Escalas e Destinos - A apaixonante vida de Blair
30 Capítulo 30 - St Petersburg
Notas iniciais

Já era o nono dia desde o acidente e eu me recuperava cada vez mais. Não via a hora de Blair vir me visitar, ela tinha pousado pela manhã e eu ansiava por sua presença.
Eu não aguentava mais viver longe dela, antes eu estava disposto a esperar o tempo que fosse e suportar aquela rotina insana do início do nosso relacionamento, mas após minha experiência de quase morte, a distância não era mais uma opção para mim.
E, para minha sorte, ela pensava o mesmo.
Tanto havia mudado em tão pouco tempo. Caminhei até a janela, observando o movimento do lado de fora do hospital. Parecia que fazia uma eternidade desde que estive fora daquelas paredes, eu sequer me lembrava a sensação.
Passei alguns minutos parado ali, perdido em meus pensamentos quando uma batida na porta chamou minha atenção. Minha surpresa foi completa ao ver quem entrou no quarto.
— Olga…
Sua visita não era uma surpresa exatamente desagradável, nós dois conseguimos encontrar um meio termo em nossa convivência nos últimos meses, mas ainda assim, era uma surpresa.
— Achei que seria melhor eu te visitar aqui do que na sua casa — ela me deu um sorriso fraco.
Com certeza isso era melhor, Blair poderia jogá-la da janela caso ela aparecesse em nosso apartamento.
— Você quer se sentar? — eu perguntei, me acomodando em uma poltrona, sentindo a curiosidade por aquela visita repentina me consumir.
— Obrigada — ela deu um sorriso fraco, se sentando no sofá.
Por alguns segundos nós permanecemos em um silêncio desconfortável, até que ela voltou a falar.
— Como você está se sentindo?
— Melhor. Ainda sinto dor e mal estar, mas nada comparado ao primeiro dia do acidente.
— Fico feliz — ela forçou um sorriso, olhando em volta.
Mais uma vez aquele silêncio constrangedor.
— Como estão os seus pais? — procurei uma forma de continuar a conversa.
— Bem. Eles ficaram preocupados com você também.
Isso eu tenho muita dificuldade em acreditar. Mas preferi dar apenas um aceno em resposta.
— Eu fiquei sabendo sobre o noivado. Parabéns.
Eu me movi na poltrona conforme o desconforto crescia em meu interior. Ela era a última pessoa com quem eu gostaria de falar sobre o assunto.
— Obrigado — a encarei com desconfiança.
Olga se levantou, passando a andar de um lado para o outro, mexendo nas mãos em sinal de nervosismo.
— Sabe, Dimitri. Nos últimos meses, conforme a gente se reaproximava, eu pensei que talvez o destino estivesse nos oferecendo uma nova chance — ela começou, me fazendo arregalar os olhos.
Uma nova chance? Depois de tudo o que aconteceu? Ela enlouqueceu?
— Olga!
— Por favor, me deixe falar. Eu preciso colocar um ponto final nesse assunto — ela se virou em minha direção.
— Ponto final? Você colocou um ponto final há dois anos. O ponto final veio quando você me acusou de usar a minha profissão para te trair, quando me acusou de ser um péssimo namorado e um péssimo filho por viajar tantas vezes.
A raiva começou a queimar em meu interior enquanto eu despejava sobre ela algo que eu nem sabia que tinha guardado por tanto tempo.
— Foi você quem colocou o ponto final, você não falou comigo por dois anos, e…
— Porque eu estava magoada e não porque não gostasse de você. Eu falei tudo aquilo porque eu queria te machucar.
Eu não soube o que responder. Aquela mulher não estava fazendo o menor sentido para mim naquele momento.
— Eu queria que você tivesse me escolhido. Eu queria me sentir mais importante que a sua carreira.
— Você era…
— Se você tivesse que escolher entre a Blair e a sua carreira, eu tenho certeza que você se aposentaria — ela desviou o olhar, voltando a se sentar.
