— Então, ela foi obrigada a se casar com ele? — eu estava sentado ao lado de Lauren enquanto ela me explicava o enredo de uma novela que estávamos assistindo.

— Exatamente, e agora ela está descobrindo que ele não é tão ruim quanto ela imaginava — Ela declarou.

Eu franzi o cenho, não compreendendo como aquilo era possível.

— Ele não é tão ruim, só vai matá-la se ela tentar ir embora?

Aquele comentário fez com que a mulher gargalhasse ao meu lado.

— Eu sei, isso não faz o menor sentido — ela me acompanhou na risada.

Nós voltamos a ficar em silêncio, nos concentrando no desenrolar da trama. Fazia algumas horas desde que Blair foi ao hospital acompanhar a cirurgia de seu pai, me deixando ali com sua mãe.

— Ansiosa? — eu perguntei depois de alguns minutos naquele silêncio.

— Ela ainda não deu notícia nenhuma.

— Isso é bom — eu garanti na tentativa de tranquilizar a mulher.

— Como exatamente não ter notícias da pessoa que você ama pode ser bom? — ela me lançou um olhar atravessado.

— Notícias ruins chegam depressa, então se você ainda não soube de nada, é porque até agora está indo tudo bem.

Ela balançou a cabeça em entendimento, voltando a se calar. Eu chequei o horário, já era hora do almoço.

— O que você vai querer comer hoje? — eu perguntei, me preparando para fazer o pedido.

— Isso é mesmo necessário? — ela gemeu em resposta.

— Srª Ozkan, lembre-se do nosso acordo.

— Você chama aquilo de acordo? Eu chamo de tentativa de envenenamento — ela murmurou.

Não pude evitar rir diante de sua expressão. Graças a Deus Blair saiu para o hospital antes que pudéssemos experimentar aquela salada ontem, porque aquilo foi a pior coisa que já comi!

— Não seja exagerada, você nem chegou a provar, e concordou em voltar a se alimentar com seus pratos favoritos feitos por bons chefs.

— Você me disse que ou eu fazia isso ou você e a Blair cozinhariam para mim todos os dias!

— E eu falei sério, então é melhor você escolher o restaurante — eu pisquei para a mulher.

Ela murmurou alguma coisa inteligível antes de voltar sua atenção para a tela da TV.

— Eu sei que a ansiedade muitas vezes tira o nosso apetite, mas você precisa fazer isso pelo Sr Ozkan e pela Blair.

Principalmente pela Blair, eu pensei comigo tentando outra abordagem com a mulher. Ela respirou fundo, me lançando um olhar exausto.

— Vamos lá, o que a senhora quer comer?

— Qualquer coisa com lentilha — ela suspirou derrotada.

Lentilha. Ótimo, sei exatamente o que pedir.

— Na minha última visita a Blair me apresentou a melhor sopa de lentilha vermelha de Istambul. O que me diz? — Eu propus, recebendo um sorriso contido em troca que eu considerei como permissão para fazer o pedido.

Eu me concentrei em procurar o restaurante online enquanto sentia o olhar da mulher sobre mim.

— Obrigada, comandante Voitovich.

— Não precisa agradecer, não é como se eu estivesse cozinhando para a senhora — eu garanti enquanto olhava o cardápio do restaurante.

— Bom, eu devo sim te agradecer por ficar longe da minha cozinha, na verdade eu vou te agradecer se você e a Blair ficarem longe de qualquer cozinha pelo resto da vida de vocês — ela zombou me fazendo rir.

Tudo bem, não posso tirar sua razão, aquela salada me fez considerar nunca mais provar abacate na minha vida.

— Mas não é por isso que estou te agradecendo, e sim pela Blair, tudo isso está sendo difícil para ela, e ela precisava de um pouco de cuidado também — ela explicou.

Eu desviei o olhar com um pequeno sorriso sem graça no rosto.

— Isso não foi nada, eu sou amigo dela apesar de tudo.

— Eu sei porque você fez isso e não foi por amizade — ela deu de ombros.

Lauren era uma companhia agradável, no início me senti um pouco deslocado ao ficar sozinho com ela, mas bastou alguns minutos em sua companhia para descobrir o que fazia de Lauren Ozkan a mãe preferida do grupo de amigos da Blair.

Ela era engraçada, divertida e tinha um senso diferenciado para lidar com assuntos sensíveis, algo que tornava impossível que fugíssemos, por mais que desejássemos.

— E como a senhora pode saber disso? — Eu fingi desinteresse, permanecendo com o olhar preso na tela do celular.

