As lágrimas desciam livremente pelo meu rosto enquanto eu me encolhia no sofá depois da péssima decisão que tomei mais cedo.

Que droga, Blair. Já faz quase seis meses desde que vocês terminaram, você não devia ficar olhando o Instagram dele. Sem conseguir me controlar, eu voltei a olhar a foto de Dimitri com uma mulher em seu apartamento.

Um novo soluço saiu de meus lábios quando olhei para a parede, vendo o quadro que Joe pintou para mim. A vista do apartamento de Dimitri em St Petersburg. Onde eu estava com a cabeça para aceitar uma lembrança eterna do meu ex namorado? Claro que na época ele não era meu ex, mas ainda assim!

Isso é perfeito, ele segue em frente com a vida dele e eu fico aqui, presa em cada maldita lembrança.

É isso que eu preciso, seguir em frente!

Com uma nova determinação crescendo em meu interior, eu limpei as lágrimas. Eu precisava de alguma coisa para superar, e pra começar, vou me livrar dessas lembranças. Eu coloquei 'So what' para tocar, aquilo era tudo o que eu precisava, eu estava bem sem ele!

Primeiro eu tirei o quadro da parede, decidida a levá-lo para o apartamento da Abby e convencê-la a trocar com o quadro que o Joe pintou para ela. Mas aquela decisão impetuosa não durou tanto. Alguns minutos depois eu estava deitada em minha cama, abraçada com Gertie, a boneca que Dimitri me ajudou a escolher em Amsterdam em nosso primeiro encontro, cantando "all we'd ever need".

— My friends think I'm moving on, But the truth is I'm not that strong. And nobody knows it but me (Meus amigos acham que estou seguindo em frente. Mas a verdade é que eu não sou tão forte, E ninguém sabe disso, além de mim) — eu solucei acompanhando o ritmo da música que eu estava ouvindo talvez pela quarta vez seguida.p

Por que ele tinha que ser da Rússia? Eu não poderia ter conhecido um piloto, sei lá, da Flórida? Por que um russo?

— Porque ele era um russo lindo e era gentil, carinhoso, engraçado, me apoiava em tudo. Ele era meu melhor amigo.

Eu confidenciei para Gertie, que permanecia imóvel. Eu não podia negar que Dimitri foi um bom namorado, todos os momentos ao seu lado haviam sido incríveis, talvez por isso fosse tão difícil superá-lo.

Passei a observar as nossas fotos que tinha guardado em meu celular. Eu sentia falta de cada momento ao seu lado, e mesmo quando estávamos longe, ele nunca deixava de me mandar mensagens. E agora, quando foi a última vez que nos falamos? Na manhã seguinte ao nosso término?

Eu estava prestes a iniciar a música mais uma vez quando minha campainha soou. Com um longo suspiro eu me arrastei para fora da cama, descendo a escada caracol que me levaria do mezanino onde ficava meu quarto até a sala do meu loft. Eu abri a porta, encontrando Abby do outro lado.

— Oi — Eu forcei um sorriso.

— O que aconteceu? — ela suspirou.

— Nada — eu menti.

Eu dizia a todos eles que Dimitri fazia parte de meu passado e que não interferia em nada na minha vida, mas no fim das contas eu mentia para todos, inclusive para mim mesma.

— Você sabe que está usando rímel, certo? — ela apontou.

Eu imediatamente corri até o espelho mais próximo, gemendo ao ver o estrago. Abby entrou, fechando a porta antes de vir até onde eu estava.

— Dá pra ouvir a música que você estava ouvindo em loop do meu apartamento, então vamos tentar de novo, o que aconteceu? — Abby me encarou.

Eu me joguei no sofá, sem vontade alguma de explicar nada a ela.

— Não era para ter um quadro na sua parede?

— Eu não quero mais olhar para ele — eu murmurei.

— Blair…

— Dimitri tem uma namorada nova — eu murmurei.

Abby me encarou por alguns segundos antes de suspirar e sentar ao meu lado.

— Você sabia que isso aconteceria em algum momento — ela apontou.

— Eu estou feliz por ele — eu forcei um sorriso.

— Você está tentando me enganar ou se enganar?