Por um momento minha mente vagou para quando eu nem hesitei antes de aceitar a proposta de trocar os voos internacionais pelos domésticos apenas para passar dois dias com ela.
— Essa é a grande questão, Olga. Se eu fosse colocado em uma situação que me fizesse escolher, eu escolheria você. Eu amava você. Mas a diferença é que a Blair nunca exigiria isso de mim.
Eu fechei os olhos, respirando fundo, esperando em vão alguma resposta da mulher.
— Eu amava você, estava pronto para passar a minha vida com você, mas você mesmo matou aquele amor — eu voltei a abrir os olhos.
Olga não ousava me encarar, ela brincava com os próprios dedos, mantendo o olhar fixo em sua mão.
— Você disse que esperava alguma chance pra gente, mas…
— Não! Não foi por isso que eu vim aqui — ela ergueu o rosto em minha direção, não deixando que eu terminasse de falar.
Eu ergui ambas as sobrancelhas, esperando alguma explicação sobre o motivo de toda aquela conversa.
— Eu fiquei sabendo sobre o seu noivado e fiquei feliz por você — Ela forçou um sorriso.
— Olga.
— É verdade, o seu acidente serviu para abrir meus olhos — ela começou, após respirar fundo.
— Abrir seus olhos?
— Dimulya, não me entenda errado, eu gosto de você, e fiquei arrasada quando recebi a notícia, eu rezei muito para que você ficasse bem.
Olga se levantou mais uma vez, passando a caminhar pelo quarto enquanto falava.
— E tudo piorou quando Yuri me contou que você e a Blair haviam reatado e que ela estava no hospital.
— Olga — Eu precisava interrompê-la, ter aquela conversa com ela, ainda mais na ausência da Blair, não parecia correto.
— E então, começaram a me contar tudo o que ela tinha feito para chegar até você, e tudo o que ela estava passando. Não me entenda errado, Dimitri, eu gosto de você, e torcia com todas as minhas forças para que você melhorasse. Mas eu me dei conta que eu não estava disposta a fazer nada daquilo por você. — ela parou de caminhar, se virando para mim — eu recebia notícias suas pelo seu irmão, e para mim, isso era suficiente. Eu nunca senti a necessidade de vir até aqui, perturbar cada funcionário do hospital para passar alguns minutos com você, ou passar horas plantada atrás de um vidro só para que você não se sentisse sozinho.
A expressão em seu rosto era de decepção, e eu mesmo não sabia definir os meus sentimentos sobre aquele assunto.
— Foi quando eu percebi o quanto eu estava sendo tola por querer te privar disso, sendo que eu não estava disposta a te oferecer nada que chegasse perto desse sentimento. Então, sim, eu estou feliz por vocês — ela finalizou.
Nós dois permanecemos alguns momentos em silêncio enquanto eu absorvia tudo o que ela tinha relatado. De certa forma, aquilo era bom. Pelo menos eu sabia que ela não tentaria mais atrapalhar minha vida.
— Por que agora? — Eu a encarei — Quero dizer, por que você me contou isso?
— Nós estamos prestes a nos tornar tios, você vai se casar com a Blair, eu não quero estragar todos os eventos importantes para a minha irmã — ela suspirou me fazendo compreender sua motivação.
Nós teríamos que conviver bastante, e os últimos eventos de família foram completos desastres.
— Eu tenho que ir, seu irmão quer te ver também — Ela sorriu.
— Obrigado pela visita — eu consegui retribuir seu sorriso de maneira sincera.
— Vou falar para o Yuri entrar — Ela garantiu antes de me deixar ali sozinho.
Eu permaneci ali pensativo por alguns minutos antes que meu irmão entrasse no quarto, me observando com uma expressão ansiosa, ele se sentou onde Olga estava antes, parecendo deslocado.
Seu desejo de saber como tinha sido nossa conversa era evidente, mas ainda assim ele estava se controlando.
— Como se sente?
— Melhor que da última vez — eu garanti.
