa.

— Ohh eu... — Blair olhou em minha direção em busca de ajuda enquanto eu segurava o riso.

— Ela precisa de você, Helena — eu pisquei para a garota, que me fuzilou com o olhar.

— Venha Helena — a atriz a puxou para o meio do cenário, enquanto Blair me encarava com uma expressão de puro desespero — Vá falar com Demétrio enquanto eu fujo com Lisandro.

— Eu?

— Vamos, nós não temos tempo a perder — ela empurrou Blair em direção ao ator.

— Helena, você veio me felicitar pelo noivado.

— Ah, sim. Parabéns — Blair devolveu — eu posso me sentar agora?

OK, eu tenho quase certeza que não era assim que acontecia, mas Blair se apressou em sentar ao meu lado, cruzando os braços em seguida antes de olhar em minha direção.

— Você está rindo de mim — ela murmurou.

— Blair, com certeza não estou chorando — eu pisquei pra ela.

— Eu odeio você — ela murmurou — você tem...

Nosso pequeno diálogo foi interrompido quando Hérmia se sentou em meu colo, fazendo com que eu a encarasse surpreso e Blair arregalasse os olhos.

— Mas que merda...

— Hérmia, espero que você se sinta melhor agora que se sentou em uma cadeira — Lisandro ajoelhou diante da jovem que permanecia em meu colo.

Ótimo, tinha que sobrar pra mim. Constantemente estavam usando pessoas como objetos na peça, alguns momentos atrás um rapaz se tornou uma mesa e passou alguns minutos segurando as taças dos atores, e agora isso.

— Definitivamente me sinto muito melhor, Lisandro — Hérmia declarou.

— Ótimo, vamos fugir antes que nos alcance — ele segurou sua mão a colocando em pé.

A mulher porém não parecia tão disposta assim, já que voltou a se sentar.

— Pensando bem, acho que preciso de mais um momento — ela declarou antes de lançar um rápido olhar para mim por cima do ombro.

Aquele gesto não passou despercebido a Blair, que parecia estar apreciando a peça cada vez menos.

— Hérmia, é melhor você se apressar antes que eu conte pro Demétrio onde você está — Blair apoiou a mão nas costas da jovem, dando um leve empurrão para que ela se levantasse.

— Eu vi o que você fez — eu sussurrei para ela.

— Silêncio, eu quero assistir — ela murmurou, me fazendo rir.

Nós permanecemos em silêncio por alguns minutos até que todos estivessem perdidos no bosque, nós dois pareciamos ter sido esquecidos pelo elenco e estávamos aproveitando aquilo.

— Lisandro, Lisandro, onde estás? — Hérmia chamou.

— Essa história não faz sentido nenhum — Blair reclamou.

— Eu estou tão cansada de procurá-lo através dessa neblina!

Então sem aviso algum ela voltou a se sentar em meu colo.

— Neblina? Isso acontece no verão? — Blair murmurou — aliás...

Mas antes que ela pudesse concluir o pensamento, um rapaz vestido com o que eu supunha ser uma fantasia de duende, se aproximou, assoprando um punhado de purpurina em direção ao rosto de Blair.

— Mas...

Demétrio e Lisandro logo olharam em direção à jovem, correndo para se ajoelhar diante dela.

— Helena, aceite essa flor como prova de meu amor — Demétrio declarou.

— Uma maçã é muito melhor que uma flor — Lisandro retrucou.

Hérmia foi obrigada a se afastar por um dos duendes enquanto os dois brigavam pela atenção de Blair, a enchendo de presentes.

— Lisandro, eu não entendo, nós deveríamos nos casar! — Hérmia voltou, se acomodando em meu colo mais uma vez, atraindo a atenção dos dois atores.

— Eu amo Helena agora, sinto muito — ele franziu o cenho — e por que você está sentada na cadeira de novo?

— Estou exausta.

— Talvez você esteja doente, Hérmia — Demetrio declarou — não deveria ter a necessidade de se sentar em uma cadeira tantas vezes em uma situação normal.

— Alguém já parou pra pensar por que essa cadeira está no meio do bosque? Se está cansada deveria se sentar no chão! — Blair voltou a empurrar Hérmia do meu colo.

A peça durou mais trinta minutos, e para minha diversão Blair parecia cada vez mais irritada, mas pelo menos ninguém decidiu me usar mais como cadeira.

Nós acabamos perdendo nossa reserva do jantar.

— Eu vou demorar um século para conseguir tirar toda essa purpurina da minha roupa — ela gemeu observando as próprias luvas enquanto caminhávamos de volta para o hotel — eu não acredito naquela loucura.

— Eu gostei — decidi provocá-la.

Blair parou de caminhar, me lançando um olhar incrédulo.

— Você não pode estar falando sério. Foi horrível!

— Pode ter sido para você, eu me diverti — eu pisquei para ela antes de voltar a caminhar.

Eu me afastei alguns metros até que ela corresse para me alcançar.

— Você está brincando, não teve nada de divertido. Me alugaram a peça inteira e aquela garota ficou sentando em você!

— E onde está a parte ruim? — eu devolvi me forçando para não rir de sua expressão indignada.

Blair me encarou boquiaberta por alguns segundos, antes de sair pisando duro, apertando os passos na tentativa de se afastar.

— Blair — eu a acompanhei sem dificuldade.

— Eu não acredito nisso, vocês são todos iguais! Não pode surgir uma mulher bonita que...

Eu parei de caminhar, segurando seu pulso e a puxando em minha direção em seguida, não dando tempo de reação antes de beijá-la.

Soltei sua mão e segui para sua cintura, grudando seu corpo ao meu enquanto a outra mão estava em sua nuca. Blair correspondeu o beijo com entusiasmo, e com muito esforço eu me lembrei que estávamos em um local público, nos afastando assim que a intensidade do Beijo começou a aumentar.

— Você tem que voar amanhã cedo não é? — ela suspirou ainda sem se afastar.

— Sim, mas em doze dias teremos dois dias completos em Londres — eu devolvi antes de beijar sua bochecha e correr meus lábios de encontro aos dela.

— Eu não vejo a hora — ela declarou com a boca ainda encostada na minha.

Eu lhe roubei mais alguns Beijos, mas minha mente continuava na forma como ela reagiu antes

— Você ficou com ciúmes? — questionei ainda envolvendo sua cintura com meu braço.

— O que? Não! — ela se desvencilhou de mim — não foi o que aconteceu.

— Mesmo? Porque foi o que pareceu — eu a provoquei.

— Não foi. Eu não sinto ciúmes de você — ela devolveu — não faria sentido.

— Não? — eu insisti no assunto.

— Nós somos amigos — ela desviou o olhar — amigos não sentem ciúmes.

Novamente aquilo. Eu senti como se ela tivesse jogado um balde de água gelada sobre mim com aquela resposta.

— Você não sente ciúmes de mim, sente? — ela me lançou um olhar rápido.

Eu sentia? Eu me incomodei no dia em que ela atendeu o entregador apenas de pijama, acho que ela nem pensou o quanto estava sexy usando aquilo. Mas era ciúmes? Talvez.

— Não, claro que não sinto — decidi entrar em seu jogo por fim.

— Viu. Ninguém sente ciúmes de ninguém — ela suspirou não parecendo tão satisfeita assim com a resposta — por que nós não vamos jantar e esquecemos isso?

Eu assenti com a cabeça antes de guiá-la em direção a um restaurante do outro lado da rua. Ela estava certa, nós dois deveríamos aproveitar o momento e não perder tempo com esse tipo de discussão.

Eu me forçaria a entender aquilo.