Eu me mantive em silêncio, não querendo responder aquela pergunta.

— Olha, eu tenho que sair com o Noah, você vai ficar bem sozinha? — minha amiga segurou minha mão.

Eu balancei a cabeça positivamente, não me dando ao trabalho de externar qualquer resposta.

— Você pode vir com a gente se você quiser, vamos naquele restaurante novo que abriu no centro — ela propôs.

— Sem ofensas, Abby, mas a última coisa que eu quero no momento é a companhia de um casal feliz — eu neguei — pode ir, eu vou ficar bem, tenho bastante sorvete no freezer e vinho no armário.

Ela me observou por um momento antes de se levantar, beijando meu rosto em seguida.

— Se você precisar de qualquer coisa, pode me ligar — ela garantiu.

Eu a acompanhei até a porta em silêncio, pronta para retomar meu sofrimento e minha crise de auto piedade por meu coração partido há meses. Retornei ao quarto e voltei a deitar, me esticando para apanhar o ovo Fabergé que Dimitri me deu no ano novo, o abrindo para pegar o colar abandonado ali pelos últimos meses.

O colar que ele me deu para que eu sempre me lembrasse dele.

Ergui o delicado floco de neve para olhá-lo mais de perto, me lembrando do exato momento em que Dimitri o colocou no meu pescoço, e como me senti feliz.

Talvez eu deva ligar, ou quem sabe mandar uma mensagem. Talvez isso faça eu me sentir melhor.

Eu abri seu contato, observando sua foto de perfil antes de fechar. O que eu falaria?

Não posso falar que sinto falta dele, nem que vi que ele está com alguém.

Eu me vi presa naquele dilema por um tempo. Eu abria seu contato e desistia em seguida, na última vez, eu estava decidida a tentar, porém, antes que pudesse fazer a ligação, um número desconhecido surgiu na tela do meu aparelho, eu franzi o cenho ao ver que a ligação era de Istambul, e pelos meus cálculos, eles estavam no meio da madrugada lá.

— Alô?

— Por favor, gostaria de falar com Blair Ayeleen Ozkan.

Algo me colocou em estado de alerta imediatamente, eu me sentei na cama com o coração martelando com força em meu peito.

— Sou eu.

— Aqui é do Hospital central de Istambul, o seu número está cadastrado como contato de emergência do Sr e da Srª Ozkan.

***********

Eu entrei mais uma vez naquele hospital já me sentindo exausta, fazia dois dias que cheguei em Istambul após ser avisada sobre o acidente dos meus pais.

Receber aquela ligação praticamente de madrugada já não tinha sido agradável, tudo piorou ao chegar no hospital depois de conseguir uma carona de emergência em um vôo na manhã seguinte e descobrir que o acidente ocorreu porque meu pai infartou ao volante e precisaria de uma cirurgia de revascularização do miocárdio.

Minha mãe, que estava com ele no carro, tinha quebrado o pé e sofrido uma concussão, ficando internada em observação para exames complementares, já que constantemente ela se queixava de dores em diversos lugares, mas eu já estava começando a desconfiar que ela fazia aquilo para não receber alta e sair de perto do meu pai.

Eu me aproximei do posto de enfermagem, decidindo conversar com as enfermeiras responsáveis antes de ir ao quarto dela.

— Bom dia — eu as cumprimentei com um sorriso.

— Bom dia, srtª Ozkan — Ayça, uma das enfermeiras me cumprimentou.

— Pode me chamar de Ayeleen, como ela está?

— O médico já assinou a alta, só estavam esperando por você — ela me tranquilizou.

Um alívio tomou conta de mim com aquela informação, eu compreendia o desejo dela em ficar próxima ao marido, mas eu precisava levá-la daquele lugar e ter um dos dois em casa. Ela sequer podia visitá-lo, já que ele estava se recuperando do cateterismo na UTI.

— Seu pai está acordado, se você quiser vê-lo antes de cuidar da papelada da sua mãe.

Eu agradeci a ela com um sorriso antes de ir até o quarto do meu pai. Ele era bem conhecido no hospital, já que costumava fazer cirurgias ali com frequência, então eu tinha a certeza de que ele estava sendo bem cuidado.