— Isso é bom, você está vestido e andando por aí — ele gracejou.
Eu me limitei a sorrir, voltando a ficar em silêncio.
— Então, como foi a conversa com a Olga? — ele decidiu ir direto ao assunto.
— Foi… surpreendente — eu não pude pensar em um termo melhor para descrever a nossa conversa.
— Surpreendente no bom sentido? — ele procurou me sondar.
Achei graça de sua falha tentativa de manter a discrição, o encarando com um meio sorriso no rosto.
— Pela sua curiosidade eu devo assumir que foi você o responsável — eu comentei.
Yuri se moveu desconfortável, exibindo uma expressão culpada por ter sido descoberto.
— Sei que eu não deveria me meter na sua vida, mas…
— Tudo bem. Estava começando a afetar a sua vida também — eu devolvi.
Ele me lançou um olhar desconfiado.
— Isso quer dizer…
— Você não tem que se preocupar, acho que conseguimos nos resolver — eu garanti.
Nós passamos os próximos minutos conversando amenidades, no fim, Kátia e Olga se juntaram a nós no quarto, me fazendo companhia, mas minha mente estava presa em Blair que ainda não tinha dado nenhum sinal.
— Algum problema, Dimitri? — Katia perguntou ao me ver checar o celular mais uma vez em busca de alguma mensagem da minha noiva.
— Não, eu só não recebi nenhuma mensagem da Blair — eu expliquei um pouco sem graça.
— Ahh, não se preocupe, a Mama e a Masha foram busca-la no aeroporto e depois viriam para cá, ela deve estar correndo para deixar tudo pronto — Yuri explicou.
— Tudo pronto? — Eu franzi o cenho sem entender.
Eles trocaram olhares entre si, parecendo saber de algo que eu sequer desconfiava.
— Não te contaram? — Kátia sorriu.
— Contaram o que?
— A doutora Pavlova assinou sua alta médica mais cedo, você vai para casa hoje — Yuri acabou com o mistério.
Por um momento eu permaneci sem reação, apenas processando o que tinha acabado de descobrir e logo em seguida um sorriso espontâneo surgiu em meu rosto.
Aquela era a melhor notícia que eu recebi em dias, eu não via a hora de estar livre daquele hospital!
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Já era o fim da tarde quando minha mãe empurrou a cadeira de rodas que ela insistiu em alugar para que eu não fizesse esforços desnecessários. Eu obviamente pretendia devolver aquilo o mais depressa possível, mas na pressa de deixar logo o hospital para trás, eu aceitei tudo o que ela propôs sem discutir.
Era tão bom estar em casa. Eu observei as paredes do elevador, ansiando que ele subisse mais depressa, tudo o que eu queria era entrar no meu apartamento e encontrar Blair!
— Dá pra perceber a sua ansiedade, você pode se controlar um pouco, ela não vai fugir — Masha zombou.
Ela tinha acompanhado minha mãe enquanto Blair continuava no apartamento arrumando sua mudança enquanto esperava pela minha chegada.
— Calada — eu murmurei em meio a um sorriso enquanto tamborilava os dedos na perna.
— Não pegue no pé do seu irmão, ele está ansioso para ver a nova decoração do apartamento dele — minha mãe zombou.
Eu franzi o cenho, levantando meu rosto para encarar as duas. Que história é essa de nova decoração?
— O que?
Mas antes que eu pudesse ter qualquer resposta o elevador chegou ao meu andar, abrindo as portas para que pudéssemos desembarcar.
— O que você quis dizer com "nova decoração", Mama? — eu perguntei enquanto ela empurrava a cadeira em direção a porta de entrada do meu apartamento, onde uma música animada tocava.
— Se ela estiver tão eufórica quanto quando desembarcou daquele avião, eu juro que pulo pela janela — Masha zombou.
Meu coração acelerava a cada centímetro que nos aproximávamos da porta sem saber ao certo o que encontraria do outro lado.