— Bom, para começar Abigail é a amiga mais antiga da minha filha, e ela não entrou em um avião e veio ajudá-la. Como você soube? Que eu saiba, vocês dois não mantinham contato.

— Meu primo me contou na última vez que eu liguei — eu expliquei.

— E então você entrou em um avião — ela completou.

Eu me limitei a oferecer um sorriso sem graça como resposta. O que ela queria que eu dissesse? Que eu era patético o suficiente para não conseguir esquecer minha ex namorada?

— Vocês já conversaram? — ela insistiu no assunto.

— Eu prometi a ela que não tocaria no assunto, eu realmente vim apenas para ajudá-la — eu neguei com a cabeça.

— E você vai perder essa chance sem ao menos tentar?

Perder a chance. Essa é boa! Que chance ela pensa que eu tenho? Tudo bem, eu não sou mais o mesmo de cinco meses atrás, mas isso não vai adiantar se ela ainda tiver o mesmo pensamento.

— Às vezes tentar não adianta, ter paciência é tudo o que posso fazer — eu respirei fundo — se ela estiver disposta a tentar mais uma vez, eu estarei esperando, mas não posso obrigá-la a nada.

Minha resposta parece ter sido o suficiente para a mulher, que voltou sua atenção para o desenrolar da trama na TV. Nós permanecemos em silêncio por alguns minutos até que ela voltasse a falar.

— Você é um bom homem, comandante Voitovich. O tipo que vale a pena lutar. Se minha filha não enxergar isso, outra mulher vai — ela garantiu, encerrando de vez o assunto.

Sei que aquela frase tinha o intuito de me confortar, mas em nada serviu para seu propósito.

Eu não queria alguém que lutasse por mim, se fosse assim, eu estaria com a Olga. Eu queria apenas que a Blair estivesse disposta a estar ao meu lado, se é que isso faz sentido.

Nós não retomamos aquele assunto pelo resto da tarde. Assistimos a programas de tv juntos e esperamos por notícias, já estava quase anoitecendo quando Blair nos ligou, avisando que tudo tinha corrido bem e que seu pai já estava se recuperando. Ela apenas estava aguardando a liberação para vê-lo no pós operatório.

Aquela notícia foi como um bálsamo para Lauren, que recuperou os ânimos quase imediatamente. Ela teria se levantado e cozinhado o prato preferido da Blair se eu não tivesse impedido, então ela se contentou em comprar a comida de seu restaurante favorito.

A felicidade da minha antiga sogra era visível quando a filha chegou em casa, eu permaneci com elas, mas não conseguia dividir a mesma alegria naquele momento.

Não quando se aproximava a hora de me despedir de vez de Blair. Aquele enorme vazio tomava conta do meu ser, me angustiando. Eu senti falta dela por tanto tempo, como me despedir mais uma vez?

Conforme o tempo passava minha agonia apenas aumentava, até que enfim chegou o momento da despedida. Eu esperava com todas as forças que Blair falasse algo durante nossa despedida.

Ela me levou até a porta, saindo para o corredor comigo.

— Você vai embarcar que horas amanhã? — ela perguntou um pouco sem jeito.

— Às oito.

Ela respirou fundo, desviando o olhar diante da minha resposta.

Vamos Blair, eu prometi que não falaria, mas se partir de você…

— Obrigada por tudo, comandante. Eu não sei o que teria feito se não fosse você, não tenho como retribuir — ela firmou a voz que ameaçou falhar, levantando o rosto para olhar em meus olhos.

Meu coração se apertou ao ouvir aquela frase.

— Eu não fiz esperando uma retribuição, não se preocupe — eu garanti, desviando o olhar.

Ela se lançou em minha direção, envolvendo meu pescoço com seus braços, eu não hesitei ao retribuir o abraço, aspirando o seu perfume cítrico.

— Eu nunca vou esquecer isso, Dimitri — ela sussurrou, me fazendo fechar os olhos e respirar fundo, contendo o desejo de beijá-la.

Eu me afastei a uma distância segura, fazendo ela me dar um sorriso sem graça, parecendo sem jeito com a situação.

— Espero que você volte a postar fotos das cidades que você visita, eu gostava muito — ela pediu.

— Vou demorar um pouco para voltar a sair da Rússia, fui realocado para voos domésticos — eu respondi sem pensar muito.

Blair me encarou surpresa com a informação e me recriminei mentalmente por meu deslize. Eu não queria que ela soubesse que o preço por esses dias de folga havia sido cobrir a vaga de um piloto que se aposentaria em alguns dias.