Caminhei apressada pelos corredores com o coração martelando em meu peito pela ansiedade. Eu precisava garantir que meu pai estava bem.

Assim que cheguei a porta de seu quarto, eu bati suavemente antes de abrir, o encontrando deitado na cama, ligado a diversos aparelhos, parecendo abatido.

— Ayeleen, eu não esperava te ver — ele declarou com um fraco sorriso.

— Você não me veria se não tivesse inventado de infartar. O que você estava pensando? — eu sorri com indulgência, me aproximando da cama para segurar sua mão.

Eu nunca vi meu pai tão vulnerável assim, e aquela visão não me agradou nem um pouco.

— Bom, minha vida estava muito parada, então eu decidi agitar um pouco as coisas — ele soltou uma risada fraca.

— Eu quase infartei quando recebi a ligação — eu confidenciei, ainda acariciando sua mão.

— Eu sinto muito.

Eu levei sua mão até meus lábios, depositando um beijo suave no dorso, me sentindo aliviada ao ver que ele estava bem.

Ele se recuperaria!

— Blair, se eu te fizer uma pergunta, você será sincera comigo? — ele me lançou um olhar temeroso, fazendo com que eu franzisse o cenho.

— O que foi?

— Sua mãe, ela se feriu? Dizem que ela está bem, mas acho que estão falando isso para não atrapalhar minha recuperação — sua voz era fraca e assombrada, demonstrando todo o medo que ele sentia em perder minha mãe.

Por um momento eu pensei nela naquele quarto agindo feito uma criança apenas para não deixar o mesmo ambiente que ele estava, como se apenas a presença dele fosse o suficiente para que ela se sentisse melhor.

Por que eu não posso ter algo assim para mim?

— Ela está bem, eu vou levá-la para casa daqui a pouco — eu o tranquilizei com um sorriso.

Ele respirou aliviado, repousando a cabeça no travesseiro com um pequeno sorriso no rosto.

— Por um momento eu pensei que tinha perdido a mulher da minha vida — ele confidenciou, me fazendo sorrir.

— Isso não vai acontecer. Vamos fazer o seguinte, eu vou lá buscá-la, assim você pode ver que ela está bem com os seus próprios olhos, enquanto eu cuido da papelada da alta dela — eu propus, vendo seu rosto se iluminar.

Eu deixei meu pai aguardando com ansiedade antes de ir para o quarto da minha mãe, ouvindo uma pequena discussão assim que cheguei próximo a porta.

— Eu estou falando, não é natural meu pé doer tanto assim, eu preciso de mais exames — minha mãe ralhou com uma das enfermeiras que tentava colocá-la em uma cadeira de rodas.

— Srª Ozkan, está tudo normal com todos os seus exames, não há nada de errado.

— É claro que para você não tem nada de errado, não é você que está sentindo — ela dramatizou.

Ela consegue ser pior que uma criança!

Eu entrei no quarto, recebendo um olhar aliviado da pobre enfermeira.

— Mãe, qual é o problema? — eu me aproximei, beijando sua cabeça, como ela fez inúmeras vezes comigo.

— Blair, ela não acredita que estou com dor e quer me mandar para casa!

A enfermeira me lançou um olhar cansado, mas eu sabia bem como resolver aquela situação.

— E você está mesmo com dor?

— Claro que sim! — ela devolveu enérgica.

— Tudo bem, vamos voltar para a cama — eu suspirei, recebendo um olhar surpreso da enfermeira — eu não vou aceitar sua alta.

— Mesmo? — ela perguntou esperançosa.

— Claro. É uma pena, porque eu pretendia te levar para visitar o papai enquanto eu cuidava dos papéis, ele me pediu pessoalmente para levar o amor da vida dele até lá, você poderia passar os próximos vinte minutos…

— Trinta — a enfermeira corrigiu.

— Trinta minutos com ele, mas se você não está bem, é melhor voltar para a cama e descansar — dei minha cartada final.

Eu vi a expressão no rosto de minha mãe se iluminar por um momento, antes da indecisão tomar conta dela, mas eu sabia que Lauren escolheria bem.

— Droga, Blair.

— Vamos, Lauren. Para a cama! — eu ordenei.