Minha irmã se adiantou para destrancar a porta e eu logo ouvi a voz da Blair brigando com alguém.
— Não é para pendurar aí, eu te falei na outra parede! Nessa era a Máscara italiana!
— Bom, os dois ainda estão vivos — minha mãe zombou
Dois?
Antes que eu pudesse perguntar, minha mãe me empurrou para dentro da sala, onde Blair brigava com Joe, que estava em cima de uma cadeira, pendurando um relógio cuco de tamanho considerável na parede.
Eu olhei ao redor, onde três grandes malas estavam abertas no chão. Eu não sabia dizer o que era mais surpreendente, a quantidade de enfeites espalhadas pela minha sala ou a presença do meu primo.
— Comandante, você chegou! — ela veio em minha direção com um sorriso estampado no rosto.
— O que… — eu balbuciei ainda absorvendo todo o caos que tomou conta da minha sala.
— Primo, espero que você esteja melhor. Eu aproveitei que a galeria onde trabalho vai passar algumas semanas fechada para reformas e decidi te visitar — Joe desceu da cadeira ainda segurando o relógio.
— E eu decidi alugar ele — Blair sorriu — Dimitri, algum problema?
Ela perguntou quando meu olhar se focou no objeto no canto da sala.
— Blair, por que tem um par de tamancos holandeses gigantes na nossa sala? — eu pisquei atordoado.
Minha irmã abafou uma risada enquanto minha mãe foi para a cozinha.
— Você gostou? Eu fiz uma escala em Amsterdam e não pude perder a chance — ela se inclinou para me beijar.
— Mas…
— Segundo sua noiva, tamancos holandeses trazem boa sorte — minha irmã cantarolou.
— Eu ainda convenci ela a deixar alguns enfeites no apartamento para mim — Joe zombou enquanto eu começava a voltar a mim.
— Você acredita que no fim seu primo estava procurando um novo lugar para alugar e vai morar no meu loft?
Eu me levantei, caminhando devagar entre os enfeites e plástico bolha espalhados pelo chão, ignorando a frase de Blair.
— Dimitri, algum problema? — Ela segurou minha mão, eu olhei em sua direção, encontrando uma expressão preocupada em seu rosto.
Senti uma risada começar a crescer em meu interior diante da situação geral.
— Blair, você por acaso trouxe alguma roupa? — eu tentei segurar o riso.
— Ela deve ter deixado em Amsterdam para trazer os tamancos — Masha gargalhou.
Blair me abraçou por trás, depositando um beijo nas minhas costas.
— As roupas estão no quarto — Ela garantiu — Ignore sua irmã, ela está com inveja.
— Com certeza eu estou — Masha ironizou.
Eu me virei, abraçando Blair e beijando a sua testa.
— Eu sei como resolver isso, nós já temos o presente de casamento perfeito, certo, Blair?
Eu vi os olhos da minha noiva brilhar diante de minha frase, enquanto a expressão de minha irmã mudava para o mais puro terror.
Logo uma pequena comoção tomou conta do ambiente, quando Joe começou a provocar Masha e minha mãe decidiu interferir, vindo da cozinha.
Blair abriu espaço no sofá para que eu me sentasse, se acomodando ao meu lado.
— Você se incomoda com os enfeites? — Ela perguntou em tom baixo.
— Não — eu garanti.
— Desculpa, eu deveria ter falado com você antes de trazer tudo — ela forçou um sorriso.
— Blair, quando eu aceitei seu pedido de casamento, eu aceitei o pacote completo. Inclusive sua baba, seu desejo quase incontrolável por compras e seus enfeites esquisitos.
Ela riu, deitando sua cabeça em meu ombro, entrelaçando nossos dedos.
— Bom, na verdade foi sua irmã quem fez o pedido — Blair comentou depois de alguns segundos, me fazer rir.
— Eu amo você.
Eu olhei em volta, e tive uma única certeza, eu nunca mais acharia aquele apartamento vazio e sem vida ao voltar de uma viagem.
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