— Voos domésticos? Por que?

— Eu vou cobrir um amigo por um tempo — eu desconversei.

Ela me observou desconfiada antes de decidir aceitar minha resposta. Sem pensar muito eu me inclinei, beijando seu rosto por alguns segundos antes de me afastar por completo.

— Tchau Blair.

Ela acenou com a cabeça, não falando nada enquanto eu me afastava, tentando controlar minha respiração.

O que me resta agora é a esperança de que ela por algum motivo volte atrás em sua decisão. Como disse para Lauren mais cedo, eu não posso forçá-la a algo que ela não quer.

A minha maior surpresa foi tirar o celular do modo avião após pousar em St Petersburg,e encontrar uma selfie da Blair na varanda do apartamento de seus pais.

"Eu duvido você ter uma paisagem tão bonita quanto essa, comandante"

Um sentimento de nostalgia tomou conta de mim ao receber aquela mensagem, me lembrando de quando nos conhecemos, eu nunca imaginaria o quanto eu me apaixonaria por aquela mulher naquela época.

Mas então a confusão, e logo, a esperança tomou conta de mim. O que esse gesto significava? Ela mudou de idéia? Quer recomeçar? Ou apenas é um gesto de amizade?

Deixando aquelas incertezas de lado por um momento, eu fiz a única coisa que estava em meu alcance, tirei uma foto da área de desembarque do aeroporto, enviando para Blair em seguida.

" Pode não ser tão bonita, mas eu gosto mesmo assim"

Eu enviei a mensagem com um pequeno sorriso no rosto, guardando o celular antes de ir para casa.

Os dias seguintes passaram depressa, eu estava acostumando a minha nova rotina de trabalho e aos poucos passei a conversar mais com Blair, relembrando o início de nosso relacionamento. Ela me mandava fotos de alguns pontos de Istambul que queria que eu conhecesse, me dava notícias sobre seus pais, e às vezes falávamos apenas sobre coisas triviais, mas nunca chegamos onde eu gostaria.

"Dimitri, pelo amor de Deus, você precisa tocar no assunto"

Minha irmã me falou na mensagem que enviou enquanto eu aguardava para embarcar na sala de Debriefing no aeroporto de Moscou.

" Eu estou dando um tempo para ela"

Eu tinha desabafado com ela sobre toda a situação envolvendo Blair e eu, e ao mesmo tempo que ela tinha ficado animada com uma provável reconciliação entre nós, ela já estava perdendo a paciência.

"Eu sei que você acha que precisa ser paciente, mas às vezes também precisamos tomar uma atitude antes que seja tarde demais!"

Eu pensei em uma maneira apropriada para responder aquela mensagem, mas antes que eu concluísse meu pensamento, meu celular começou a tocar, me trazendo um sorriso involuntário nos lábios ao ver o rosto de Blair estampado na tela.

— Bom dia, Blair.

Eu não demorei para atender.

— Bom dia, comandante. Onde você está?

— Moscou, estou esperando para voltar para St Petersburg, a decolagem está agendada para daqui há duas horas — eu expliquei

Como o trajeto de St Petersburg para Moscou demorava menos de duas horas, eu acabava o fazendo várias vezes por dia. Era uma rotina diferente do que eu estava acostumado com os voos internacionais, mas não podia falar que era ruim.

— Você está gostando? — ela perguntou.

— Não é ruim, como está sua família?

— Meu pai está em casa, contratei uma cuidadora para ficar com os dois. Eu vou ter que voltar para Newark, minha licença termina em alguns dias e vou acabar perdendo meu emprego se não voltar — ela me lançou um olhar ansioso, como se pretendesse me contar algo.

— Eu fico feliz que eles estejam se recuperando.

Um silêncio desconfortável recaiu sobre nós, até que Blair decidiu quebrá-lo.

— Dimitri, eu tenho pensado muito sobre nós, e acho que deveríamos conversar.

Aquilo fez algo se revirar em meu interior com a antecipação. Era a oportunidade que eu estava esperando.

— Claro — eu tentei conter minha excitação diante da proposta.

— Eu acho que seria melhor que isso acontecesse pessoalmente, então eu comprei uma passagem para St Petersburg amanhã, vou poder ficar dois dias antes de voltar para Newark, então…

— Eu vou te buscar no aeroporto, eu…

— Você nem sabe que horas eu vou pousar — ela achou graça.

— Eu vou dar um jeito, me fala o seu voo que eu consigo — eu garanti com um meio sorriso.