— Eu não tenho cinco anos, você sabe disso — ela murmurou, se ajeitando na cadeira de rodas.

— Então pare de agir como uma pirralha — eu me coloquei atrás dela, beijando o topo de sua cabeça — Vamos lá, tem alguém ansioso para te ver.

Eu me senti bem ao ver o rosto dos dois se iluminarem quando se viram, era como se estivessem incompletos longe um do outro, e infelizmente nos últimos meses eu vinha experimentando aquele sentimento. Muitas vezes eu me pegava pensando se havia tomado a decisão correta em relação a Dimitri, não que eu tivesse como voltar atrás

agora que ele estava com outra pessoa. Eu não me rebaixaria ao papel que a Olga se prestou!

Mas ainda assim, eu pensava cada vez mais em como teria sido se eu não tivesse sido tão extrema em relação a ideia de me mudar para a Rússia. Talvez nós tivéssemos entrado em um acordo?

São perguntas que rondam minha mente e que eu nunca terei as respostas!

Os dias seguintes foram difíceis, meu pai faria a cirurgia na próxima semana, e minha mãe ficava cada vez mais deprimida conforme o dia se aproximava. Além disso, eu descobri que ser dona de um apartamento grande não era nada fácil, eu sujava as coisas mais depressa do que conseguia limpar, me atrapalhava com o horário de medicar e alimentar minha mãe, que por sinal, não facilitava em nada a minha vida, e ainda precisava arrumar tempo para visitar meu pai e não deixá-lo completamente sozinho.

No começo eu levava minha mãe comigo nas visitas, mas com o passar dos dias, ela começou a se alimentar cada vez menos, aumentando sua fraqueza, então algumas vezes eu pedia para que uma vizinha que era sua amiga a fizesse companhia enquanto eu ia até o hospital.

O que me preocupava, era a cirurgia que aconteceria no dia seguinte, como eu poderia ir ao hospital e acompanhar de perto se já estávamos no meio da tarde e eu não tinha conseguido fazer minha mãe beber sequer um copo de suco? Eu não poderia deixá-la sozinha por tantas horas, seria impossível!

Mas eu também não podia deixar de ir. E se acontecesse algo e eu não estivesse lá?

Eu estava recolhendo a louça espalhada pela sala de jantar e cozinha, ali tinha alguns pratos intocados e embalagens dos restaurantes preferidos de minha mãe, onde fiz alguns pedidos na tentativa de conseguir que ela comesse algo.

— Blair, meu estômago dói, você pode pegar algum analgésico para mim? — Sua voz cansada veio da sala onde ela estava acomodada no sofá.

Eu nunca tinha visto minha mãe naquele estado, ela era uma mulher tão forte e determinada. Aquela visão me assustava mais do que eu gostaria de admitir.

Eu abandonei o que estava fazendo e fui até ela, me sentindo esgotada.

— Isso é porque você tem tomado seus medicamentos sem se alimentar. Faz mal!

— Eu não sinto fome — ela choramingou, encolhida no sofá.

— Mas seu corpo sente fraqueza, você precisa pelo menos se esforçar — eu suspirei.

Aquela situação fazia eu me sentir como se tivesse trocado de lugar com minha mãe. Ela se limitou a me olhar, fazendo a exasperação voltar a tomar conta de mim.

— Se você continuar assim, eu vou ser obrigada a te internar, e pode ter certeza que vou escolher um hospital bem longe de onde o papai está. Então se isso é um golpe para ficar perto dele, desista! — eu estava a um passo de gritar.

Minha mãe se encolheu ainda mais diante da minha explosão, fazendo eu me sentir a pior filha do mundo.

Qual o seu problema, Blair? Ela está com dor, assustada e longe da pessoa que ela ama!

— Eu sei que a situação é assustadora e eu também estou com medo, mas eu não posso te obrigar a reagir, mãe! Eu preciso que você fique bem! — Eu tentei outra abordagem me sentindo à beira das lágrimas.

Ela se limitou a se levantar, se acomodando em sua cadeira de rodas antes de ir para o quarto.

Mais essa agora!

Esperei alguns minutos, pensando no que poderia animá-la antes de ter uma idéia

— Mãe, você quer uma salada de abacate com quinoa, você ama, certo? — eu fui até seu quarto, a encontrando encolhida na cama.

— Blair, é uma salada californiana, como…

— Se você prometer que vai pelo menos tentar comer, eu consigo uma para você — eu garanti.

Ela pensou por um momento antes de aceitar, para minha felicidade. Agora só preciso encontrar essa salada!

Enquanto revirava os restaurantes da região em busca da salada, a campainha soou. Eu poderia ter estranhado, já que ninguém foi anunciado pelo porteiro, mas se teve uma coisa que descobri durante esses dias, era o quanto minha mãe era popular entre as mulheres do prédio, ela sempre estava recebendo uma visita.

"Por favor, diga que estou dormindo"

Uma mensagem chegou ao meu celular quase instantaneamente, me fazendo sorrir enquanto caminhava até a porta. Quem pode ser? A velha do 45A? Ou aquela garota do 78B que parece ter adotado minha mãe?

Eu olhei através do olho mágico, congelando ao ver quem estava do outro lado.

É uma miragem!

A campainha voltou a soar, me obrigando a abrir a porta, meu coração martelava com força em meu peito e minhas mãos estavam trêmulas. Faziam exatos cinco meses e vinte e três dias desde a última vez que o vi, o que ele faz aqui?

Dimitri estava exatamente como eu me lembrava. Em outra época, eu teria me lançado em seus braços imediatamente, mas depois de tanto tempo, eu só conseguia me manter na defensiva. Meu ex namorado parece ter notado minha hesitação, já que se adiantou em explicar.

— Antes que você diga qualquer coisa, eu não estou aqui buscando uma reconciliação nem nada disso, então você pode ficar tranquila — ele avisou.

Parte de mim ficou aliviada em ouvir aquilo, tudo o que eu não precisava no momento era passar por tudo mais uma vez. Não quando eu me sentia tão vulnerável!

— Então, o que você faz aqui? — eu balbuciei sem dar passagem para que ele entrasse no apartamento.

— Eu fiquei sabendo sobre o que aconteceu, pensei que você poderia precisar de um pouco de ajuda e apoio, então eu consegui cancelar meu voo para Milão e tenho dois dias para te ajudar no que você precisar — ele explicou.

Eu respirei fundo impedindo as lágrimas de chegarem aos meus olhos. Aquilo era exatamente o que eu precisava, se ele pudesse fazer companhia para minha mãe amanhã, eu poderia…

— Por que?

— Você é a minha prioridade — ele deu de ombros.

Eu não consegui mais me segurar, derramando todas as lágrimas que eu estava segurando desde que recebi aquela maldita ligação dias atrás. Eu só pensava em tudo o que tinha que fazer por eles e como eu tinha que cuidar dos dois. Todas as visitas que recebíamos eram para minha mãe, todas as ligações eram em busca de informações sobre meu pai.

Ninguém sequer me perguntou como eu estava nos últimos dias, e agora ele estava aqui, por mim.

Eu fui envolvida por seus braços, escondendo meu rosto em seu peitoral enquanto ele descansava o queixo em minha cabeça, esperando que eu derramasse todas as lágrimas que estavam presas dentro de mim.

Não sei ao certo quanto tempo ficamos assim, até que me lembrei que estávamos no corredor do prédio, onde qualquer vizinho poderia nos ver, eu me afastei, dando passagem para que ele entrasse, sentindo meu rosto esquentar pela cena de momentos atrás.

— Me desculpe por molhar sua camisa — eu pedi, trancando a porta.

— Eu não me importo, como você está? — ele perguntou, olhando em volta.

O lugar em nada se parecia com o ambiente organizado que meus pais gostavam de manter juntos, e aquilo apenas fazia eu me sentir ainda pior.

— Não sei, sobrecarregada. Eu tenho menos de duas horas para encontrar uma salada de abacate que prometi para minha mãe, que tem se recusado a comer, tenho que pelo menos tentar organizar tudo aqui e ir para o hospital visitar meu pai antes de voltar e fazer minha mãe tomar os remédios dela. Tudo isso enquanto me sinto a pior filha do universo por não conseguir dar conta de tudo — desabafei.