Blair soltou uma pequena risada, desviando o olhar ainda sorrindo, fazendo meu coração se aquecer diante daquela imagem. Tudo dará certo, nós vamos conversar e vamos ficar bem!

— Eu preciso ir, meu pai está me chamando, eu te passo todas as informações por mensagem, ok?

— Tudo bem.

— Tenha um bom voo, Comandante. Me avise quando pousar — foi a última coisa que ela me disse antes de encerrar a mensagem.

Eu sentia o desejo de sair pulando e dançando de animação, mas obviamente não poderia me submeter a uma cena tão ridícula, principalmente em meu local de trabalho, então me limitei a guardar o celular e ir conversar com meu co piloto, um jovem manicaca (apelido dado a pilotos inexperientes) que estava em seu terceiro voo.

Eu aguardei o embarque com os ânimos completamente renovados, aquele seria um ótimo dia de trabalho, eu contava as horas até a chegada de Blair no dia seguinte.

O tempo demorou um pouco para passar, provavelmente por conta da minha ansiedade depois da ligação, mas logo estávamos nos preparando para a decolagem. Eu tirei uma selfie na cabine do avião e enviei para Blair.

"Agora sim essa é uma vista que eu gosto muito"

Imaginando como ela reagiria aquela foto, eu desliguei o aparelho, me preparando para iniciar os procedimentos de checklist da cabine antes da decolagem.

— Namorada? — Danila Vasiliev, o meu copiloto, perguntou.

Normalmente eu evitaria qualquer exposição da minha vida pessoal, mas naquele momento eu estava animado demais para me conter.

— Eu espero que sim.

— Você espera?

— Longa história, nós terminamos há algumas semanas e amanhã vamos conversar, se tudo der certo, eu espero reatar com ela.

— Boa sorte — ele desejou antes de se focar no trabalho.

Após terminar o checklist, entramos em contato com a torre de controle, aguardando autorização para a decolagem.

O voo transcorreu de maneira calma, o tempo estava limpo e não enfrentamos sequer uma turbulência, apesar do clima chuvoso de St Petersburg diminuir um pouco a nossa visibilidade. Logo estávamos entrando em contato com a torre de comando de Pulkovo para conseguir autorização para o pouso.

— Sierra Romeu Oscar Tango Juliete, acione identificação, suba e mantenha nível dois nove zero, reporte estabilizado — o controlador de vôo da torre de Pulkovo soou no headphone.

Eu dei início aos procedimentos de confirmação de pouso, até ser instruído pela torre de controle para qual pista deveria me dirigir.

— Oscar Tango Juliete, prepare chegada REDE uno sete, procedimento final Hotel dois para a pista uno sete direita, informe para descida — A voz do controlador voltou a soar em nossos headphones.

— Ciente, prepara chegada REDE uno sete, final hotel dois pista uno sete direita, reportará para descida — eu respondi, ajustando o curso da aeronave para a pista indicada.

— Oscar Tango Juliete, avistado, livre pouso pista uno sete direita, vento uno oito zero

graus, zero nove nós.

Eu acionei os trens de pouso, iniciando a descida. Eu senti o contato da aeronave com a pista de maneira suave, começando a ajustar para o pouso completo da aeronave. Foi quando, para nossa surpresa, outro avião surgiu em nosso campo de visão, começando a taxiar na pista em que estávamos.

Meu corpo entrou em estado de alerta, ao meu lado eu ouvia Danila exclamando alguma coisa com desespero, enquanto eu buscava uma solução mágica para impedir que um avião de mais de 22 toneladas se chocasse com outro a 260km/h.

Tudo aconteceu mais rápido do que eu conseguia registrar, em um momento eu estava tentando desviar a aeronave, outro estava cobrindo o rosto para me proteger quando parte do parabrisa se estilhaçou com o impacto antes de tudo escurecer.

Não sei estimar quanto tempo permaneci desacordado, eu alternei entre a consciência e inconsciência por vezes, ouvindo os gritos e choros dos passageiros misturados a sirenes enquanto luzes vermelhas estavam refletidas por todo lugar.

Danila estava desacordado ao meu lado e uma dor lacerante tomava conta do meu tórax, não permitindo que eu me movesse.

O terror crescia em meu interior a cada segundo, eu levei minha mão ao meu abdômen, a levantando apenas para vê-la coberta de sangue. As lágrimas começaram a descer pelo meu rosto quando eu constatei aquela terrível realidade, eu cheguei tão perto, mas no fim, um único pensamento rondava minha mente.

Eu vou morrer sem nunca dizer a ela o quanto a amo!