Ele voltou a se aproximar, segurando meu queixo e me obrigando a olhar em seu rosto.

— Em primeiro lugar, você é uma filha maravilhosa, você entrou em um vôo e veio cuidar dos dois e tem se esforçado para fazer tudo mesmo sem ter ideia de como cumprir exatamente, em segundo lugar você não precisa dar conta de tudo, eu estou aqui para te ajudar — ele garantiu.

— Obrigada — eu balbuciei.

Deus, como eu sentia falta dele!

— Você vai comprar a salada? — Dimitri perguntou.

— Não encontro lugar nenhum, vi algumas saladas de abacate, mas não a mesma.

Ele olhou em volta com o cenho franzido, parecendo pensar em um plano.

— Você tem os ingredientes? — ele perguntou por fim.

— Provavelmente sim, minha mãe costuma fazer. Por que?

— Esse é o nosso plano, vamos limpar a cozinha, fazer a salada pra ela…

— Fazer? Nós dois? Você lembra que a gente não sabe cozinhar? — eu interrompi meu ex.

— É uma salada, Blair. Não é difícil. Te garanto que não vamos explodir a cozinha picando abacate — ele zombou.

Não pude evitar rir com sua resposta, ele fez eu me sentir melhor em tão pouco tempo!

— Depois você vai para o hospital e eu vou garantir que a sua mãe coma tudo — ele garantiu.

A última parte eu duvidava que ele conseguisse, mas decidi não discutir. Busquei a receita da salada e comecei a separar os ingredientes enquanto Dimitri colocava a louça suja na máquina de lavar.

Nós trabalhamos juntos em silêncio, dividindo nossa antiga cumplicidade.

— Dimitri, nós temos um problema — Eu murmurei quando encontrei o pacote de quinoa, que em nada se parecia com o que ia na salada da minha mãe.

— O que foi?

— Isso aqui não parece com a quinoa que minha mãe coloca na salada — eu ergui um pacote de pequenos grãos.

— Como assim? — ele se aproximou, examinando o conteúdo do pacote.

— A salada da minha mãe não fica com esses grãos crocantes — Eu apontei.

Ele pegou o pacote da minha mão, o observando sem entender muito.

— O que a receita diz? — ele me lembrou.

Eu me lembrei de consultar a receita em meu celular, franzindo o cenho diante da informação incompleta.

— Aqui diz para utilizar uma xícara de Quinoa cozida.

— Vamos cozinhar uma xícara de Quinoa então — ele abriu o pacote.

— Você sabe como cozinhar isso?

— Blair, não tem segredos, vamos colocar água e temperos — ele sorriu como se estivesse tudo sob controle.

Eu pensei por um momento e ele tinha razão. Não podia ser tão difícil, só era questão de cozinhar até ficar mole.

Eu abri o armário de temperos da minha mãe, pegando cada um dos pequenos vidros.

— O que eu escolho? — eu ergui o rosto para encará-lo enquanto ele colocava uma xícara de Quinoa em uma panela e a enchia de água.

— Eu não sei, o que sua mãe usa? — ele devolveu.

— Tudo isso — Eu comecei a abrir um a um, erguendo o pote de cominho — esse aqui cheira bem.

Ele pegou o pote da minha mão, o levando até o nariz antes de dar de ombro, derramando uma boa dose do conteúdo na panela antes de me devolver.

— Minha mãe usa muito esses dois — eu entreguei o açafrão e a pimenta Síria, que não podia faltar nunca na casa dos meus pais.

— Essa pimenta é forte? — ele questionou colocando o açafrão na água.

— Acho que não, a comida da minha mãe não é muito apimentada — eu dei de ombros.

Nós deixamos os grãos cozinhando, voltando nossa atenção para os outros ingredientes da salada. Dimitri picou os abacates enquanto eu cortava os tomates em cubos.

O aroma da quinoa cozinhando invadiu a cozinha, e devo dizer que o cheiro era maravilhoso.

— Como tem estado sua vida nos últimos meses? — eu decidi puxar assunto.

Dimitri respirou fundo antes de responder.

— Bom, eu vou ser tio. Fora isso, não tenho nada novo para contar, tenho procurado me focar no trabalho — ele deu de ombros.

— Mesmo? Eu nunca mais vi nenhuma foto das suas viagens no seu Instagram.

Aquele comentário fez com que ele me avaliasse por um momento, pensando no que responder.

— Eu não tirei mais fotos, a última foto que postei foi de quando minha prima me visitou.

A prima? Aquela mulher é prima dele e não namorada!?

Um alívio tomou conta de mim com aquela informação, um sentimento que eu não tinha o direito de sentir. Ele pode seguir a vida dele se desejasse e sua decisão não deveria me afetar!

— Tio… você deve estar feliz. Acho que eu nunca vou saber como é essa sensação — eu busquei um novo assunto — Yuri ou Masha?

— Yuri, ele sempre foi mais adiantado que Masha e eu. Meus pais estão felizes.

Eu o olhei de soslaio, sentindo certa melancolia em sua voz.

Eu mesma me sentia assim, eu poderia estar acompanhando mais essa etapa da sua vida, se bem que depois do desastre que se transformou a sua festa de casamento, eu duvidava que Yuri e Kátia permitiriam que eu participasse de qualquer evento envolvendo os dois.

Eles devem estar satisfeitos em se ver livres de mim.

Aquele pensamento me entristeceu. Dimitri parece ter percebido isso, já que chamou minha atenção para a panela que já estava no fogo há quase meia hora.

— Você acha que está pronto?

Tudo bem, não estava como a da minha mãe, a cor estava estranha, tinha rendido bem mais do que eu esperava e mais parecia um mingau, mas pelo cheiro, deve estar gostoso.

— Acho que agora é só misturar tudo e temperar — eu garanti.

E foi o que fizemos, misturamos todos os ingredientes e estávamos terminando de temperar quando a voz da minha mãe nos interrompeu.

— Blair, o que você está…

Ela interrompeu seu caminho enquanto guiava sua cadeira até a cozinha, alternando o olhar entre Dimitri e eu com uma expressão surpresa.

— Comandante Voitovich, eu não esperava te ver aqui!

— Eu fiquei sabendo sobre o que aconteceu e achei que a Blair precisaria de um pouco de apoio — ele explicou, se adiantando para cumprimentar minha mãe — é um prazer vê-la bem, Srª Ozkan.

— O prazer é todo meu — ela balbuciou.

Eu me lembrei de checar o horário, me espantando. Eu precisava ir ao hospital ou perderia o horário de visita do meu pai.

— Mãe, eu preciso me arrumar para ver o papai, o Dimitri vai te fazer companhia enquanto eu estiver fora — eu avisei, correndo para fora da sala — Nós fizemos a salada.

— Espera, esse cheiro é da salada!? — eu ouvi minha mãe perguntar com surpresa enquanto eu corria em direção ao quarto.

Ela deve estar orgulhosa por eu finalmente ter conseguido cozinhar algo bom, aquele pequeno gesto fez eu me sentir melhor sobre a explosão de mais cedo.

Eu consegui chegar ao hospital no horário da visita, passando as horas seguintes com meu pai, conseguindo me distrair um pouco da preocupação com minha mãe. Eu voltei apenas a pensar nela no caminho de volta para casa.

Dimitri tinha me enviado uma mensagem avisando que minha mãe tinha comido, e isso me fez pensar se não seria melhor começar a cozinhar para ela.

Talvez eu não seja tão ruim nisso quanto eu pensei.

Mas, quando cheguei em casa Dimitri havia comprado o jantar, e para minha surpresa, minha mãe tinha comido sem reclamar!

Lauren parecia com um humor melhor quando foi dormir e Dimitri nos deixou, prometendo que retornaria na manhã seguinte para fazer companhia para ela enquanto eu acompanharia a cirurgia do meu pai no hospital, e cumpriu sua palavra, me deixando livre para me focar no meu pai, sabendo que minha mãe estava em boa companhia.

A cirurgia durou cinco horas e foi um sucesso, Yusef passaria ainda alguns dias na UTI para acompanhamento, mas o cirurgião garantiu que ele se recuperaria.

Passado todo o estresse e ansiedade da operação, eu comecei a pensar em Dimitri e em tudo o que sua presença poderia significar para nós.

Eu sentia tanta falta dele, mas seria bom tentar reatar? Faria bem para os dois?

Foram essas dúvidas que externei para Abby durante o caminho de volta do hospital.

— Blair, eu não sei se agora é o momento certo para você pensar nisso — sua voz soou pelo viva voz no interior do veículo.

— E por que não? Ele está aqui!

— E você está fragilizada com tudo o que está acontecendo! E se você decidir reatar apenas para descobrir que não é o que você quer mesmo? — ela me trouxe de volta ao meu juízo.

Ela tinha razão nisso, eu não devo tomar nenhuma decisão enquanto estiver me sentindo frágil.

— Ele está sendo perfeito — eu suspirei.

— Foi bem legal ele tomar a decisão de te ajudar, mas lembra que ele mesmo disse que não estava buscando uma reconciliação.

Mais uma vez ela atingiu o ponto exato. Se ele quisesse, já teria tocado no assunto, certo? De qualquer forma eu vou me despedir dele hoje, já que ele tem um avião para pegar amanhã de manhã.

Ao chegar em casa e compartilhar todos os detalhes do relatório médico com os dois eu me senti ainda mais aliviada, Dimitri jantou conosco e foi embora tarde, e para decepção de parte do meu ser que esperava que ele tocasse no assunto, ele não falou nada sobre nós.

Será que ele está tão disposto assim a me esquecer?

— Você está tão calada — Minha mãe se aproximou enquanto eu estava sentada na sacada no dia seguinte, observando cada avião que passava no céu, imaginando se Dimitri estava em algum deles.

— Só estava pensando se um dia vou conseguir algo assim para mim — eu expliquei.

— Algo assim?

— Você e meu pai, a relação de vocês é tão bonita, beira a perfeição.

— Você estava a caminho de conseguir algo parecido — ela me avisou.

Ela e meu pai nunca compreenderam a razão do meu término com Dimitri, apesar de respeitar minha decisão.

— Mãe, por favor, não era nem um pouco parecido — eu murmurei, voltando a olhar o céu.

Tudo bem, podia não ser o mesmo, mas eu era feliz — eu pensei com tristeza.

— Não? Porque eu nunca te vi tão feliz quanto naquela época — ela virou a cabeça para me observar.

Eu desviei o olhar sentindo meu coração se apertar diante das suas palavras.

— E o que adiantou? Mãe, você estava disposta a fingir todas as doenças possíveis e passar por inúmeros exames apenas para ficar no hospital perto do papai.

— E você me atrapalhou nisso — ela murmurou descontente.

— Desculpe. Mas você estava disposta a tudo isso, enquanto Dimitri e eu sequer conseguíamos abrir mão do lugar onde moravamos. Não é a mesma coisa, eu não me vejo brigando em um hospital para me deixarem ficar lá por ele — eu suspirei.

Minha mãe respirou fundo, como se eu estivesse sendo a garota mais tola da face da terra.

— Ele estava disposto a entrar em um avião apenas para te apoiar em uma situação difícil — ela me lembrou.

— Mas ainda assim não tocou no assunto da reconciliação, então acho que não era para ser.

— Sabe qual foi o maior erro de vocês? Vocês queriam tudo perfeito logo de cara, você acha que minha relação com seu pai foi assim desde o início? Nós estamos juntos há trinta anos, Blair!

— Mas…

— Nós lutamos a cada minuto para construir o que você chama de relação perfeita, não surgiu do dia para noite. Talvez se vocês tivessem ido devagar nas decisões importantes ainda estivessem juntos.

Eu desviei o olhar, me sentindo cada vez mais melancólica com o rumo daquela conversa.

— Eu pensei em conversar com ele antes dele ir.

— E por que não conversou? — ela me encarou.

— Abby achou que não era o momento adequado. Ela disse que estou muito sensível — eu expliquei.

— E eu acho que você deve começar a colocar sua felicidade em primeiro lugar. Se reatar com ele te fará feliz, então você sabe o número que deve ligar — ela avisou antes de voltar para a sala, me deixando ali sozinha com meus pensamentos.